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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Licenciosidade do Abandono


A licenciosidade do abandono começa quase sempre de modo discreto. Não é um gesto teatral, nem uma decisão anunciada. É quando a gente deixa passar uma mensagem sem responder, adia um cuidado consigo mesmo, tolera um desconforto que antes não toleraria. No início parece descanso. Depois, vira hábito. E o hábito, silenciosamente, pede licença para se instalar.

Abandonar como quem pede permissão

Há um tipo de abandono que não nasce da impossibilidade, mas da concessão. Não é que não dê mais — é que deixamos. Deixamos o corpo ir ficando cansado, as ideias repetirem, as relações perderem espessura. A licenciosidade está justamente aí: no pequeno acordo interno que diz “tudo bem assim”, mesmo quando algo em nós sabe que não está.

Esse abandono é licencioso porque não se impõe à força; ele seduz. Oferece alívio imediato: menos esforço, menos confronto, menos responsabilidade por si. Como se a vida pudesse ser colocada em modo econômico sem custos futuros.

O abandono de si no cotidiano

Ele aparece em cenas banais. No trabalho, quando alguém aceita uma rotina que já não faz sentido só para evitar o risco de mudar. Nas relações, quando se permanece por inércia, não por presença. Em si mesmo, quando se troca curiosidade por distração contínua — rolar a tela em vez de sustentar um pensamento.

A licenciosidade do abandono não destrói de uma vez; ela desgasta. É um desinvestimento lento, quase educado. Não quebra nada, apenas vai deixando cair.

Entre liberdade e fuga

Há uma confusão perigosa entre abandonar e libertar-se. Nem todo abandono é emancipação. Às vezes, abandonar é apenas fugir do trabalho de sustentar algo vivo. A liberdade exige escolha; o abandono licencioso exige apenas desistência.

Filosoficamente, isso toca num ponto sensível: a diferença entre deixar ir e largar mão. Deixar ir pode ser um gesto ativo, lúcido, até necessário. Largar mão, quando licencioso, é recusar-se a responder pelo próprio desejo. É quando a vida vai sendo entregue ao automático, ao “tanto faz”.

A falsa paz do abandono

O abandono licencioso costuma vir acompanhado de uma paz enganosa. Menos conflito, menos tensão, menos perguntas. Mas também menos intensidade, menos presença, menos sentido. É uma tranquilidade morna, que anestesia mais do que descansa.

Com o tempo, essa paz cobra seu preço: uma sensação difusa de esvaziamento, como se algo importante tivesse sido deixado para trás — e foi, ainda que não saibamos dizer exatamente o quê.

Resistir sem endurecer

Resistir à licenciosidade do abandono não significa abraçar o controle excessivo ou a rigidez moral. Significa reaprender a sustentar: sustentar o cuidado, o desconforto criativo, a atenção. É escolher, repetidamente, não abandonar o que ainda pulsa — mesmo quando cansa.

Talvez viver com algum rigor não seja ser duro, mas ser fiel ao movimento da própria vida. Não permitir que o abandono se disfarce de descanso, nem que a desistência se venda como sabedoria.

No fim, a pergunta não é “do que posso abrir mão?”, mas outra, mais incômoda e mais honesta: do que não posso me abandonar sem deixar de ser atravessado pela vida?

domingo, 25 de janeiro de 2026

Penitência e Prazer


Eu já confundi penitência com profundidade. E prazer com superficialidade. Hoje, vejo que essa divisão era mais moral do que verdadeira.

Aprendi cedo que sofrer dava um certo prestígio silencioso. Quem aguenta mais, quem renuncia mais, quem se priva mais… parece sempre mais sério, mais digno, mais “elevado”. O prazer, ao contrário, vinha quase sempre acompanhado de culpa, como se alegria fosse uma forma disfarçada de irresponsabilidade.

Mas a vida, com sua pedagogia lenta, começou a desmontar isso.

Percebi que há penitências que não purificam — apenas endurecem. E prazeres que não distraem — apenas lembram que ainda estamos vivos.

No cotidiano, isso é evidente.

Quando trabalho além do limite e chamo de virtude.

Quando recuso um descanso e chamo de caráter.

Quando aceito um pequeno prazer e sinto que estou “falhando”.

A penitência pode ser fuga: uma maneira elegante de não lidar com o desejo.

O prazer pode ser coragem: uma maneira simples de afirmar a existência.

Nietzsche já desconfiava dessa moral que santifica a dor e suspeita da alegria. Para ele, o problema não era o sofrimento em si, mas o culto ao sofrimento como se fosse superior à vida.

Talvez o amadurecimento esteja em reconciliar essas duas forças.

Há uma penitência necessária: a que disciplina, orienta, ensina limites.

E há um prazer necessário: o que reencanta, suaviza, devolve sentido.

Quando uma exclui a outra, a alma adoece.

Eu começo a pensar que viver bem não é escolher entre penitência ou prazer, mas permitir que ambos dialoguem. Que o esforço não destrua a alegria. Que a alegria não destrua a responsabilidade.

Porque a existência não pede heróis nem hedonistas.

Pede apenas alguém que saiba sofrer sem se glorificar —

e gozar sem se envergonhar.

sábado, 15 de novembro de 2025

Compulsão Material

O desejo que não cabe no bolso (nem na alma)!

É só abrir o celular: a cada deslizada de dedo, mais um objeto aparece prometendo resolver a vida. Um fone que “entende” seu humor, uma garrafa que “conversa” com você, um sofá que “abraça”. Tudo parece feito para preencher um buraco – que, curiosamente, nunca se fecha. Por mais que a gente compre, deseje, guarde ou sonhe com o próximo lançamento, há uma inquietação que escapa das sacolas. Esse é o terreno onde nasce a compulsão material: um impulso que começa na vitrine, mas termina muito além dela.

Ao contrário do consumo cotidiano e necessário, a compulsão material não busca apenas objetos, mas tenta capturar sentidos. É o desejo em estado bruto, acelerado, faminto. Comprar vira uma forma de existir – ou, melhor dizendo, de disfarçar a sensação de não saber como existir. É como se cada coisa nova que adquirimos sussurrasse: “agora sim, você é alguém”. Mas o eco dessa voz se apaga rápido. E o vazio volta.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky, ao falar da era do hipermodernismo, descreve um tempo em que a identidade está em permanente construção e, por isso, permanentemente em crise. A compulsão material seria, então, uma tentativa desesperada de dar contorno ao “eu” usando o que está fora dele. Compramos para não pensar. Ou para tentar parar de sentir. O problema é que quanto mais se compra, mais se percebe que o objeto não tem o poder mágico prometido. E seguimos, então, comprando de novo – como quem tenta tirar sede bebendo água do mar.

Mas por que o impulso não se interrompe? Porque o sistema é feito para que ele continue. A publicidade não vende produtos: vende promessas de felicidade, de aceitação, de pertencimento. O objeto vira um símbolo. E o símbolo vira uma muleta emocional. A compulsão, assim, é sustentada por um mundo que explora o frágil para manter girando a roda do desejo.

