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domingo, 14 de junho de 2026

Incivilidade Crassa


Tem dias em que eu entro numa cafeteria — dessas comuns, de esquina — e fico só observando. Não é nem pelo café, embora ele ajude. É mais pelo teatro silencioso das pessoas. E foi ali, entre uma xícara e outra, que a tal da incivilidade crassa começou a me incomodar de verdade.

Não é aquela falta de educação leve, quase desculpável. Não. É algo mais duro, mais escancarado. Tipo o sujeito que fala alto ao telefone como se estivesse sozinho no mundo, ou alguém que trata o garçom com uma mistura de pressa e desprezo — como se o outro fosse um detalhe descartável da cena.

E o curioso é que isso não acontece só em momentos de tensão. Às vezes surge no cotidiano mais banal: na fila do mercado, no trânsito, numa conversa entre conhecidos. É como se a delicadeza tivesse sido aposentada sem aviso prévio.

Eu fico pensando se isso é pressa. Ou pior: se é indiferença.

Lembro de Sérgio Buarque de Holanda, quando ele fala do “homem cordial”. Muita gente entende errado — acha que cordialidade é gentileza automática. Mas não. Ele dizia que o brasileiro age muito pelo coração, pelas emoções. E aí está o risco: quando o coração se fecha ou se irrita, a cordialidade vira o oposto — vira explosão, descaso, incivilidade sem filtro.

A incivilidade crassa talvez seja isso: um coração que já não se regula pela presença do outro.

E tem um detalhe incômodo — ela raramente vem sozinha. Ela contamina. Um gesto bruto chama outro. Um comentário atravessado abre espaço para respostas ainda piores. De repente, o ambiente inteiro muda de temperatura, como se alguém tivesse baixado a qualidade invisível do ar.

Já percebi isso no trânsito. Basta um motorista agir como se tivesse mais direito que os outros. Em segundos, surge uma corrente de irritação: buzinas, xingamentos, disputas inúteis. Ninguém ganha, mas todos participam.

O mais estranho é que a incivilidade crassa não exige inteligência, nem coragem. Pelo contrário — ela é quase automática. Um reflexo. Um tipo de preguiça moral.

Ser civilizado, no fundo, dá mais trabalho.

Exige um pequeno esforço de imaginação: reconhecer que o outro também sente, também cansa, também existe. Exige freio. Exige pausa. Coisas que o nosso tempo anda tratando como luxo.

E aí, naquela cafeteria, eu percebo uma coisa simples: ainda existem pequenos gestos que vão na contramão disso tudo. Um “obrigado” dito com atenção. Alguém que segura a porta. Um olhar que reconhece.

São gestos mínimos, quase invisíveis. Mas talvez sejam eles que seguram o mundo no lugar.

Porque quando a incivilidade deixa de ser exceção e vira regra, o que se perde não é só a educação.

É a possibilidade de convivência.


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