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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Transfigurações


Há dias em que nada muda — e, ainda assim, tudo mudou. A camisa é a mesma, o caminho também, as pessoas repetem seus papéis. Mas alguma coisa atravessou o cenário e saiu do outro lado com outro nome. Não foi revolução, foi transfiguração. Não um salto heroico, mas um deslocamento quase invisível: o mesmo rosto, outra leitura. Assim foi minha quarta-feira, meio de semana, num dia quente mais para verão que primavera em seu finalzinho, quase se despedindo, estou novamente no fluxo do calor dezembrino, entre livros e enfeites do Natal que se aproxima, eis-me aqui, juntando palavras.

O que muda quando nada muda

A filosofia sempre desconfiou das mudanças espetaculares. Heráclito, com seu rio, não falava de turbulência, mas de fluxo: a água passa, o leito permanece — e, mesmo assim, o rio já é outro. Transfiguração não é trocar de coisa; é trocar de forma de ser da coisa.
No cotidiano, isso acontece quando o trabalho que antes era só trabalho vira ofício; quando a casa deixa de ser abrigo e vira memória; quando uma amizade antiga, sem aviso, passa a exigir outro tipo de silêncio. A matéria permanece, a forma muda.

Gilbert Simondon ajuda a entender: os indivíduos não estão prontos; estão sempre em processo de individuação. Não somos “algo” que depois muda; somos mudança que, por um tempo, parece algo. A transfiguração é esse momento em que o processo fica visível.

 

Situações comuns, efeitos raros

No ônibus: o mesmo trajeto de sempre. Um dia, você não está atrasado. O mundo desacelera. O barulho vira ritmo. O ônibus é outro? Não. Você é.

Numa conversa familiar: a frase é idêntica à de anos atrás, mas agora fere — ou consola. A palavra não mudou; o ouvido, sim.

No erro repetido: a primeira vez é tropeço, a segunda é hábito, a terceira é sinal. Quando o erro se transfigura em mensagem, ele deixa de ser falha e vira linguagem.

Aqui, Clarice Lispector sussurra: “mudar não é melhorar”. Às vezes é apenas ver. A transfiguração não promete progresso; promete verdade momentânea.

 

Entre identidade e máscara

Costumamos pensar que mudar é trair quem somos. Mas e se a identidade for uma sequência de máscaras honestas? Guimarães Rosa dizia que o real não está na saída nem na chegada, mas na travessia. Transfigurar-se é atravessar sem perder o passo — aceitar que o “eu” é um verbo no gerúndio.

Há uma ética nisso. Resistir à transfiguração é endurecer. Aceitá-la é aprender a responder ao mundo sem exigir que ele se repita.

O instante em que algo se revela

Na tradição religiosa, a transfiguração é luz súbita. Na vida comum, é penumbra paciente. Um dia, você percebe que perdoou. Outro, que não deseja mais aquilo que defendia com unhas. Não houve anúncio. Houve maturação.

Maurice Merleau-Ponty diria que o sentido emerge do corpo em situação. Ou seja: a transfiguração não acontece “na cabeça”, mas no modo como o corpo habita o mundo. Caminhar diferente já é pensar diferente.

Então, vou concluindo (sem final fechado)

Transfigurações não pedem aplauso. Elas acontecem quando a pressa cede, quando o hábito falha, quando a certeza racha. São mudanças sem marketing, sem antes e depois para postar.

Talvez viver seja isso: aprender a reconhecer o momento exato em que algo — ainda com o mesmo nome — já não é mais o mesmo. E não tentar desfazer o encanto. Finalizando admirando a arvore de Natal com suas luzes piscando, com reflexos nas bolas coloridas de outros Natais.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Erros Repetidos


Já reparou como, muitas vezes, continuamos a cometer os mesmos erros, mesmo sabendo das consequências? Seja na vida profissional, nos relacionamentos ou nas pequenas decisões do dia a dia, parece que estamos presos a um padrão que se repete incessantemente.

O que nos leva a isso não é apenas distração ou falta de atenção, mas a tendência humana de agir por hábito, emoção ou medo de mudança. Às vezes, preferimos o conhecido, mesmo que ele nos cause dor, do que enfrentar o incerto que poderia nos levar a resultados melhores.

Mas esses erros repetidos não aparecem à toa. Eles são sinais, alertas que nos mostram onde precisamos refletir, aprender e ajustar. Cada tropeço contém uma lição: talvez seja hora de mudar a abordagem, questionar nossas motivações ou abrir mão de certezas que nos prendem.

No cotidiano, por experiência pessoal, isso se manifesta de formas simples: insistir em relações tóxicas, procrastinar tarefas importantes ou reagir impulsivamente a situações familiares. O desafio é reconhecer o padrão antes que ele se torne hábito e, então, agir conscientemente para quebrá-lo.

Um pensador moderno comentou certa vez: “Errar é humano, repetir é oportunidade”. A ideia é enxergar nossos próprios erros como espelhos que nos mostram o que precisa ser transformado, em vez de apenas nos culparmos.

No fim, a repetição dos erros não é um castigo, mas um convite à consciência. Cada escolha consciente nos aproxima de uma vida mais equilibrada e significativa — basta estarmos atentos ao que o passado insiste em nos ensinar.

sábado, 8 de novembro de 2025

Movimento é Vida


Não estamos vivos quando estamos parados. Estamos vivos quando algo se move: o coração, o sangue, os olhos, os pensamentos. Até a saudade se move dentro da gente. O corpo pode estar sentado, mas se o pensamento viaja, estamos em movimento.

Na rotina, o movimento é o que distingue os dias. Uma caminhada até a padaria, uma mudança de humor, uma mudança de opinião — tudo isso é movimento. Há quem tenha medo de mudar, mas mesmo parado, o mundo se move. E quem resiste demais ao movimento corre o risco de endurecer por dentro. Eu gosto de fazer tarefas de idas a rua, ir ao mundo, viajar, gosto de me movimentar.

Heráclito diria que não se entra duas vezes no mesmo rio. Parmênides, por outro lado, talvez retrucasse que o rio nem sequer muda — o que é, é; e o que muda, não é. E entre esses dois extremos, vivemos nós, seres que sentimos tudo mudar o tempo todo, mas que, ao mesmo tempo, procuramos alguma permanência.

Heráclito via a realidade como um fluxo contínuo. Tudo escorre, tudo se transforma. Viver, para ele, é estar em movimento. Já Parmênides via o movimento como ilusão: se algo muda, deixa de ser aquilo que era, e portanto, não é mais. Para ele, a verdade está na imobilidade do ser.

Mas o cotidiano nos oferece uma síntese silenciosa desses dois: sentimos o tempo passar, mas mantemos lembranças; mudamos de opinião, mas guardamos uma identidade; crescemos, mas ainda somos. A vida é movimento, sim — mas um movimento com traços de permanência. Um rosto que envelhece ainda guarda o brilho do olhar da infância. Uma rua antiga muda de nome, mas continua sendo "a rua da minha avó".