No entanto, há também uma dimensão existencial profunda: quando nos afastamos da interioridade, buscamos fora o que perdemos dentro. E a matéria se oferece como solução concreta para angústias abstratas. Como disse o pensador brasileiro N. Sri Ram, em O Destino e o Caminho, “não é pela multiplicação das posses que se encontra a plenitude do ser, mas pela compreensão do que somos, sem ornamentos”.

Inovar, neste caso, talvez seja propor uma inversão: e se, em vez de tentar preencher a alma com coisas, começássemos a esvaziar o mundo à nossa volta até reencontrar o silêncio? Não por ascetismo moralista, mas por um desejo legítimo de liberdade. Não da matéria em si, mas daquilo que ela passou a representar: uma máscara para o que não sabemos dizer.

A compulsão material é, enfim, o sintoma de um tempo em que o ser foi sequestrado pelo ter. E enquanto não aprendermos a lidar com o que falta dentro de nós, continuaremos buscando, nas vitrines, um reflexo que nos reconheça – mesmo que ele nunca venha.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Saber o Futuro


Outro dia, enquanto esperava um amigo num café, notei uma senhora jogando cartas de tarô para uma cliente atenta. O ambiente tinha aquele ar de mistério misturado com aroma de café fresco. A cliente olhava fixamente para as cartas, como se, ao decifrar aqueles símbolos enigmáticos, pudesse antecipar o que lhe aguardava. Fiquei ali pensando: por que a ideia de saber o futuro nos fascina tanto?

Desde tempos imemoriais, a humanidade tenta desvendar o que está por vir. Oráculos gregos, astrologia, profecias religiosas, inteligência artificial prevendo tendências – a busca pela previsibilidade atravessa eras e culturas. Mas por que essa obsessão? Talvez porque o futuro represente o grande desconhecido, e conhecer o desconhecido é uma forma de controle. Se soubéssemos o que vai acontecer, talvez pudéssemos evitar tragédias, tomar melhores decisões ou, no mínimo, preparar-nos psicologicamente.

Porém, a possibilidade de saber o futuro também carrega um paradoxo: se o futuro já está determinado e pode ser conhecido, onde fica o livre-arbítrio? Se uma previsão é infalível, então nossa liberdade é apenas uma ilusão? Este dilema já inquietava os antigos estoicos, que acreditavam num destino inescapável, e também preocupou Santo Agostinho, que buscou conciliar a onisciência divina com a liberdade humana.

Por outro lado, se o futuro for apenas um campo de possibilidades abertas, então toda tentativa de predizê-lo é em vão. A filosofia existencialista de Sartre defenderia que o ser humano está condenado à liberdade, ou seja, sempre tem escolha e sempre está criando o futuro a partir do presente. Esse pensamento talvez nos liberte do medo do destino, mas também impõe uma grande responsabilidade: somos os artesãos do nosso próprio caminho, sem mapas garantidos.

Talvez a nossa busca por saber o futuro seja, no fundo, um desejo de aliviar a angústia da incerteza. Mas, paradoxalmente, é essa mesma incerteza que dá sabor à vida. Se soubéssemos exatamente como tudo vai acontecer, restaria algum encanto na jornada? A vida, como um romance, precisa do inesperado para ser emocionante. E talvez o maior mistério não seja saber o futuro, mas sim aprender a viver bem no presente.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Medo Egoísta


Há medos que nascem para proteger a vida — o medo de uma queda, de um animal selvagem, de uma notícia médica incerta. São medos que têm um sentido biológico, quase nobre, porque servem à sobrevivência. Mas há outro tipo de medo, mais discreto, mais íntimo e, de certo modo, mais perigoso: aquele que não protege o corpo, e sim o ego. É o medo egoísta — o medo de perder o papel que acreditamos ter no mundo, a imagem que criamos de nós mesmos, ou o controle sobre o que amamos.

Esse medo aparece em gestos cotidianos: quando deixamos de expressar uma ideia para não parecer tolos, quando não elogiamos o outro para não sentir inveja, ou quando tememos mudar de vida porque alguém pode nos julgar. Mas ele se revela com mais força nas relações afetivas — quando o medo de perder alguém disfarça o próprio egoísmo. Queremos a pessoa por perto não porque desejamos o bem dela, mas porque precisamos dela à vista, sob nosso alcance emocional, como se a distância apagasse o amor. É o medo que transforma o afeto em vigilância e o cuidado em posse.

Amar, nesses casos, é querer ter, não querer ver. E esse querer ter é uma forma disfarçada de fraqueza: é o pavor de ficar só, de não ser lembrado, de não ter importância. O medo egoísta é o guardião da aparência — o medo de não sermos o centro do outro.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, disse que a angústia é a vertigem da liberdade — aquele mal-estar que sentimos diante do infinito das possibilidades. O medo egoísta é, justamente, a recusa dessa vertigem. Ele quer segurança em tudo: nas escolhas, nas relações, no amor. É a tentativa de domesticar o imprevisível. Só que o amor, como a existência, não cabe em grades.

Quando o ego tem medo, ele constrói fortalezas — mas esquece que toda fortaleza é também uma prisão. O medo de perder o outro faz com que percamos o essencial: o respeito pela liberdade do outro de ser, de ir, de crescer. E esse medo, que parece amor, é na verdade apego ao espelho: queremos o outro como reflexo, não como horizonte.

O educador e pensador brasileiro Rubem Alves escreveu que “amar é ter um pássaro pousado no ombro. Se ele quiser ficar, fica. Se quiser ir, vai. Amor que prende é amor que mata”. Essa imagem sintetiza o antídoto contra o medo egoísta: o amor que liberta, que permite o voo, mesmo que a ausência doa.

Superar o medo egoísta não significa eliminar o medo, mas transformá-lo: trocar o medo de perder pelo medo de não viver com verdade; trocar o medo da distância pelo desejo de que o outro floresça; trocar o controle pela confiança. Porque, no fim, quem vence o medo egoísta não perde ninguém — apenas deixa de aprisionar o que ama. E descobre, enfim, que o amor só existe quando o outro é livre o bastante para ficar.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Espelho Quebrado

Reflexos do Eu na Era das Telas

Há quem diga que o celular virou um espelho de bolso. Mas diferente daquele do banheiro, onde a gente se encara meio sonolento e sem filtro, esse novo espelho tem brilho, retoques e até música de fundo. Nele, a imagem aparece como queremos ser vistos — e não exatamente como somos. O problema é que, depois de tanto se olhar através desse espelho digital, muita gente já não sabe mais se está se mostrando ou se está se buscando.


Lacan chamava de “estádio do espelho” o momento em que o bebê, ainda descoordenado e fragmentado, se reconhece pela primeira vez em sua imagem refletida. Ele sorri, aponta, celebra — porque acredita ter encontrado ali uma unidade de si mesmo. Mas é uma unidade ilusória: a imagem é só uma projeção, não o corpo real. A partir daí, o sujeito passa a se construir através do olhar do outro, tentando ser aquilo que imagina ser visto.

