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sábado, 25 de abril de 2026

O Homem Flutuante

Há uma experiência imaginária proposta por Avicena que é, ao mesmo tempo, simples e vertiginosa: o Homem Flutuante.

Avicena, também conhecido como Ibn Sina, foi um dos maiores pensadores do mundo islâmico medieval, atuando como filósofo, médico e cientista entre os séculos X e XI; profundamente influenciado por Aristóteles, ele buscou conciliar razão e metafísica, desenvolvendo ideias centrais sobre a existência, a essência e a alma — como o célebre experimento do “Homem Flutuante”, que investiga a consciência de si —, além de escrever obras fundamentais como o Cânone da Medicina, que influenciou o pensamento europeu por séculos, consolidando sua posição como uma ponte intelectual entre o Oriente e o Ocidente.

Imagine o seguinte: um ser humano criado instantaneamente, já adulto, mas suspenso no ar — sem tocar nada, sem ver, sem ouvir, sem sentir o próprio corpo. Nenhum estímulo externo. Nenhuma memória. Nenhuma referência.

E então vem a pergunta que atravessa séculos:

esse homem saberia que existe?


A descoberta sem o mundo

Avicena responde: sim.

Mesmo sem qualquer contato sensorial, esse “homem flutuante” ainda teria consciência de si. Ele não saberia que tem mãos, nem corpo, nem forma. Mas teria uma certeza imediata e inescapável: “eu sou”.

Essa experiência mental não é sobre o corpo — é sobre a consciência de existir.


O eu antes de tudo

O que Avicena está propondo é radical: a consciência de si não depende dos sentidos. Ela é anterior a qualquer experiência do mundo.

Antes de saber o que vemos, ouvimos ou tocamos, já há um ponto silencioso que sustenta tudo isso — a percepção de existir.

Séculos depois, essa ideia ecoaria em pensamentos como o de René Descartes e seu famoso “penso, logo existo”. Mas Avicena vai ainda mais fundo: não é nem o pensamento elaborado que garante a existência — é a própria presença consciente.


Um experimento que nos persegue

Se a gente traz isso para o cotidiano, a coisa fica curiosamente familiar.

Já aconteceu de você acordar no meio da noite, no escuro total, sem saber exatamente onde está por um instante? Antes de lembrar do quarto, da casa, do dia… há aquele lampejo imediato: você está ali.

Esse instante é quase o homem flutuante.

Não há narrativa ainda, não há identidade completa — mas há presença.


O corpo ausente, o eu presente

Avicena também está enfrentando uma questão profunda:

somos o corpo ou somos algo além dele?

No experimento, o corpo está lá — mas totalmente fora do alcance da percepção. E ainda assim, o “eu” persiste.

Isso sugere que a identidade não se reduz ao físico. Há uma dimensão da existência que não depende do toque, da visão ou de qualquer sensação.


Entre a filosofia e a experiência

O “homem flutuante” não é apenas um argumento abstrato. Ele funciona como um espelho.

Ele nos convida a perceber algo que normalmente passa despercebido:
a base silenciosa da experiência.

Estamos sempre ocupados com o que sentimos, pensamos, fazemos. Mas raramente paramos para notar o fato mais básico de todos — o de que há alguém ali experimentando tudo isso.


Um silêncio cheio de presença

No fim, o experimento de Avicena não prova algo no sentido científico. Ele aponta.

Aponta para uma intuição difícil de capturar em palavras:

que, antes de qualquer história sobre nós mesmos, existe uma presença nua, imediata, impossível de negar.

O homem flutuante não vê o mundo.

Não toca nada.

Não sabe quem é.

E ainda assim — existe.

Talvez o mais inquietante seja perceber que, de algum modo, nós também começamos sempre por aí.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Homem Profano


Ele acorda com o som do despertador. O despertador não soa como chamado — soa como comando. Levanta, escova os dentes, olha o celular antes mesmo de olhar o céu. O dia começa não como mistério, mas como tarefa.

É assim que vive o “homem profano” descrito por Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano.

Quando se fala nisso, não é preciso imaginar povos antigos ou templos esquecidos. Basta observá-lo no ônibus, respondendo mensagens, calculando prazos, vivendo como se o mundo fosse apenas um conjunto de funções.

O tempo que não inaugura nada

Para o homem religioso tradicional, o tempo podia ser ruptura e renovação. O Ano Novo não era simples troca de calendário — era reinício simbólico.

Para ele, o tempo é agenda.

Segunda-feira não inaugura nada. É repetição. Sexta-feira não é libertação ontológica — é pausa estratégica.

Vive num tempo homogêneo. Cada dia substitui o outro. Não há centro. Não há hierarquia sagrada. Apenas sequência.

O domingo muitas vezes já nasce contaminado pela ansiedade da segunda.

O espaço que não fala

Ele entra no escritório. É apenas um espaço funcional: mesas, computadores, café automático. Não é lugar consagrado — é infraestrutura.

O homem profano não enxerga montanhas como morada do divino nem casa como microcosmo simbólico. Enxerga localização, metragem, custo-benefício.