Nietzsche dizia que devemos viver como dançarinos, com leveza e ritmo. E a dança, claro, é movimento — com consciência, com entrega. Não é à toa que, quando tristes, procuramos movimento: mudamos os móveis, saímos de casa, trocamos de roupa, ouvimos música. Mover-se é resistir ao fim.

Movimento é vida, mas talvez seja ainda mais: é a vida tentando permanecer sendo ela mesma enquanto muda. E isso, por si só, é maravilhoso.


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Zaratustra

Zaratustra desce da montanha

Dizem que toda boa filosofia começa com uma caminhada. No caso de Zaratustra, personagem criado por Friedrich Nietzsche, tudo começa com uma descida. Ele viveu dez anos no alto da montanha, em silêncio, refletindo, até que um dia resolveu descer. Por quê? Porque tinha algo a dizer. Mas o que ele diz não é fácil de ouvir — e por isso quase ninguém entende.

Zaratustra de Nietzsche não vem ensinar o caminho para o céu, mas para a terra. Ele não fala de pecado, redenção ou moral absoluta. Ele vem anunciar que Deus está morto — uma metáfora poderosa, que aponta para o fim das certezas religiosas que por séculos sustentaram a cultura ocidental. A morte de Deus significa que os velhos valores não nos servem mais. E agora?

Agora, diz Zaratustra, é preciso criar novos valores. É preciso tornar-se além-do-homem (Übermensch), alguém que não vive segundo mandamentos prontos, mas que se arrisca a ser autor da própria existência.

 

Na prática, o que isso significa?

Significa, por exemplo, sair de casa todo dia e enfrentar o mundo sem o consolo fácil de que “tudo vai dar certo porque Deus quis assim”. Significa encarar o absurdo do trânsito, da fila do banco, do chefe autoritário, sem esperar recompensa no céu, mas tentando fazer algo significativo agora, neste mundo.

Zaratustra diria a alguém que odeia seu trabalho: “Então crie outro. Ou pelo menos encontre uma forma de dizer sim à sua vida, mesmo quando ela parece sem sentido.” Dificilmente ele recomendaria paciência passiva. Ele incentivaria a coragem de criar sentido, mesmo no caos.

 

O eterno retorno das pequenas coisas

Outro conceito forte que aparece na obra é o eterno retorno. Imagine viver a sua vida exatamente como ela é — com todos os erros, medos e repetições — eternamente. Você suportaria isso? Mais ainda: você amaria isso?

Nietzsche usa essa ideia para testar o quanto afirmamos a vida. Não basta suportá-la — o desafio é abraçá-la. É como lavar louça, cuidar de filho, receber críticas ou enfrentar o fim de um relacionamento e, ainda assim, dizer: “Sim, eu escolho isso de novo.” É pesado — mas também é libertador.

 

Zaratustra como poema filosófico

Assim Falou Zaratustra não é um tratado, nem um ensaio tradicional. Nietzsche escolhe uma forma híbrida: mistura de fábula, evangelho, poesia e tragédia grega. O resultado é um texto simbólico, cheio de repetições rítmicas, imagens potentes e uma linguagem que às vezes soa profética, às vezes enigmática.

O próprio Nietzsche dizia que não havia “filosofia sem estilo” — e em Zaratustra ele colocou tudo o que sabia sobre ritmo, metáfora e provocação. O livro é cheio de capítulos curtos com títulos sugestivos como “Das três metamorfoses”, “Do novo ídolo”, “Do arrependimento” ou “Da visão e do enigma”. Cada um é quase um sermão — mas um sermão que desobedece todos os moldes religiosos.

 

A linguagem como desafio

O estilo elevado, poético, muitas vezes simbólico, tem um efeito curioso: ao invés de facilitar a compreensão, ele obriga o leitor a se envolver mais. É como se Nietzsche quisesse testar nossa disposição para o pensamento. Ele não explica — ele provoca. Ele não ensina — ele inquieta.

E por isso o livro é, muitas vezes, mal interpretado. Quem lê esperando regras claras ou frases prontas de autoajuda pode se frustrar. Zaratustra não quer que você acredite nele, quer que você se transforme ao lê-lo.

 

Entre o sagrado e o subversivo

O tom de escritura sagrada que permeia o texto — com repetições, ritmo oracular, e até certa solenidade — não é acidental. Nietzsche ironiza a forma dos evangelhos, mas não para ridicularizá-los. Ele usa esse tom para dar peso às suas ideias, como se dissesse: “Aqui está um novo evangelho — não de salvação, mas de superação”.

Zaratustra é, assim, um falso profeta — ou melhor, um anti-profeta, que fala como os antigos mestres espirituais, mas ao invés de oferecer redenção, oferece um espelho. Quem lê Zaratustra vê a si mesmo — e nem sempre gosta do que vê.

 

Leitura que se repete — e que muda com o tempo

Há algo curioso em Assim Falou Zaratustra: ele muda a cada leitura. Há dias em que parece um delírio, outros em que parece uma revelação. Às vezes incompreensível, às vezes luminoso. Isso porque a linguagem, como a própria vida, está cheia de camadas.

Zaratustra exige um leitor disposto a retornar, a reler, a tropeçar nas palavras como quem tropeça em verdades que ainda não pode compreender. Nietzsche escreve para o futuro — e para leitores que ainda não nasceram, como ele mesmo dizia.

 

Zaratustra como estilo de vida

Zaratustra desceu da montanha porque sabia que viver é risco. Que viver com autenticidade é mais difícil do que seguir regras. E que, no fundo, cada um de nós é responsável por construir o valor das próprias ações.

O estilo literário de Assim Falou Zaratustra não é apenas uma estética: ele é um convite a viver de outro modo. A ler com coragem, a pensar sem muletas, a enfrentar a ambiguidade das palavras como quem enfrenta o abismo de si mesmo.

Nietzsche, por meio de Zaratustra, escreve como quem sopra brasas num mundo que já achava estar apagado. E talvez o papel do leitor seja este: não apagar esse fogo com explicações apressadas, mas deixá-lo arder — e, quem sabe, iluminar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Regularidades nas Mudanças

O Compasso Oculto na Formação da Consciência

A consciência não se forma num instante único, nem cresce como uma linha reta rumo à clareza. Ela pulsa. Alterna. Expande-se e recolhe-se, como marés. Cada pessoa que tenta lembrar “quando começou a perceber o mundo” descobre que não houve um ponto inaugural, mas uma sequência de despertares — cada um diferente, mas misteriosamente familiar. A isso podemos chamar regularidades nas mudanças: um fio invisível que une o que muda e o que permanece.

Na formação da consciência, essas regularidades funcionam como marcos de navegação. A criança que aprende a falar experimenta uma revolução, mas repete algo que todas as crianças já viveram: o momento em que o som se transforma em palavra. O adolescente que questiona regras sente-se único, mas percorre uma curva já traçada por incontáveis outros. Há uma cadência nesses rompimentos: cada avanço vem acompanhado de desconforto, cada desconforto gera reorganização, cada reorganização redefine o “eu”.