Hoje, esse espelho se multiplicou em mil telas. Cada selfie é um pequeno estádio do espelho repetido: “sou eu ali?” — a pergunta que o bebê fez diante do reflexo agora ecoa no feed do Instagram. Só que o olhar do “outro” não é mais apenas o da mãe ou do cuidador: é o de centenas de seguidores, amigos e estranhos. Cada curtida confirma (ou nega) o reflexo que escolhemos mostrar. A identidade, que já era uma invenção instável, se torna um mosaico de olhares.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas angústias: o adolescente que apaga uma foto por não ter recebido curtidas suficientes; o adulto que se sente menor ao ver a viagem perfeita do colega; a mãe que transforma o filho em conteúdo, buscando reconhecimento materno no olhar digital. Todos, de algum modo, estão diante do mesmo espelho que Lacan descreveu — só que agora ele é coletivo e global. A fragmentação do sujeito deixou de ser teórica e virou notificação.

O filósofo e psicanalista francês via nesse momento um ponto decisivo da formação do “eu”: a imagem externa organiza o caos interno. Mas se o espelho se quebra em mil pedaços, o reflexo também se dispersa. O sujeito contemporâneo, exposto a tantas versões de si, corre o risco de não se reconhecer mais em nenhuma. A unidade, que já era ficção, se dissolve em performance.

Talvez o desafio de hoje não seja “ser visto”, mas reaprender a se ver — com todas as imperfeições que o espelho sem filtro revela. Porque, como lembrava Lacan, o “eu” não é o que se mostra, mas o que se constrói entre o olhar e o desejo, entre o reflexo e o real. E quem sabe, um dia, a gente consiga olhar o espelho — seja ele de vidro ou de tela — e dizer: “sim, esse também sou eu, ainda que incompleto”.


sábado, 20 de setembro de 2025

Nada de Tudo

Tem dias em que a gente sente tudo e entende nada. Outros em que não sentimos nada — e entendemos tudo. Há momentos em que a vida parece um grande ruído, uma pilha de tarefas, afetos, promessas e medos, e a única coisa que queremos é desligar o mundo. Mas e se o sentido da vida estiver justamente aí — no nada de tudo?

Vivemos tempos de excesso: de informação, de opinião, de comparação, de desejo. A cada passo, a sensação de que estamos perdendo algo. A cada silêncio, o incômodo da ausência de estímulo. No entanto, é no vazio que algo essencial começa a se formar. O "nada" não é ausência, mas espaço fértil.

O filósofo Martin Heidegger abordou essa questão ao refletir sobre o nada como aquilo que nos revela o ser. Para ele, é no confronto com o nada — diante da angústia, por exemplo — que nos damos conta da existência como tal. Não da existência de uma coisa ou outra, mas do próprio existir. Em seu ensaio “O que é metafísica?”, ele escreve: “O nada revela-se com a angústia, mas não como um ente. O nada é a completa nulidade de todos os entes.”

Em outras palavras, é quando tudo perde o brilho, o sentido ou a direção que podemos enxergar o que realmente está lá — aquilo que permanece quando tudo vai embora. Às vezes é uma lembrança, uma respiração profunda, uma xícara de café esquecida ainda morna na borda da pia.

O nada de tudo, então, não é derrota, nem abandono. É o ponto de virada. É quando o corpo já não finge, a alma se recusa a obedecer, e surge a possibilidade de começar — sem o peso do que era, sem o medo do que vem.

Talvez a verdadeira liberdade não seja ter tudo, mas poder perder tudo e ainda assim não se perder de si.


quarta-feira, 17 de setembro de 2025

As Quimeras

Entre o Desejo e a Realidade

Desde a antiguidade, a quimera figura como uma criatura fantástica, composta por partes distintas — leão, cabra, serpente — símbolo da mistura impossível, da fantasia que ultrapassa a realidade concreta. Mas o que acontece quando refletimos sobre as quimeras não como monstros mitológicos, mas como metáforas para os anseios humanos? E se nossas próprias quimeras forem as imagens híbridas formadas por desejos conflitantes e aspirações inatingíveis, projetadas no horizonte da existência?

O filósofo francês Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, nos convida a entender a imaginação como uma potência criadora, um modo pelo qual o ser humano transcende sua condição finita. A quimera, assim, não é mera ilusão ou engano — é uma expressão do desejo humano pelo possível, um símbolo da criatividade que impulsiona o movimento da vida para além do dado.

No entanto, essa potência imaginativa carrega uma tensão profunda: ao mesmo tempo que nos impulsiona, ela pode gerar frustração, pois o real dificilmente acolhe inteiramente a complexidade dos nossos sonhos híbridos. A quimera se torna, portanto, uma ponte e uma lacuna — um convite para ousar, e um alerta para a ilusão.

Pensando na vida cotidiana, cada indivíduo vive suas quimeras internas: projetamos versões idealizadas de nós mesmos, aspiramos a relações, profissões, mundos que misturam partes reais e inventadas. Ao abraçar essa complexidade, reconhecemos que a existência não é linear nem puramente racional, mas um emaranhado de fantasias e esforços que constroem nossa singularidade.

Assim, a lição das quimeras talvez resida no equilíbrio entre nutrir o sonho e confrontar a realidade, entre deixar-se levar pela imaginação e saber voltar os pés para o chão. Como Bachelard sugere, a imaginação não é fuga, mas criação — um espaço onde a alma se reinventa.


domingo, 7 de setembro de 2025

Incoerências da Visão

O Olho que Engana e o Mundo que Foge

A visão costuma ser tratada como o mais confiável dos sentidos. É a primeira prova que apresentamos para atestar algo: “Eu vi com meus próprios olhos”. No entanto, o ato de ver é atravessado por incoerências sutis — e às vezes cruéis — que revelam que enxergar não é sinônimo de conhecer.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti, ao refletir sobre percepção e linguagem, nos lembra que não vemos as coisas “nuas”, mas sempre filtradas por categorias, expectativas e hábitos. O olho não é uma câmera objetiva, mas um intérprete apressado. É por isso que duas pessoas podem presenciar o mesmo acidente e descrever cenas diferentes: o que a visão captou foi imediatamente moldado por memórias, medos e interesses.

No cotidiano, essa incoerência aparece nos gestos mais simples. Ao procurar as chaves que estão “bem na frente”, passamos os olhos várias vezes pelo lugar, mas não as vemos — até que, de repente, elas “surgem” no campo visual. Não foi mágica: foi o cérebro ignorando informações que, no momento, julgou irrelevantes. O mesmo vale para encontros: um amigo passa na rua, a dois metros de distância, e só depois de alguns segundos nos damos conta de que era ele. A visão não falhou no sentido físico; falhou na coerência entre dado e interpretação.

Há também incoerências mais profundas, quando o que vemos contradiz o que acreditamos. O pôr do sol, por exemplo, parece indicar que o sol se move e a Terra está parada. Milênios de ciência não mudam a impressão imediata — e, nesse caso, vemos o falso com mais nitidez que o verdadeiro.

Giannotti nos convidaria a assumir essa instabilidade não como fraqueza, mas como abertura. Se a visão é incoerente, é porque o mundo é mais complexo do que um único ponto de vista pode captar. Assim, o olho que engana também é o olho que possibilita: o erro nos força a interrogar o que julgávamos óbvio.

Talvez o maior risco não seja a incoerência em si, mas a confiança cega na visão como juiz absoluto. Ao esquecer que ver é sempre interpretar, caímos na armadilha de tomar imagens — e narrativas visuais — como verdades sólidas. Na era das telas e das manipulações digitais, essa ingenuidade se torna ainda mais perigosa.

