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sábado, 13 de dezembro de 2025

Originalidade da Reação


Às vezes eu me pego pensando — geralmente numa fila de supermercado, lugar sagrado para epifanias de quinta categoria — como é curioso que a gente se repete. As situações mudam, os cenários se rearranjam, as pessoas entram e saem, mas nossas reações... ah, essas parecem sair do mesmo molde. Como se cada um de nós carregasse um pequeno “roteiro automático” no bolso, pronto para ser reproduzido sem muito questionamento. E é justamente nesse ponto que a questão aparece: é possível reagirmos de modo verdadeiramente original?

Entre o impulso e o hábito

Reagir é, antes de tudo, uma ação que nasce do encontro entre algo que vem de fora e algo que já está em nós. Esse “algo que já está em nós” costuma ser um combo de memórias, medos, crenças, cansaços, expectativas e até vícios emocionais. Não se trata apenas de escolha: muito do que reagimos é quase pré-escolhido por anos de repetições.

Pense em coisas simples:

  • alguém te corta no trânsito → irritação imediata;
  • você recebe uma crítica inesperada → defensiva automática;
  • um elogio sincero → desconforto engraçado, como se você não soubesse onde guardar as mãos.

Nessas horas, a originalidade passa longe. Somos mais previsíveis que aplicativos que completam frases.

A pergunta filosófica: o que é ser original na reação?

A originalidade aqui não significa extravagância, e muito menos teatralidade. Não é reagir de modo estranho para parecer diferente. Originalidade é a capacidade de reagir a partir da própria origem — do que é verdadeiramente seu, não do que é herdado, treinado ou esperado.

Em filosofia moral, existe uma distinção interessante entre:

  • ação heterônoma: quando reagimos porque algo externo determina;
  • ação autônoma: quando a reação nasce de um centro interno, lúcido.

Ser original, nesse contexto, é tentar operar mais pela autonomia do que pela heteronomia. Ou, dito no idioma do cotidiano: pausar antes de reagir. A pausa é o espaço onde se insere a liberdade.

O intervalo que devolve a autoria

Se tem algo que a vida moderna detesta é intervalo. Tudo é imediato — respostas, mensagens, opiniões, cancelamentos. Mas é justamente esse “micro intervalo” entre estímulo e resposta que cria a possibilidade de originalidade.

Como exemplo vamos a uma cena cotidiana:

Você está prestes a responder uma mensagem atravessada e digitou algo meio ácido. Aí você respira, lê novamente e pensa: “isso sou eu ou é só o meu cansaço de terça-feira às 14h?”
Esse breve gesto já é originalidade em ação. Não no sentido de genialidade, mas de autoridade sobre si mesmo.

Como dizia N. Sri Ram, pensador que muito aprecio, a verdadeira ação nasce do “ponto silencioso da consciência”, aquele lugar onde não estamos repetindo nada — nem o mundo, nem os outros, nem os nossos próprios hábitos. Reagir a partir desse ponto é dar ao acontecimento uma resposta não automática, quase inédita, porque é feita agora, não reciclada do passado.

O cotidiano como laboratório

Alguns momentos do dia são ótimos para testar a originalidade da reação:

  • Quando alguém é seco com você: em vez de replicar a secura, tentar ver se é possível responder com neutralidade — não como bondade protocolar, mas como escolha consciente.
  • Quando um plano dá errado: perceber o impulso de culpar alguém e substituí-lo por uma curiosidade leve: “ok, o que faço com isso agora?”
  • Quando um medo antigo aparece: notar que ele é velho, mas você não precisa reagir como antes.

Esses exercícios não nos transformam em santos (aliás, nem é o objetivo), mas nos fazem notar algo precioso: ser original é não ser prisioneiro de antigas versões de si mesmo.

A arte de não repetir a alma

A originalidade da reação não é um talento, mas uma vigilância serena. Ela nasce quando a gente se permite ser menos automático, menos condicionado, menos previsível até para nós mesmos. Quando paramos de usar a vida para confirmar velhas narrativas internas e começamos a viver a partir do que realmente sentimos agora, e não do que sentimos anos atrás.

No fundo, reagir de modo original é um ato de presença. É uma declaração silenciosa de que estamos ali — inteiros, atentos, donos do que fazemos. E talvez seja essa, entre todas, a forma mais discreta e mais profunda de liberdade humana. Então, fica aqui esta reflexão para o novo ano, cheio de possibilidades e oportunidades.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Inabalável Percepção

Às vezes, no meio da confusão do dia a dia — trânsito parado, notificações sem fim, opiniões que chegam como ondas quebrando uma depois da outra —percebo que a única coisa que de fato sustenta o nosso equilíbrio não é o silêncio do mundo, mas a firmeza da nossa percepção. Não aquela percepção apressada, meio impulsiva, que fazemos quando julgamos alguém pela primeira impressão. Mas a percepção que fica de pé mesmo quando tudo ao redor balança. A inabalável.

Comecei a pensar nisso outro dia, quando uma senhora no mercado, em plena pressa das férias de dezembro, derrubou sem querer uma pilha de panetones. A cena foi caótica: embalagens rolando, gente reclamando, funcionário correndo. Mas a senhora permaneceu calma, recolhendo um por um com uma serenidade que parecia deslocada da realidade. Não era indiferença — era percepção. Ela sabia o que realmente importava naquele instante: resolver o problema com tranquilidade. E aquilo, curiosamente, estabilizou até quem estava ao redor.

A percepção inabalável é algo que filósofos, especialmente os estoicos, valorizavam profundamente. Epicteto dizia que “não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos sobre elas”. Em outras palavras: o mundo não vai parar de jogar panetones pelo chão — mas a forma como percebemos e interpretamos esses eventos define a qualidade da nossa experiência.

No cotidiano, percebemos a diferença entre quem reage pela percepção firme e quem reage pela percepção instável:

  • No trabalho, quando aquele e-mail atravessado chega, há quem responda imediatamente, inflamado. E há quem pause, perceba o contexto, leia o que não foi dito, e escolha a resposta mais sensata.
  • Na vida familiar, sempre tem o parente que solta uma opinião que parece deslocada da mesa de jantar. Alguns explodem, outros percebem que aquilo fala mais sobre o mundo interno do parente do que sobre a realidade presente.
  • Nos relacionamentos, um comentário inocente pode ser interpretado como crítica — ou como apenas um modo torto de preocupação. A percepção é o filtro que define o rumo da conversa.

Mas não se trata apenas de autocontrole. A percepção inabalável é, antes de tudo, clareza: a capacidade de distinguir aparência e essência, ruído e sinal. É ver o que realmente está acontecendo, não o que nosso medo, ansiedade ou ego querem que esteja.

N. Sri Ram — um pensador que aprecio — dizia que o ser humano só encontra lucidez quando olha para o mundo com “a mente quieta e o coração aberto”, pois é assim que se percebe o que é verdadeiro além das ilusões que projetamos. Essa mente quieta não é ausência de movimento; é estabilidade interior para que a percepção não seja distorcida por tempestades internas.