O curioso é que essas regularidades não são externas como o calendário ou o relógio — elas habitam o próprio ritmo do pensamento. Mesmo quando acreditamos agir ao acaso, a consciência parece ter um padrão de maturação, como se houvesse um arquiteto silencioso que projeta fases de crise, momentos de revelação e períodos de assimilação.

O filósofo N. Sri Ram sugeria que o despertar da consciência é como a abertura gradual de uma flor: não por pressa, mas por uma necessidade interna de seguir um ciclo de expansão. Para ele, a mudança não é uma ruptura com o passado, mas um aprofundamento daquilo que já estava latente. É nesse sentido que a consciência se constrói — mudando para se tornar mais fiel a si mesma.

Essa espiral de mudanças regulares se manifesta ao longo de toda a vida. Na infância, cada nova habilidade — andar, falar, nomear o mundo — é uma revolução que, paradoxalmente, cumpre um roteiro biológico e psíquico já inscrito. Na juventude, a consciência experimenta um ciclo de expansões e frustrações: o impulso de romper padrões convive com a necessidade de encontrar um lugar no mundo, e cada ruptura é seguida por uma busca de novo equilíbrio. Na maturidade, a espiral não cessa; apenas muda de cadência. O que antes era aprendizado por experimentação torna-se aprendizado por síntese, e as crises já não são apenas choques externos, mas diálogos internos que pedem redefinição de sentido.

Talvez seja essa a regularidade mais profunda: mudamos para permanecer. E permanecemos para poder mudar. A formação da consciência, vista assim, não é uma linha reta nem um caos, mas uma espiral — ela passa pelos mesmos pontos, mas sempre em um nível mais alto. É a dança de reconhecer, na novidade, o eco de algo que já sabíamos sem saber.


sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Convicções Estanques

A Prisão do Certeiro

Há pessoas que caminham pela vida com certezas de ferro. Suas opiniões não mudam, suas ideias parecem eternas, e qualquer questionamento soa como ofensa pessoal. São as chamadas convicções estanques, aquelas que não se deixam atravessar pelo tempo, nem pela experiência, nem pelo diálogo. À primeira vista, parecem força e segurança; mas, vistas mais de perto, revelam uma rigidez que se confunde com fragilidade.

No cotidiano, encontramos esse fenômeno a todo instante. O colega de trabalho que repete, há anos, as mesmas fórmulas “infalíveis”, mesmo quando o contexto mudou. O vizinho que insiste que “sempre foi assim” para justificar tradições que já não fazem sentido. Ou ainda a pessoa que, em um debate, não ouve o argumento do outro, porque não procura aprender — apenas confirmar o que já pensa. A convicção estanque é como uma parede: sólida, mas incapaz de deixar passar o ar.

A filósofa brasileira Marilena Chaui lembra que a filosofia nasce do espanto e da dúvida. Nesse sentido, convicções que não se movem são o oposto do exercício filosófico: elas fecham o horizonte em vez de abri-lo. Para ela, a democracia, por exemplo, só se fortalece quando aceitamos que nenhuma verdade é absoluta, e que todo saber precisa ser revisado à luz do diálogo e da experiência coletiva.

As convicções estanques, porém, oferecem um conforto tentador. No meio da incerteza do mundo, agarrar-se a uma crença rígida dá sensação de firmeza. É por isso que tantas pessoas preferem o dogma à reflexão, a resposta pronta à pergunta incômoda. Mas esse conforto cobra um preço: impede a transformação. Quem se tranca nas próprias certezas não vê o movimento da vida e corre o risco de se tornar estrangeiro dentro do próprio tempo.

No Brasil, vemos isso na polarização política e social. Convicções rígidas se tornam bandeiras que dividem famílias, amizades, comunidades. O diálogo é trocado por slogans; o pensamento crítico, por certezas impermeáveis. O resultado é um empobrecimento coletivo: não crescemos no encontro, mas nos enclausuramos no espelho de nós mesmos.

Talvez seja hora de recuperar a humildade filosófica: reconhecer que nossas convicções podem ser revisadas, que a mudança não é fraqueza, mas sinal de vitalidade. Afinal, a vida não é estanque; é fluxo. E convicções que não respiram acabam sufocando quem as sustenta.


domingo, 6 de julho de 2025

Heráclito e a Dialética


Heráclito de Éfeso, pensador do século VI a.C., é frequentemente lembrado pela máxima “tudo flui” (pánta rheî), indicando que tudo está em constante transformação. A partir desse princípio, podemos entender que Heráclito ofereceu uma das sementes mais antigas daquilo que viria a ser, séculos depois, desenvolvido como dialética.

O conflito como motor da realidade

Heráclito dizia que a guerra (pólemos) é o pai de todas as coisas. Ele enxergava o mundo como um campo de tensões entre opostos — quente e frio, seco e úmido, dia e noite. Mas, diferente da mera oposição binária, esses contrários coexistem e se transformam um no outro. O que é quente esfria, o que é seco umedece. Há uma unidade no conflito, uma harmonia oculta nas tensões — o que ele chamou de harmonia dissonante (harmonia aphanes).

Essa visão antecipa a estrutura fundamental da dialética: o confronto entre opostos que não se anulam, mas se implicam. A tensão entre tese e antítese, por exemplo, é justamente o que move a síntese — uma ideia que será plenamente sistematizada apenas com Hegel, dois milênios depois.

Heráclito e o vir-a-ser

Enquanto Parmênides defendia que o ser é uno e imutável, Heráclito sustentava que a essência do real é o devir. Você não entra duas vezes no mesmo rio, pois tanto o rio quanto você estão mudando. Essa visão coloca o movimento e a transformação no centro da realidade — e, por extensão, também do pensamento.

A dialética heraclitiana, mesmo sem esse nome, é uma lógica do vir-a-ser. Não há repouso, não há identidade fixa. Tudo é processo, e a verdade não é um ponto imóvel, mas um caminho em constante atualização.

A influência posterior

Platão, embora mais alinhado com Parmênides em sua teoria das ideias, herdou de Heráclito a sensibilidade para o mundo sensível como domínio da mutação e da aparência — algo a ser superado para alcançar o mundo inteligível. Já os estóicos, séculos depois, vão reinterpretar Heráclito como o filósofo do Logos cósmico, a razão que organiza a mudança.

Mas é com Hegel que a relação entre Heráclito e a dialética se torna explícita. Hegel declarou:

“Não há nenhuma proposição de Heráclito que eu não tenha adotado em minha lógica.”