O olho, afinal, não nos entrega o mundo. Ele nos entrega um esboço, que completamos com memória, desejo e imaginação. É nessa mistura, incoerente e fascinante, que vivemos.


sábado, 30 de agosto de 2025

Razão Não Basta

O Humano Entre Lógica e Afeto

A vida nos ensina cedo que não dá para calcular tudo. Podemos planejar uma viagem milimetricamente, mas a lembrança mais marcante pode ser o pôr do sol inesperado, ou a conversa com um desconhecido no ônibus. Podemos escolher uma carreira pelo salário, mas sentir que algo essencial falta. É nesse intervalo entre o previsível e o vivido que percebemos: a razão, sozinha, não basta.

No cotidiano brasileiro, isso se expressa de muitas formas. O estudante que segue a rota segura de um concurso público, mas descobre que sua alegria está na música; o casal que, “racionalmente” compatível, perde-se porque não há mais ternura; a mãe que, contra todos os conselhos técnicos, insiste em confiar na intuição sobre o cuidado do filho — e está certa. O excesso de lógica, nesses casos, sufoca o que é propriamente humano: a sensibilidade.

O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em sua obra A Busca do Bem-Estar (1954), lembrava que a sabedoria não nasce apenas do pensamento discursivo, mas da integração entre mente e coração. Para ele, o intelecto é importante, mas só ganha profundidade quando iluminado por uma visão interior que inclui compaixão e empatia. A verdadeira clareza não está no raciocínio frio, mas na percepção que reconhece o outro como parte de si.

Esse ponto é essencial: a razão nos ajuda a organizar o mundo, mas é o afeto que nos conecta a ele. Sem compaixão, a ciência pode se tornar ferramenta de destruição; sem imaginação, a técnica vira rotina vazia; sem amor, a lógica se reduz a cálculo de interesses.

“Razão não basta” não é um convite ao irracionalismo, mas à completude: reconhecer que somos feitos de intuição, desejo, memória, fé e corpo. Pascal dizia que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”; Sri Ram acrescentaria que é justamente nessa união de coração e mente que o ser humano encontra sua verdadeira liberdade.

Assim, talvez a sabedoria não seja escolher entre pensar ou sentir, mas saber quando deixar que um complete o outro. Porque viver, afinal, é mais do que raciocinar: é também deixar-se atravessar pelo imprevisto, pelo gesto que foge à lógica e, ainda assim, faz todo sentido.


sábado, 5 de julho de 2025

Confissões Filosóficas

Um ensaio sobre a verdade que escapa!

Há um momento em que a filosofia abandona as grandes teorias e se ajoelha diante do espelho. É nesse instante, íntimo e incômodo, que surgem as confissões filosóficas. Elas não são apenas relatos pessoais de quem pensa demais, mas são também lampejos de uma verdade que não se alcança pela razão pura, nem pela experiência bruta, mas por algo entre o vivido e o pensado — um lugar onde a alma filosofa consigo mesma.

Confessar, em sua origem latina confiteri, é um ato de expor a verdade diante de outro, ou até mesmo de si. Mas aqui não falamos de pecados, como nas confissões religiosas, nem de crimes, como nas confissões policiais. Falamos daquelas verdades silenciosas que nos habitam e que, quando verbalizadas, não nos libertam — apenas nos desnudam.

Nietzsche, em Ecce Homo, escreve como quem oferece não uma autobiografia, mas uma revelação de estilo: “por que sou tão inteligente?”, “por que escrevo livros tão bons?”. A ironia não é orgulho, é exposição: ele joga fora as máscaras para revelar outras máscaras. A confissão filosófica, nesse sentido, não pretende chegar à essência do eu, mas mostrar que esse eu é, no fim, uma construção — fragmentária, cênica, teatral.

Agostinho, no entanto, ao escrever suas Confissões, buscava Deus. Sua alma ansiava por uma ordem no caos dos desejos. Já Montaigne, nos Ensaios, buscava a si mesmo: “Eu sou a matéria do meu livro”. Mas o que ambos fazem — um religioso, outro cético — é admitir, com estilo próprio, que pensar é também uma forma de sentir.

Talvez o ensaio mais inovador seja justamente aquele que não esconde o tremor da mão que escreve. Um filósofo, ao confessar, não declara certezas, mas dúvidas que o fundam. E essas dúvidas não se organizam como um tratado. Elas se insinuam como diálogos internos, como vozes que não se calam. O filósofo confessor não está acima do mundo, mas dentro dele — sujo de vida, perdido entre conceitos que já não explicam tudo.

As confissões filosóficas inovam quando deixam de querer ensinar e passam a compartilhar. Quando trocam a forma do argumento pela forma do gesto. Quando o filósofo diz: “Não sei”, mas esse não saber carrega séculos de pensamento e lágrimas silenciosas.

No cotidiano, essas confissões aparecem quando alguém diz:

“Tenho medo de não estar vivendo minha própria vida.”

“Às vezes, finjo que acredito no que digo.”

“Tenho vergonha do que me tornei para caber no que esperavam de mim.”

Essas frases, simples, poderiam estar num diário qualquer. Mas quando atravessadas por reflexão, tornam-se filosóficas: carregam o peso da existência e o desejo de verdade.

Por isso, a confissão filosófica não precisa ser escrita em latim, nem publicada em volumes grossos. Pode acontecer num café solitário, numa conversa interrompida, numa madrugada sem sono. O que a torna filosófica é o silêncio que ela rompe — e o silêncio que ela deixa.

Talvez, no fundo, toda filosofia verdadeira seja uma confissão. E talvez a inovação filosófica esteja menos em inventar novos sistemas, e mais em ter coragem de dizer, enfim: “eu também estou perdido, mas continuo pensando”.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Pecado Original

O que fizemos de errado antes mesmo de nascer?

Parece injusto carregar uma culpa que não foi escolhida. Como se nascêssemos devendo algo. Como se a vida, em seu primeiro fôlego, já nos colocasse sob suspeita. Estamos falando do chamado pecado original — esse conceito antigo, estranho, e ainda hoje ressoante, que diz que herdamos de Adão e Eva, lá no Éden, uma falha moral de fábrica. Mas e se olhássemos para isso de outro jeito? E se essa culpa não fosse um castigo, mas um modo simbólico de nos contar algo profundo sobre a condição humana?

Herança sem testamento

Na tradição cristã, o pecado original nasce com a desobediência: comer o fruto proibido, desafiar a ordem divina. Mas o problema não é só o ato, é o que ele revela: o desejo de conhecer, escolher, experimentar. Não é estranho que o primeiro erro tenha sido querer saber mais? O pecado, então, não seria um acidente, mas uma revelação: o humano é, por natureza, um ser inquieto. E talvez o pecado original seja isso — não um erro cometido, mas uma vocação inevitável para o excesso, o risco, o desvio.

Não escolhemos ser assim, apenas somos. Como dizia Agostinho, “em Adão todos pecaram” — o que soa como uma condenação universal, mas também como um retrato da fragilidade que nos une. Não é apenas um castigo: é a lembrança de que somos falhos, e talvez por isso tão humanos.

