Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador desumanizante. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desumanizante. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Permanecer Humano

Em tempos desumanizantes

O insight veio de algo banal. Muita coisa começa numa fila!

Eu estava numa fila qualquer — mercado, banco, farmácia, tanto faz — quando percebi que ninguém estava ali de verdade. Olhos colados no celular, respostas automáticas, impaciência silenciosa. Não havia conflito, mas também não havia presença. Foi aí que a pergunta surgiu quase sem querer: em que momento a gente começa a desaparecer sem notar?

Esse é talvez o traço mais inquietante do nosso tempo: não somos brutalmente desumanizados — somos suavemente esvaziados.

A desumanização que não grita

Quando se fala em tempos desumanizantes, imaginamos guerras, regimes autoritários, violência explícita. Tudo isso existe. Mas há algo mais sutil acontecendo no cotidiano: a normalização da indiferença.

Responder mensagens como quem cumpre tarefas.

Ouvir alguém sem realmente escutar.

Avaliar pessoas como produtos — úteis, descartáveis, eficientes ou não.

No trabalho, por exemplo, somos cada vez mais “recursos humanos”. O vocabulário já denuncia a lógica: recurso se usa, se otimiza, se substitui. Pouco importa o cansaço invisível, a angústia que não cabe em planilhas, o silêncio que ninguém pergunta se está pesado demais.

Permanecer humano, aqui, não é um discurso moral elevado. É quase um ato de resistência cotidiana.

Eficiência contra presença

Vivemos sob a tirania da eficiência. Tudo precisa ser rápido, produtivo, mensurável. Mas o humano raramente cabe nessas métricas.

Uma conversa que se alonga “demais”.

Um erro que exige compreensão, não punição imediata.

Um luto que não respeita prazos corporativos.

Ser humano é, muitas vezes, ser improdutivo aos olhos do sistema. E talvez por isso a humanidade incomode tanto: ela atrasa, complica, exige cuidado.

No ônibus lotado, quando alguém oferece o lugar sem olhar para o relógio.

Na escola, quando um professor percebe que o aluno não está desatento, mas triste.

Em casa, quando o silêncio de alguém é respeitado, e não preenchido à força.

Esses gestos parecem pequenos, mas são fraturas na lógica desumanizante.

O risco da anestesia

O maior perigo não é a crueldade explícita, mas a anestesia. Quando tudo vira “normal”. Quando a violência simbólica vira ruído de fundo.

Notícias trágicas consumidas entre um café e outro.

Humilhações disfarçadas de piadas.

Desigualdades justificadas como “mérito”.

Aos poucos, a sensibilidade vai sendo tratada como fraqueza. Sentir demais vira defeito. Questionar demais vira incômodo.

Mas permanecer humano exige exatamente o contrário: não se acostumar.

Não se acostumar com a pressa que atropela pessoas.

Não se acostumar com a lógica que transforma vidas em números.

Não se acostumar consigo mesmo quando começa a agir no automático.

Humanidade como escolha diária

Ser humano não é um estado garantido; é uma escolha renovada todos os dias. Uma escolha que cansa, porque exige atenção.

É mais fácil ignorar.

É mais fácil se adaptar.

É mais fácil endurecer.

Mas toda vez que endurecemos para sobreviver, algo em nós se perde. E o paradoxo é cruel: sobrevivemos, mas diminuímos.

Permanecer humano não é ser ingênuo, nem romântico. É saber que o mundo pode ser áspero sem permitir que isso nos transforme em superfície fria.

No fim, algo muito simples

Talvez permanecer humano, em tempos desumanizantes, seja isso:

Olhar alguém nos olhos, mesmo quando ninguém pede.

Escutar sem transformar tudo em resposta.

Aceitar que nem tudo precisa ser otimizado.

Preservar espaços de silêncio, de dúvida, de cuidado.

Num mundo que insiste em nos tornar funcionais, continuar sensível é um gesto profundamente filosófico.

E talvez, no fundo, seja o último território onde ainda somos inteiros.