Heráclito, portanto, é um antecessor da dialética não só por dizer que tudo muda, mas por afirmar que essa mudança é estruturada, racional e paradoxal. Ele viu na contradição não um erro, mas uma verdade profunda do real.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Os Sofistas Voltaram

E Somos Todos um Pouco Como Eles

Durante muito tempo, bastava dizer "sofista" para que se evocasse uma imagem de alguém dissimulado, manipulador, que torce as palavras como quem torce um pano de chão sujo. A imagem construída por Platão colou na história como um rótulo definitivo. E, no entanto, basta observar o nosso tempo para perceber que os sofistas não só voltaram — como foram perdoados e reabilitados. Mais ainda: somos todos, de certo modo, seus herdeiros.

Em um mundo onde discursos constroem realidades, a retórica voltou a ocupar o centro da vida pública. Quem domina a linguagem, molda a percepção do outro. Num simples post de rede social, ao escolher um adjetivo com precisão cirúrgica, ao inverter a ordem de uma frase, ao criar um “meme de opinião”, fazemos o que os sofistas faziam: argumentamos para influenciar.

Mas a inovação aqui é outra: talvez hoje compreendamos melhor a posição dos sofistas não porque tenhamos ficado mais cínicos, mas porque amadurecemos o entendimento sobre a verdade. A verdade, no século XXI, não é mais um bloco de mármore em cima do qual se constrói um templo. Ela se parece mais com uma nuvem: está ali, tem forma, tem substância, mas se move, se desfaz, se recompõe.

Protágoras, com seu famoso fragmento — “O homem é a medida de todas as coisas: das que são, enquanto são, e das que não são, enquanto não são” — soa escandalosamente atual. Ele está presente em discussões sobre identidades, em debates de narrativas históricas, em conversas sobre diversidade de percepção e ponto de vista. Ao invés de perguntar "qual é a verdade?", talvez hoje perguntemos "para quem essa verdade faz sentido?".

Górgias, com sua ousadia filosófica no tratado Sobre o Não-Ser, diz: “Se algo existe, não pode ser compreendido pelo homem. E se pode ser compreendido, não pode ser comunicado.” Ele antecipa os dilemas modernos da linguagem: será que dizemos o que sentimos, ou só empilhamos palavras que nunca alcançam o outro? Sua reflexão toca naquilo que hoje inquieta educadores, comunicadores e poetas — o abismo entre intenção e recepção.

Essa crítica à estabilidade da linguagem nos leva ao ponto seguinte: o impacto dos sofistas na educação contemporânea.

Os sofistas foram os primeiros a ensinar por dinheiro — mas isso não os torna mercadores da verdade, como pensava Platão. Pelo contrário, eles fundaram uma forma prática e dialógica de ensino. Não buscavam transmitir dogmas, mas desenvolver habilidades de argumentação, análise e pensamento crítico. Em outras palavras, promoviam uma educação voltada para a vida pública e o exercício da cidadania.

Quando um professor hoje estimula seus alunos a pensar por si mesmos, a debater com respeito, a sustentar ideias diferentes diante de colegas — está retomando o espírito sofístico. Quando se valoriza a argumentação mais do que a memorização, o raciocínio mais do que a resposta certa, o erro como parte do aprendizado — estamos no terreno fértil que os sofistas prepararam.

Até mesmo metodologias modernas como a sala de aula invertida ou a aprendizagem baseada em projetos caminham com eles: colocam o estudante no centro, convidam ao discurso, estimulam o confronto de pontos de vista. O professor deixa de ser um detentor de verdades e se torna um mediador, um facilitador de caminhos — bem ao estilo de um sofista como Hípias, que transitava entre saberes diversos e se orgulhava de poder falar sobre tudo, do cosmos às sandálias que ele mesmo fazia.

Nietzsche, um crítico feroz da moral absoluta, foi um dos primeiros a reabilitar os sofistas, dizendo que talvez eles fossem mais honestos que Sócrates — porque admitiam que toda verdade é um jogo de forças. E talvez isso nos toque hoje, porque vivemos não em um mundo de certezas sólidas, mas de múltiplas convicções frágeis.

Na prática, o vendedor que encanta o cliente, a criança que convence os pais a deixá-la dormir mais um pouco, o advogado que defende o indefensável, o militante que cria slogans precisos e até o influenciador que encaixa a palavra certa no momento certo — todos são, de algum modo, filhos do espírito sofístico.

É claro que há risco no excesso de sofística — como há risco em toda ferramenta poderosa. Um discurso vazio, mas bonito, pode enganar, iludir, manipular. Mas talvez o erro dos antigos tenha sido imaginar que só havia dois caminhos: o da verdade eterna ou o da mentira. Hoje sabemos que há também o campo das versões, das perspectivas, do diálogo entre verdades.

Como observou a filósofa brasileira Marilena Chauí, em sua obra Convite à Filosofia, “os sofistas introduziram a ideia de que a verdade depende da maneira como é dita e por quem é dita — e que o discurso não é neutro.” Essa percepção, longe de enfraquecer o pensamento, nos obriga a ser mais atentos, mais éticos, mais responsáveis com o que dizemos e ouvimos.

No fim das contas, não é que os sofistas tenham voltado. É que nunca foram embora. E talvez esteja na hora de reconhecê-los não como vilões do pensamento, mas como seus engenheiros — que sabiam, desde o início, que o mundo é feito de palavras, e que as palavras são o que temos para dar forma ao mundo.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Plausível e Implausível

Quando ouvimos algo novo ou extraordinário, nosso primeiro reflexo é julgar: "Isso faz sentido?" O plausível, no fundo, é uma espécie de conforto intelectual. Ele se apresenta como o que parece lógico, aceitável ou encaixado nas molduras da nossa compreensão. Por outro lado, o implausível é o território do estranho, do disruptivo, o que desafia nossos mapas mentais. Mas será que o implausível é sempre o oposto da verdade?

Lembro de uma conversa com um amigo que contava como viu alguém no mercado equilibrar uma pilha enorme de itens no carrinho sem nada cair. Era implausível, mas real. A narrativa nos leva a pensar: o que determina se algo é plausível ou não? São os nossos limites, as experiências acumuladas ou algo mais profundo, quase invisível, que guia nossas crenças?

A Conexão com a Experiência

O plausível está enraizado em nossa experiência. Aquilo que vemos, tocamos ou repetimos frequentemente é aceito como real. Por isso, ouvir que uma pessoa pode trabalhar 16 horas por dia e ainda encontrar tempo para a família soa plausível, enquanto a ideia de alguém meditar por dias sem comer nos parece implausível, embora existam registros históricos e culturais que provem o contrário.

Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês, argumentava que a percepção é um ato de co-criação entre nós e o mundo. O que nos parece plausível é, em grande parte, moldado pelo corpo e pelo contexto. Nosso entendimento do mundo não é absoluto; ele se constrói em interação com o que vivemos. Assim, o plausível não é uma verdade fixa, mas um reflexo das nossas experiências acumuladas.

