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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Diferenciar-se de Si Mesmo


Vou começar assim: quando acordo e, por alguns segundos, ainda sou o mesmo de ontem. O corpo reconhece o caminho até a cozinha, o espelho devolve um rosto familiar, o nome continua colado em mim como um crachá. Mas basta um pensamento fora do roteiro, um incômodo sem nome, para surgir a suspeita — e se eu já não for exatamente quem penso ser? É nesse pequeno desencaixe cotidiano que Deleuze começa a trabalhar. Não para nos devolver uma identidade mais sólida, mas para retirar o chão de vez.

Gilles Deleuze é o filósofo francês que fez da diferença, do devir e da criação conceitos centrais para pensar a vida não como identidade, mas como movimento contínuo.

Diferenciar-se de si mesmo

Para Deleuze, a diferença não é um desvio em relação a uma identidade prévia. Ela não nasce do “eu” como uma variação do mesmo, nem é um erro de cópia. A diferença é primeira. O que chamamos de identidade é apenas um efeito tardio, um congelamento provisório de forças que estão sempre em movimento. Diferenciar-se de si mesmo, portanto, não é uma escolha moral nem um projeto de autossuperação; é a própria condição de existência.

Em Diferença e Repetição, Deleuze desmonta a ideia clássica de que o pensamento começa pelo reconhecimento — “isso é isto”, “eu sou eu”. Para ele, pensar de verdade só acontece quando algo falha nesse reconhecimento, quando o pensamento é forçado por aquilo que não se deixa identificar. Diferenciar-se de si mesmo é ser atravessado por esse choque: algo em mim que não coincide comigo, que não responde ao meu nome, que não obedece à minha história.

O eu como hábito mal compreendido

Aquilo que chamamos de “eu” é, em grande parte, um conjunto de hábitos. Maneiras de reagir, de sentir, de narrar a própria vida. O problema é que o hábito cria a ilusão de continuidade: acreditamos que somos o mesmo porque repetimos gestos, rotinas, opiniões. Mas, para Deleuze, a repetição nunca repete o mesmo. Toda repetição introduz uma diferença, ainda que mínima, ainda que imperceptível.

Assim, diferenciar-se de si mesmo não significa romper dramaticamente com o passado, mas perceber que nunca fomos idênticos nem a nós mesmos. O “eu” é uma superfície onde passam forças impessoais: desejos que não escolhemos, afetos que nos surpreendem, ideias que surgem sem pedir licença. O sujeito não é a origem dessas forças; é apenas o lugar onde elas se cruzam por um instante.

Tornar-se outro sem virar outro

Há aqui um ponto delicado. Diferenciar-se de si mesmo não é “virar outra pessoa” no sentido psicológico ou social. Não se trata de trocar de personalidade, carreira ou discurso. Trata-se de algo mais radical e mais silencioso: permitir que o que em nós é impessoal, pré-individual, continue a agir.

Deleuze fala em devir, e não em transformação. O devir não tem ponto de partida fixo nem ponto de chegada definido. Quem entra em devir não abandona o que é para se tornar algo diferente; ele se desloca, se desalinha, se abre a conexões inesperadas. Diferenciar-se de si mesmo é aceitar esse desalinhamento sem tentar imediatamente traduzi-lo em identidade.

No cotidiano, isso aparece quando percebemos que um pensamento que nos atravessa não “combina” com quem acreditamos ser. Ou quando um desejo surge sem justificativa biográfica. Ou ainda quando sentimos que certas palavras que usamos já não nos representam — mas também não sabemos quais as substituiriam. Esse desconforto não é um erro a corrigir; é o próprio pensamento em ato.

Ética da diferença

Há uma ética implícita nessa concepção. Diferenciar-se de si mesmo exige uma certa coragem: a de não se proteger excessivamente por narrativas fixas sobre quem se é. Em vez de perguntar “quem sou eu?”, a pergunta deleuziana seria: o que pode um corpo? O que pode este corpo, esta mente, este conjunto instável de afetos, quando não está ocupado em se reconhecer o tempo todo?

Essa ética não busca autenticidade, mas potência. Não pede coerência, mas intensidade. Diferenciar-se de si mesmo é permitir que a vida em nós vá além das formas que já conhece. É resistir à tentação de fechar-se em uma identidade confortável só para evitar o risco de não saber.

Um eu em variação contínua

Talvez o gesto mais inovador de Deleuze seja este: retirar da diferença qualquer traço de negatividade. Diferenciar-se de si mesmo não é perda, crise ou fragmentação. É produção. Produção de novos modos de sentir, pensar e existir. O “si mesmo” não é um núcleo a ser preservado, mas um campo de variações possíveis.

