Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador endurecer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador endurecer. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Transfigurações


Há dias em que nada muda — e, ainda assim, tudo mudou. A camisa é a mesma, o caminho também, as pessoas repetem seus papéis. Mas alguma coisa atravessou o cenário e saiu do outro lado com outro nome. Não foi revolução, foi transfiguração. Não um salto heroico, mas um deslocamento quase invisível: o mesmo rosto, outra leitura. Assim foi minha quarta-feira, meio de semana, num dia quente mais para verão que primavera em seu finalzinho, quase se despedindo, estou novamente no fluxo do calor dezembrino, entre livros e enfeites do Natal que se aproxima, eis-me aqui, juntando palavras.

O que muda quando nada muda

A filosofia sempre desconfiou das mudanças espetaculares. Heráclito, com seu rio, não falava de turbulência, mas de fluxo: a água passa, o leito permanece — e, mesmo assim, o rio já é outro. Transfiguração não é trocar de coisa; é trocar de forma de ser da coisa.
No cotidiano, isso acontece quando o trabalho que antes era só trabalho vira ofício; quando a casa deixa de ser abrigo e vira memória; quando uma amizade antiga, sem aviso, passa a exigir outro tipo de silêncio. A matéria permanece, a forma muda.

Gilbert Simondon ajuda a entender: os indivíduos não estão prontos; estão sempre em processo de individuação. Não somos “algo” que depois muda; somos mudança que, por um tempo, parece algo. A transfiguração é esse momento em que o processo fica visível.

 

Situações comuns, efeitos raros

No ônibus: o mesmo trajeto de sempre. Um dia, você não está atrasado. O mundo desacelera. O barulho vira ritmo. O ônibus é outro? Não. Você é.

Numa conversa familiar: a frase é idêntica à de anos atrás, mas agora fere — ou consola. A palavra não mudou; o ouvido, sim.

No erro repetido: a primeira vez é tropeço, a segunda é hábito, a terceira é sinal. Quando o erro se transfigura em mensagem, ele deixa de ser falha e vira linguagem.

Aqui, Clarice Lispector sussurra: “mudar não é melhorar”. Às vezes é apenas ver. A transfiguração não promete progresso; promete verdade momentânea.

 

Entre identidade e máscara

Costumamos pensar que mudar é trair quem somos. Mas e se a identidade for uma sequência de máscaras honestas? Guimarães Rosa dizia que o real não está na saída nem na chegada, mas na travessia. Transfigurar-se é atravessar sem perder o passo — aceitar que o “eu” é um verbo no gerúndio.

Há uma ética nisso. Resistir à transfiguração é endurecer. Aceitá-la é aprender a responder ao mundo sem exigir que ele se repita.

O instante em que algo se revela

Na tradição religiosa, a transfiguração é luz súbita. Na vida comum, é penumbra paciente. Um dia, você percebe que perdoou. Outro, que não deseja mais aquilo que defendia com unhas. Não houve anúncio. Houve maturação.

Maurice Merleau-Ponty diria que o sentido emerge do corpo em situação. Ou seja: a transfiguração não acontece “na cabeça”, mas no modo como o corpo habita o mundo. Caminhar diferente já é pensar diferente.

Então, vou concluindo (sem final fechado)

Transfigurações não pedem aplauso. Elas acontecem quando a pressa cede, quando o hábito falha, quando a certeza racha. São mudanças sem marketing, sem antes e depois para postar.

Talvez viver seja isso: aprender a reconhecer o momento exato em que algo — ainda com o mesmo nome — já não é mais o mesmo. E não tentar desfazer o encanto. Finalizando admirando a arvore de Natal com suas luzes piscando, com reflexos nas bolas coloridas de outros Natais.