Quando o Implausível Torna-se Real

O implausível, apesar de desconfortável, é o motor da mudança. Pense em ideias que foram rejeitadas no passado: a Terra redonda, os germes invisíveis que causam doenças, ou a possibilidade de enviar mensagens instantâneas a milhares de quilômetros. Em cada uma dessas situações, o implausível desafiou o plausível e, eventualmente, transformou o mundo.

Nietzsche certa vez disse que "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras." O implausível, ao desafiar nossas convicções, pode abrir espaço para novas verdades. Não é um acaso que as inovações frequentemente nascem da resistência àquilo que parece óbvio.

Plausível e Implausível no Cotidiano

Na vida diária, os limites entre plausível e implausível são mais tênues do que imaginamos. Acreditar em uma segunda chance, na bondade espontânea de um estranho ou na possibilidade de mudar de carreira aos 50 anos muitas vezes desafia a lógica do senso comum. Ainda assim, essas coisas acontecem.

É aqui que a filosofia entra como um farol. Ela nos convida a suspender julgamentos rápidos e explorar os porquês. Será que rotulamos algo como implausível porque ele realmente não faz sentido, ou porque nos falta coragem para reconsiderar nossas crenças?

O plausível e o implausível não são opostos absolutos; eles dançam na intersecção da nossa percepção, experiência e imaginação. O que hoje é plausível foi, um dia, implausível. E o que parece implausível agora pode ser a verdade de amanhã.

Talvez, ao invés de tentar categorizar o mundo em caixas seguras, devêssemos nos permitir abraçar o desconforto do incerto. Porque é nele, nesse território aparentemente inóspito do implausível, que a humanidade encontra o seu próximo passo.


domingo, 8 de setembro de 2024

Nada é Para Sempre

 

"Nada é para sempre." Quantas vezes essa frase ecoa em nossas mentes, especialmente em momentos de perda, mudanças ou até mesmo diante da impermanência das coisas boas? Vivemos em um mundo onde a única constante é a mudança. E, por mais clichê que isso soe, há uma sabedoria profunda escondida nessa verdade simples.

Já pensou o quanto um banco de parque pode ser inspiração para muitas reflexões? Imagine estar sentado em um banco parque, observando as folhas caindo no outono. Cada folha que cai marca o fim de uma temporada e o começo de outra. As folhas, antes vibrantes e cheias de vida, agora se desprendem das árvores, movendo-se suavemente com o vento. A cena é bela, mas também carrega um lembrete: nada dura para sempre.

Essa percepção pode ser ao mesmo tempo reconfortante e assustadora. Reconfortante porque nos lembra que os momentos difíceis também passarão. Por mais escura que seja a noite, o sol sempre nasce. E assustadora porque nos faz perceber que até as coisas boas, as que desejamos manter para sempre, também são passageiras.

O filósofo Heráclito disse que "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio." Essa metáfora reflete a ideia de que tudo está em fluxo constante, e nada permanece igual. O rio está sempre fluindo, e mesmo que voltemos ao mesmo ponto, a água que tocamos não é a mesma. O mesmo se aplica à vida: cada experiência, cada emoção, cada momento é único e não se repetirá da mesma forma.

No cotidiano, podemos ver essa impermanência em pequenas coisas, como a mudança das estações, a evolução das relações pessoais, ou até mesmo no desgaste natural dos objetos ao nosso redor. A xícara favorita que eventualmente quebra, o emprego que não dura para sempre, ou o sorriso de uma criança que, inevitavelmente, cresce.

E, talvez, a maior lição que essa impermanência nos ensina é a valorizar o agora. Se nada é para sempre, então cada momento, por mais comum que pareça, é precioso. As coisas não são permanentes, mas enquanto existem, nos oferecem uma oportunidade de apreciar, aprender e crescer.

Portanto, ao refletir sobre o fato de que nada é para sempre, podemos escolher viver de forma mais plena, abraçando tanto os altos quanto os baixos da vida. Afinal, são as mudanças e a impermanência que nos tornam quem somos, moldando nossa jornada e nos convidando a viver cada momento com profundidade e gratidão.

sábado, 7 de setembro de 2024

Grandes Conversões

Sentado na cafeteria, observando a chuva fina pela janela, pensei em como o mundo ao nosso redor está em constante mudança. Não são apenas as pequenas coisas que mudam, como a decoração da cafeteria ou o sabor do café, mas transformações profundas que reconfiguram a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Essas grandes conversões estão em curso em diversos aspectos da nossa vida, e quero compartilhar alguns exemplos que tocam nosso dia a dia, além de trazer um comentário de um pensador sobre o assunto.

Transição Energética: Da Tomada ao Sol

Pense na última vez que você carregou seu celular. Agora, imagine que a energia que você usou veio inteiramente de painéis solares no telhado de sua casa. A transição energética está transformando como geramos e consumimos energia. De pequenas residências a grandes empresas, todos estão investindo em fontes de energia renovável. Lembra do vizinho que instalou painéis solares e não para de falar sobre a conta de luz quase zerada? Pois é, ele faz parte dessa mudança. Essa conversão não só reduz nossa dependência de combustíveis fósseis, mas também ajuda a combater as mudanças climáticas.

Digitalização e Automação: Da Caneta ao Algoritmo

Quem diria que um dia poderíamos pagar contas, fazer compras e até consultar médicos sem sair de casa? A digitalização e a automação estão aqui para ficar. No supermercado, os caixas automáticos substituem os atendentes; no trabalho, softwares de inteligência artificial agilizam tarefas repetitivas. Imagine o João, que antes perdia horas digitando relatórios, agora vendo seu tempo livre aumentar graças a um algoritmo que faz isso por ele. É a vida moderna, com seu toque de ficção científica.

Mudança Cultural e Social: Da Tradição à Inclusão

As conversas na mesa de jantar não são mais as mesmas. Temas como igualdade de gênero, direitos LGBTQ+, e justiça racial são cada vez mais frequentes. O que antes era tabu, agora é pauta. Veja a Maria, que resolveu pintar o cabelo de azul e adotar um estilo de vida vegano, inspirada por movimentos de defesa dos animais e sustentabilidade. Essas mudanças culturais refletem uma sociedade mais consciente e inclusiva, onde cada voz tem seu espaço.

Economia Circular: Do Descarte à Reutilização

Na última faxina, quantas coisas você jogou fora? E se eu te disser que muita coisa pode ser reaproveitada? A economia circular está mudando a forma como vemos os produtos: de descartáveis a duráveis. Aquele velho par de jeans pode virar uma bolsa estilosa; os restos de comida se transformam em adubo para a horta. A ideia é simples: reduzir, reutilizar, reciclar. Isso não só diminui o impacto ambiental, mas também economiza recursos.

Trabalho Remoto e Flexível: Do Escritório à Sala de Estar

A pandemia de COVID-19 acelerou uma mudança que já estava em curso: o trabalho remoto. Imagine o Paulo, que antes enfrentava duas horas de trânsito para chegar ao escritório, agora trabalhando confortavelmente da sala de estar, com uma xícara de café ao lado e o cachorro nos pés. Essa conversão para modelos de trabalho flexível redefine o conceito de local de trabalho, permitindo um equilíbrio maior entre vida pessoal e profissional.