No fim, aquilo que chamamos de identidade é apenas uma pausa provisória no fluxo. Um nome dado ao movimento para que possamos continuar. Mas a vida, indiferente aos nomes, segue diferindo — inclusive de nós mesmos. E talvez pensar, no sentido mais forte, seja justamente acompanhar esse movimento sem tentar detê-lo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Vida Sem Testemunhas


Há dias em que a vida parece acontecer num quarto sem janelas. Acordo, faço o que precisa ser feito, falo com pessoas, respondo mensagens — e, ainda assim, algo fica sem registro. Não no sentido burocrático, mas naquele mais fundo: ninguém viu aquilo que realmente aconteceu em mim.

Uma vida sem testemunhas não é exatamente solidão. É outra coisa. É ir ao mercado e, no meio do corredor, perceber que uma lembrança antiga voltou com força. É decidir não responder a uma provocação no trabalho e sentir, por dentro, uma pequena vitória moral que não rende aplausos. É mudar de ideia sobre algo importante — política, fé, amor — sem postar nada a respeito. Nada disso vira narrativa. Nada disso vira prova.

Vivemos num tempo em que quase tudo pede plateia. Se não foi fotografado, parece que não existiu. Se ninguém comentou, soa irrelevante. Mas há transformações que morrem se forem expostas cedo demais. Elas precisam do silêncio como o pão precisa do forno fechado. Uma vida excessivamente testemunhada corre o risco de virar performance; uma vida sem testemunhas pode virar verdade.

Lembro de algo que o brasileiro Manoel de Barros sugeria, à sua maneira torta e bela: o essencial não chama atenção. O que é mais vivo costuma ser discreto. A grama cresce sem fazer barulho; o rio muda o leito sem pedir permissão. Talvez o mesmo valha para nós. O que mais nos transforma acontece fora do enquadramento.

No cotidiano isso aparece em gestos mínimos: escolher não humilhar alguém quando se poderia, aceitar um limite próprio, desistir de ter razão. São decisões que não rendem medalhas. Ninguém bate palma quando a gente amadurece em silêncio. Mas algo se organiza por dentro, como móveis sendo rearrumados numa casa vazia.

Claro, ninguém vive totalmente sem testemunhas. Precisamos de encontros, de reconhecimento, de espelhos humanos. O problema começa quando só existimos diante deles. Quando não há mais um “eu” que continue respirando fora do olhar alheio.

Talvez uma vida bem vivida precise de dois espaços: um público, onde compartilhamos o que pode ser compartilhado; e outro secreto, onde nos tornamos quem somos sem precisar explicar. Esse segundo espaço não deixa rastros, mas deixa forma.

No fim das contas, uma vida sem testemunhas não é uma vida invisível. É uma vida que não depende de ser vista para existir. E isso, estranhamente, devolve um tipo raro de liberdade: a de ser fiel mesmo quando ninguém está olhando.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Espiritualidade Sem Rótulo


Há gente que, quando ouve a palavra espiritualidade, já procura um crachá: religioso, místico, ateu, agnóstico, “meio espiritual, meio cético”. Parece que sem um rótulo a experiência não existe, como se a alma precisasse de legenda para ser levada a sério. Mas a verdade é que muita gente vive algo profundamente espiritual sem jamais usar essa palavra — e talvez exatamente por isso viva de modo mais honesto.

Imagine alguém parado no trânsito, preso há quarenta minutos, atrasado, irritado. De repente, olha para o céu entre os prédios e percebe a luz mudando, quase imperceptível. Por alguns segundos, a pressa se dissolve. Não houve oração, mantra, nem reflexão elaborada. Só um silêncio interior breve, mas real. Aquilo foi espiritualidade? Se perguntarmos, talvez a pessoa diga apenas: “dei uma respirada”.

A espiritualidade sem rótulo costuma surgir assim: sem anúncio, sem discurso, sem sistema. Ela não pede filiação nem exige coerência teórica. Ela acontece antes de qualquer explicação.

Há algo de espiritualmente denso em cuidar de alguém doente, mesmo reclamando do cansaço. Em preparar comida simples com atenção. Em ouvir alguém falar sem interromper. Nenhuma dessas ações precisa ser elevada a “prática espiritual” para ter profundidade. Aliás, quando rotulamos demais, às vezes esvaziamos a experiência: passamos a agir para parecer espirituais, e não porque algo nos toca de verdade.

No cotidiano, a espiritualidade sem rótulo se manifesta como uma ética do gesto pequeno. Ela não quer salvar o mundo — quer não endurecer por dentro.

Filosoficamente, rotular é uma forma de organizar o caos. Mas também é uma forma de controle. Quando dizemos “isso é espiritualidade”, imediatamente surgem fronteiras: isso é válido, aquilo não é; isso é profundo, aquilo é superficial. A experiência viva, porém, não respeita essas linhas.

