O eco do nada nas ruas cheias
Se
você andar por um shopping de domingo à tarde, vai entender Gilles
Lipovetsky sem precisar abrir o livro. O corredor parece uma passarela sem
desfile oficial: gente olhando vitrines como se olhasse a própria vida —
esperando que algo brilhe, que algo preencha, que algo aconteça. Mas quase
sempre, nada acontece. Só o cartão de crédito que, discretamente, se endivida.
O
livro publicado em 1983, A Era do Vazio é o diagnóstico cultural
que Lipovetsky fez das sociedades ocidentais no final do século XX. Segundo
ele, vivemos a passagem de um mundo movido por grandes causas coletivas e
ideologias transformadoras para um individualismo hedonista e desengajado,
onde o sentido coletivo se dissolve em pequenas experiências pessoais, voltadas
para o prazer e o bem-estar imediato.
Esse
“vazio” não é um buraco no sentido de falta absoluta, mas um vazio
preenchido de distrações. Um silêncio com música ambiente. Um tédio
mascarado de opções infinitas. As grandes narrativas políticas e sociais, que
antes mobilizavam multidões, perderam espaço para causas rápidas,
“compartilháveis” e de preferência fotogênicas. Hoje, a revolução cabe num post
— e amanhã já não está mais no feed.
No
trabalho, a mudança é clara: deixou-se de perguntar “o que vamos construir
juntos?” para perguntar “o que eu ganho com isso?”. As relações afetivas também
se transformaram — as cartas eternas deram lugar a figurinhas de WhatsApp, as
declarações viraram stories de 15 segundos. O romance não acabou, mas assumiu
formato “express”, adaptado à pressa do cotidiano.
Para
Lipovetsky, isso não significa que vivamos pior, mas que vivemos de outro
jeito. Há mais liberdade individual, mais espaço para ser quem se quer,
mais autonomia nas escolhas. Ao mesmo tempo, há mais fragilidade nos vínculos,
mais leveza nos compromissos e um culto constante ao “eu” como projeto
principal. Tornamo-nos gestores da nossa própria vitrine, sempre atentos à
iluminação, ao enquadramento e à reação do público.
O
curioso é que, mesmo nesse cenário, ninguém é totalmente cínico. Ainda
esperamos sentido — só que agora ele precisa caber na agenda e não pode exigir
muito esforço. Queremos o amor sem sofrimento, o sucesso sem suor, a política
sem conflito. Um mundo que quer tudo… sem querer pagar o preço de nada.
Se
estivesse hoje rolando o Instagram ou passeando por um shopping, Lipovetsky
talvez não se surpreendesse. Apenas sorriria de canto e diria:
—
Eu avisei.
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