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segunda-feira, 9 de março de 2026

Permeabilidade Social

As portas invisíveis da vida social

Há dias em que a gente percebe que a sociedade é feita de portas. Algumas escancaradas, outras apenas entreabertas — e muitas que parecem não existir até que alguém tente atravessá-las.

Foi numa situação banal que pensei nisso. Estava lembrando de uma conversa entre colegas de aula do curso de Filosofia, foi através de uma provocação feita por nosso querido professor mestre Attico Chassot, perguntou-nos qual de nossos pais haviam conseguido ingressar e concluir um curso superior. A maioria dos colegas contou que era o primeiro da família a entrar na universidade. Lembro de um colega dizer que o pai era pedreiro, a mãe trabalhava como doméstica. Enquanto ele falava, havia uma mistura curiosa de orgulho e estranhamento. Não parecia apenas uma conquista acadêmica. Era quase como se ele tivesse atravessado uma fronteira invisível.

Ali estava, sem ninguém usar o termo técnico, um exemplo de permeabilidade social, então vamos refletir a respeito.

Quando a sociedade deixa passar

Permeabilidade social é o nome que os sociólogos dão à capacidade de uma sociedade permitir que as pessoas mudem de posição social.

Em algumas sociedades, as fronteiras entre classes são rígidas. Em outras, elas são mais flexíveis. Não desaparecem, claro — mas permitem passagem.

A diferença aparece em situações muito comuns.

Um motorista de aplicativo que antes era metalúrgico.

Uma filha de agricultores que se torna médica.

Um jovem da periferia que entra num espaço cultural tradicionalmente elitizado.

Esses movimentos são pequenos deslocamentos no grande mapa social. Cada um deles abre um corredor por onde outros talvez passem depois.

O segredo que ninguém explica

O problema é que atravessar essas fronteiras raramente depende apenas de esforço.

O sociólogo Pierre Bourdieu mostrou que as classes sociais não se distinguem só pelo dinheiro, mas por algo mais sutil: o que ele chamou de capital cultural.

Isso inclui:

  • o jeito de falar
  • as referências culturais
  • a forma de argumentar
  • até o modo de se comportar em certos ambientes

Quem cresce dentro de determinados círculos aprende esses códigos naturalmente. Quem vem de fora precisa decifrá-los.

É como entrar numa sala onde todos conhecem a música que está tocando — menos você.

Os sinais silenciosos do pertencimento

Esses códigos aparecem em detalhes aparentemente irrelevantes.

Numa entrevista de emprego, por exemplo, às vezes o que pesa não é apenas o currículo, mas a familiaridade com o ambiente.

A pessoa que cresceu frequentando certos espaços reconhece intuitivamente o tom da conversa, a postura esperada, as referências implícitas.

Já quem chega pela primeira vez pode sentir algo difícil de explicar:

uma sensação de estar ligeiramente deslocado, como um visitante em território alheio.

A permeabilidade social, portanto, não depende apenas de oportunidades formais. Ela depende também de quanto os ambientes aceitam quem vem de fora.

As pequenas travessias

Apesar de tudo, a história das sociedades é cheia dessas travessias discretas.

O sociólogo Anthony Giddens observa que a modernidade ampliou muito as possibilidades de mobilidade social. Educação, urbanização e novos mercados de trabalho criaram caminhos que antes simplesmente não existiam.

Mas esses caminhos não são avenidas largas. Muitas vezes são trilhas estreitas.

Ainda assim, cada pessoa que consegue atravessar abre um precedente.

Mostra que aquela passagem — antes improvável — é possível.

A sociedade como um sistema de portas

Talvez a melhor imagem para entender a permeabilidade social seja pensar na sociedade como um prédio cheio de corredores.

Algumas portas estão abertas.

Outras exigem senha.

Outras parecem trancadas — até que alguém descobre que bastava empurrar.

E o curioso é que, muitas vezes, o primeiro que atravessa não apenas muda de sala. Ele muda a percepção de todos os outros sobre aquela porta.

De repente, aquilo que parecia impossível passa a parecer apenas difícil.

No fundo, a pergunta é outra

Quando olhamos para uma sociedade, a pergunta sociológica mais interessante talvez não seja quem está em cada posição, mas o quanto é possível mudar de posição.