Muitos rejeitam a espiritualidade não porque rejeitam o sentido, o mistério ou o silêncio, mas porque rejeitam os pacotes prontos. O rótulo vira uma porta estreita demais para algo que é largo.

Para alguns, a espiritualidade sem rótulo não aponta “para cima”, mas “para dentro” ou “para o lado”. Ela não precisa de um além-mundo. Basta uma atenção radical ao aqui.

Uma pessoa que caminha todos os dias pelo mesmo trajeto e, de repente, nota uma árvore que sempre esteve ali — e se sente estranhamente acompanhada por essa presença silenciosa — está vivendo algo que nenhuma doutrina explica melhor do que o próprio silêncio explica.

Viver sem rótulo é arriscado. Dá mais trabalho do que aderir a um sistema pronto. Não há frases decoradas para momentos difíceis. Não há respostas automáticas para o sofrimento. A espiritualidade sem rótulo exige uma sinceridade constante: o que, de fato, me move?

No trabalho, isso aparece quando alguém se recusa a desumanizar colegas em nome da eficiência. Na família, quando se escolhe o cuidado em vez da vitória numa discussão antiga. Não é heroísmo — é atenção moral cotidiana.

Talvez a pergunta não seja “qual é a sua espiritualidade?”, mas “o que em você ainda não endureceu?”. Onde você ainda é capaz de se espantar, de escutar, de mudar de ideia?

A espiritualidade sem rótulo não quer ser defendida, nem propagada. Ela só quer espaço para existir. E, curiosamente, quanto menos falamos dela, mais ela se infiltra na vida comum — no jeito de andar, de trabalhar, de errar, de pedir desculpas.

No fim, talvez o mais espiritual seja justamente isso: viver de modo que a vida não precise de explicação para fazer sentido.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Coragem Desinteressada



Nem toda coragem é barulhenta. Algumas vivem em silêncio, escondidas em gestos simples — no perdão que ninguém vê, na despedida sem drama, no ato de ajudar sem esperar nada em troca. A coragem desinteressada é essa força mansa que não busca aplausos, reconhecimento ou vantagem. É o oposto do heroísmo exibido: é a coragem de quem age por convicção, não por retorno.

Vivemos num tempo em que tudo parece precisar de testemunhas. Se não houver plateia, parece que não valeu. Mas há algo de mais puro quando o gesto é gratuito, quando fazemos o bem por entender que ele é o que deve ser feito, e não por esperar gratidão. É a coragem de amar sem garantia, de oferecer sem contabilizar, de permanecer digno mesmo quando ninguém está olhando.

Essa coragem é a que permite ao professor continuar ensinando mesmo diante da apatia, ao artista criar mesmo quando ninguém o entende, ao amigo estender a mão mesmo sabendo que pode ser esquecido depois. É o tipo de coragem que não negocia com o ego.

O filósofo indiano N. Sri Ram, em A Busca da Sabedoria, diz que “a verdadeira coragem é silenciosa, porque nasce do amor e da compreensão, não da necessidade de vencer”. Ele fala de uma coragem que não se impõe, mas que sustenta — aquela que nos mantém fiéis ao que é certo, mesmo quando o mundo segue na direção contrária.

A coragem desinteressada é também uma forma de desapego. Ela compreende que os frutos de um ato justo não pertencem a quem o pratica, mas à própria vida. Quando alguém age assim, não está em busca de recompensa, mas em harmonia com o que sente verdadeiro. É como acender uma vela em um quarto escuro sem se preocupar se alguém verá a luz.

Em tempos de exibição constante, talvez a coragem desinteressada seja o gesto mais revolucionário: fazer o bem e seguir, sem precisar provar que o fez. Essa coragem não se mede em conquistas, mas em serenidade — a paz de saber que a própria consciência é suficiente testemunha.

E, curiosamente, é quando deixamos de buscar reconhecimento que o mundo nos reconhece de outro modo. Porque quem age com coragem desinteressada desperta confiança, respeito e amor, não por querer isso, mas porque é assim que a alma responde à verdade.

No fim, essa coragem é a maturidade do coração: a força de quem não precisa vencer para estar em paz, nem ser visto para existir. É a coragem de continuar sendo bom — mesmo quando o mundo parece não notar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Ouvindo Pouco

Quando todo mundo fala ao mesmo tempo!

Cada novo dia uma experiência, uma observação, ou pelo menos algo que se repete e agora salta aos ouvidos. Numa roda de amigos, percebi algo curioso: todos estavam falando ao mesmo tempo — e ninguém estava escutando. Um falava sobre política, o outro sobre um problema no trabalho, outro contava uma piada velha. Parecia um coral sem maestro, cada voz num tom, numa velocidade, cada um tentando dizer “escute a minha dor, a minha graça, o meu ponto”. E aí me veio um pensamento: talvez estejamos ouvindo cada vez menos, não por falta de ouvidos, mas por excesso de vozes.

Vivemos numa época em que se valoriza muito o dizer. As redes sociais são vitrines de opiniões, desabafos, conselhos e indignações. O espaço de fala virou moeda simbólica de valor. Quem fala mais, quem é mais eloquente, quem viraliza — parece ganhar. Mas no meio desse falatório todo, quem escuta?

Nietzsche certa vez afirmou que “o caminho mais difícil para o homem é escutar”. Porque escutar exige silenciar o ego, suspender o julgamento, abandonar — ainda que por um instante — o desejo de resposta. Escutar de verdade é um ato ético, quase subversivo, num mundo viciado em expressar-se.

Nos ambientes de trabalho, por exemplo, as reuniões são cheias de gente falando ao mesmo tempo. Poucos escutam o que está sendo dito. A comunicação se torna uma performance de presença — “eu também estou aqui”, “eu tenho algo a dizer” — mais do que um real encontro de ideias. O resultado? Decisões ruins, mal-entendidos e um ruído constante.

Em casa, algo parecido: pais falando, filhos com fones de ouvido, cada um em sua bolha sonora. Até os afetos precisam ser traduzidos em frases prontas, memes ou emojis. E quando alguém desabafa algo sério, já vem a resposta automática: “isso acontece com todo mundo”. Escutamos com pressa, como quem ouve o micro-ondas apitando.

A filosofia de Martin Buber pode nos ajudar aqui. Para ele, existem duas formas de se relacionar: a relação “Eu-Isso”, que é utilitária, e a “Eu-Tu”, que é verdadeira e vivencial. Só na relação “Eu-Tu” existe escuta real, porque o outro deixa de ser um objeto a ser interpretado ou corrigido, e passa a ser um sujeito, alguém com quem estou presente. O problema é que, para viver relações “Eu-Tu”, precisamos calar nosso barulho interno.

Estamos, talvez, presos numa cacofonia de individualidades. Cada um grita para garantir sua existência. Mas quanto mais gritamos, menos escutamos — e mais sozinhos ficamos. Escutar pode ser, então, o novo modo de resistência: contra a ansiedade de responder, contra o impulso de ter sempre uma opinião, contra o medo do silêncio.

No fim, talvez a sabedoria consista não em saber o que dizer, mas em aprender a ouvir, mesmo quando tudo à volta grita. Escutar é, paradoxalmente, a forma mais profunda de falar com o mundo. Um mundo onde, finalmente, alguém escutou. 

domingo, 3 de agosto de 2025

Mecânica das Paixões

O motor secreto do existir

A paixão sempre foi tratada como excesso, desvio ou desordem. Desde os estoicos até Freud, passando por Descartes, ela aparece como algo que nos arrasta, algo a ser contido ou interpretado. Mas e se pensarmos a paixão não como desvio, mas como engrenagem? Não como obstáculo da razão, mas como sua condição de movimento?

A “mecânica das paixões” propõe ver o desejo, a atração, a fúria, o encantamento, não como perturbações, mas como forças motoras — semelhantes aos pistões que impulsionam uma máquina. Elas não apenas nos afetam: elas nos colocam em curso. Nada começa sem uma paixão: seja uma briga, uma descoberta científica, um poema, ou o início de um amor. Por que, então, insistimos em tratar a paixão como doença, e não como mecanismo vital?

O filósofo francês Gilles Deleuze oferece uma chave potente para essa reviravolta. Em Mil Platôs, ele e Guattari falam de “máquinas desejantes”: o desejo não como falta, mas como produção. A paixão, nesse caso, não seria algo que vem de fora, nos invade e nos perturba, mas uma função interna, criadora, produtiva. Uma engrenagem. Um dispositivo.

Imagine o ciúme. Normalmente visto como negativo, ele também revela o quanto algo (ou alguém) importa. Ele aciona a percepção, liga alarmes internos, reconfigura prioridades. É incômodo, sim — como todo motor barulhento —, mas também revelador. Ou pense na paixão estética: aquela emoção diante de um quadro ou uma música, que não serve para nada “prático”, mas nos reorganiza por dentro. Como diria Deleuze, o afeto é um modo de conexão. Uma linha que traça o mapa do que somos.

Nessa mecânica, o sujeito não é o centro de controle. Ele é parte da máquina, engrenado nela. Somos feitos das paixões que nos atravessam. A cada giro, nos transformamos. Ao contrário da racionalidade cartesiana que separa alma e corpo, a paixão nos junta. Ela é a liga da experiência humana. Por isso, talvez, o termo “paixão” vem do latim passio, que significa “sofrer” ou “ser afetado”. Sofrer, aqui, no sentido de sofrer uma ação, ser tocado. Sem isso, estaríamos parados.

Assim, a paixão deixa de ser inimiga da liberdade. Pelo contrário: é o que a move. A paixão como movimento involuntário que nos lança em novas direções. Uma espécie de motor secreto do existir.

Conclusão? Não reprima a paixão: escute-a como quem escuta o ronco de um motor. Talvez ela esteja dizendo para onde você precisa ir.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

É sério isso?


Tem horas que a gente escuta uma frase ou presencia uma cena e a única reação possível é: “É sério isso?” Pode ser o chefe que diz que o atraso no pagamento "é para nosso bem". Ou o amigo que compartilha uma teoria da conspiração com olhos brilhando de “verdade”. Ou até o sujeito que estaciona em duas vagas e sai assobiando. Nessas horas, não dá pra evitar: a pergunta escapa mais como desabafo do que como dúvida real.

Essa expressão — aparentemente banal — esconde uma operação filosófica profunda. “É sério isso?” coloca em xeque a coerência da realidade. Questiona o senso comum, a autoridade, o absurdo. É uma micro-revolução cotidiana, onde a incredulidade vira crítica.

A dúvida como sinal de sanidade

No fundo, o “é sério isso?” é um gesto de resistência. É como se o sujeito dissesse: “Eu ainda tenho critérios. Eu não aceito tudo.” No trânsito, no trabalho, na política, essa pequena pergunta pode ser o início de uma mudança de percepção. O mundo vai ficando tão saturado de incoerências que manter o espanto é quase uma forma de lucidez.

O filósofo Michel Foucault, que estudou justamente as relações entre verdade, poder e normalidade, poderia comentar: “A verdade não é algo a ser descoberto, mas algo a ser construído em meio a relações de força.” Em outras palavras, quando alguém pergunta “é sério isso?”, pode estar se recusando a engolir uma verdade imposta, a normatividade disfarçada de bom senso.

Cotidiano e ruptura

Essa frase surge em contextos triviais, mas aponta para rupturas importantes. Quando uma professora dá aula para 50 alunos sem estrutura e ainda recebe críticas por não “inovar”, ela talvez pense: “é sério isso?”. Quando uma mãe solo ouve que “quem quer, dá um jeito”, o mesmo eco aparece. Há uma desconexão entre o discurso e a realidade — e quem aponta essa falha já começou a filosofar.

O “é sério isso?” revela que há um conflito entre o que nos dizem que deve ser aceito e o que sentimos que não dá mais para aceitar.

Manter o espanto

Talvez o maior risco de viver numa sociedade saturada de absurdos seja perder a capacidade de se espantar. Se tudo vira piada, meme, deboche, a gente pode parar de reagir — e aceitar. E aí sim, o absurdo vence.

Por isso, essa pergunta aparentemente simples carrega um valor filosófico: ela é o espelho quebrado que nos impede de nos acostumar com o ilógico. Foucault nos lembraria que a crítica é um exercício constante, e que resistir começa com o olhar que se recusa a naturalizar.

Então sim — perguntar “é sério isso?” pode ser uma forma séria de existir no mundo.

sábado, 28 de junho de 2025

Ímpeto de olhar

...e ser olhado, vamos falar sobre o desejo de existir aos olhos do outro

Todo mundo já viveu aquela cena banal e desconcertante: você está andando na rua, distraído, e de repente percebe que alguém te observa. No instante seguinte, você também olha de volta. Não há palavra, não há gesto — só a força estranha do encontro entre dois olhares. E isso basta para dar um pequeno nó na alma: por que aquele olhar nos prende? Por que é tão difícil desviar? E por que sentimos, às vezes, a compulsão de também olhar, vigiar, buscar o rosto do outro?

Esse ímpeto antigo — olhar e ser olhado — talvez seja um dos impulsos humanos mais profundos. Ele é anterior à fala, ao gesto, à escrita. Crianças pequenas já procuram os olhos da mãe antes mesmo de dizer qualquer palavra. Namorados trocam olhares mais intensos do que frases. Trabalhadores no escritório observam-se de longe para medir forças ou cumplicidades. Até nas redes sociais, mesmo sem presença física, queremos “olhares digitais”: curtidas, views, reações.

No fundo, não basta existir: queremos que alguém nos veja existir.

O olhar que define o ser: Sartre e Lacan

Jean-Paul Sartre foi quem melhor traduziu esse incômodo: no instante em que o outro me olha, eu deixo de ser puro sujeito e viro objeto na cena alheia. Estou ali, na vitrine do mundo, exposto ao julgamento. A vergonha, diz ele, nasce disso: não da nudez em si, mas de saber que há um outro me vendo nu — seja no corpo, seja nas fraquezas.

Lacan vai além: no “estádio do espelho”, o bebê se reconhece como eu só porque vê uma imagem fora de si. Somos essa distância: um sujeito que só se entende enquanto objeto de visão. O outro nos devolve uma imagem de nós mesmos — e ficamos para sempre presos a ela. A busca de aprovação, a vaidade, o medo de errar em público: tudo nasce desse laço invisível entre ver e ser visto.

