Tem algo
curioso acontecendo quando a semana de jogos da Copa começa.
De
repente, o vizinho que mal dá bom dia vira comentarista tático. O bar da
esquina ganha vida própria. A rua se pinta de cores, e até quem diz não ligar
muito acaba, no mínimo, sabendo o horário do jogo. Não é só futebol — é como se
o tempo cotidiano abrisse um parêntese.
E é
justamente aí que mora a ambiguidade.
O
intervalo dentro da realidade
A Copa
do Mundo FIFA não interrompe a realidade — ela a reorganiza. Durante alguns
dias, o foco coletivo se desloca. Aquilo que parecia urgente (crises políticas,
escândalos, desigualdades) não desaparece, mas perde centralidade na
experiência imediata.
Aqui, a
crítica clássica entra em cena: a ideia de alienação.
O
pensador Karl Marx via a alienação como um afastamento do indivíduo em
relação às condições reais de sua existência. Já Guy Debord, séculos
depois, atualiza isso com a noção de espetáculo — não apenas distração, mas uma
mediação da realidade por imagens que substituem a experiência direta.
Mas há
um detalhe que costuma escapar:
nem todo
afastamento é perda. Às vezes, é suspensão.
A função
do desvio
Se a
vida social fosse uma linha reta contínua de consciência crítica, ela
provavelmente se tornaria insuportável.
O ser
humano não vive apenas de lucidez — vive também de respiros.
Nesse
sentido, o evento esportivo funciona como uma espécie de “válvula
simbólica”. Não no sentido simplista de manipulação, mas como um
mecanismo quase antropológico: comunidades sempre criaram rituais para deslocar
a tensão acumulada. Festas, jogos, celebrações — tudo isso já existia muito
antes de qualquer projeto político moderno.
O que
muda hoje é a escala e a mediação.
Entre
ritual e espetáculo
Quando
milhares (ou milhões) vibram ao mesmo tempo por um gol, não estamos apenas
diante de um espetáculo imposto — estamos diante de um ritual emergente.
O
filósofo Émile Durkheim chamaria isso de “efervescência coletiva”:
momentos em que o indivíduo se dissolve no grupo e experimenta algo maior que
si mesmo. Não é alienação no sentido de perda — é fusão.
Mas aqui
está a tensão central:
- O ritual une.
- O espetáculo pode anestesiar.
E, na
Copa, os dois coexistem.
O
esquecimento como sintoma
A ideia
de que “o povo precisa esquecer” talvez diga mais sobre a estrutura da
vida cotidiana do que sobre o evento em si.
Por que
esquecer se torna necessário?
Talvez
porque a realidade, em sua forma bruta, esteja saturada de frustração,
impotência e repetição. Nesse contexto, o futebol não cria o esquecimento — ele
o torna visível, legítimo, compartilhado.
E isso
muda tudo.
Esquecer
sozinho é fuga.
Esquecer
junto é experiência.
Nem
fuga, nem redenção
Reduzir
a Copa a alienação é tão pobre quanto tratá-la como pura celebração inocente.
Ela é,
na verdade, um espelho ampliado:
- revela o desejo de pertencimento,
- expõe a necessidade de pausa,
- e evidencia o quanto a vida cotidiana, por
si só, talvez não esteja sendo suficiente.
No fim,
a pergunta não é se o futebol distrai.
A
pergunta mais incômoda é outra:
o que na
realidade faz com que tanta gente precise — ou queira — ser distraída ao mesmo
tempo?
E talvez
a resposta, se vier, não esteja no campo… mas fora dele.
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