Porque uma sociedade verdadeiramente viva não é aquela onde todos ocupam o mesmo lugar — isso nunca aconteceu.

É aquela onde as paredes não são definitivas.

Onde alguém, de vez em quando, olha para uma porta aparentemente invisível, gira a maçaneta… e descobre que ela sempre esteve aberta.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Tribalismo Contemporâneo

Quando as tribos voltaram — mas sem território

Outro dia eu estava numa mesa de bar observando uma conversa que começou inocente. Alguém comentou sobre um filme recente. Em poucos minutos, o assunto escorregou para política, depois para economia, e logo cada pessoa parecia falar não mais como indivíduo, mas como representante de um grupo.

Não era mais uma conversa entre pessoas — era quase como se tribos invisíveis tivessem sentado à mesa.

Esse fenômeno não é apenas impressão. Muitos sociólogos e antropólogos vêm observando que a sociedade contemporânea, apesar de hiperconectada e globalizada, parece estar retornando a uma lógica muito antiga: o tribalismo.

Mas as tribos de hoje não vivem em aldeias. Elas vivem em redes sociais, grupos ideológicos, estilos de vida e identidades culturais.

 

As novas tribos da vida urbana

O sociólogo francês Michel Maffesoli foi um dos pensadores que melhor percebeu esse fenômeno. Para ele, a sociedade moderna não eliminou as tribos — apenas as transformou.

Ele chamou isso de “tribos urbanas”.

Segundo Maffesoli, as pessoas buscam pertencimento em pequenos grupos com valores, símbolos e narrativas compartilhadas. Não é apenas uma questão racional; é também emocional e simbólica.

Podemos ver isso todos os dias:

  • fãs apaixonados de determinado time que se reconhecem imediatamente;
  • comunidades online que defendem certas ideias com fervor;
  • grupos culturais que compartilham estética, linguagem e referências.

Essas tribos oferecem algo que a sociedade moderna muitas vezes enfraqueceu: a sensação de pertencer a algo maior do que o indivíduo.

 

O conforto de estar entre os iguais

Imagine uma situação comum.

Alguém entra em um grupo de mensagens com colegas de trabalho. Ali todos compartilham opiniões muito semelhantes sobre política ou sobre o mundo. As mensagens se reforçam mutuamente, criando um ambiente confortável.

Quando surge alguém com uma visão diferente, o clima muda.

A conversa fica tensa.

O grupo se fecha.

A pessoa discordante vira um estranho.

O sociólogo Zygmunt Bauman, ao falar da modernidade líquida, observava que vivemos num mundo onde as estruturas sociais são cada vez mais frágeis. Nesse cenário instável, as pessoas procuram pequenos refúgios identitários — comunidades onde suas crenças não são questionadas.

As tribos funcionam como portos seguros psicológicos.

Mas também podem se transformar em fortalezas contra o outro.

 

A lógica do “nós” contra “eles”

O tribalismo tem uma característica quase universal: a divisão entre “nós” e “eles”.

A antropologia conhece bem esse mecanismo. Desde sociedades antigas até grupos modernos, o pertencimento muitas vezes se fortalece pela oposição.

O filósofo francês René Girard estudou como comunidades frequentemente se unem ao identificar um adversário comum. O conflito cria coesão.

Na vida cotidiana isso aparece de formas curiosas.

Num escritório:

  • o departamento comercial culpa o financeiro;
  • o financeiro critica o administrativo;
  • o administrativo reclama da diretoria.

Cada grupo constrói sua narrativa interna.

Nas redes sociais o fenômeno é ainda mais visível. Pequenas divergências se ampliam rapidamente até formar campos opostos, quase como torcidas organizadas da opinião.

 

As bolhas invisíveis

Outro fator importante no tribalismo contemporâneo são os algoritmos das plataformas digitais.

Sem perceber, cada pessoa começa a ver apenas conteúdos que confirmam suas próprias ideias. Aos poucos forma-se uma espécie de bolha cognitiva.

O sociólogo britânico Anthony Giddens dizia que a modernidade nos obriga constantemente a refletir sobre nossas escolhas e identidades. Porém, quando estamos dentro de bolhas sociais muito fechadas, essa reflexão pode diminuir — porque quase ninguém ao redor pensa diferente.