Percepção inabalável é como uma bússola num bolso: não impede que o vento sopre, nem que o caminho seja tortuoso, mas garante que nunca percamos completamente o norte. E, curiosamente, quanto mais firme é a percepção, menos rígida se torna a pessoa. Porque a firmeza que interessa aqui não é dureza — é discernimento.

E talvez seja isso que falta na maior parte das nossas pequenas tragédias cotidianas: perceber melhor antes de agir pior. Ver antes de julgar. Cuidar antes de reagir.

A inabalável percepção não é um dom — é um hábito, cultivado aos poucos, entre um panetone que cai, uma palavra mal interpretada e um instante de lucidez que, quando aparece, muda tudo. Com o final de ano as famílias se reencontram e com isto confusões á vista. Então, muita calma nesta hora, é chegado momento de praticar nossa inabalável percepção.


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Olhar para Imensidão

Tem dias em que a gente para no meio do caminho — literalmente — só para olhar o céu. Nem precisa ser à noite, com estrelas piscando tímidas; basta o azul claro da tarde ou o cinza carregado de chuva para lembrar que existe algo muito maior do que o nosso calendário cheio de tarefas. Nessas horas, o pensamento escorrega para longe, como se o olhar, ao tocar a imensidão, abrisse uma janela para o desconhecido de dentro da gente.

Olhar para a imensidão é um ato antigo, humano, quase instintivo. Desde o pastor no deserto até o executivo na varanda do apartamento, todos já pararam um momento para encarar esse vazio que não responde, mas que também não ignora. A imensidão é um espelho silencioso: ela reflete o tamanho da alma de quem a vê.

Mas o que é imensidão? É só o espaço físico — o céu, o mar, o horizonte? Ou será que a verdadeira imensidão mora na consciência — esse abismo íntimo onde vivem os sonhos, as memórias, os medos, as perguntas sem resposta?

O pensador teosófico N. Sri Ram, em O Homem: Sua Origem e Evolução, nos lembra que “a natureza essencial do homem é inseparável do Todo; ele é, em essência, o próprio universo em miniatura.” Para ele, não há separação entre a vastidão do cosmos e a vastidão da alma. A imensidão do céu é também a imensidão interior — e só quem ousa olhar para dentro descobre o infinito de fora.

É curioso como esse pensamento conversa com o estoicismo de Marco Aurélio, que escrevia sobre o "todo cósmico" em seu diário pessoal. Para ele, o homem sábio é aquele que aceita seu papel no grande organismo do universo, como uma célula que pertence a algo infinitamente maior. O olhar para a imensidão não é, então, fuga do mundo — mas um retorno humilde ao nosso lugar nele.

No cotidiano, esse olhar é raro. Andamos cabisbaixos, fitando telas de celulares ou preocupações rotineiras. Quando alguém se dá o luxo de parar e encarar o céu ou o mar sem motivo prático, quase parece um desperdício — mas não é. Como lembra o filósofo brasileiro Huberto Rohden, “quem aprende a contemplar o infinito jamais se perde no finito”. Para ele, a experiência do transcendente começa exatamente nesse ato simples: deixar o espírito se expandir ao contemplar o que não pode ser contado ou possuído.

A imensidão tem também um lado perturbador. Ela lembra que somos passageiros, frágeis, impermanentes. Mas é desse desconcerto que nasce o verdadeiro senso de sacralidade. Quem olha demais para baixo esquece o mistério; quem olha para a imensidão descobre que o mundo tem mais perguntas que respostas — e que isso não é um defeito, mas uma benção.

Por isso, talvez olhar para a imensidão seja também um gesto de cura. Não cura das dores práticas, das contas a pagar ou das feridas do corpo — mas da doença mais sutil da alma moderna: a sensação de sufoco, de que tudo é pequeno demais, apertado demais, sem espaço para o ser respirar.

Na tradição zen, há um koan famoso: "Mostre-me seu rosto original antes que seus pais tenham nascido." O rosto original é a própria imensidão da consciência, anterior a todo nome, toda forma, todo limite. Olhar para o céu, no fundo, é tentar vislumbrar esse rosto invisível que carregamos desde sempre.

A imensidão não responde, mas escuta. E quem escuta de volta, pode, às vezes, ouvir um eco: uma lembrança esquecida, uma intuição nova, um chamado mudo para viver de outro modo — mais leve, mais livre, mais inteiro.

Talvez por isso o poeta Fernando Pessoa tenha escrito:

"Tudo vale a pena se a alma não é pequena."

Porque uma alma pequena não aguenta a imensidão. Mas uma alma que se deixa crescer pelo espanto pode, quem sabe, aprender a morar nela.


sábado, 15 de novembro de 2025

Compulsão Material

O desejo que não cabe no bolso (nem na alma)!

É só abrir o celular: a cada deslizada de dedo, mais um objeto aparece prometendo resolver a vida. Um fone que “entende” seu humor, uma garrafa que “conversa” com você, um sofá que “abraça”. Tudo parece feito para preencher um buraco – que, curiosamente, nunca se fecha. Por mais que a gente compre, deseje, guarde ou sonhe com o próximo lançamento, há uma inquietação que escapa das sacolas. Esse é o terreno onde nasce a compulsão material: um impulso que começa na vitrine, mas termina muito além dela.

Ao contrário do consumo cotidiano e necessário, a compulsão material não busca apenas objetos, mas tenta capturar sentidos. É o desejo em estado bruto, acelerado, faminto. Comprar vira uma forma de existir – ou, melhor dizendo, de disfarçar a sensação de não saber como existir. É como se cada coisa nova que adquirimos sussurrasse: “agora sim, você é alguém”. Mas o eco dessa voz se apaga rápido. E o vazio volta.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky, ao falar da era do hipermodernismo, descreve um tempo em que a identidade está em permanente construção e, por isso, permanentemente em crise. A compulsão material seria, então, uma tentativa desesperada de dar contorno ao “eu” usando o que está fora dele. Compramos para não pensar. Ou para tentar parar de sentir. O problema é que quanto mais se compra, mais se percebe que o objeto não tem o poder mágico prometido. E seguimos, então, comprando de novo – como quem tenta tirar sede bebendo água do mar.

Mas por que o impulso não se interrompe? Porque o sistema é feito para que ele continue. A publicidade não vende produtos: vende promessas de felicidade, de aceitação, de pertencimento. O objeto vira um símbolo. E o símbolo vira uma muleta emocional. A compulsão, assim, é sustentada por um mundo que explora o frágil para manter girando a roda do desejo.

