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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Era do Vazio

O eco do nada nas ruas cheias

Se você andar por um shopping de domingo à tarde, vai entender Gilles Lipovetsky sem precisar abrir o livro. O corredor parece uma passarela sem desfile oficial: gente olhando vitrines como se olhasse a própria vida — esperando que algo brilhe, que algo preencha, que algo aconteça. Mas quase sempre, nada acontece. Só o cartão de crédito que, discretamente, se endivida.

O livro publicado em 1983, A Era do Vazio é o diagnóstico cultural que Lipovetsky fez das sociedades ocidentais no final do século XX. Segundo ele, vivemos a passagem de um mundo movido por grandes causas coletivas e ideologias transformadoras para um individualismo hedonista e desengajado, onde o sentido coletivo se dissolve em pequenas experiências pessoais, voltadas para o prazer e o bem-estar imediato.

Esse “vazio” não é um buraco no sentido de falta absoluta, mas um vazio preenchido de distrações. Um silêncio com música ambiente. Um tédio mascarado de opções infinitas. As grandes narrativas políticas e sociais, que antes mobilizavam multidões, perderam espaço para causas rápidas, “compartilháveis” e de preferência fotogênicas. Hoje, a revolução cabe num post — e amanhã já não está mais no feed.

No trabalho, a mudança é clara: deixou-se de perguntar “o que vamos construir juntos?” para perguntar “o que eu ganho com isso?”. As relações afetivas também se transformaram — as cartas eternas deram lugar a figurinhas de WhatsApp, as declarações viraram stories de 15 segundos. O romance não acabou, mas assumiu formato “express”, adaptado à pressa do cotidiano.

Para Lipovetsky, isso não significa que vivamos pior, mas que vivemos de outro jeito. Há mais liberdade individual, mais espaço para ser quem se quer, mais autonomia nas escolhas. Ao mesmo tempo, há mais fragilidade nos vínculos, mais leveza nos compromissos e um culto constante ao “eu” como projeto principal. Tornamo-nos gestores da nossa própria vitrine, sempre atentos à iluminação, ao enquadramento e à reação do público.

O curioso é que, mesmo nesse cenário, ninguém é totalmente cínico. Ainda esperamos sentido — só que agora ele precisa caber na agenda e não pode exigir muito esforço. Queremos o amor sem sofrimento, o sucesso sem suor, a política sem conflito. Um mundo que quer tudo… sem querer pagar o preço de nada.

Se estivesse hoje rolando o Instagram ou passeando por um shopping, Lipovetsky talvez não se surpreendesse. Apenas sorriria de canto e diria:

— Eu avisei.