É como morar numa cidade onde todos concordam com você.

A sensação é agradável, mas a compreensão do mundo pode ficar limitada.

 

Tribos até nas pequenas coisas

O curioso é que o tribalismo não aparece apenas em temas grandes como política ou religião.

Ele surge em situações bastante simples:

  • pessoas que defendem com paixão um sistema operacional de celular;
  • grupos que discutem ferozmente qual é o melhor método de treinamento físico;
  • fãs de determinadas séries ou universos culturais que se identificam como se fossem parte de um clã.

À primeira vista parece algo trivial.

Mas sociologicamente isso revela um traço profundo da natureza humana: precisamos de pertencimento.

Talvez a modernidade não tenha eliminado as tribos. Talvez apenas tenha multiplicado elas.

 

Entre o pertencimento e o fechamento

O tribalismo não é necessariamente negativo. Sem grupos, comunidades ou identidades compartilhadas, a vida social seria impossível.

O problema surge quando o pertencimento vira fechamento.

Quando a tribo deixa de ser um espaço de convivência e passa a ser um filtro que impede qualquer diálogo com quem está fora dela.

Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente esse: aprender a pertencer sem se aprisionar.

Ou, como sugeria o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, compreender que as culturas e os grupos humanos estão sempre em transformação e mistura.

No fundo, nenhuma tribo é completamente pura.

E talvez a maturidade social consista justamente em perceber isso:

somos membros de muitas tribos ao mesmo tempo — e, às vezes, atravessar as fronteiras entre elas é o que realmente amplia nossa visão do mundo.

domingo, 23 de novembro de 2025

Identidade e Pertencimento

Outro dia, enquanto esperava minha vez numa fila de padaria — aquela fila onde todo mundo finge que não está reparando em ninguém, mas está — percebi algo curioso: eu me senti “em casa” ali, mesmo num ambiente que pouco frequento. Às vezes basta o cheiro de pão quente ou o modo como alguém comenta “o tempo virou, né?” para acionar uma pequena certeza silenciosa: eu pertenço a algum lugar. Mas logo em seguida veio a dúvida: pertenço ao quê, exatamente? À cidade? À cultura? Ao idioma? À memória dos lugares que habitei? Ou pertenço apenas às minhas próprias narrativas internas?

Foi nessa oscilação — tão cotidiana quanto filosófica — que percebi que identidade e pertencimento são quase como dois irmãos siameses. Um tenta se diferenciar; o outro tenta se integrar. E, curiosamente, nenhum deles vive sem o outro.

 

Identidade: quem sou quando ninguém está olhando?

A identidade não é apenas algo que temos — é algo que fazemos. O filósofo Paul Ricoeur dizia que a identidade é uma história contínua que contamos sobre nós mesmos. Não é fixa, não é imóvel; é um fio narrativo, um entrelaçamento de lembranças, esquecimentos, rupturas e continuidade.

Aristóteles já afirmava que somos aquilo que praticamos repetidamente: nossas ações criam nosso caráter. Mas Ricoeur complementa: nosso caráter não é só hábito, é memória — especialmente memória seletiva, porque ninguém lembra de tudo, e o que escolhemos lembrar já diz muito sobre quem somos.

Assim, a identidade emerge nesse espaço curioso entre práticas e narrativa; entre aquilo que fazemos e aquilo que contamos sobre o que fazemos.

 

Pertencimento: a casa invisível que construímos dentro de nós

Já o pertencimento tem outra textura. É menos sobre “quem sou” e mais sobre “onde me encaixo”. É um fenômeno ao mesmo tempo social e afetivo.
O sociólogo Anthony Giddens lembra que o indivíduo moderno não nasce simplesmente inserido num grupo estável; ele precisa continuamente negociar seus lugares de pertencimento. A modernidade liquefaz certezas.

Zygmunt Bauman, por sua vez, dizia que o pertencimento é uma das grandes buscas humanas porque fornece amparo em um mundo de fluxos, mudanças e instabilidades. Pertencer é sentir que o chão tem forma, que as histórias ressoam, que as palavras reverberam num campo compartilhado.

O curioso é que o pertencimento não precisa ser real no sentido material. Às vezes pertencemos mais a um grupo que nunca vimos presencialmente do que à família com quem convivemos diariamente. Outras vezes nos sentimos estrangeiros na própria casa e íntimos numa cidade que visitamos um único dia.