Um mito sobre a liberdade

Se tirarmos a linguagem religiosa e ficarmos com a estrutura simbólica, o pecado original pode ser lido como o nascimento da liberdade. Adão e Eva não erram porque são maus, mas porque são livres. A serpente, o fruto, o ato de comer — tudo isso compõe uma cena inaugural de escolha. Um universo sem pecado original seria um mundo de bonecos obedientes, de seres sem conflito. Seria, talvez, um jardim sem humanidade.

A expulsão do paraíso é, então, a entrada na realidade. O Éden é infância, segurança, ilusão de harmonia. Fora dele, encontramos a vida: o trabalho, o sofrimento, o tempo, a morte — e também o amor, a ética, a construção de sentido. Ser lançado no mundo, como diria Heidegger, é existir em angústia, mas também em possibilidade.

A culpa como condição

O psicanalista Jacques Lacan observava que a culpa não nasce apenas do que fazemos, mas do próprio fato de desejar. Desejar é se comprometer com a falta, com aquilo que não temos e que nos move. Nesse sentido, o pecado original seria o símbolo do desejo que funda o sujeito. Não desejamos por sermos culpados. Somos culpados porque desejamos. A culpa original é a sombra da liberdade: aparece assim que escolhemos ser alguém.

E se não for culpa, mas ponto de partida?

Talvez devêssemos deixar de ver o pecado original como uma dívida e passar a vê-lo como um reconhecimento: de que ninguém começa do zero, de que a existência já vem atravessada por histórias que não escolhemos, de que o mundo nos molda antes mesmo de sabermos quem somos. É injusto? Sim. Mas é também uma chance de compreender que crescer é lidar com o que herdamos — não apenas genes, mas dores, pesos, narrativas.

O filósofo brasileiro Rubem Alves dizia que “o paraíso não é lugar onde não há dor, mas onde a dor faz sentido”. Talvez o pecado original, longe de ser um erro isolado no passado, seja uma metáfora para nossa condição atual: a de quem vive entre a queda e o salto, entre o erro e a reconstrução.

O pecado original pode não ser literal. Mas é real no sentido em que todos nós, de algum modo, nascemos num mundo que já nos antecede, com suas regras, seus limites, suas faltas. A questão nunca foi evitar o pecado, mas descobrir o que fazemos com ele. Afinal, se não podemos apagar a mancha, talvez possamos transformá-la em arte.


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Sujeito Normativo

 


O que há por trás de quem obedece (ou não)!

A gente passa a vida achando que está escolhendo. Desde cedo nos perguntam o que queremos ser quando crescer, como se a escolha fosse uma estrada aberta. Mas, se olharmos com mais atenção, muitas das nossas decisões já vieram meio prontas: o modo como nos vestimos, o jeito de falar, até a forma de amar — tudo parece já ter uma receita, mesmo antes de perguntarmos qual é o gosto.

Nesse cenário, surge uma figura discreta, mas poderosa: o sujeito normativo. Ele não é alguém específico, mas um tipo de presença que habita todos nós. É aquele que atua conforme as normas, internaliza as regras, se identifica com o que é esperado. Mas quem é esse sujeito, afinal? E, mais importante, ele é livre?

A construção do sujeito que se adapta

O sujeito normativo nasce de uma rede invisível de expectativas. Desde a infância, aprendemos o que é "certo", o que "pega bem", o que "deve ser feito". Somos guiados não por ordens diretas, mas por uma malha de sugestões sutis, recompensas emocionais e castigos simbólicos. A norma não grita, ela sussurra — e é exatamente aí que está sua força.

Michel Foucault nos ajuda a entender essa dimensão quando fala do poder disciplinar: o sujeito é produzido, ele não preexiste à norma. Ao se alinhar com os padrões, o sujeito normativo se realiza — e ao mesmo tempo, se limita. O curioso é que esse processo é quase sempre inconsciente: obedecemos sem saber que estamos obedecendo.

Louis Dumont: o sujeito entre o todo e o indivíduo

O antropólogo francês Louis Dumont nos ajuda a entender como as normas sociais moldam o próprio valor que damos ao sujeito. Em sua análise das culturas ocidentais e orientais, Dumont destaca a diferença entre duas formas de organização social: holismo e individualismo.

No holismo (mais comum em sociedades tradicionais, como na Índia), o indivíduo existe em função do todo — a coletividade, o grupo, a ordem social. Já no individualismo (mais típico do Ocidente moderno), o sujeito é concebido como autônomo, separado, dotado de direitos próprios.

Mas Dumont chama atenção para um paradoxo: mesmo onde o individualismo parece reinar, como nas democracias liberais, ele depende de um conjunto de normas culturais que moldam esse sujeito autônomo. Ou seja, até a ideia de “ser livre” já vem normatizada. O sujeito normativo moderno, portanto, não é menos normativo do que o tradicional — ele apenas internalizou novas formas de obediência, como a busca pela autenticidade, pela autorrealização, pelo sucesso pessoal.

Esse olhar antropológico revela que a norma muda de forma, mas nunca desaparece. O que chamamos de “escolha pessoal” frequentemente é apenas uma forma moderna de cumprir o que o grupo espera de nós.

O dilema entre pertencimento e autenticidade

Ser um sujeito normativo tem vantagens claras: ele se encaixa, circula com fluidez, é bem-visto. Mas há um preço. À medida que nos tornamos aquilo que esperam de nós, deixamos de escutar o que poderíamos ter sido. A norma, quando muito apertada, sufoca a singularidade. Quando vivemos apenas para cumprir o papel social que nos foi oferecido, nos tornamos personagens no teatro do previsível.

A filósofa Judith Butler acrescenta que as normas não apenas regulam o comportamento, mas criam a própria possibilidade de existência reconhecida. Só somos "alguém" se nos alinhamos minimamente ao que é considerado um "alguém possível". É um jogo de reconhecimento. E, às vezes, a margem entre ser reconhecido e ser livre é estreita.

A potência de desviar

Mas nem tudo está perdido. Há momentos em que o sujeito normativo tropeça — e é nesse tropeço que ele pode se reinventar. Quando uma pessoa diz “não” a um padrão que a oprime, não é apenas um ato de negação; é também uma criação. A transgressão, quando lúcida, abre espaço para novas formas de ser.

O filósofo brasileiro Vladimir Safatle nos convida a pensar que a transformação social exige esse gesto de ruptura, de recusa à normalização. O sujeito crítico, que tensiona as normas em vez de simplesmente segui-las, torna-se agente de mudança. Não para viver à margem por vaidade, mas para alargar as bordas do possível.

Entre a norma e o desejo

No fundo, todos nós vivemos esse equilíbrio instável entre seguir e reinventar. O sujeito normativo não é nosso inimigo — ele é parte de nós, aquela parte que busca acolhimento, sentido, pertencimento. Mas é preciso não esquecer da outra metade: o sujeito desejante, que sonha com o que ainda não tem nome.

Louis Dumont nos ajuda a entender que até o desejo de ser único pode ser, paradoxalmente, uma norma social. Talvez o desafio não seja abandonar a norma, mas dançar com ela. Saber quando ela nos serve e quando nos aprisiona. E, sobretudo, lembrar que viver de verdade é também inventar novas normas, feitas sob medida para aquilo que ainda não fomos — mas podemos vir a ser.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Freio do Espanto

Já se perguntou por que paramos para ver um acidente?

Outro dia, indo para o trabalho, o trânsito na avenida principal parou de repente. Não era semáforo, nem blitz, nem buraco na pista. Era um corpo. Estendido no asfalto, cercado de cones, olhares e celulares. Os carros à frente diminuíram a marcha. Alguns motoristas encostaram. Outros apenas reduziram o suficiente para inclinar o pescoço, esticar os olhos, captar o detalhe: o estado da moto, a posição do corpo, se ainda respirava. A cena era silenciosa, embora tudo ao redor continuasse ruidoso. Como se, por alguns metros, entrássemos numa cápsula onde o tempo hesita.

Decidi escrever sobre isso não para julgar o comportamento, mas para pensar com ele. O impulso de olhar um acidente é tão comum quanto incômodo. Ele carrega algo de profundamente humano — e também algo de perigoso. Ao refletir sobre essa cena, me parece que ela revela mais sobre nós do que gostaríamos de admitir: nossos medos, nossos desejos, nossa maneira de lidar com a dor alheia. E escrever é uma forma de transformar esse incômodo em pensamento.

A curiosidade que dói

O primeiro impulso que sentimos diante do inusitado é olhar. Ver para crer. Ver para entender. O acidente interrompe o cotidiano. Ele rasga a rotina com um grito mudo. E nesse corte da normalidade, a curiosidade humana encontra espaço.

Aristóteles dizia, já na Metafísica, que “todos os homens têm, por natureza, o desejo de saber”. Mas esse saber não se limita ao que é nobre ou racional. Também queremos saber o que dói, o que choca, o que assusta. O acidente é uma pergunta aberta: o que houve aqui? — e também: poderia ser comigo?

A dor do outro como espetáculo

Walter Benjamin, filósofo alemão, nos alertava sobre como a modernidade transforma acontecimentos em “experiências empobrecidas”, facilmente consumidas e rapidamente descartadas. A cena do acidente, muitas vezes, é consumida assim: com olhos famintos e coração distraído.

A filósofa Susan Sontag, em Diante da dor dos outros, vai além: ela mostra como as imagens de sofrimento tendem a anestesiar, em vez de mobilizar. Ver demais pode nos fazer sentir menos. Quando o sofrimento se transforma em conteúdo — uma imagem, uma manchete, um story — corremos o risco de esquecer que há alguém real, com nome, vida, vínculos, deitado no asfalto.

E mesmo quem não filma, mas apenas olha, participa de certa maneira desse ritual. É um “olhar suspenso”: ao mesmo tempo solidário e mórbido, aflito e fascinado. Porque olhar é também uma forma de buscar segurança — “ainda não foi comigo” — e, às vezes, uma tentativa estranha de se conectar com o trágico.

Um espelho breve

Há quem diga que, ao ver o acidente, sentimos empatia. Talvez. Mas também é possível que vejamos ali o próprio abismo. A fragilidade do corpo. A imprevisibilidade da vida. O corte na semana, na agenda, na rotina. Olhar para o acidente é, às vezes, como encarar um espelho rachado: vemos o que pode se quebrar em nós.

O pensador francês Georges Didi-Huberman lembra que “ver é, antes de tudo, ser atingido”. E, de fato, não se sai ileso de uma cena dessas — mesmo como espectador. O incômodo permanece. A imagem volta durante o almoço, nos atravessa no banho, ressurge antes de dormir. Há algo no acidente que continua reverberando em silêncio.

Por que refletir sobre isso?

Porque o hábito de olhar o acidente, se não for examinado, pode nos transformar. Pode nos tornar espectadores passivos do sofrimento do outro. Pode fazer com que a dor vire só mais uma parada no caminho, um “conteúdo forte” para contar no trabalho ou comentar no grupo de WhatsApp.

Pensar sobre isso é um jeito de resgatar a humanidade por trás do hábito. De perguntar: o que faço com o que vejo? Olhar pode ser gesto de cuidado, de testemunho, de indignação. Mas também pode ser o contrário. E só refletindo é que aprendemos a distinguir.

No fundo, talvez seja isso: quando o trânsito para por causa de um acidente, não é só o carro que freia. É a alma que hesita. E esse instante — esse breve espanto — merece ser olhado com mais atenção do que a cena na pista.


terça-feira, 11 de março de 2025

Infinitivos e Gerúndios

Pensar Pensando e os Modos de Existir

A gente sempre está entre começar algo e continuar fazendo. Entre o desejo de ser e o ato de estar sendo. No fundo, a forma como pensamos já carrega em si um tempo, um modo, uma disposição. Há quem viva no infinitivo, sonhando sem executar. Outros se perdem no gerúndio, ocupados demais fazendo para perceber para onde estão indo. Mas será que o pensamento também oscila entre essas formas? Será que somos condicionados por uma estrutura linguística a viver mais no futuro ou no presente contínuo?

O infinitivo é uma promessa. Pensar, agir, decidir, mudar. Ele paira no ar como um horizonte de possibilidades, um impulso inicial que não se compromete com a realização. "Eu preciso começar a escrever um livro" ou "Quero aprender a tocar piano" são frases que moram no limbo do que poderia ser. É a mente aberta para a escolha, mas também para a fuga. No infinitivo, o pensamento é potencialidade, mas também hesitação. Não se compromete com a sujeira do real. Fica ali, polido e perfeito como uma ideia antes de ser testada pelo mundo.

Já o gerúndio é movimento. É estar fazendo, estar sendo, estar sentindo. Ele não dá margem para o adiamento: "Estou mudando", "Estou aprendendo", "Estou construindo". A fluidez da vida aparece aqui, porque o gerúndio nos coloca dentro do processo, e o processo nunca é estático. Mas há um risco: o gerúndio também pode ser uma armadilha de continuidade infinita, um ciclo onde a ação nunca se conclui. "Estou tentando", "Estou resolvendo", "Estou esperando" — frases que indicam que algo está acontecendo, mas talvez nunca chegue a acontecer de fato.

O pensamento humano parece oscilar entre esses dois estados. Alguns filósofos construíram sistemas inteiros baseados na ideia de um pensamento no infinitivo: Platão, por exemplo, enxergava a realidade como um reflexo de um mundo ideal, uma perfeição nunca plenamente alcançada. Já pensadores como Nietzsche preferiam o gerúndio — um eterno devir, uma existência que se faz e se refaz a cada instante.

E nós? Será que pensamos mais no infinitivo, sempre projetando um futuro que nunca chega? Ou vivemos no gerúndio, presos a processos que nunca se resolvem? Talvez a resposta esteja em aprender a transitar entre os dois. Há momentos para o infinitivo — para desejar, para planejar, para conceber a ideia pura. E há momentos para o gerúndio — para agir, para experimentar, para sentir o peso do tempo nas mãos.

Pensar é, afinal, um jogo de tempos verbais. Há quem prefira permanecer na promessa, e há quem não consiga sair do fazer contínuo. Mas talvez o segredo seja encontrar a justa medida entre pensar e estar pensando — entre conceber e construir, entre ser e estar sendo.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Muleta do Ideal

Vivemos em uma sociedade que constantemente nos incentiva a perseguir ideais elevados de sucesso, beleza e felicidade. Embora esses ideais possam nos motivar a crescer e melhorar, também podem se tornar muletas que nos afastam de nossa verdadeira essência. Vamos explorar como essa busca pelo ideal pode nos distanciar de quem realmente somos, trazendo situações cotidianas para ilustrar essa dinâmica.