Comentário Filosófico: Zygmunt Bauman e a Modernidade Líquida

O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu nossa era como de "modernidade líquida", onde as transformações são constantes e a estabilidade é rara. Bauman argumenta que vivemos tempos de incerteza e mudança contínua, onde antigas estruturas e certezas são dissolvidas, dando lugar a novas formas de pensar e viver. Essa fluidez reflete as grandes conversões que estamos testemunhando: do energético ao digital, do social ao econômico.

Enquanto observava o café esfriar, percebi que estamos todos imersos nessas grandes conversões, moldando e sendo moldados por elas. A cada decisão, a cada pequena mudança no nosso cotidiano, contribuímos para essas transformações maiores. E quem sabe, um dia, ao olhar para trás, veremos como esses momentos cotidianos fizeram parte de algo muito maior, uma grande conversão que redefiniu nossa época. E você, quais dessas mudanças já percebeu na sua vida?

O que dizer a respeito da religiosidade no século XXI, a palavra conversão esta em uso e a ouvimos com muita frequência. Atualmente, a conversão religiosa está passando por diversas transformações, refletindo mudanças sociais, culturais e tecnológicas. Embora a conversão religiosa no sentido tradicional ainda ocorra, há outros fenômenos religiosos que estão ganhando destaque. Aqui estão algumas tendências notáveis:

Aumento do Secularismo e Ateísmo

Em muitas partes do mundo, especialmente na Europa e América do Norte, há um aumento significativo do secularismo. Muitas pessoas estão se afastando das religiões tradicionais, identificando-se como ateus, agnósticos ou simplesmente não religiosos. Esse movimento é impulsionado por fatores como a educação, a ciência, e a percepção de que a religião não é necessária para a moralidade ou significado de vida.

Espiritualidade Individual e Sincretismo

Há uma crescente tendência de pessoas se identificarem como "espirituais, mas não religiosas". Isso envolve a criação de práticas espirituais personalizadas que combinam elementos de várias tradições religiosas, como meditação budista, yoga hindu, mindfulness e até elementos do cristianismo ou outras religiões. Essa abordagem sincrética reflete um desejo de conexão espiritual sem as restrições de uma religião organizada.

Crescimento de Novos Movimentos Religiosos

Novos movimentos religiosos e formas alternativas de espiritualidade estão ganhando seguidores. Isso inclui movimentos como a Nova Era, religiões neopagãs como Wicca, e o ressurgimento de tradições indígenas. Essas formas de espiritualidade frequentemente enfatizam a conexão com a natureza, o empoderamento pessoal e a comunidade.

Conversões ao Islamismo

Em várias partes do mundo, o islamismo continua a crescer, tanto através de nascimentos quanto de conversões. Isso é particularmente visível em regiões como a África Subsaariana e partes da Ásia. O Islã atrai pessoas de diversas origens por meio de suas práticas comunitárias, simplicidade de crenças e senso de identidade.

Cristianismo Pentecostal e Evangélico

O cristianismo pentecostal e evangélico está crescendo rapidamente em regiões como a América Latina, África e partes da Ásia. Esses movimentos enfatizam experiências espirituais pessoais, como o batismo no Espírito Santo e milagres, e muitas vezes atraem pessoas em busca de uma conexão mais direta e emocional com o divino.

Comentário Filosófico: Peter Berger e a Dessecularização do Mundo

O sociólogo Peter Berger, em seu livro "The Desecularization of the World", argumenta que o mundo não está se tornando cada vez mais secular, como muitos previram. Em vez disso, estamos vendo uma pluralização das formas de religiosidade e espiritualidade. Berger sugere que, apesar do aumento do secularismo em algumas partes do mundo, a religiosidade está ressurgindo de maneiras novas e inesperadas.

Em uma sociedade onde as tradições religiosas estabelecidas estão sendo desafiadas e novas formas de espiritualidade estão emergindo, a conversão religiosa assume múltiplas formas. Seja pela busca de um sentido mais profundo, uma conexão com o sagrado, ou uma comunidade que compartilhe valores similares, as pessoas continuam a explorar e redefinir suas crenças religiosas e espirituais.

BERGER, Peter L.. Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista. Petrópolis: Vozes, 2017.

https://religiaoesociedade.org.br/wp-content/uploads/2021/09/Religiao-e-Sociedade-N21.01-2001.pdf


domingo, 18 de agosto de 2024

Assistência Social

Vivemos tempos difíceis, e ainda tempos mais difíceis para muitos gaúchos sobreviventes ao diluvio de maio de 2024, para dirimir os efeitos destes tempos difíceis a assistência social está trabalhando muito, fazendo muito em prol da defesa e continuidade da vida de muitos gaúchos. As desigualdades tornaram-se ainda mais intensas, vivemos com os nervos a flor da pele, você já parou para pensar no que realmente está por trás das ações de um assistente social? Quando vemos alguém ajudando famílias a acessar benefícios ou orientando pessoas em dificuldades, pode parecer que o trabalho é apenas sobre resolver problemas imediatos. Mas e se eu te dissesse que há uma camada mais profunda nessa atuação, algo que vai além do simples apoio e que toca diretamente nas entranhas da nossa sociedade?

É aí que entra o trabalho de Marilda Iamamoto, uma pensadora brilhante no campo do Serviço Social. Ela nos convida a olhar para a "questão social" não como um conjunto de problemas isolados, mas como um reflexo das desigualdades e injustiças estruturais que moldam nossas vidas. Em seu livro "O Serviço Social e a Questão Social: Análise e Reflexões", Iamamoto nos dá um novo olhar sobre como as transformações sociais impactam o trabalho dos assistentes sociais e, mais importante, como eles podem ir além da solução pontual e se engajar na transformação das condições que causam essas desigualdades.

Vamos ver como essa perspectiva pode mudar a forma como vemos o trabalho dos assistentes sociais e como eles estão na linha de frente não apenas ajudando indivíduos, mas lutando por uma sociedade mais justa e equitativa.

Marilda Iamamoto e a Questão Social: Reflexões do Cotidiano

Quando a gente fala de Serviço Social, muitas vezes pensa apenas no trabalho que envolve apoio direto às pessoas, como ajudar uma família a acessar benefícios ou orientar um indivíduo em situação de vulnerabilidade. Mas a coisa é muito mais profunda e complexa do que isso. Marilda Iamamoto, uma das grandes pensadoras no campo do Serviço Social no Brasil, oferece uma visão que vai além do trabalho cotidiano e mergulha nas transformações sociais e suas implicações para a prática profissional.

Em seu livro, "O Serviço Social e a Questão Social: Análise e Reflexões", Iamamoto explora como as mudanças na sociedade impactam diretamente a atuação dos assistentes sociais. Ela não vê o Serviço Social como algo isolado, mas como uma profissão intimamente ligada às dinâmicas sociais e políticas que moldam nosso dia a dia.

