Há
dias em que nada muda — e, ainda assim, tudo mudou. A camisa é a mesma, o
caminho também, as pessoas repetem seus papéis. Mas alguma coisa atravessou o
cenário e saiu do outro lado com outro nome. Não foi revolução, foi transfiguração.
Não um salto heroico, mas um deslocamento quase invisível: o mesmo rosto, outra
leitura. Assim foi minha quarta-feira, meio de semana, num dia quente mais para
verão que primavera em seu finalzinho, quase se despedindo, estou novamente no
fluxo do calor dezembrino, entre livros e enfeites do Natal que se aproxima,
eis-me aqui, juntando palavras.
O
que muda quando nada muda
A
filosofia sempre desconfiou das mudanças espetaculares. Heráclito, com seu rio,
não falava de turbulência, mas de fluxo: a água passa, o leito permanece — e,
mesmo assim, o rio já é outro. Transfiguração não é trocar de coisa; é trocar
de forma de ser da coisa.
No cotidiano, isso acontece quando o trabalho que antes era só trabalho vira
ofício; quando a casa deixa de ser abrigo e vira memória; quando uma amizade
antiga, sem aviso, passa a exigir outro tipo de silêncio. A matéria permanece,
a forma muda.
Gilbert
Simondon ajuda a entender: os indivíduos não estão prontos;
estão sempre em processo de individuação. Não somos “algo” que depois muda;
somos mudança que, por um tempo, parece algo. A transfiguração é esse momento
em que o processo fica visível.
Situações
comuns, efeitos raros
–
No ônibus: o mesmo trajeto de sempre. Um dia, você não está atrasado. O
mundo desacelera. O barulho vira ritmo. O ônibus é outro? Não. Você é.
–
Numa conversa familiar: a frase é idêntica à de anos atrás, mas agora
fere — ou consola. A palavra não mudou; o ouvido, sim.
–
No erro repetido: a primeira vez é tropeço, a segunda é hábito, a
terceira é sinal. Quando o erro se transfigura em mensagem, ele deixa de ser
falha e vira linguagem.
Aqui,
Clarice Lispector sussurra: “mudar não é melhorar”. Às vezes é apenas ver.
A transfiguração não promete progresso; promete verdade momentânea.
Entre
identidade e máscara
Costumamos
pensar que mudar é trair quem somos. Mas e se a identidade for uma sequência de
máscaras honestas? Guimarães Rosa dizia que o real não está na saída nem na
chegada, mas na travessia. Transfigurar-se é atravessar sem perder o passo —
aceitar que o “eu” é um verbo no gerúndio.
Há
uma ética nisso. Resistir à transfiguração é endurecer. Aceitá-la é aprender a
responder ao mundo sem exigir que ele se repita.
O
instante em que algo se revela
Na
tradição religiosa, a transfiguração é luz súbita. Na vida comum, é penumbra
paciente. Um dia, você percebe que perdoou. Outro, que não deseja mais aquilo
que defendia com unhas. Não houve anúncio. Houve maturação.
Maurice
Merleau-Ponty diria que o sentido emerge do corpo em
situação. Ou seja: a transfiguração não acontece “na cabeça”, mas no modo como
o corpo habita o mundo. Caminhar diferente já é pensar diferente.
Então,
vou concluindo (sem final fechado)
Transfigurações
não pedem aplauso. Elas acontecem quando a pressa cede, quando o hábito falha,
quando a certeza racha. São mudanças sem marketing, sem antes e depois para
postar.
Talvez
viver seja isso: aprender a reconhecer o momento exato em que algo — ainda com
o mesmo nome — já não é mais o mesmo. E não tentar desfazer o encanto.
Finalizando admirando a arvore de Natal com suas luzes piscando, com reflexos
nas bolas coloridas de outros Natais.