A Busca pelo Corpo Perfeito

Imagine alguém que passa horas na academia e segue dietas rigorosas, tudo em busca do corpo perfeito promovido pela mídia e pelas redes sociais. Esse ideal de beleza pode se tornar uma muleta, levando a pessoa a negligenciar sua saúde mental e bem-estar emocional. Em vez de se concentrar em como se sente e em sua saúde geral, essa pessoa pode ficar obcecada com a aparência externa, distanciando-se de seu verdadeiro eu.

No entanto, ao invés de se apoiar nesse ideal, é importante encontrar um equilíbrio entre o desejo de melhorar fisicamente e o reconhecimento de que a verdadeira beleza vem de dentro, da aceitação e do amor próprio.

A Carreira dos Sonhos

Outra situação comum é a busca pela carreira dos sonhos. Alguém pode se esforçar incansavelmente para subir na hierarquia corporativa, perseguindo uma posição de prestígio e altos salários. Esse ideal de sucesso profissional pode se tornar uma muleta, levando a pessoa a sacrificar relacionamentos, hobbies e até mesmo a saúde.

Ao focar apenas em alcançar essa posição ideal, a pessoa pode perder de vista o que realmente lhe traz alegria e satisfação. Encontrar um equilíbrio entre ambição e realização pessoal é crucial para não se afastar de si mesmo.

A Vida Perfeita nas Redes Sociais

Nas redes sociais, é fácil cair na armadilha de criar uma imagem de vida perfeita. Alguém pode passar horas editando fotos, escolhendo os ângulos certos e planejando postagens para manter uma aparência de felicidade constante. Esse ideal de perfeição pode se tornar uma muleta, afastando a pessoa de sua verdadeira vida e experiências autênticas.

Em vez de se concentrar em manter uma fachada perfeita, é importante lembrar que a autenticidade e as imperfeições são o que nos tornam humanos e conectam-nos verdadeiramente aos outros.

A Relação Ideal

Muitas pessoas têm uma visão idealizada do relacionamento perfeito, baseado em contos de fadas e filmes românticos. Alguém pode procurar incessantemente um parceiro que corresponda a todos os critérios dessa imagem ideal, ignorando conexões reais e imperfeitas que poderiam trazer felicidade genuína.

A busca pelo parceiro ideal pode se tornar uma muleta, afastando a pessoa de relacionamentos verdadeiros e significativos. Aceitar que nenhum relacionamento é perfeito e que as imperfeições são parte da jornada pode levar a conexões mais profundas e autênticas.

O Filósofo Fala: Jean-Paul Sartre e a Autenticidade

Jean-Paul Sartre, um dos filósofos existencialistas mais influentes, falou sobre a importância de viver uma vida autêntica e evitar a "má-fé" (self-deception). Para Sartre, ser autêntico significa reconhecer e aceitar nossa liberdade de escolha e responsabilidade por nossas ações. Ele alertava contra a tentação de se esconder atrás de ideais externos e expectativas sociais, pois isso nos afasta de nossa verdadeira essência e potencial.

A busca por ideais pode ser motivadora, mas também pode se tornar uma muleta que nos afasta de quem realmente somos. Seja na busca pelo corpo perfeito, pela carreira dos sonhos, pela vida perfeita nas redes sociais ou pelo relacionamento ideal, é importante encontrar um equilíbrio e lembrar que a autenticidade e a aceitação são fundamentais para uma vida plena e significativa.

Ao reconhecer nossas verdadeiras necessidades e desejos, podemos evitar nos perder em ideais inalcançáveis e, em vez disso, viver de maneira mais autêntica e conectada com nosso verdadeiro eu. Afinal, é na aceitação de nossas imperfeições e na busca de nossa própria verdade que encontramos a verdadeira liberdade e felicidade.


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Sombras de Tolos

"Sob a luz do dia, todos somos iguais", dizia um sábio anônimo de esquina, enquanto o sol se punha lentamente. Mas à medida que a luz se desvanece, as sombras começam a crescer, revelando o outro lado de nós mesmos, aquele que nem sempre mostramos, ou melhor, aquele que preferimos esconder.

As sombras de tolos não são apenas meros contornos alongados projetados no chão ao entardecer. Elas são reflexos de escolhas, omissões, e muitas vezes de uma persistente ignorância que se recusa a reconhecer a verdade. O tolo é aquele que, em sua cegueira voluntária, prefere a escuridão à luz, camuflando-se em uma sombra confortável que distorce a realidade.

No dia a dia, quantas vezes nos pegamos seguindo a sombra de nossas próprias inseguranças? Às vezes, agimos como tolos ao ignorar conselhos, ao nos recusarmos a aprender com os erros, ou ao não ver o óbvio que está bem diante de nós. Quantas decisões tomamos baseadas no medo de enfrentar a verdade, preferindo a segurança de uma sombra que nos protege temporariamente, mas que no final só nos aprisiona?

Um filósofo diria que a sombra do tolo é aquela que se alimenta da ignorância, cresce na arrogância e se perpetua na negação. Ela não é apenas a ausência de luz, mas a ausência de desejo pela luz. O tolo, ao invés de encarar o mundo com coragem, esconde-se atrás de sua sombra, preferindo o conforto de suas falsas certezas e que ainda acredita no mundo ideal do Instagram.

Mas nem tudo está perdido. Mesmo o tolo tem a oportunidade de sair das sombras. Basta que ele decida, com coragem, olhar para o sol e encarar a luz da verdade, mesmo que ela seja dura e ofuscante. Porque, no fim das contas, a luz é o único caminho para deixar de ser sombra, para deixar de ser tolo. Assim, quando você se encontrar hesitando, pense nas sombras que está criando. São elas reflexos de sua sabedoria ou simplesmente as sombras de um tolo?

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Eros em Solidão

 

Sábado à tarde, sentado na cafeteria, observo o movimento ao redor. Pessoas vêm e vão, conversas se entrelaçam, risos e olhares se cruzam. Em meio a esse cenário, reflito sobre a solidão e o amor — mais especificamente, sobre Eros em solidão.

Eros, o deus grego do amor e do desejo, é frequentemente retratado como uma força que une, que liga indivíduos em busca de intimidade e conexão. Porém, e quando Eros se encontra sozinho? Como ele lida com a ausência daquilo que deveria buscar incessantemente?

A solidão, muitas vezes, é vista como a antítese do amor. Mas, paradoxalmente, é na solidão que muitos encontram o verdadeiro sentido de Eros. A busca pelo amor começa dentro de nós, no espaço silencioso e introspectivo da solidão. É nesse estado que entendemos nossos desejos, anseios e o que realmente procuramos no outro.

Penso na frase de Rainer Maria Rilke: "O amor consiste em que duas solidões se protejam, se toquem e se saúdem." Rilke sugere que a verdadeira conexão amorosa nasce quando duas pessoas, conscientes de suas próprias solidões, se encontram e respeitam essa individualidade. Assim, Eros em solidão não é um estado de desespero, mas um momento de preparação e autoconhecimento.