O olhar como poder: Nietzsche e Foucault

Nietzsche nos lembraria que olhar é disputar força. Quem vê primeiro domina; quem é visto primeiro revela fraqueza. É uma luta ancestral de predadores e presas — só que agora nos escritórios, nas salas de aula, nos ônibus lotados. Até o flerte amoroso é um jogo de quem sustenta mais tempo o olhar sem ceder.

Michel Foucault estendeu isso à vigilância moderna: hoje o olhar se espalhou, tornou-se técnica. Câmeras, sistemas, redes sociais monitoram tudo. Estamos dentro do “panóptico”, prisão imaginada por Bentham, onde o prisioneiro nunca sabe se está sendo vigiado — e por isso vigia a si mesmo. O ímpeto de olhar e ser olhado virou método de controle social.

O olhar e o desejo de ser

Mas não é só domínio ou medo: é também desejo puro de ser. Roland Barthes escreveu que o amor começa no instante em que alguém nos olha “de maneira singular”. Não qualquer olhar, mas aquele que nos vê como únicos, como ninguém jamais viu. Daí nasce a paixão, o encantamento, o brilho especial de certos encontros.

Em tempos de Instagram, TikTok e selfies, esse desejo explodiu em espetáculo. Como alerta Byung-Chul Han, nunca se exibiu tanto o rosto, o corpo, o cotidiano — e nunca se foi tão cego para o verdadeiro encontro do olhar real. Mostrar virou substituir: em vez de ser visto no olhar do outro, queremos ser exibidos para o mercado das imagens.

O cotidiano do olhar

No trabalho, queremos o reconhecimento do chefe, o respeito dos colegas — ou pelo menos não ser invisíveis. Na amizade, buscamos cumplicidade: um olhar que nos compreenda sem palavras. No amor, queremos ser lidos por inteiro nos olhos do outro, como se ali estivesse a prova de que valemos algo.

Na política, nas ruas, o olhar também pesa: o morador de rua que desvia o olhar para não ser humilhado; o jovem negro parado pela polícia que sente o peso mortal do olhar estatal; a mulher que sente olhares invasivos no transporte público. O olhar é prazer, mas também ameaça.

O risco de perder o olhar verdadeiro

Byung-Chul Han teme que estejamos perdendo o olhar que demora, que escuta, que vê de verdade. No lugar dele, só resta a vitrine de imagens rápidas, o marketing de si mesmo, o consumo do outro como coisa. O ímpeto de ser olhado não é mais para existir — é para ser comprado, curtido, ranqueado.

Mas Emmanuel Lévinas oferece esperança: para ele, o rosto do outro me convoca à ética. No olhar do outro há uma súplica: “não me mates”. Ali nasce a responsabilidade, a humanidade. O olhar autêntico não é controle, mas abertura: permite o outro ser outro.

Concluindo: existir é aparecer?

Talvez a verdade mais incômoda seja esta: não sabemos quem somos sem o olhar alheio. Todo eu se forma no reflexo de algum espelho humano. Mas isso não nos condena: nos liberta. Somos relação, não essência isolada. Por isso o ímpeto de olhar e ser olhado é a nossa mais primitiva oração: "estou aqui, me vê". Não para dominar, não para vender — mas para ser alguém no mundo compartilhado.

Como disse Merleau-Ponty: “o mundo é o campo da visão de todos”. Olhar e ser olhado é só o modo humano de existir nesse campo aberto.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Neutralidade Axiológica

Coisa difícil olhar sem julgar...

Outro dia, numa fila de padaria, um senhor comentava com indignação sobre um jovem tatuado que estava à frente, dizendo algo como: “Esses de hoje em dia não respeitam nada”. Ninguém respondeu, mas ficou aquele silêncio meio constrangido. O senhor não sabia nada sobre o rapaz — nem seu nome, nem sua história, nem se ajudava a mãe doente ou lia poesia russa à noite. Apenas julgou. E eu fiquei pensando: como a gente tem dificuldade de observar o outro sem já carregar um julgamento pronto na mochila.

Essa mania de “colocar adjetivo em tudo” não é só uma questão de educação. É também um desafio para quem tenta estudar o mundo social com seriedade. Por isso, Max Weber cunhou um conceito que hoje ainda soa radical para muita gente: neutralidade axiológica. A ideia de olhar um fenômeno sem misturar os próprios valores pessoais no meio da análise. Em outras palavras: observar, registrar, compreender — mas não transformar tudo numa pregação moral.

Weber não era ingênuo. Sabia que ninguém é uma folha em branco. Todo pesquisador tem ideais, crenças, paixões políticas. Mas ele dizia: quando estudamos a sociedade, é preciso tentar separar o que é um fato do que é uma opinião. Isso não significa virar uma pedra ou fingir que não sentimos nada. Significa ter o compromisso de não impor nossos valores ao objeto estudado, mas sim escutá-lo com atenção, mesmo que ele nos incomode.

Um exemplo bem cotidiano: um sociólogo estudando o tráfico de drogas numa comunidade não pode chegar já dizendo que todos ali são bandidos. Ele precisa entender o contexto, as escolhas limitadas, as redes de poder, as relações de sobrevivência. Se ele já entra com a moral pronta, fecha os olhos para a complexidade do real. E aí, ao invés de ciência, faz panfleto.

Na vida cotidiana, esse esforço de neutralidade pode até parecer impossível — e talvez seja mesmo, no sentido pleno. Mas isso não quer dizer que não valha a tentativa. Talvez, mais do que uma técnica científica, a neutralidade axiológica seja um exercício ético: o de dar ao outro o direito de existir sem ser imediatamente rotulado.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti dizia que pensar exige “rigor e delicadeza”. Rigor para não nos deixarmos levar pelos ventos fáceis da opinião. Delicadeza para acolher o que é diferente de nós. Neutralidade axiológica é isso: um gesto de respeito. Um silêncio que escuta antes de falar. Uma espera que observa antes de bater o martelo.

Talvez, se aquele senhor da padaria tivesse esse olhar, visse no jovem tatuado não uma ameaça, mas uma história. Talvez visse nele alguém tão humano quanto ele próprio. E, quem sabe, se interessasse mais pelo pão quentinho do que pela vida alheia.

sábado, 3 de maio de 2025

Amor Filosófico

Dizem que o amor cega, mas talvez ele apenas abra os olhos para um mundo que não se encaixa nas categorias rígidas da razão. Numa conversa de bar ou numa caminhada solitária, ele pode surgir como um problema filosófico: o que é o amor? Sentimento? Escolha? Ilusão? Ou uma estrutura profunda que sustenta a própria experiência de existir?

O amor filosófico não é apenas um conceito abstrato dos livros, mas uma força que molda nossa relação com a verdade, a ética e a própria identidade. Platão, por exemplo, em "O Banquete", descreve o amor como um desejo de alcançar o Belo e o Bem, uma escada que leva da paixão carnal à contemplação do divino. Spinoza, por outro lado, vê o amor como um caminho para a liberdade, pois amar é compreender, e compreender é dissolver as correntes do medo e da ignorância.

Mas o amor filosófico não precisa ser apenas uma busca transcendente. Ele pode ser um método de viver. Nietzsche provocaria: e se amássemos sem querer domesticar o outro? Sem projetar nele nossas carências e expectativas? Hannah Arendt talvez nos lembrasse que o amor tem um caráter político: ele constrói laços, mas também pode destruir, afastando-nos do espaço público e nos encerrando numa bolha subjetiva.

Hoje, vivemos em tempos onde o amor se tornou um mercado de performances. Persegue-se a compatibilidade algorítmica, romantiza-se a ideia de "alma gêmea", mas teme-se o compromisso real, que exige trabalho e transformação. Talvez seja hora de resgatar o amor como um ato filosófico, onde amar não é consumir o outro, mas criar junto com ele um mundo que antes não existia.

Se o amor cega, que seja apenas para que possamos enxergar além das aparências, além da superfície das convenções e das fórmulas prontas. Um amor filosófico é aquele que pergunta, que se inquieta, que não se contenta com a resposta fácil. Talvez, no fim das contas, amar seja uma forma de filosofar – e filosofar, a mais intensa forma de amar.

 


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Maneiras de Existir

Existir é uma questão de estilo. E cada um tem o seu. Vivemos em um mundo onde "ser" é muito mais do que estar presente fisicamente; é sobre como nos movimentamos pela vida, como reagimos ao vento, às palavras e aos silêncios. No fundo, todos temos maneiras distintas de existir, e essa multiplicidade faz o mundo ser tão fascinante quanto imprevisível.

Há quem prefira a existência discreta, quase invisível, como se quisesse passar pela vida sem fazer ondas, apenas flutuando na superfície das coisas. Essas pessoas muitas vezes são as mais observadoras, capturando detalhes que outros jamais notariam. Para elas, existir é sentir o movimento sutil da vida ao redor, sem a necessidade de intervir constantemente. Existe uma beleza em ser espectador, em deixar que a vida siga o seu curso sem tentar controlá-la.

Por outro lado, há aqueles cuja maneira de existir é mais explosiva, como um trovão que faz todos virarem a cabeça. Essas pessoas ocupam espaço, não porque desejam, mas porque são intensas por natureza. Sua energia transborda, e sua presença é sentida antes mesmo de falarem uma palavra. Eles existem na plenitude do agora, vivendo cada momento como se fosse único, pois, para eles, o amanhã é um conceito distante.