Muda de endereço sem sentir que desloca o eixo do mundo. É logística, não travessia existencial.

O espaço torna-se neutro.

E, no entanto, algo insiste

Apesar disso, há momentos em que a neutralidade falha:

  • Uma música antiga suspende o tempo.
  • Uma igreja vazia impõe um silêncio diferente.
  • Um olhar amado não pode ser reduzido a função.

Nesses instantes, o mundo deixa de ser plano.

Mircea Eliade sugeria que o homem moderno tenta viver exclusivamente no profano, mas nunca consegue totalmente. Vestígios do sagrado sobrevivem — em ritos sociais, em datas comemorativas, em gestos simbólicos que ele mesmo talvez não compreenda.

Se escutasse Leonardo Boff, ouviria que o problema não é abandonar rituais religiosos formais, mas perder a capacidade de reverência.

Quando tudo se torna recurso — o tempo, a natureza, as pessoas — a vida se empobrece. A eficiência cresce, mas a interioridade seca.

O homem profano é funcional.

Mas pode tornar-se árido.

A pergunta que o acompanha

Talvez a questão não seja religião institucional.

Talvez seja profundidade.

Se tudo pode ser trocado, acelerado, monetizado, então o mundo se fecha sobre si mesmo.

Mas se ele ainda preserva algo que não se reduz a função — amor, silêncio, dignidade, contemplação — então carrega um pequeno altar invisível.

E talvez seja ali, nesse interior que resiste à lógica da utilidade, que começa a superação do homem profano.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Resenha do Livro O Homem Duplicado de José Saramago

 


O tema do homem duplicado é imensamente explorado, desde a antiga Grécia, o mito grego Castor e Pólux, conhecidos também pelo nome de Dióscoros, são dois jovens heróis da mitologia grega, os "Gémeos Celestes, portanto desde muito tempo atrás o tema é fascinante, a questão do duplo vem ao longo do tempo adquirindo novas interpretações, tal como alucinações, dupla personalidade, crises existenciais, temos diversas obras que se debruçaram sobre o tema, tais como em Dostoievski (O duplo), O Médico e O Monstro (R.L.Stevenson), Edgar Allan Poe (William Wilson), e Saramago não ficou atrás, nem ficou a dever, ele também explorou o tema do homem duplicado, explorou com grande habilidade e inteligência a crise de identidade.

Vamos falar um pouco a respeito do autor, José Saramago (1922-2010), ele foi um importante escritor português, destacou-se como romancista, teatrólogo, poeta e contista, recebeu vários prêmios como o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio Camões, entre outros. José Saramago nasceu em Azinhaga de Ribatejo, no concelho de Golegã, distrito de Santarém em Portugal, tem muitos livros de sucesso publicados, tais como: A Caverna, Caim, Objecto Quase, Memorial do Convento e etc.

O livro é incrível do início ao fim, o final também é muito legal, o estilo do Saramago, peculiar, sempre irônico conversando com o leitor. Ele mais uma vez trouxe para literatura seu modo de singular oralidade e leitura, usando apenas a vírgula e o ponto, sinais de pausa, para o leitor de Saramago ele já está familiarizado com este estilo e já coordena bem a respiração nos longos parágrafos.

O livro trata da estória de um professor de história chamado Tertuliano Máximo Afonso, ele é um cara depressivo e solitário, numa conversa entre ele e seu colega de professor de matemática percebendo a falta de entusiasmo de Tertuliano, como forma de proporcionar alguma alegria e lhe fazer sentir melhor sugere que assista um filme de comedia, nosso protagonista atende a sugestão e aluga um filme na locadora, ele assiste e conclui que não gostou, ele decide dormir para no outro dia devolver o filme, porem o professor pouco tempo depois acorda sobressaltado, acorda repentinamente, acorda com algo que o havia perturbado, ele percebe que era algo no filme que não havia percebido a primeira vista, ele resolve assistir ao filme novamente e se depara com algo surpreende e assustador, ele percebe um dos personagens secundários ser uma verdadeira cópia dele, idêntico, sua cópia escarrada, um duplicado.

A partir daí sua rotina entediante fica imensamente abalada, se inicia neste instante uma curiosidade do protagonista em saber quem é esta pessoa idêntica a ele. Descobrir é algo muito difícil, pois o filme era ambientado nos anos 90, e muito provavelmente não era tão simples descobrir o nome e o paradeiro deste individuo idêntico a ele, a investigação se torna uma obsessão, os seus atos para chegar neste objetivo terão muitas consequências inesperadas, é uma trilha de investigação que o leva a duvidar de sua própria identidade.

O outro idêntico não é irmão gêmeo dele, a coisa vai muito mais além em todos os sentidos, eles têm os mesmos desejos, machucados, cicatrizes, manias, a dúvida dele é saber que é o original, será ele ou o outro, a idade de ambos é a mesma, as profissões é que são diferentes, Tertuliano é professor de História e seu duplicado Antônio Claro é ator.

Este livro aborda alguns pontos importantes e bem explorados, individualidade e aceitação, temas tão atuais que se lermos seguidamente ele permanecerá atual e interessante.