A solidão não precisa ser temida. Ela pode ser um período frutífero para o desenvolvimento pessoal e para a compreensão do que significa amar e ser amado. É na solidão que aprendemos a apreciar a nossa própria companhia, a valorizar quem somos sem a necessidade constante da validação externa.

Penso em meus próprios momentos de solidão. Às vezes, eles surgem no meio de uma multidão, outras vezes em casa, num silêncio quase palpável. E é nesses momentos que percebo a força de Eros dentro de mim, não como um desejo desesperado por conexão, mas como uma chama tranquila que ilumina meu caminho interno.

Aristóteles dizia que "o homem é um animal social". No entanto, para que nossas interações sociais sejam significativas, precisamos primeiro entender e aceitar nossa solidão. Eros em solidão nos ensina a apreciar a nós mesmos, a cultivar uma relação saudável com quem somos, para que, quando finalmente encontrarmos o outro, possamos oferecer uma versão completa e autêntica de nós mesmos.

Enquanto tomo meu café e observo as pessoas ao redor, percebo que cada um carrega sua própria solidão, seus próprios anseios e desejos. Eros caminha entre nós, ora sozinho, ora em busca de união, sempre nos lembrando da importância de abraçar nossa própria companhia antes de nos lançarmos aos braços de outro.

A solidão não é o fim de Eros, mas o começo de uma jornada mais profunda e significativa. É um convite para mergulharmos em nós mesmos, para descobrirmos quem somos e o que realmente desejamos, para que possamos, um dia, encontrar e abraçar o outro com verdade e plenitude.

E você, já encontrou seu Eros em solidão?

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Intuição e Desejo


Você já teve aquele sentimento estranho, aquela sensação profunda de que deveria tomar uma decisão, seguir um caminho ou aceitar um desafio, mesmo quando a lógica gritava o contrário? Bem, meu amigo, isso pode ser a sua intuição dando um sinalzinho, uma espécie de farol interior iluminando o caminho na grande estrada da vida.

A intuição é como aquele amigo que sempre parece saber o que é melhor para você, mesmo quando você não tem certeza. É aquele "sexto sentido" que nos faz seguir uma corrente de pensamento que não pode ser totalmente explicada, mas que, de alguma forma, parece certa.

Agora, coloque essa intuição numa dança com a força do desejo. Imagine que o desejo é a música pulsante que guia seus passos, uma batida constante que ressoa no ritmo de seus sonhos e aspirações. Quando esses dois começam a dançar, é como se o universo estivesse conspirando para criar algo mágico.

Vamos falar de uma situação do cotidiano que muitos de nós já vivenciamos: a escolha de carreira. Suponha que você esteja preso em um trabalho que paga as contas, mas não alimenta sua paixão. Seu desejo ardente é dedicar sua vida a algo que realmente ama, como escrever ou pintar.

Então, a intuição entra em cena. Você começa a sentir aquele empurrãozinho, aquela voz suave dizendo que há algo mais lá fora para você. Mesmo que não haja garantias, sua intuição sussurra que seguir sua paixão pode ser o caminho.

A força do desejo, nesse caso, é a chama que queima dentro de você, alimentando o sonho de uma carreira mais gratificante. Cada vez que você imagina escrevendo um best-seller ou expondo suas obras de arte, sente uma onda de emoção e motivação.

Quando a intuição e o desejo começam a se entrelaçar, você pode encontrar coragem para dar o salto. Pode ser assustador abandonar a segurança do conhecido, mas é como se a intuição estivesse dizendo: "Vá em frente, siga o que faz seu coração bater mais forte."

Ao fazer essa escolha, você pode descobrir oportunidades que nunca imaginou. Talvez um editor veja seu trabalho e ofereça um contrato, ou talvez suas pinturas chamem a atenção de um galerista. É como se a dança entre intuição e desejo desbloqueasse portas que estavam esperando pacientemente por você. Claro, isso não significa que tudo será um conto de fadas. Haverá desafios, tropeços e momentos de incerteza. No entanto, a magia acontece quando a intuição e o desejo persistem, quando você escolhe continuar dançando, mesmo quando a música fica um pouco mais difícil.

Vamos ver o que um filósofo tem a dizer a respeito, um filósofo, ao abordar a interação entre intuição e desejo, poderia oferecer diversas perspectivas baseadas em diferentes correntes filosóficas. Então vamos trazer para nossas reflexões duas abordagens filosóficas distintas, uma de Arthur Schopenhauer e outra de Jean-Jacques Rousseau, para ilustrar como diferentes filósofos podem interpretar essa relação.

Arthur Schopenhauer: A Vontade e a Representação

Schopenhauer, influente filósofo alemão do século XIX, desenvolveu uma filosofia que enfatizava a "Vontade" como a força motriz subjacente a todas as coisas. Ele argumentava que a Vontade é uma força cega e irracional que impulsiona a existência. Nesse contexto, a intuição seria a manifestação imediata da Vontade. Schopenhauer poderia argumentar que a intuição é a expressão direta da Vontade, uma compreensão imediata e não mediada da realidade. No caso da força do desejo, a Vontade é a fonte primordial desse desejo, e a intuição seria a forma pela qual experimentamos e compreendemos a energia pulsante que impulsiona nossos desejos mais profundos. Ao analisar a dança entre intuição e desejo, Schopenhauer poderia sugerir que, ao seguir a intuição, estamos, de fato, capitulando diante da Vontade subjacente. Seguir nossos desejos, então, seria uma expressão da Vontade em ação, um jogo cósmico no qual a intuição é a narrativa imediata dessa força universal.

Jean-Jacques Rousseau: A Vontade Geral e a Autenticidade

Rousseau, filósofo do Iluminismo, tinha uma visão diferente, centrada na noção de "Vontade Geral" e na busca da autenticidade. Para Rousseau, a intuição poderia ser vista como a expressão pura da Vontade Geral, o desejo coletivo e autêntico da sociedade. Em termos de força do desejo, Rousseau poderia argumentar que a autenticidade de nossos desejos é crucial. Seguir a força do desejo, quando alinhada com a Vontade Geral, seria o caminho para uma existência mais plena e harmoniosa. A intuição, nesse contexto, seria o guia interior que nos conecta à Vontade Geral e nos ajuda a discernir desejos autênticos de meras convenções sociais. Portanto, para Rousseau, a dança entre intuição e desejo seria uma jornada em direção à realização pessoal e social, na medida em que nossos desejos autênticos se alinham com a Vontade Geral, levando a uma vida mais genuína e satisfatória.

Essas interpretações destacam como filósofos diferentes podem oferecer perspectivas diversas sobre a relação entre intuição e desejo, influenciadas por suas distintas visões filosóficas sobre a natureza humana e a realidade. Para cada indivíduo há uma maneira de ver oportunidades e problemas, depende obviamente da maturidade de cada um, as decisões são só nossas e a consequências também.

Então, na próxima vez que sentir aquele calorzinho no peito, aquela voz suave dizendo que há algo mais para você lá fora, preste atenção. Deixe a música do desejo guiar seus passos e permita que a intuição seja seu parceiro de dança. Quem sabe que surpresas mágicas a vida pode ter reservado para você na pista de dança do cotidiano?