No entanto, há também uma dimensão existencial profunda: quando nos afastamos da interioridade, buscamos fora o que perdemos dentro. E a matéria se oferece como solução concreta para angústias abstratas. Como disse o pensador brasileiro N. Sri Ram, em O Destino e o Caminho, “não é pela multiplicação das posses que se encontra a plenitude do ser, mas pela compreensão do que somos, sem ornamentos”.

Inovar, neste caso, talvez seja propor uma inversão: e se, em vez de tentar preencher a alma com coisas, começássemos a esvaziar o mundo à nossa volta até reencontrar o silêncio? Não por ascetismo moralista, mas por um desejo legítimo de liberdade. Não da matéria em si, mas daquilo que ela passou a representar: uma máscara para o que não sabemos dizer.

A compulsão material é, enfim, o sintoma de um tempo em que o ser foi sequestrado pelo ter. E enquanto não aprendermos a lidar com o que falta dentro de nós, continuaremos buscando, nas vitrines, um reflexo que nos reconheça – mesmo que ele nunca venha.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Coragem Desinteressada



Nem toda coragem é barulhenta. Algumas vivem em silêncio, escondidas em gestos simples — no perdão que ninguém vê, na despedida sem drama, no ato de ajudar sem esperar nada em troca. A coragem desinteressada é essa força mansa que não busca aplausos, reconhecimento ou vantagem. É o oposto do heroísmo exibido: é a coragem de quem age por convicção, não por retorno.

Vivemos num tempo em que tudo parece precisar de testemunhas. Se não houver plateia, parece que não valeu. Mas há algo de mais puro quando o gesto é gratuito, quando fazemos o bem por entender que ele é o que deve ser feito, e não por esperar gratidão. É a coragem de amar sem garantia, de oferecer sem contabilizar, de permanecer digno mesmo quando ninguém está olhando.

Essa coragem é a que permite ao professor continuar ensinando mesmo diante da apatia, ao artista criar mesmo quando ninguém o entende, ao amigo estender a mão mesmo sabendo que pode ser esquecido depois. É o tipo de coragem que não negocia com o ego.

O filósofo indiano N. Sri Ram, em A Busca da Sabedoria, diz que “a verdadeira coragem é silenciosa, porque nasce do amor e da compreensão, não da necessidade de vencer”. Ele fala de uma coragem que não se impõe, mas que sustenta — aquela que nos mantém fiéis ao que é certo, mesmo quando o mundo segue na direção contrária.

A coragem desinteressada é também uma forma de desapego. Ela compreende que os frutos de um ato justo não pertencem a quem o pratica, mas à própria vida. Quando alguém age assim, não está em busca de recompensa, mas em harmonia com o que sente verdadeiro. É como acender uma vela em um quarto escuro sem se preocupar se alguém verá a luz.

Em tempos de exibição constante, talvez a coragem desinteressada seja o gesto mais revolucionário: fazer o bem e seguir, sem precisar provar que o fez. Essa coragem não se mede em conquistas, mas em serenidade — a paz de saber que a própria consciência é suficiente testemunha.

E, curiosamente, é quando deixamos de buscar reconhecimento que o mundo nos reconhece de outro modo. Porque quem age com coragem desinteressada desperta confiança, respeito e amor, não por querer isso, mas porque é assim que a alma responde à verdade.

No fim, essa coragem é a maturidade do coração: a força de quem não precisa vencer para estar em paz, nem ser visto para existir. É a coragem de continuar sendo bom — mesmo quando o mundo parece não notar.

domingo, 28 de setembro de 2025

Esquecimento de Si

Uma Forma Ignóbil de Existir

Um ensaio filosófico informal sobre a ausência íntima

Tem dias que a gente se pega no automático. Já são quatro da tarde, e você nem sabe dizer o que sentiu desde que acordou. O corpo foi, as tarefas foram feitas, talvez até tenha sorrido ou se irritado — mas não estava lá. Estava onde, então? É como se uma parte de nós tivesse ficado de fora do próprio dia. Não por distração apenas, mas por ausência. Uma ausência funda, que não se resolve com um café forte nem com um banho demorado. Isso tem nome: esquecimento de si. Isto me lembra da tarde de domingo.

Parece inofensivo. A gente se adapta, funciona, entrega. Mas há algo de ignóbil nisso. Não no sentido moralista da palavra, mas no sentido de degradação silenciosa da dignidade de estar vivo e presente em si mesmo.

 

O esquecimento de si como vício contemporâneo

Vivemos tempos em que lembrar-se de si é quase um luxo. Entre notificações, prazos e expectativas alheias, ser alguém virou mais urgente do que estar consigo. A sociedade do desempenho — como bem analisou Byung-Chul Han — exige que cada um se transforme em produto e gestor de si mesmo. A performance substitui a presença. A pressa ocupa o lugar do pensamento. O “eu” vira uma figura de marketing.

E, nessa lógica, o esquecimento de si não é apenas um efeito colateral. Ele é um modo de viver estimulado. A cada vez que evitamos o silêncio, que trocamos uma inquietação íntima por um rolar infinito de tela, que vestimos um papel para agradar ou para sobreviver, estamos praticando esse esquecimento. E o mais perigoso: estamos nos acostumando a ele.

 

Ignóbil: a erosão da dignidade interna

A palavra ignóbil, do latim ignobilis, carrega a ideia de algo sem nobreza, sem valor reconhecido. Esquecer-se de si é isso: tornar-se estrangeiro da própria história, viver aquém do que se poderia ser, sem sequer notar.

Nietzsche dizia que “tornar-se quem se é” exige coragem. Ou seja, ser fiel a si mesmo não é espontâneo nem simples — é um processo árduo, cheio de perdas e rupturas. Por isso mesmo, o esquecimento de si é uma forma de covardia invisível: cedemos à facilidade de viver no reflexo do que esperam, ao invés de no brilho torto do que somos.

Há uma espécie de indiferença que vai se instalando, como poeira sobre móveis que antes brilhavam. E quando vemos, aquela vitalidade íntima foi embora. O pior é que, por fora, nada parece errado. Continuamos eficientes, funcionais, sociáveis. Só que o centro ficou oco.

 

O abismo e a superfície

É possível viver na superfície durante anos — repetir opiniões de outros, ocupar cargos que não dizem nada, cumprir rotinas como quem segue um roteiro que não escreveu. Mas o abismo que somos não desaparece só porque é ignorado. Ele apenas deixa de ser visitado. E o que não é visitado — apodrece ou se revolta.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia: “Eu sou eu e minha circunstância.” Mas quando esquecemos de nós, sobra só a circunstância. Somos a roupa que usamos, o trabalho que temos, o que postamos. E essa dissociação cobra um preço: a perda da inteireza. Não há pior solidão do que não estar consigo mesmo, mesmo cercado de gente.

 

O retorno ao si: um gesto revolucionário

O oposto do esquecimento de si não é narcisismo, nem uma jornada mágica de autoconhecimento vendido em cursos online. É mais simples, mais sutil e muito mais profundo. Trata-se de estar atento. Simone Weil dizia que “a atenção pura é oração”. Estar atento ao que sentimos, ao que pensamos, ao que nos atravessa, é uma forma de resgate espiritual, ainda que não religioso.

N. Sri Ram, pensador da tradição teosófica, afirmava que “a alma só se reconhece em momentos de quietude”. E esses momentos estão cada vez mais raros. Mas são neles que o “eu” reaparece. Que lembramos que temos escolhas. Que percebemos que nem tudo precisa ser feito do jeito que o mundo quer.

Talvez um ritual simples já seja suficiente: caminhar sem distrações, escrever o que se sente, fazer uma pausa antes de aceitar um convite, perguntar-se “isso é mesmo meu desejo?”. São gestos que parecem pequenos, mas são revolucionários numa era de dispersão.

 

Reencontrar a nobreza perdida

Esquecer-se de si é viver com dignidade emprestada. É funcionar sem alma. E isso, mais do que trágico, é ignóbil. Não porque nos torna maus — mas porque nos torna ausentes da única coisa que realmente nos pertence: a presença viva em nós mesmos.

Reencontrar-se não é fácil. Mas é possível. Talvez com menos barulho. Com menos pressa. Com menos máscaras. Com mais verdade, mesmo que ela assuste. Porque só quem se lembra de si pode, um dia, ser inteiro.


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Regularidades nas Mudanças

O Compasso Oculto na Formação da Consciência

A consciência não se forma num instante único, nem cresce como uma linha reta rumo à clareza. Ela pulsa. Alterna. Expande-se e recolhe-se, como marés. Cada pessoa que tenta lembrar “quando começou a perceber o mundo” descobre que não houve um ponto inaugural, mas uma sequência de despertares — cada um diferente, mas misteriosamente familiar. A isso podemos chamar regularidades nas mudanças: um fio invisível que une o que muda e o que permanece.

Na formação da consciência, essas regularidades funcionam como marcos de navegação. A criança que aprende a falar experimenta uma revolução, mas repete algo que todas as crianças já viveram: o momento em que o som se transforma em palavra. O adolescente que questiona regras sente-se único, mas percorre uma curva já traçada por incontáveis outros. Há uma cadência nesses rompimentos: cada avanço vem acompanhado de desconforto, cada desconforto gera reorganização, cada reorganização redefine o “eu”.

O curioso é que essas regularidades não são externas como o calendário ou o relógio — elas habitam o próprio ritmo do pensamento. Mesmo quando acreditamos agir ao acaso, a consciência parece ter um padrão de maturação, como se houvesse um arquiteto silencioso que projeta fases de crise, momentos de revelação e períodos de assimilação.

O filósofo N. Sri Ram sugeria que o despertar da consciência é como a abertura gradual de uma flor: não por pressa, mas por uma necessidade interna de seguir um ciclo de expansão. Para ele, a mudança não é uma ruptura com o passado, mas um aprofundamento daquilo que já estava latente. É nesse sentido que a consciência se constrói — mudando para se tornar mais fiel a si mesma.

Essa espiral de mudanças regulares se manifesta ao longo de toda a vida. Na infância, cada nova habilidade — andar, falar, nomear o mundo — é uma revolução que, paradoxalmente, cumpre um roteiro biológico e psíquico já inscrito. Na juventude, a consciência experimenta um ciclo de expansões e frustrações: o impulso de romper padrões convive com a necessidade de encontrar um lugar no mundo, e cada ruptura é seguida por uma busca de novo equilíbrio. Na maturidade, a espiral não cessa; apenas muda de cadência. O que antes era aprendizado por experimentação torna-se aprendizado por síntese, e as crises já não são apenas choques externos, mas diálogos internos que pedem redefinição de sentido.

Talvez seja essa a regularidade mais profunda: mudamos para permanecer. E permanecemos para poder mudar. A formação da consciência, vista assim, não é uma linha reta nem um caos, mas uma espiral — ela passa pelos mesmos pontos, mas sempre em um nível mais alto. É a dança de reconhecer, na novidade, o eco de algo que já sabíamos sem saber.


sábado, 30 de agosto de 2025

Razão Não Basta

O Humano Entre Lógica e Afeto

A vida nos ensina cedo que não dá para calcular tudo. Podemos planejar uma viagem milimetricamente, mas a lembrança mais marcante pode ser o pôr do sol inesperado, ou a conversa com um desconhecido no ônibus. Podemos escolher uma carreira pelo salário, mas sentir que algo essencial falta. É nesse intervalo entre o previsível e o vivido que percebemos: a razão, sozinha, não basta.

No cotidiano brasileiro, isso se expressa de muitas formas. O estudante que segue a rota segura de um concurso público, mas descobre que sua alegria está na música; o casal que, “racionalmente” compatível, perde-se porque não há mais ternura; a mãe que, contra todos os conselhos técnicos, insiste em confiar na intuição sobre o cuidado do filho — e está certa. O excesso de lógica, nesses casos, sufoca o que é propriamente humano: a sensibilidade.

O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em sua obra A Busca do Bem-Estar (1954), lembrava que a sabedoria não nasce apenas do pensamento discursivo, mas da integração entre mente e coração. Para ele, o intelecto é importante, mas só ganha profundidade quando iluminado por uma visão interior que inclui compaixão e empatia. A verdadeira clareza não está no raciocínio frio, mas na percepção que reconhece o outro como parte de si.

Esse ponto é essencial: a razão nos ajuda a organizar o mundo, mas é o afeto que nos conecta a ele. Sem compaixão, a ciência pode se tornar ferramenta de destruição; sem imaginação, a técnica vira rotina vazia; sem amor, a lógica se reduz a cálculo de interesses.

“Razão não basta” não é um convite ao irracionalismo, mas à completude: reconhecer que somos feitos de intuição, desejo, memória, fé e corpo. Pascal dizia que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”; Sri Ram acrescentaria que é justamente nessa união de coração e mente que o ser humano encontra sua verdadeira liberdade.

Assim, talvez a sabedoria não seja escolher entre pensar ou sentir, mas saber quando deixar que um complete o outro. Porque viver, afinal, é mais do que raciocinar: é também deixar-se atravessar pelo imprevisto, pelo gesto que foge à lógica e, ainda assim, faz todo sentido.


terça-feira, 26 de agosto de 2025

Nova Identidade

Entre o que Fica e o que se Transforma

A cada virada de página da vida — um novo emprego, uma mudança de cidade, o término de uma relação, a chegada de um filho — somos atravessados por um sentimento ambíguo: deixamos de ser quem éramos, mas ainda não sabemos muito bem quem estamos nos tornando. É nesse intervalo de incerteza que nasce a ideia de uma nova identidade.

O cotidiano nos oferece exemplos claros. O jovem que sempre se via como estudante e, de repente, precisa se apresentar como “profissional”. A mulher que, ao ser chamada de “mãe” pela primeira vez, percebe que esse título reorganiza todo o seu modo de estar no mundo. Ou o aposentado que, após anos de rotina laboral, se vê perdido entre a liberdade e o vazio de não ter mais a função que lhe dava nome. Em todos esses casos, não se trata de trocar de pele como quem troca de roupa, mas de se reconstruir a partir do que já se foi.

O pensador brasileiro N. Sri Ram, em A Natureza da Nossa Busca (1966), lembrava que a identidade não é um bloco fixo, mas um processo vivo de autodescoberta. Para ele, cada etapa da existência exige que reconheçamos tanto aquilo que permanece — a centelha íntima do ser — quanto aquilo que se modifica, fruto das experiências. Assim, a “nova identidade” não é ruptura total, mas continuidade transformada: como um rio que muda de curso, mas não perde sua essência de água corrente.

Há, porém, uma armadilha nesse processo. Muitas vezes confundimos identidade com rótulo: ser “advogado”, “artista”, “mãe”, “militante”. Esses papéis nos ajudam a organizar a vida social, mas tornam-se estreitos quando acreditamos que esgotam quem somos. A nova identidade corre o risco de ser apenas uma troca de máscara, sem mergulho no que realmente nos habita.

A filosofia, aqui, pode ser convite à coragem: assumir que mudar de identidade não significa perder-se, mas reconhecer que somos múltiplos e mutáveis. O eu de ontem não é idêntico ao de hoje, e ainda assim há um fio de continuidade que nos sustenta. O que nos constitui, talvez, não seja a fixidez, mas a capacidade de nos refazermos.

Assim, quando a vida nos coloca diante de uma nova identidade, a pergunta não deveria ser “quem eu sou agora?”, mas “como posso ser inteiro dentro dessa transformação?”. Porque, no fim, identidade não é um título que recebemos, mas um caminho que percorremos — e que nunca termina. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Pedagogia da Lucidez

Ensaiando a Consciência como Caminho

Há uma pedagogia silenciosa que não se aprende em livros, mas se revela nos momentos em que a mente, cansada de ruídos, faz silêncio para escutar o que importa. Chamemos isso de pedagogia da lucidez: um processo de formação não apenas do intelecto, mas da consciência. Não ensina a saber mais, mas a ver melhor.

Lucidez, aqui, não é só clareza mental, mas transparência de alma. É quando os véus caem e o mundo aparece como é — sem os filtros da vaidade, do medo ou da pressa. Um momento de lucidez pode valer mais que anos de estudo, se nos leva a enxergar aquilo que estava diante de nós o tempo todo: a verdade simples, cotidiana, escondida no gesto, no olhar, no silêncio.

Para Simone Weil, “a atenção pura é oração”. Atentar, no sentido radical, é se oferecer por inteiro ao real. A pedagogia da lucidez se constrói nesse gesto de atenção desarmada, que não quer controlar, mas compreender. O professor, aqui, não é o que fala alto, mas o que guia com o exemplo da presença.

Sri Ram, em O Ideal Teosófico, dizia que o verdadeiro conhecimento só acontece quando o ego se aquieta. Enquanto o eu busca brilhar, o saber se esconde. A lucidez, portanto, é filha da humildade: ela nasce quando paramos de querer ter razão para, enfim, tocar o que é real.

Mas como ensinar isso? A pedagogia da lucidez não se impõe, não tem currículo fixo. Ela se vive. Está no modo como atravessamos o cotidiano, no cuidado com as palavras, no respeito pelo tempo do outro. Talvez esteja, como pensava Paulo Freire, em "ensinar com o corpo e com o ser", e não só com palavras.

Lucidez não é iluminação final, mas clareza possível. E como toda pedagogia, precisa ser cultivada com paciência. A cada instante em que preferimos a escuta ao julgamento, o gesto à explicação, estamos praticando essa nova forma de educar: não para formar especialistas, mas para despertar consciências.

É uma pedagogia revolucionária, porque transforma o mundo a partir do ser. Não nos prepara apenas para o trabalho, mas para a vida. Afinal, como disse o filósofo Jiddu Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. A lucidez, nesse contexto, é o primeiro passo para a liberdade.

Ensinar a ver — eis o desafio.

E talvez, para isso, seja preciso antes desver: desfazer os enganos, dissolver ilusões e reaprender a estar no mundo como quem acaba de chegar. Essa é a pedagogia da lucidez: simples, exigente e infinitamente humana.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

Vaidades Ridículas

O Tempo Leva o Que Nunca Foi Nosso

Tem dias que a gente acorda se olhando no espelho com um estranhamento leve, como quem revê um parente distante. Aquela ruga nova, o cabelo que já não obedece, a pele que grita por descanso. E, mesmo sem querer, lembramos das fotos antigas, dos corpos que tivemos ou desejamos ter, dos elogios recebidos e dos silêncios constrangedores. É nesse jogo entre aparência e memória que as vaidades ridículas se escondem — vaidades que o tempo, com sua elegância implacável, vai retirando de cena.

O corpo como vitrine social

O corpo humano, talvez mais que qualquer outro elemento visível da nossa existência, foi sequestrado pela cultura. O que deveria ser abrigo e expressão da individualidade virou produto, vitrine, símbolo de status. Modelos sociais de beleza mudam com a velocidade de um clique: o que ontem era invejado, hoje é ultrapassado, e o que hoje é tendência, amanhã será ridículo.

Na década de 50, a silhueta curvilínea era o auge do desejo. Nos anos 90, os corpos magérrimos dominaram. Hoje, a beleza se mistura com performance: é preciso estar em forma, mas sem parecer que se esforça demais. É o culto ao “natural trabalhado”, onde tudo é artificial, mas tem que parecer espontâneo. Uma simulação de leveza num sistema pesado.

A vaidade como sintoma de pertencimento

Mais do que vaidade, trata-se de pertencimento. Moldar-se ao ideal vigente é uma forma de não desaparecer. Quando seguimos os padrões, não apenas buscamos reconhecimento — buscamos evitar o abandono simbólico. Quem não é belo segundo os padrões corre o risco de ser ignorado, de se tornar invisível. E invisibilidade social é uma das formas mais cruéis de exclusão.

Há uma radicalidade silenciosa — e por vezes brutal — nas mutilações modernas feitas em nome da beleza. Corpos cortados, costurados, preenchidos, raspados, esvaziados ou inflados, numa busca angustiada por pertencimento estético. O bisturi, que antes era símbolo de reparo, tornou-se ferramenta de reconfiguração da identidade. Mamas retiradas e recolocadas, costelas removidas, narizes moldados como se fossem argila, pele esticada até que perca a expressão. O que deveria ser autocuidado vira autonegação. É a dor disfarçada de estética, a cirurgia plástica como ritual de passagem para um ideal que, paradoxalmente, é cada vez mais inatingível. A mutilação aqui não é só física — é simbólica: apaga-se a história do próprio corpo para caber numa moldura inventada por algoritmos e publicidades.