A Questão Social e o Serviço Social

Para Iamamoto, a "questão social" não é apenas uma série de problemas que precisam ser resolvidos, mas um reflexo das desigualdades e injustiças estruturais na sociedade. Isso significa que, quando um assistente social enfrenta desafios no seu trabalho, esses desafios são muitas vezes sintomas de questões maiores, como desigualdade econômica, discriminação ou falta de acesso a direitos básicos.

Imagine, por exemplo, um assistente social trabalhando em uma comunidade onde muitos moradores enfrentam dificuldades financeiras. O trabalho dele pode incluir ajudar as pessoas a obter benefícios sociais, orientá-las sobre educação e saúde, e até mesmo lutar por melhorias nas políticas públicas. Mas, ao fazer isso, ele está também lidando com as raízes dessas dificuldades – as desigualdades sistêmicas que afetam a vida das pessoas.

Aplicações do Cotidiano

Vamos ver como isso se aplica a situações cotidianas. Suponha que você esteja em uma escola onde o assistente social está ajudando alunos e suas famílias a acessar recursos para educação e saúde. A abordagem de Iamamoto sugere que esse trabalho não deve se limitar apenas à resolução dos problemas imediatos. É importante também refletir sobre por que esses problemas existem e como podem ser abordados de forma mais ampla.

Outro exemplo pode ser encontrado em um centro de assistência social que oferece apoio a pessoas em situação de rua. O assistente social não apenas ajuda a encontrar abrigo e serviços de saúde, mas também trabalha para entender e lutar contra as causas estruturais da falta de moradia, como políticas habitacionais inadequadas ou a falta de oportunidades de emprego.

A obra de Marilda Iamamoto nos lembra que o Serviço Social é mais do que um conjunto de ações pontuais; é uma prática profundamente conectada com as questões sociais e as mudanças que ocorrem na sociedade. Ao entender essa conexão, assistentes sociais podem não apenas oferecer suporte imediato, mas também contribuir para a transformação das condições que causam desigualdade e injustiça.

Então, quando você encontrar um assistente social, lembre-se de que o trabalho dele vai muito além das tarefas do dia a dia. Ele está, de fato, participando de um esforço mais amplo para entender e transformar as condições sociais que afetam a vida de tantas pessoas.


segunda-feira, 24 de junho de 2024

Asas do Tempo

 

O tempo tem asas que o levam de lado a outro, para frente e para trás. Essa imagem poética do tempo me sugere uma entidade dinâmica, imprevisível e que pode nos surpreender a cada momento. A natureza fluida e efêmera do tempo é algo que experimentamos diariamente, e sua compreensão tem sido objeto de reflexão de muitos filósofos ao longo dos séculos. Vamos analisar como essa visão do tempo se manifesta em situações cotidianas e como alguns pensadores a abordaram.

Cotidiano e o Voo do Tempo

No nosso dia a dia, sentimos o tempo de várias maneiras. Às vezes, ele parece voar, como nas férias que acabam rapidamente. Em outros momentos, parece arrastar-se, como durante uma espera ansiosa por um evento importante. O tempo nos leva para frente, fazendo-nos envelhecer e amadurecer, mas também nos faz revisitar memórias do passado, trazendo sentimentos de nostalgia e saudade.

Imagine uma segunda-feira típica. Acordo, olho para o relógio e me dou conta de que estou atrasado para o trabalho. O café é engolido às pressas, e corro para pegar o ônibus. Durante o trajeto, lembro-me das férias relaxantes que tive há poucos meses. Parece que foi ontem, mas o calendário insiste em dizer que foi há bastante tempo. Ao longo do dia, as horas se arrastam até que, de repente, é hora de ir embora. O tempo, com suas asas, levou-me de um lado a outro, do passado ao presente, e de volta.

Reflexões Filosóficas

Heráclito e a Mudança Constante

Heráclito, um filósofo pré-socrático, é famoso por sua afirmação de que "tudo flui" e que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Ele acreditava que a mudança é a única constante. Esse pensamento ressoa com a ideia de que o tempo tem asas, movendo-se incessantemente e trazendo transformação. Assim como o rio que está em constante movimento, o tempo nos leva de um estado a outro, modificando nossa percepção e realidade.

Santo Agostinho e a Natureza do Tempo

Santo Agostinho, um filósofo e teólogo do século IV, tinha uma visão profunda sobre o tempo. Ele questionava a natureza do passado, presente e futuro. Para ele, o presente é o único momento real, enquanto o passado é memória e o futuro é antecipação. Esse pensamento se alinha com a ideia de que o tempo se move para frente e para trás, mas é no presente que realmente vivemos e experimentamos sua passagem.

O Tempo em Nossas Vidas

No cotidiano, muitas vezes nos pegamos refletindo sobre o tempo que passou e planejando o futuro. Durante uma conversa com um amigo, podemos lembrar das aventuras do passado e sonhar com as que virão. A nostalgia de tempos mais simples pode ser seguida pela esperança de dias melhores. Esses momentos mostram como o tempo, com suas asas, nos leva de um lado a outro, tocando nossas vidas de maneiras complexas e profundas.

Sensação do Tempo no Luto

A sensação que temos do tempo quando estamos vivenciando o luto por alguém é intensamente peculiar. Sentimos que, para nós, o tempo parece desacelerar, quase parar, enquanto o mundo ao nosso redor continua a seguir seu curso inalterado. As rotinas diárias, as celebrações, e até os pequenos momentos cotidianos seguem acontecendo como sempre, mas cada evento se torna um doloroso lembrete de que a pessoa que se foi não está mais ali para compartilhá-los conosco. Essa ausência permanente nos faz refletir sobre a natureza efêmera do tempo e a importância de valorizar cada momento que temos. O luto, assim, nos ensina a necessidade de viver plenamente, apreciar a presença daqueles que amamos e reconhecer que cada instante é único e insubstituível.

O tempo, com suas asas invisíveis, nos guia através de uma dança constante entre o passado, presente e futuro. É um companheiro inseparável da nossa existência, sempre em movimento, sempre trazendo novas experiências e lembranças. Filosoficamente, pensadores como Heráclito e Santo Agostinho nos oferecem maneiras de compreender e refletir sobre essa jornada contínua. No nosso cotidiano, aprender a dançar com o tempo, apreciando tanto os momentos fugazes quanto as mudanças inevitáveis, é talvez a chave para uma vida bem vivida.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Ortodoxo, não incomum



No cotidiano, somos frequentemente confrontados com escolhas e comportamentos que se alinham com as tradições. Esses comportamentos ortodoxos, que seguem normas estabelecidas e aceitas, podem ser vistos como "não incomuns", ou seja, são práticas comuns, amplamente reconhecidas e raramente questionadas. Vamos dar uma olhada em algumas dessas situações diárias e trazer um filósofo para refletir sobre como a ortodoxia molda nossas vidas.

