Quando descansar virou falha moral
Hoje,
dizer “estou cansado” quase soa como um pedido de desculpas. A frase raramente
vem sozinha; ela costuma vir acompanhada de uma justificativa: “mas é porque
trabalhei muito”, “é só essa fase”, “depois eu compenso”.
Como se o cansaço precisasse provar que merece existir.
Descansar,
curiosamente, virou algo que precisa ser explicado.
Do
dever ao desempenho
Houve
um tempo em que a moral girava em torno do dever: obedecer, cumprir, seguir
regras. Byung-Chul Han mostra que isso mudou. Hoje, não somos sujeitos
do dever, mas do desempenho.
Não há mais um “você deve”, mas um sedutor “você pode”. E se pode, então deve —
ainda que ninguém diga isso explicitamente.
O
sujeito não é mais explorado por outro. Ele se explora acreditando estar se
realizando. A violência não vem de fora; ela se instala como autoexigência.
O
superego moderno: “dê conta”
Freud
falava
do superego como instância moral que cobra. O superego contemporâneo não proíbe
— ele estimula. Ele diz: seja produtivo, seja ativo, seja visível.
O problema é que esse estímulo não conhece limite.
O
cansaço, então, não é apenas físico. É existencial. A pessoa não está só
exausta; está em dívida consigo mesma.
Cotidiano:
a culpa por parar
Você
tira um dia livre e sente inquietação. Abre o celular “só para ver algo
rápido”. Responde e-mails fora do horário. Planeja cursos, projetos, melhorias.
O descanso vira intervalo estratégico para voltar a produzir melhor. Nunca um
fim em si.
Até
o lazer entra na lógica do rendimento: viagens viram conteúdo, hobbies viram
performance, descanso vira investimento.
Quando
o corpo diz não
O
burnout aparece quando o corpo faz o que a consciência não permite: parar.
Não é preguiça, não é fraqueza. É um colapso de sentido. O sujeito já não sabe
mais para quê está se esforçando, apenas que precisa continuar.
Aqui,
Viktor Frankl ajuda a entender: quando o esforço perde significado, o
corpo se rebela. Não por desleixo, mas por falta de horizonte.
A
falsa liberdade de escolher tudo
Nunca
tivemos tantas opções — e nunca fomos tão exaustos. A liberdade absoluta vira
sobrecarga. Cada escolha não realizada parece uma oportunidade desperdiçada.
O sujeito vive com a sensação de que está sempre atrasado em relação a si
mesmo.
Han
chama isso de fadiga da positividade: tudo é possível, tudo é permitido, tudo é
exigido. Não há inimigo externo contra quem lutar — e por isso não há pausa
legítima.
Onde
mora o adoecimento silencioso
O
adoecimento não começa com colapso, mas com normalização:
- normal trabalhar cansado
- normal não dormir direito
- normal não ter tempo
O
anormal passa a ser parar. O descanso vira luxo, não necessidade.
Existe
resistência possível?
Resistir
hoje não é desacelerar por eficiência, mas parar sem justificativa.
Descansar não para render mais, mas porque o corpo e a alma têm direito ao
ócio.
Hannah
Arendt lembrava que uma vida inteiramente dedicada ao fazer perde a
capacidade de pensar. Sem pausa, não há reflexão — apenas repetição.
O
cansaço contemporâneo não é sinal de fraqueza individual. É sinal de coerência
com um mundo que exige tudo e oferece pouco sentido.
Talvez
o gesto mais subversivo hoje não seja produzir algo novo, mas ousar não
produzir.
Não como fuga, mas como afirmação: existir não precisa ser constantemente
provado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário