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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Homem Devasso

Entre Astros e Neurotransmissores

Há algo quase cômico — e profundamente humano — na necessidade que temos de culpar alguma coisa fora de nós. Ontem eram o Sol que ardia demais, a Lua que enlouquecia, as estrelas que traçavam destinos inevitáveis. Hoje, com a mesma convicção, apontamos o dedo para a serotonina, a dopamina, os circuitos neuronais. Mudam os nomes, permanece o gesto: deslocar a responsabilidade. Este ensaio não pretende julgar o homem devasso, mas compreendê-lo — não como um desvio moral isolado, e sim como um sintoma recorrente da condição humana.

O homem devasso, aqui, não é apenas o libertino vulgar ou o hedonista caricatural. Ele é o sujeito que se recusa a assumir a autoria de seus impulsos. Sua devassidão não está tanto no excesso de prazer, mas na terceirização da culpa. Em tempos antigos, ele era astronômico: seu comportamento era explicado pelas marés celestes, pelas conjunções planetárias, pela vontade dos deuses. A responsabilidade era cósmica. Hoje, ele se tornou bioquímico: seu humor oscila por causa da serotonina, seu desejo é produto da dopamina, sua ansiedade nasce de um “desequilíbrio químico”. A responsabilidade tornou-se molecular.

O que une essas duas versões — a antiga e a contemporânea — é a mesma estrutura narrativa: a negação da liberdade plena. Quando o homem culpa os astros, ele se dissolve no universo; quando culpa a química cerebral, dissolve-se no corpo. Em ambos os casos, ele evita o peso angustiante de ser livre.

Aqui, a filosofia encontra um ponto delicado. Desde Jean-Paul Sartre, sabemos que a liberdade humana não é um privilégio confortável, mas um fardo inevitável. “Estamos condenados a ser livres”, diria ele. O homem devasso, porém, busca escapar dessa condenação. Ele não nega seus atos — ele nega sua autoria. É uma fuga sofisticada: não se trata de ignorância, mas de uma escolha inconsciente de autoabsolvição.

Mas será que a ciência moderna realmente fornece essa absolvição? A neurociência, ao revelar os mecanismos do cérebro, parece oferecer uma linguagem mais precisa — e, portanto, mais convincente — do que os mitos antigos. No entanto, há um risco conceitual: confundir explicação com justificação. Saber que a serotonina influencia o humor não equivale a dizer que o sujeito está isento de responsabilidade por suas ações. Explicar não é absolver.

O problema central não está na ciência, mas no uso existencial que fazemos dela. O homem devasso contemporâneo instrumentaliza o conhecimento científico como outrora instrumentalizava os mitos. Ele substitui o destino escrito nas estrelas por um destino inscrito nos neurotransmissores. Em ambos os casos, ele constrói uma narrativa de inevitabilidade.

Essa narrativa, contudo, entra em conflito com uma dimensão fundamental da experiência humana: a possibilidade de escolha. Mesmo que condicionados por fatores biológicos, sociais ou históricos, ainda operamos em um espaço de decisão. É nesse intervalo — por menor que seja — que a ética emerge. O homem devasso tenta apagar esse intervalo, transformando tudo em causalidade.

Podemos, então, reinterpretar a devassidão não como excesso de desejo, mas como déficit de responsabilidade. O devasso não é aquele que sente demais, mas aquele que se exime demais. Sua vida é uma sucessão de justificativas elegantes: ontem astrológicas, hoje neuroquímicas.

Talvez a questão mais provocadora seja esta: o progresso do conhecimento nos tornou mais livres ou apenas mais sofisticados em nossas desculpas? Ao abandonar os deuses, não abandonamos a necessidade de explicação — apenas a refinamos. E, com isso, o homem devasso evoluiu: deixou de ser supersticioso para tornar-se cientificamente autoindulgente.