O tempo como libertador

O tempo é o grande destruidor de ilusões. Não porque ele castiga o corpo — mas porque ele revela o quão frágeis são as nossas referências. A beleza da juventude envelhece. O rosto que ditava moda vira meme. O ícone de ontem se torna caricatura.

É curioso pensar que, com o tempo, algumas pessoas ganham uma beleza que antes não tinham: a beleza de quem não precisa mais provar nada. O sorriso mais solto, a roupa mais confortável, a presença mais inteira. Como escreveu Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” — e talvez não se nasce belo, mas se aprende a habitar o próprio corpo com dignidade e calma.

O novo olhar: o corpo que fala

Um ensaio sociológico inovador sobre beleza precisa levar em conta que estamos, hoje, diante de uma multiplicidade de corpos e estéticas que desafiam os modelos antigos. A internet abriu espaço para vozes que antes eram marginalizadas: corpos gordos, pretos, trans, maduros, marcados por cicatrizes ou doenças, todos ganhando voz e visibilidade.

Essa revolução silenciosa não elimina a tirania dos padrões, mas a questiona. Há um deslocamento importante: da beleza imposta para a beleza assumida. Uma estética do eu, e não do dever ser.

A autoestima como construção interna

Entre a negação do corpo imposto e o acolhimento do corpo real, há um espaço de reconstrução: o da autoestima ativa. Fazer algo por si — mudar o corte de cabelo, praticar uma atividade física, cuidar da alimentação, dançar, vestir-se com liberdade, fazer terapia — pode ser profundamente transformador. Quando esses gestos partem de um desejo genuíno de bem-estar e não da vergonha de si, eles se tornam potências de afirmação. A autoestima verdadeira não nasce do espelho, mas do encontro consigo mesmo, da aceitação gradual da própria história. Cuidar-se, então, deixa de ser obediência estética e vira celebração íntima.

A vaidade que resta

Não há problema em gostar do que é belo, em querer parecer melhor. O problema está em se tornar escravo disso. O tempo não destrói a vaidade — ele peneira. Vai retirando as vaidades ridículas e deixando apenas aquelas que nos tornam mais humanos, mais leves, mais honestos com nós mesmos.

Como escreveu o filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Natureza da Beleza:

"A beleza verdadeira é aquela que revela o íntimo, não a que o encobre."

E talvez seja esse o ponto: que o tempo nos leve tudo que encobre. E nos deixe, enfim, com o que somos.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Falso Mundo

 

...na Visão Budista: um Ensaio Filosófico com Pé no Chão

Outro dia, esperando minha vez na fila do banco, observei um senhor discutindo com o caixa sobre centavos que "sumiram" da conta. A irritação dele era tamanha que parecia brigar com a própria existência. E ali, parado, me ocorreu: será que a gente não briga mais com as ilusões do que com os fatos? Será que a maioria das nossas preocupações não são como sombras que tomamos por objetos? Nesse instante, lembrei do que o budismo chama de maya: o falso mundo.

O teatro da ilusão

No budismo, a ideia de falso mundo é tão central quanto o sofrimento. Maya não é apenas ilusão no sentido de algo mágico ou miragem. É a própria estrutura de como percebemos o mundo. Vemos solidez onde há fluxo. Vemos identidade onde há mutação. Vemos posse onde há impermanência.

Essa ilusão não é um defeito da realidade, mas um véu na mente. A gente constrói castelos com tijolos feitos de desejo, aversão e ignorância — os três venenos. Por isso o mundo que construímos com esses materiais acaba nos engolindo. O sofrimento é consequência direta de acreditar que o mundo falso é o mundo real.

A rua, o celular e a insatisfação constante

Você já notou como ficamos incomodados quando o Wi-Fi cai? Ou quando o Uber demora? Ou quando o feed do Instagram "não tem nada de novo"? Esse incômodo revela o quanto estamos colados em representações que tomamos por realidade. São camadas de maya: aplicativos que prometem conexão, mas nos afastam do instante. Notícias que informam, mas também inflamam. Perfis que mostram vidas que talvez nem existam fora do enquadramento da câmera.

O falso mundo não é apenas o que está fora. Ele é o dentro também — esse monte de pensamento automático, comparação inútil e memória distorcida que carregamos como verdades absolutas.

O copo que não segura água

A filosofia budista vai direto ao ponto: tudo é impermanente. Tudo que nasce, morre. Tudo que é composto, se desfaz. Ao perceber isso, a ideia de um mundo sólido, estável, previsível, começa a ruir. E isso pode ser libertador.

Imagine alguém tentando encher um copo com fundo furado. É isso que fazemos quando queremos extrair estabilidade de algo que, por natureza, muda. Relações, status, objetos, até mesmo o corpo. O sofrimento aparece não porque essas coisas mudam, mas porque a gente espera que não mudem.

E se o mundo falso fosse só um convite?

Mas aqui vem o pulo do gato: o budismo não propõe negação da vida, nem fuga para um mosteiro (a não ser que você queira). A visão budista do falso mundo é mais como um convite para ver além. Não se trata de rejeitar tudo, mas de perceber: "ah, isso é só forma, isso é só sensação, isso é só pensamento".

Quando você vê o falso mundo como falso, ele não te prende mais. Ele continua existindo — o trânsito, o chefe difícil, a conta de luz — mas agora você não é arrastado com tanta força. Você atua no mundo, mas não se confunde com ele.

Um comentário do mestre N. Sri Ram

O pensador indiano N. Sri Ram, presidente da Sociedade Teosófica no século XX, comentou em seu livro "O Verdadeiro e o Falso" que "a libertação não é fugir do mundo, mas ver claramente através dele". Ele não falava de rejeitar a experiência, mas de atravessá-la com sabedoria, com um olhar que distingue essência de aparência.

Sri Ram insistia que a verdade não é uma coisa que se adiciona à vida, mas algo que se revela quando removemos os filtros da ilusão. Para ele, a clareza da mente é mais importante que qualquer teoria. E é justamente essa clareza que nos permite viver no mundo sem sermos dele.

Não acordar, mas despertar

Então, talvez a gente não precise acordar de um sonho, mas despertar dentro dele. Reconhecer que o mundo em que vivemos é moldado por interpretações, por projeções, e que há uma liberdade sutil escondida entre uma notificação de celular e outra.

Da próxima vez que você se irritar na fila do banco ou se sentir derrotado por um comentário online, lembre: talvez não seja o mundo te atacando, mas o falso mundo tentando te convencer de que ele é o único. Respire fundo. Observe. E talvez, por um instante, você veja a fresta da realidade por onde entra o sol.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Casa Interior

Há uma casa dentro de nós. Alguns chamam de alma, outros de espírito, outros ainda de consciência. Pouco importa o nome — é um espaço íntimo, silencioso, misterioso, e, ao mesmo tempo, tão nosso quanto nosso próprio respirar. O problema é que, muitas vezes, vivemos do lado de fora dela. Construímos fachadas, decoramos muros, trocamos telhados, pintamos janelas, mas raramente entramos.