Mas entre o invisível e o trovejante, há quem prefira existir de forma serena, como um rio que segue o seu curso. Essas pessoas são tranquilas, e sua calma é quase contagiante. Elas entendem que a vida é feita de ciclos, de altos e baixos, e que é preciso fluidez para navegar entre os extremos. Elas não se perturbam facilmente, pois sabem que cada desafio é passageiro, e que a força está em manter-se centrado.

A maneira de existir também pode ser vista nas pequenas escolhas cotidianas. Alguns preferem começar o dia com silêncio, enquanto outros acordam já com música alta. Uns se sentem realizados no trabalho, outros na companhia de amigos, ou na solitude do pensamento. E todas essas formas de existir são válidas, pois refletem a singularidade de cada ser.

Pois então, aqui vem mais uma vez nosso filósofo existencialista trovejando com sua sapiência, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, em seu famoso conceito de "existência precede a essência", nos lembra que não nascemos com uma natureza pré-definida. Ao contrário, somos responsáveis por construir quem somos ao longo da vida. Isso significa que nossa maneira de existir não é algo fixo, mas algo que moldamos a cada decisão, a cada experiência.

Nesse sentido, a maneira de existir de uma pessoa não precisa ser a mesma ao longo do tempo. Podemos ser discretos em certos momentos da vida e, em outros, escolher gritar nossa presença ao mundo. Às vezes, a vida pede que nos adaptemos, que reinventemos nossa maneira de ser. E isso é libertador, pois mostra que existimos em constante transformação, em um diálogo contínuo com o tempo e as circunstâncias.

Por fim, cada pessoa tem sua própria maneira de existir, e essa diversidade é o que torna o encontro com o outro tão rico. Ao conhecer alguém, não estamos apenas conhecendo uma biografia, mas um estilo de ser, uma forma particular de estar no mundo. E é nesse reconhecimento da diferença que aprendemos sobre nós mesmos.

No final, não existe uma maneira certa de existir, mas a nossa própria maneira. E viver é descobrir, pouco a pouco, qual é essa forma única que só nós podemos expressar.

Link da musica “Gente Feliz” de Vanessa Da Mata:

https://www.youtube.com/watch?v=f6gGqt5we_U&list=RDf6gGqt5we_U&start_radio=1


quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Dadiva do Existir

Enquanto ouvia mantras refletia a respeito de algo divino como a dadiva do existir.

Link dos mantras: https://www.youtube.com/watch?v=bOZdXEvEflA

A dádiva do existir é algo que nem sempre percebemos no dia a dia, mas está presente em cada respiração, em cada passo, e até nos momentos mais comuns, como uma xícara de café que tomamos sem pensar muito. Existir, por si só, é uma experiência tão vasta e misteriosa que se reflete nas pequenas e grandes coisas. É o que o filósofo francês Jean-Paul Sartre chamou de "facticidade" — o simples fato de estarmos aqui, jogados no mundo, sem que tenhamos pedido por isso, mas tendo a liberdade de moldar nossas vidas.

Essa dádiva, entretanto, não é algo que se abre para nós em momentos de calmaria. Muitas vezes, só notamos a profundidade de estar vivo quando somos forçados a confrontar nossa existência — seja por meio de uma crise pessoal, uma perda, ou uma mudança drástica. Nesses momentos, a dádiva se revela como algo frágil e, ao mesmo tempo, poderoso.

No dia a dia, podemos esquecer essa preciosidade, sufocados pela rotina, pela pressa, pelos prazos. Mas a verdadeira dádiva está nas brechas dessas atividades — quando, por um breve instante, olhamos para o céu, percebemos o vento no rosto ou nos perdemos em um sorriso inesperado de alguém. Nessas pausas, a existência se manifesta como um presente, algo que, mesmo sem explicação, pulsa com uma vitalidade que transcende a banalidade do cotidiano.

O filósofo Martin Heidegger nos convida a pensar no "ser" como algo que se revela a partir do silêncio. Segundo ele, existimos em um mundo de preocupações e distrações, mas é no "estar-no-mundo" que encontramos nossa essência. O simples ato de existir é uma oportunidade de sermos, de nos encontrarmos, de estarmos presentes no aqui e agora. Heidegger vê essa dádiva como uma abertura — uma janela para a autenticidade, para o real sentido de ser.

A dádiva do existir, portanto, é algo que nos escapa se não pararmos para sentir. Ela está no cotidiano, nas pequenas escolhas, nas reflexões que fazemos ao final do dia, na sensação de pertença ou de estranheza. O segredo está em desacelerar, em se permitir estar com a própria presença, reconhecendo que, no fundo, existir é um presente imenso que nos é dado sem qualquer garantia ou explicação.