No entanto, há uma possibilidade de ruptura. Reconhecer os condicionamentos — sejam cósmicos ou biológicos — não precisa levar à negação da liberdade. Pelo contrário, pode aprofundá-la. Saber que somos influenciados não implica que somos determinados. A maturidade filosófica talvez resida justamente em sustentar essa tensão: somos, ao mesmo tempo, condicionados e responsáveis.

Assim, o homem devasso pode ser redimido não pela negação de seus impulsos, mas pela reintegração de sua autoria. Não se trata de rejeitar a ciência nem de retornar aos mitos, mas de recusar o uso de ambos como álibis. Entre o Sol e a serotonina, há algo que persiste — e que não pode ser terceirizado: a responsabilidade de existir.

E talvez seja aí que reside a verdadeira liberdade: não em escapar das causas, mas em assumir as consequências.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Filosofia da Sombra

O que Escolhemos Não Ser

Outro dia, observando uma vitrine qualquer, me peguei imaginando como seria minha vida se tivesse escolhido outra profissão, outro lugar para viver, outra forma de ser. É um pensamento comum, mas que logo desvia para um território pouco explorado: não apenas o que poderia ter sido, mas o que escolhi não ser.

Nosso tempo é obcecado pela identidade. Livros de autoajuda, discursos motivacionais e até o algoritmo das redes sociais giram em torno da ideia de descobrir quem você é. Mas e se, ao invés de perguntar "quem sou eu?", perguntássemos "quem não sou?" ou "quem escolhi não ser?" A identidade pode não ser apenas aquilo que abraçamos, mas também o que rejeitamos – e é essa sombra, esse rastro de vidas não vividas, que nos molda silenciosamente.

A Identidade Negativa

A identidade, como geralmente pensamos, é construída por afirmação: "sou isso", "faço aquilo", "acredito nisso". Mas ela também se forma por negação: "não sou isso", "nunca faria aquilo", "jamais acreditaria nisso". Desde pequenos, traçamos limites invisíveis entre aquilo que aceitamos ser e o que deixamos para trás. Cada escolha não é apenas um caminho seguido, mas um leque de possibilidades descartadas.

Esse fenômeno fica evidente em decisões grandes, como a escolha de uma carreira. O médico que nunca foi músico. O professor que jamais foi atleta. O advogado que poderia ter sido cineasta. Mas ele também está nas pequenas escolhas do dia a dia. O "não vou responder essa provocação". O "não quero ser essa pessoa".

Seríamos capazes de definir uma vida inteira apenas pelo que uma pessoa não foi? Talvez. Pense em alguém que passou a vida fugindo de conflitos, rejeitando riscos, evitando envolvimentos. Essa identidade negativa moldou sua existência tanto quanto qualquer decisão afirmativa.

A Sombra e o Eu

Carl Jung falava da "sombra" como o lado oculto da psique, aquilo que reprimimos ou negamos em nós mesmos. Mas aqui, a ideia da sombra vai além do inconsciente. Não se trata apenas de desejos reprimidos, mas de tudo aquilo que, consciente ou inconscientemente, deixamos de ser.

Toda escolha carrega uma perda. Ao decidir seguir um caminho, não apenas escolhemos um destino, mas deixamos de trilhar todos os outros. Será que nossa sombra – esse espectro de vidas não vividas – se acumula silenciosamente, nos observando de longe?

Se sim, como lidar com ela? Alguns vivem atormentados pelas possibilidades que não seguiram, sentindo-se aprisionados pelas decisões tomadas. Outros fazem as pazes com suas sombras, reconhecendo que são parte essencial do que são.

O Peso das Escolhas

Nietzsche dizia que deveríamos viver de forma a desejar o eterno retorno: escolher cada ato como se fôssemos repeti-lo infinitamente. Mas essa perspectiva pode ser angustiante. Afinal, como ter certeza de que nossas escolhas são as certas? Talvez devêssemos perguntar não apenas o que escolhemos ser, mas o que escolhemos não ser – e se essa sombra é um peso ou um alívio.

Na vida, nunca seremos tudo o que poderíamos ter sido. Mas talvez seja justamente essa ausência que dá forma ao que realmente somos.