Essa casa interior não se revela com chave. Ela se revela com pausa.

Vivemos tão ocupados tentando provar algo para os outros — ou para nós mesmos — que esquecemos de nos visitar. Isso mesmo. Esquecemos de fazer aquela visita delicada ao nosso próprio ser, como quem bate na porta e diz: “Estou aqui. Queria te escutar.”

E quando, finalmente, sentamos no chão dessa casa, percebemos que não estamos sozinhos. Há ali dentro uma criança com olhos atentos, um velho cansado que pede repouso, um sábio que não tem pressa, um animal que ainda teme a dor e um anjo que nos conhece sem julgamento. Tudo isso somos nós. E tudo isso também é o outro. Eis o elo invisível que nos une a todos.

Mas o que faz com que algumas pessoas vivam a vida toda sem nunca cruzar a soleira de sua casa interior?

Talvez o medo. Talvez o barulho. Talvez a crença de que tudo o que existe está do lado de fora, em metas, em conquistas, em comparação. A cultura do fazer, do ir, do crescer para fora — mas não para dentro. Só que o crescimento sem raízes é uma árvore que não se sustenta.

O retorno ao lar

O retorno à casa interior é silencioso. Às vezes começa com o cansaço. Outras, com uma perda. Outras ainda com um encantamento — uma flor que desabrocha, um pôr do sol, um poema esquecido, uma música que toca bem onde doía. Não é um caminho que se percorra com os pés, mas com a entrega.

E nesse lar reencontrado, surge uma nova maneira de viver. Começamos a perceber que tudo fala com tudo. Que os acontecimentos não são apenas fatos, mas mensagens. Que as pessoas não são obstáculos, mas espelhos. Que o tempo não é inimigo, mas mestre. E que a alma, essa sim, está sempre disposta a nos abrigar, se nos dispusermos a escutá-la.

O sagrado cotidiano

O espiritualismo que propomos aqui não é etéreo. Ele caminha de chinelos pela casa, olha nos olhos do caixa do supermercado, sente o perfume do café da manhã. Ele não precisa de templo, embora os respeite. Ele é uma postura. Uma forma de estar no mundo com mais presença, mais escuta, mais reverência pelo mistério da existência.

Sri Ram, pensador espiritualista, dizia: “A alma não busca respostas. Ela busca escutar a vida em silêncio.” E é exatamente isso. A casa interior não nos dá garantias, mas nos devolve o sentido. E sentido, em tempos de excesso, é o verdadeiro luxo.

Para todos

Este ensaio é para todos. Para quem crê e para quem duvida. Para quem busca e para quem acha que já encontrou. Para quem está cansado e para quem ainda não se permitiu cansar. Porque todos, sem exceção, habitamos essa casa. E todos, mais cedo ou mais tarde, seremos convidados a voltar.

Talvez hoje. Talvez agora. Talvez este texto seja apenas a campainha tocando.

Você atende?


sábado, 19 de abril de 2025

Ardil 22

A armadilha que pensa como a gente

Outro dia, tentando cancelar um serviço de internet, me vi preso num diálogo kafkiano com um robô que me dizia que eu só poderia cancelar pelo telefone — e o telefone me mandava de volta pro site. Depois de meia hora nisso, me caiu a ficha: isso é um Ardil 22. E mais — nós somos cheios de pequenos Ardis 22. Eles moram nas empresas, nos sistemas, nas relações e até dentro da cabeça da gente.

O famoso "Catch-22", inventado por Joseph Heller, é mais do que uma ironia militar: é um modo de existência. Na história, o piloto Yossarian quer sair da guerra alegando insanidade. Mas o fato de ele querer sair da guerra prova que ele é são. Logo, não pode sair. Está preso. Pronto. A lógica fecha sobre si mesma como uma ratoeira — elegante, cruel, racional.

Mas será que o Ardil 22 não é, no fundo, uma metáfora do labirinto lógico em que vivemos quando tudo parece exigir coerência, mas o mundo real é feito de paradoxos?

O paradoxo como forma de controle

Os Ardis 22 da vida não precisam usar farda. Eles aparecem em frases como:

– "Se você precisa pedir ajuda, então não está pronto para recebê-la."

– "Você só pode conseguir experiência tendo experiência."

– "Se você não tem segurança, não pode conseguir crédito. Mas sem crédito, como terá segurança?"

O Ardil 22 é uma estrutura mental e social que gera imobilidade. Ele usa a lógica para travar a ação. E talvez o mais angustiante seja perceber que muitas dessas armadilhas não vêm de fora, mas são construídas dentro da gente. São as autoexigências circulares: “Só vou descansar quando terminar tudo” — mas “nunca termina tudo”, então nunca descanso.

Segundo Zygmunt Bauman, vivemos em uma modernidade líquida, onde as certezas evaporaram e as estruturas sólidas viraram gelatina. Dentro desse mundo fluido, o Ardil 22 atua como uma espécie de pseudoestrutura: ele nos dá a sensação de lógica e ordem, mesmo quando está nos paralisando.

O Ardil interior: quando a mente vira carcereira

Vamos além: talvez o Ardil 22 seja também um modo de operar do ego. O ego quer proteger, mas também quer controlar. Ele diz: “Se você se mostrar vulnerável, será fraco.” Mas também: “Se você não se mostrar, nunca será compreendido.” Estamos presos entre ser vistos e ser julgados, entre agir e falhar, entre falar e ser mal interpretados.

E aí surge a pergunta: existe saída? Ou o Ardil é como um labirinto cujas paredes se movem cada vez que encontramos uma saída?

Sri Ram e o Ardil do espírito

O pensador N. Sri Ram, num de seus escritos mais belos, disse que "a liberdade não está em escapar das condições, mas em compreendê-las por dentro." Ou seja, talvez a saída do Ardil 22 não esteja na quebra do paradoxo, mas no reconhecimento da sua natureza. Ele é uma armadilha — sim — mas só porque acreditamos que ele precisa ser resolvido como um problema de matemática. E talvez ele seja, na verdade, um koan zen: um paradoxo para silenciar a mente lógica e abrir o coração.

Rir antes que nos enlouqueçamos

O Ardil 22 da vida é aquele momento em que, para ser feliz, você precisa parar de buscar a felicidade — mas parar de buscar já é, de novo, uma forma de busca. É aquele nó que só se desfaz quando você para de puxar. Quando percebe que a saída do labirinto talvez seja parar de correr por ela e simplesmente sentar no chão. Ou rir. Porque o Ardil 22 perde a força quando você ri dele. Quando você entende que ele pensa como você, mas você pode pensar diferente.

E aí, talvez, a verdadeira sanidade seja exatamente aceitar que às vezes não há saída lógica. E tudo bem. A vida é maior do que as suas contradições.