O pertencimento é, assim, uma construção afetiva e simbólica, não apenas geográfica.

 

O encontro entre identidade e pertencimento

Se a identidade é narrativa e o pertencimento é afeto compartilhado, então o encontro entre ambos é o que dá estabilidade à experiência humana.

  • A identidade precisa do pertencimento para não se dissolver.
  • O pertencimento precisa da identidade para não virar mera massa indiferenciada.

O filósofo Charles Taylor argumenta que a identidade se forma reconhecidamente: isto é, preciso que o outro reconheça, espelhe e legitime quem sou para que minha autoimagem se consolide. Não se trata de depender dos outros para existir, mas de compreender que nossa identidade é sempre relacional. Tornamo-nos alguém diante de alguém.

Portanto, pertencimento não é apenas o lugar onde eu me sinto confortável; é o lugar que me reconhece. É o cenário onde a minha narrativa encontra eco.

 

As fraturas inevitáveis

Contudo, tanto a identidade quanto o pertencimento contêm tensões inevitáveis:

  • Às vezes pertencemos a um grupo que já não corresponde à pessoa que nos tornamos.
  • Às vezes nossa identidade cresce para um lado e o grupo exige que permaneçamos pequenos.
  • Às vezes mudamos tanto que já não encontramos ambiente que acompanhe essa mudança.

E o contrário também ocorre: grupos mudam, culturas se transformam, cidades evoluem, e nós ficamos deslocados, como se tivéssemos ficado parados no tempo.

É por isso que muitos autores contemporâneos — como Stuart Hall — afirmam que a identidade moderna é fragmentada, híbrida, em constante reconstrução. Não há mais uma essência fixa; há uma obra aberta, sempre em andamento.

 

A síntese possível: pertencemos ao que nos permite continuar sendo

No fim, talvez identidade e pertencimento não sejam metas, mas processos.
Pertencemos ao que nos ajuda a crescer, ao que acolhe nossas contradições, ao que não estranha nossa mudança.

Identidade é o movimento interno; pertencimento é o espaço onde esse movimento se sustenta.

A pergunta não é:

“Quem sou?”

nem “A que pertenço?”

A questão mais profunda é:

“Onde posso continuar me tornando?”

Porque a identidade é fluxo, e o pertencimento é o rio onde esse fluxo não se perde.


segunda-feira, 28 de julho de 2025

Posições Sociais


Entre o Lugar Que Ocupamos e o Espaço Que Inventamos


A gente nem sempre escolhe onde nasce, com quem vai dividir a mesa de café, nem o tamanho do quarto onde dorme. Mas, com o tempo, começamos a perceber que cada detalhe disso tudo — o sobrenome, o bairro, a profissão dos pais, a cor da pele, até o jeito de falar — já dizia muito sobre a posição que iríamos ocupar no mundo. E, por mais que a vida seja movimento, certas posições parecem ser feitas de cimento.

Este ensaio propõe pensar as posições sociais não como degraus fixos numa escada social ou papéis estagnados num teatro social, mas como zonas de tensão entre o dado e o possível, entre o que herdamos e o que ousamos transformar. Partiremos de uma leitura sociológica inspirada em Bourdieu e Giddens, sem perder o fio filosófico de pensadores como Sartre, Simone de Beauvoir e Achille Mbembe, para então propor um olhar inovador: as posições sociais como ficções performativas que podem ser desmontadas e reinventadas.

 

A armadilha do lugar natural

A sociedade adora nos convencer de que cada um está onde deveria estar. Que a faxineira “tem cara de faxineira”, que o médico branco de voz firme nasceu pra comandar, que a favela é inevitável, que o sucesso tem cheiro de mérito. Pierre Bourdieu chamou isso de habitus: um conjunto de disposições aprendidas que fazem com que o mundo social pareça natural, quando na verdade ele é o resultado de lutas e convenções.

Essa naturalização das posições sociais é um modo sutil (e eficaz) de conservar as hierarquias. Os corpos negros, femininos, periféricos, dissidentes, são convidados a acreditar que não têm “perfil” para certos espaços. As posições sociais não são apenas localizações neutras, mas marcos simbólicos que definem onde se pode falar, amar, trabalhar e até sonhar.