A sensação de perder sua individualidade o assombra diariamente sua existência no mundo ficariam em questão, tornando-se um dilema.

Os contatos com a mãe, os encontros com a espécie de namorada Maria da Paz passam a ser cheios de segredos. Como esperar que um ente querido reaja ao fato de existir dois de você?

Tertuliano conta com a ajuda do seu Senso Comum, uma espécie de amigo imaginário, veja a ironia, é realmente um duplo no interior do protagonista, ele usa deste artificio como muitos que não tem ou não confiam em alguém para conversar.

 

Infelizmente, o senso comum nem sempre aparece quando é necessário, não sendo poucas as vezes em que de uma ausência momentânea resultaram os maiores dramas e as catástrofes mais aterradoras. José Saramago, O Homem Duplicado

A dificuldade de aceitar o outro sempre foi um problema sério na sociedade, principalmente quando este outro lhe ameaça sua sanidade, sua vida, e também a forma como nos vemos ao nos olharmos num espelho.

Se fosse duplicado e conversasse com meu duplo idêntico e lhe fizesse uma analise como eu o vejo, provavelmente eu diria que o outro seria muito diferente, pois falaria aquilo que penso que não sou, talvez o meu duplo não concordasse comigo e me dissesse que somos exatamente iguais, porque a maneira como nós nos vemos ou pensamos ver tem a ver com o ser, provavelmente não seja como somos vistos pelo outro, o duplo, porquê? Porque não nos conhecemos direito e porquê o que os outros veem e sabem a nosso respeito é àquilo que exteriorizamos, é somente aquilo que deixamos sair, nós estamos lá atrás dos olhos, sentindo e vendo, controlando nossos gestos, atos e palavras, representamos diferentes papeis, seja como colega de aula, o colega de trabalho, o irmão, o amigo, o pai, o filho, a mãe, o político, enfim, estamos dentro de uma imensa peça teatral chamada vida, somos vários num só.

 

“Toda a gente sabe que nenhum homem pode ser exatamente igual ao outro num mundo em que se fabricam máquinas para acordar.” José Saramago, O Homem Duplicado

Certamente uma conversa com o duplo se possível fosse seria interessante e perturbadora. Podem ser iguaizinhos, mas cada um é um, é igual na aparência, mas único, pois a caminhada de vida de cada um até se conhecerem, foi pessoal e singular, as experiências até o momento em que se conheceram fizeram haver diferenças, os dois então são originais, por esta razão conviver com um igual só é difícil por haver distorção na maneira como aprendemos a respeitar o outro e a respeitar a nós mesmos pelas diferenças, haverá competição? Se sim disputando o quê?

Tem várias sutilezas que Saramago explora ao máximo e ao limite nesta questão dilema do homem duplicado, isto se percebe porque a riqueza dos detalhes é imensa, é um livro minucioso e bem planejado, inclusive na profissão do idêntico é um ator, a profissão e representar personagens que toca na questão da identidade.

O Homem Duplicado virou filme, um filme de suspense psicológico dirigido por Denis Villeneuve, é um longa que tem como ator principal Jake Gyllenhaal, ele foi exibido pela primeira vez na sessão Apresentação Especial do Festival Internacional de Cinema de Toronto em 8 de setembro de 2013. A estreia em Portugal e no Brasil ocorreu no dia 19 de junho de 2014. É um filme para assistir mais de uma vez, ele tem uma carga simbólica muito grande.

A clonagem também seria uma possibilidade, atualmente já existe técnica criada em laboratório para produzir indivíduos idênticos, no caso de nosso protagonista se ele fosse um indivíduo clonado seria o clímax do abalo da sua sanidade, provavelmente para a sanidade de qualquer um seria imaginar que existe alguém por ai idêntico, igualzinho, quem seria o tal original e quem seriam suas cópias no mundo, realmente é algo bastante desnorteante, isto certamente levanta assunto delicado para se discutir na filosofia. No entanto, se admitida a possibilidade de uma clonagem, ainda precisaria explicar as muitas coincidências de idênticos  machucados e cicatrizes que ambos possuem, talvez a sincronicidade junguiana possa explicar tais "coincidências", e quica a física quântica seja convidada a prestar esclarecimentos.

O Homem Duplicado é um livro repleto de simbolismos, permitindo a cada leitor ter, por si, a própria interpretação sobre os acontecimentos e fatos narrados. Nesse contexto, com uma boa história e personagens marcantes (mas não tão amáveis), tem-se uma ótima leitura ao fim das páginas.

O final também foi escrito no capricho, pensamos que não vai acontecer nada, que a história acabou e está tudo acomodado, mas tem reviravolta, a reviravolta nos deixa com uma pulga atrás da orelha, o desfecho é impressionante. Com certeza este livro que reli, vai continuar na lista para reler outras várias vezes, a cada leitura captamos mais detalhes, é uma obra prima, recomendo a leitura.

Fonte: Saramago, José. O Homem Duplicado. São Paulo/SP. Companhia das Letras, 2008