O Café da Manhã Clássico

Imagine um café da manhã típico: pão, manteiga, café com leite. Esse cenário é familiar para muitos de nós e reflete um comportamento ortodoxo. Embora hoje em dia tenhamos várias opções, como shake verdes ou tigela de açaí, a imagem do café da manhã tradicional persiste.

Comentário Filosófico: Immanuel Kant Kant, um filósofo que valorizava a ordem e a rotina, acreditaria que esse ritual matinal proporciona uma estrutura necessária para o início do dia. Ele poderia argumentar que seguir essa tradição não é apenas sobre preferência alimentar, mas sobre estabelecer um sentido de ordem e regularidade, essencial para a estabilidade mental.

Cumprimentando os Vizinhos

Outro exemplo é o ato de cumprimentar os vizinhos. Um simples "bom dia" é um comportamento ortodoxo que ajuda a manter a harmonia social. Embora possamos não conhecer bem todas as pessoas que encontramos, esse gesto cria uma sensação de comunidade e respeito mútuo.

Comentário Filosófico: Aristóteles, com sua ênfase na ética da virtude, poderia interpretar esses cumprimentos como uma prática de virtudes sociais, como a cortesia e a civilidade. Ele destacaria que essas interações cotidianas são fundamentais para o desenvolvimento de uma vida boa e harmoniosa em sociedade.

Festas Tradicionais

Participar de festas tradicionais, como Natal, Ano Novo, ou festas juninas, é outro comportamento ortodoxo que muitos de nós seguimos. Esses eventos são recheados de costumes passados de geração em geração, que unem as pessoas e reforçam a identidade cultural.

Comentário Filosófico: Friedrich Nietzsche Nietzsche, por outro lado, poderia ter uma visão crítica sobre essas tradições. Ele talvez argumentasse que a conformidade ortodoxa nessas celebrações pode, por vezes, inibir a individualidade e a criatividade. No entanto, ele também reconheceria o valor dessas práticas em proporcionar um senso de pertencimento e continuidade histórica.

Ortodoxia e Mudança

Apesar de a ortodoxia ser "não incomum", há momentos em que a mudança é necessária. A pandemia de COVID-19, por exemplo, forçou uma reavaliação de muitas práticas tradicionais. O trabalho remoto, o distanciamento social, e as novas formas de interação digital mostraram que, embora as tradições tenham seu valor, a flexibilidade e a inovação também são cruciais.

Comentário Filosófico: Michel Foucault Foucault, conhecido por suas análises do poder e das estruturas sociais, poderia argumentar que essas mudanças mostram como as práticas ortodoxas são moldadas por forças históricas e contextuais. Ele enfatizaria a importância de questionar e reavaliar continuamente essas normas para adaptá-las às novas realidades.

A ortodoxia no cotidiano é uma força poderosa que nos conecta ao passado e nos ajuda a navegar pelo presente. Seja através de rituais matinais, cumprimentos sociais ou celebrações tradicionais, esses comportamentos ortodoxos fornecem uma estrutura que muitas vezes aceitamos sem questionar. Contudo, como apontado pelos filósofos mencionados, é igualmente importante estar aberto à mudança e à reflexão crítica. Afinal, a vida é um equilíbrio entre o familiar e o novo, entre o ortodoxo e o incomum.

domingo, 26 de maio de 2024

Quebrar a Personalidade

"Quebrar a personalidade" é uma expressão que pode soar um pouco dramática, mas na verdade, ela se aplica a várias situações do cotidiano que muitos de nós enfrentamos. Desde mudanças sutis em nossas rotinas até transformações profundas em quem somos, vamos explorar e refletir sobre como essa ideia pode se manifestar na vida diária.

Mudança de Emprego: Uma Oportunidade de Reinvenção

Imagine que você trabalhou em um emprego por anos, se acostumou com a rotina e os colegas, mas de repente decide que é hora de mudar. Trocar de emprego pode ser uma forma de "quebrar" certos aspectos da sua personalidade. Talvez você fosse tímido no antigo emprego, mas agora, em um ambiente novo, sente-se mais confiante para se expressar e mostrar suas ideias. Essa mudança pode ser um catalisador para descobrir novas partes de si mesmo que estavam adormecidas.

Relacionamentos: Quando o Amor Transforma

Relacionamentos podem ser um terreno fértil para mudanças profundas. Se você já esteve em um relacionamento longo, sabe que com o tempo, ambos os parceiros influenciam e moldam a personalidade um do outro. Às vezes, uma separação pode "quebrar" aspectos de quem você era antes, levando a um processo de redescoberta. Você pode encontrar novas paixões, hobbies, ou até mesmo um novo círculo de amigos que ajudam a formar uma nova versão de si mesmo.

Viagens e Aventuras: Expandindo Horizontes

Viajar é outra forma clássica de "quebrar a personalidade". Quando você sai de sua zona de conforto e se expõe a novas culturas, idiomas e modos de vida, é natural que sua perspectiva mude. Essas experiências podem desafiar suas crenças e valores, fazendo você reavaliar quem você é e o que realmente importa para você. Uma pessoa que volta de uma viagem longa muitas vezes retorna diferente, com uma visão mais ampla e compreensiva do mundo.

Desafios e Adversidades: Crescendo com as Dificuldades

Às vezes, a vida nos apresenta desafios que não podemos evitar. Uma doença grave, a perda de um ente querido, ou até mesmo um período de dificuldades financeiras podem "quebrar" aspectos da nossa personalidade de maneiras dolorosas, mas potencialmente transformadoras. Essas experiências podem nos tornar mais resilientes, empáticos e fortes, revelando qualidades que talvez nem soubéssemos que possuíamos.

Terapia e Autoconhecimento: A Jornada Interior

Optar por fazer terapia é um passo consciente para "quebrar" partes de nossa personalidade que podem estar nos segurando. Durante as sessões de terapia, somos encorajados a explorar nossos traumas, medos e comportamentos repetitivos. Esse processo pode ser desconfortável, mas é através dele que podemos reconstruir uma identidade mais saudável e autêntica. A terapia é como uma renovação interior, onde podemos deixar para trás velhos padrões e abraçar novas formas de ser.

Reflexão Final

"Quebrar a personalidade" não precisa ser algo assustador ou negativo. Pelo contrário, é um processo natural de crescimento e evolução que todos experimentamos de uma forma ou de outra. Seja através de mudanças externas ou introspecção profunda, essas quebras nos oferecem a oportunidade de nos reinventarmos e nos aproximarmos mais da nossa essência verdadeira.

No final das contas, a vida é uma série de transformações. Ao aceitarmos e até mesmo buscarmos essas mudanças, podemos viver de maneira mais plena e autêntica, sempre prontos para nos adaptarmos e florescermos em qualquer situação. Afinal, somos todos obras em progresso, constantemente esculpidos pelas experiências e escolhas que fazemos ao longo do caminho.