Em tempos desumanizantes
O insight veio de algo banal. Muita
coisa começa numa fila!
Eu estava numa fila qualquer —
mercado, banco, farmácia, tanto faz — quando percebi que ninguém estava ali de
verdade. Olhos colados no celular, respostas automáticas, impaciência
silenciosa. Não havia conflito, mas também não havia presença. Foi aí que a
pergunta surgiu quase sem querer: em que momento a gente começa a
desaparecer sem notar?
Esse é talvez o traço mais
inquietante do nosso tempo: não somos brutalmente desumanizados — somos suavemente
esvaziados.
A desumanização que não grita
Quando se fala em tempos
desumanizantes, imaginamos guerras, regimes autoritários, violência explícita.
Tudo isso existe. Mas há algo mais sutil acontecendo no cotidiano: a
normalização da indiferença.
Responder mensagens como quem cumpre
tarefas.
Ouvir alguém sem realmente escutar.
Avaliar pessoas como produtos —
úteis, descartáveis, eficientes ou não.
No trabalho, por exemplo, somos cada
vez mais “recursos humanos”. O vocabulário já denuncia a lógica: recurso se
usa, se otimiza, se substitui. Pouco importa o cansaço invisível, a angústia
que não cabe em planilhas, o silêncio que ninguém pergunta se está pesado
demais.
Permanecer humano, aqui, não é um
discurso moral elevado. É quase um ato de resistência cotidiana.
Eficiência contra presença
Vivemos sob a tirania da eficiência.
Tudo precisa ser rápido, produtivo, mensurável. Mas o humano raramente cabe
nessas métricas.
Uma conversa que se alonga “demais”.
Um erro que exige compreensão, não
punição imediata.
Um luto que não respeita prazos
corporativos.
Ser humano é, muitas vezes, ser
improdutivo aos olhos do sistema. E talvez por isso a humanidade incomode
tanto: ela atrasa, complica, exige cuidado.
No ônibus lotado, quando alguém
oferece o lugar sem olhar para o relógio.
Na escola, quando um professor
percebe que o aluno não está desatento, mas triste.
Em casa, quando o silêncio de alguém
é respeitado, e não preenchido à força.
Esses gestos parecem pequenos, mas
são fraturas na lógica desumanizante.
O risco da anestesia
O maior perigo não é a crueldade
explícita, mas a anestesia. Quando tudo vira “normal”. Quando a violência
simbólica vira ruído de fundo.
Notícias trágicas consumidas entre um
café e outro.
Humilhações disfarçadas de piadas.
Desigualdades justificadas como
“mérito”.
Aos poucos, a sensibilidade vai sendo
tratada como fraqueza. Sentir demais vira defeito. Questionar demais vira
incômodo.
Mas permanecer humano exige
exatamente o contrário: não se acostumar.
Não se acostumar com a pressa que
atropela pessoas.
Não se acostumar com a lógica que transforma
vidas em números.
Não se acostumar consigo mesmo quando
começa a agir no automático.
Humanidade como escolha diária
Ser humano não é um estado garantido;
é uma escolha renovada todos os dias. Uma escolha que cansa, porque exige
atenção.
É mais fácil ignorar.
É mais fácil se adaptar.
É mais fácil endurecer.
Mas toda vez que endurecemos para
sobreviver, algo em nós se perde. E o paradoxo é cruel: sobrevivemos, mas
diminuímos.
Permanecer humano não é ser ingênuo,
nem romântico. É saber que o mundo pode ser áspero sem permitir que isso nos
transforme em superfície fria.
No fim, algo muito simples
Talvez permanecer humano, em tempos
desumanizantes, seja isso:
Olhar alguém nos olhos, mesmo quando
ninguém pede.
Escutar sem transformar tudo em
resposta.
Aceitar que nem tudo precisa ser
otimizado.
Preservar espaços de silêncio, de
dúvida, de cuidado.
Num mundo que insiste em nos tornar
funcionais, continuar sensível é um gesto profundamente filosófico.
E talvez, no fundo, seja o último
território onde ainda somos inteiros.

