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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Opiniões Vãs



Há uma tentação silenciosa em ter opinião sobre tudo. Como se o mundo exigisse de nós uma resposta imediata, um posicionamento rápido, uma frase pronta. E assim, entre um assunto e outro, vamos emitindo julgamentos — leves, rápidos, descartáveis. As chamadas opiniões vãs nascem exatamente aí: quando falar substitui compreender.

No cotidiano, isso é quase automático. Surge uma notícia, alguém comenta. Um tema complexo aparece, e em poucos segundos já há certezas formadas. Não há tempo para maturação, nem espaço para dúvida. A opinião vira reflexo, não reflexão.

Michel de Montaigne, que fez de si mesmo um laboratório de observação, desconfiava profundamente das certezas apressadas. Para ele, a consciência da própria ignorância era um ponto de partida mais honesto do que qualquer opinião inflada. As opiniões vãs, nesse sentido, não são apenas superficiais — são também uma forma de evitar o desconforto de não saber.

Há algo de performático nisso tudo. Muitas opiniões não nascem de uma necessidade genuína de entender ou contribuir, mas de uma necessidade de se posicionar diante dos outros. Opinar vira um gesto de presença: “eu estou aqui, eu penso isso”. O conteúdo importa menos do que o ato de emitir.

E, curiosamente, quanto mais frágeis são as opiniões, mais rígidas elas costumam parecer. Talvez porque, no fundo, quem sustenta uma opinião vã pressente sua própria inconsistência — e tenta compensar com firmeza excessiva. Não é convicção, é defesa.

Arthur Schopenhauer tinha um olhar bastante ácido sobre isso. Ele via na maioria das discussões não uma busca pela verdade, mas um embate de vaidades. Cada um defendendo seu ponto não porque ele seja verdadeiro, mas porque já foi dito. Nesse cenário, a opinião deixa de ser um meio de aproximação da verdade e se torna um território a ser protegido.

No dia a dia, isso aparece em pequenas coisas. Alguém comenta sobre um assunto que mal conhece, apenas para não ficar em silêncio. Outro repete uma ideia que ouviu, sem nunca tê-la realmente examinado. E assim, pouco a pouco, vamos criando um ambiente saturado de falas que dizem pouco — mas ocupam muito espaço.

Há uma diferença sutil, mas essencial, entre opinião e entendimento. A opinião é leve, móvel, muitas vezes circunstancial. O entendimento, por outro lado, é mais lento, mais exigente, e raramente se expressa com tanta pressa. Quem entende profundamente algo costuma falar menos — e quando fala, não precisa exagerar.

Talvez por isso o silêncio seja tão subestimado. Não o silêncio vazio, mas aquele que antecede uma compreensão mais cuidadosa. Em um mundo onde tudo convida à resposta imediata, sustentar o “não sei ainda” pode ser um gesto de lucidez.

N. Sri Ram sugeria que a mente clara não é aquela que acumula ideias, mas a que vê sem distorções. E opiniões vãs são, em grande parte, distorções apressadas — tentativas de preencher o espaço onde ainda deveria haver observação.

Sob o olhar de Epicuro, as opiniões vãs nascem daquilo que não compreendemos, mas insistimos em preencher com ruído. Para ele, grande parte das angústias humanas não vem da realidade em si, mas das ideias infundadas que cultivamos sobre deuses, morte, fortuna e reconhecimento. Opinar sem fundamento, nesse sentido, é como tentar saciar a sede bebendo água do mar: quanto mais se consome, mais se agrava o desconforto. Epicuro nos convidaria a desconfiar dessas opiniões infladas, lembrando que a serenidade (ataraxia) depende de distinguir o que é natural e necessário daquilo que é apenas fruto da imaginação social. Assim, as opiniões vãs não apenas nos afastam da verdade, mas sobretudo nos afastam de uma vida simples, lúcida e genuinamente tranquila.

No fim, talvez a questão não seja deixar de opinar, mas recuperar o peso das palavras. Fazer com que cada opinião carregue um pouco mais de experiência, um pouco mais de dúvida, um pouco mais de verdade.

Porque, quando tudo vira opinião, nada realmente importa. E quando nada importa, o pensamento perde sua função mais essencial: aproximar-nos da realidade, não afastar-nos dela.