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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Vaidade de Vaidades

Tudo é Vaidade!

A frase “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” ecoa como um suspiro antigo que atravessa os séculos. Ela vem do livro bíblico Eclesiastes, tradicionalmente atribuído a Salomão — embora o texto em si carregue uma voz quase anônima, como se fosse a própria experiência humana falando depois de ter visto demais.

A palavra “vaidade”, aqui, engana quem a lê com pressa. Não se trata apenas de orgulho ou narcisismo. O termo hebraico original, hevel, significa algo como “vapor”, “sopro”, “névoa”. Aquilo que aparece… e logo desaparece. Aquilo que não se consegue segurar.

Então, quando o texto diz que tudo é vaidade, não está necessariamente condenando a vida — está revelando sua natureza escorregadia.

É como aquele momento em que você conquista algo que parecia essencial: um reconhecimento, um objeto desejado, uma meta finalmente alcançada. Por alguns instantes, há um brilho. Mas logo ele se dilui. E o que parecia sólido começa a se mostrar… transitório. Como se a realidade tivesse uma leve ironia embutida.

O autor de Eclesiastes parece alguém que já percorreu todos os caminhos possíveis: prazer, sabedoria, trabalho, riqueza. E, no fim, retorna com uma constatação desconcertante — nada disso se sustenta por si só. Tudo passa. Tudo escapa. Tudo é “hevel”.

Mas há uma sutileza aqui que costuma ser ignorada: essa percepção não precisa levar ao desespero. Pode, ao contrário, produzir um tipo raro de lucidez.

Se tudo é vapor, então talvez o erro não esteja nas coisas… mas na forma como tentamos agarrá-las.

O filósofo Arthur Schopenhauer, séculos depois, diria algo semelhante: a vida oscila entre o desejo e o tédio. Quando não temos, sofremos; quando temos, esvazia-se o sentido. E assim seguimos, correndo atrás de algo que nunca se fixa.

Mas e se a frase de Eclesiastes não for um veredito final, e sim um convite?

Um convite para mudar o olhar.

Talvez a vida não seja feita para ser possuída, mas atravessada. Talvez o valor não esteja em fixar o instante, mas em reconhecê-lo enquanto passa. Há uma espécie de liberdade estranha nisso: quando se aceita que tudo é transitório, algo dentro de nós deixa de exigir permanência das coisas — e começa a experimentá-las com mais presença.

Curiosamente, o mesmo livro que declara que tudo é vaidade também aconselha: comer, beber e aproveitar o trabalho — não como quem constrói algo eterno, mas como quem participa de um fluxo.

No fundo, a frase não destrói o sentido da vida. Ela destrói apenas as ilusões rígidas sobre onde esse sentido deveria estar.

E talvez seja justamente aí, nesse espaço mais leve, menos agarrado… que algo verdadeiro possa, enfim, aparecer.


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