 

Fica aí a sugestão de leitura do romance:

“Ardil 22” por Joseph Heller (Autor), A. B. Pinheiro de Lemos (Tradutor), Mariana Menezes (Tradutor)Edição de Bolso da Best Seller


Excessos da Racionalidade

 

Nos tempos de hoje, há uma grande obsessão por dados, cálculos e previsões. Tudo precisa ser medido, analisado e justificado com estatísticas. Até mesmo as decisões mais triviais—como escolher um filme para assistir—parecem exigir um estudo de crítica especializada, reviews no Letterboxd (rede social para cinéfilos) e um algoritmo sugerindo o que combina melhor com nosso gosto. No trabalho, nas relações e até nos momentos de lazer, somos compelidos a agir de forma lógica, eficiente e produtiva. Mas será que essa racionalidade desenfreada não nos está roubando algo essencial?

A racionalidade, sem dúvida, é uma das grandes conquistas humanas. Foi graças a ela que saímos das cavernas, dominamos o fogo, construímos civilizações e desenvolvemos a ciência. No entanto, como em qualquer virtude que se estende além de seus limites naturais, a racionalidade pode se tornar um vício. O filósofo Theodor Adorno já advertia sobre a razão instrumental, aquela que reduz tudo a cálculos e resultados, transformando até os afetos humanos em algo mensurável e controlável. Quando a razão se torna excessiva, ela não apenas elimina o erro, mas também a espontaneidade, a intuição e o mistério da existência.

O problema surge quando começamos a exigir lógica absoluta até onde a vida exige fluidez. Uma amizade não pode ser medida em números. O valor de uma conversa despretensiosa ou de um pôr do sol visto sem pressa não pode ser reduzido a métricas. Ainda assim, vivemos numa época em que até o tempo livre precisa ser otimizado—há cursos ensinando a "meditar de forma eficiente", apps que controlam quantas horas dormimos e técnicas para maximizar a criatividade em minutos cronometrados. A racionalidade excessiva nos leva ao paradoxo de uma vida hipercontrolada e, paradoxalmente, vazia de sentido.

A filosofia oriental, especialmente no pensamento de N. Sri Ram, sugere que há uma sabedoria além da lógica fria. Ele propunha que a mente, quando excessivamente estruturada pela racionalidade, perde a capacidade de captar dimensões mais profundas da realidade. A intuição e a percepção direta da vida são qualidades igualmente necessárias, mas a modernidade tende a subjugá-las em nome de um ideal técnico e mecanizado de existência.

O convite aqui não é para rejeitar a razão, mas para reconhecer seus limites. Nem tudo precisa ser útil, produtivo ou matematicamente perfeito. Às vezes, o maior insight não vem de um cálculo exato, mas de uma pausa para respirar. Talvez o que nos falte não seja mais lógica, mas a coragem de abraçar o imprevisível, de confiar no que sentimos sem precisar justificar tudo com números. Afinal, como disse o poeta Fernando Pessoa: "Sentir é estar distraído"—e talvez seja justamente essa distração que nos salve do excesso de razão.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Escapismos e Conflitos

 

Outro dia, entrei num aplicativo de delivery só pra ver o cardápio — sem fome, sem intenção de pedir nada. Minutos depois, percebi que já estava há meia hora ali, entre imagens de hambúrgueres e promoções de sushi. Quando fechei o celular, senti uma estranha paz. Como se eu tivesse conseguido fugir de alguma coisa. Mas fugir de quê, exatamente? Do tédio? De um incômodo que eu não queria nomear? Ou de algum conflito interno que me esperava na curva do pensamento? Foi aí que comecei a pensar sobre o papel do escapismo na nossa vida — e como ele se mistura, se confunde e às vezes até alimenta os nossos próprios conflitos.

A natureza do escapismo

Escapar não é necessariamente um erro. É humano. Desde as cavernas, inventamos maneiras de esquecer a dor. Primeiro com histórias ao redor do fogo, depois com deuses, depois com novelas e redes sociais. Hoje, cada notificação é uma brecha para fora de nós mesmos. Escapar é criar atalhos mentais, anestesias rápidas para os choques da realidade.

Mas o que está por trás desse impulso? O filósofo francês Blaise Pascal dizia que “toda a infelicidade do homem se deve a uma única coisa: não saber ficar quieto num quarto.” Ele não estava falando de paz, mas de enfrentamento. Ficar sozinho, em silêncio, é quase como entrar em campo contra um adversário invisível — você mesmo.

O conflito como revelador

Todo escapismo nasce de um conflito, mas raramente o resolve. Às vezes, ele o posterga, às vezes o alimenta. A série que maratonamos para esquecer o vazio da segunda-feira talvez só o aprofunde. O vinho do sábado à noite, tomado para afastar a angústia da solidão, pode se transformar em um ritual que a eterniza. E é assim que o escape vira prisão.

No fundo, o conflito tem uma função reveladora. Ele nos mostra o que não queremos ver. Ele aponta rachaduras. Conflitos internos são como alarmes: barulhentos, incômodos, mas essenciais. É neles que moram as perguntas mais difíceis — e por isso mesmo mais importantes.

A ilusão do alívio

N. Sri Ram, pensador da tradição teosófica, dizia que "a mente está sempre em movimento, e esse movimento é, em grande parte, uma fuga da percepção verdadeira do que somos." Segundo ele, enquanto não cessarmos esse movimento de fuga, não encontraremos clareza. Isso significa que enquanto estivermos nos distraindo, estaremos nos afastando de uma percepção mais lúcida da vida — mesmo quando acreditamos estar “cuidando da saúde mental”.

O escapismo é, nesse sentido, uma ilusão de alívio. Ele parece proteger, mas nos fragiliza. Ele parece nos dar liberdade, mas nos aprisiona em ciclos de repetição. Quanto mais fugimos, mais nos perdemos.

O que fazer com isso?

Escapar é inevitável. Mas talvez o segredo esteja em saber de onde se escapa, para onde se escapa — e por quê. Às vezes, precisamos de uma pausa, sim. Um filme, uma viagem, um livro. Mas a pergunta fica: esse refúgio está me preparando para voltar mais inteiro? Ou está me afastando ainda mais do que preciso encarar?

O verdadeiro caminho talvez não seja nem fuga nem conflito direto, mas um meio-termo atento: perceber quando estamos escapando, e o que exatamente estamos evitando. Porque às vezes, no meio de uma fuga, podemos acabar tropeçando na verdade. E isso, sim, pode ser o começo de uma reconciliação interna.

No fim das contas, não se trata de eliminar o escapismo, mas de compreendê-lo como sintoma. E talvez, quem sabe, começar a escutar os conflitos com menos medo. Porque eles, mais do que obstáculos, são portas — incômodas, mas honestas — para aquilo que ainda não entendemos sobre nós mesmos.