 

A posição como performance

Mas e se, como diria Judith Butler, a posição fosse uma performance? Se aquilo que parecemos ser — o advogado sério, a dona de casa invisível, o “bandido” sem futuro — fosse menos essência e mais repetição? A ideia de performatividade rompe com a fixidez da posição social. Em vez de pensá-la como um ponto fixo, poderíamos vê-la como um movimento coreografado socialmente, mas com margem para improviso.

Quando uma mulher negra ocupa a tribuna do Senado, quando um jovem periférico ensina literatura clássica, quando um homem trans vira obstetra — a posição social é rasgada e costurada de novo. Esses gestos não anulam o peso da estrutura, mas mostram que ela pode ser contestada por dentro.

 

Invenção e deslocamento

Anthony Giddens propôs que a vida social é um fluxo contínuo de reflexividade. As posições não são eternas porque os sujeitos são capazes de refletir sobre o lugar onde estão e projetar deslocamentos. Não se trata de “subir na vida” no sentido capitalista, mas de redesenhar os contornos do possível.

Nesse sentido, as posições sociais também podem ser vistas como zonas provisórias de identidade. O que somos agora — professor, empregada, estudante, desempregado — não precisa ser o que seremos, e nem resume o que somos. Como dizia Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” — e o mesmo vale para todas as outras construções sociais.

 

Para além da escada

Num mundo que insiste em nos colocar em escadas — onde o alto vale mais que o baixo — talvez seja hora de propor outra imagem: a do campo múltiplo, onde as posições sociais são interdependentes e mutáveis. Onde a dignidade não vem de subir, mas de existir com liberdade e reconhecimento, em qualquer lugar.

Essa nova ética não ignora as injustiças, mas propõe um horizonte onde posição social não signifique destino. Onde o carteiro possa ser poeta, onde a diarista possa ensinar sociologia, onde o menino da quebrada possa ser filósofo — não apesar de onde veio, mas também por causa disso.

 

O desafio contemporâneo é, então, olhar para as posições sociais como construções políticas e poéticas. Como espaços simbólicos que podem ser tensionados, desviados, reinventados. Talvez não tenhamos nascido no lugar ideal. Mas entre o lugar que nos foi dado e o espaço que podemos inventar, cabe o mundo inteiro.


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Construcionismo Social

Outro dia, enquanto esperava na fila da padaria, ouvi uma senhora reclamar que “hoje em dia ninguém tem mais respeito”. Não era a primeira vez que ouvia essa frase. Aliás, parece que ela está guardada no bolso de todo mundo, pronta para sair a qualquer momento. Mas será mesmo que o respeito “acabou”? Ou será que o que entendemos por respeito mudou? Melhor ainda: e se o respeito nunca tivesse existido como uma coisa em si, mas fosse apenas uma construção social?

Essa pergunta toca o coração do construcionismo social, uma perspectiva que afirma que valores, identidades, instituições e até emoções são produtos da vida em sociedade. São construídos nas interações, nos acordos e também nas tensões do cotidiano.

A Realidade como Obra Coletiva

Para o construcionismo social, a realidade que conhecemos não é simplesmente descoberta: ela é construída. Isso não significa que o mundo físico seja uma ilusão, mas que a forma como o percebemos — o que é certo, errado, belo, ofensivo, desejável — é moldada pelas relações sociais e pela linguagem. Como diria Peter Berger, a sociedade é ao mesmo tempo uma gaiola e um espelho: nos limita e nos reflete.

É aí que entra Anthony Giddens, com sua teoria da estruturação, trazendo uma virada interessante: não somos apenas vítimas passivas de uma sociedade que nos molda — somos agentes ativos nesse jogo. Para Giddens, estrutura social e ação humana estão entrelaçadas num fluxo contínuo. As estruturas nos orientam, sim, mas também dependem das nossas práticas cotidianas para existir. É como uma dança: os passos são ensinados, mas somos nós que dançamos — e, às vezes, mudamos a coreografia no meio do salão.

Scripts Invisíveis e Pequenas Rebeliões

Voltemos ao cotidiano. Pense em como tratamos uma pessoa de terno num banco e como tratamos alguém de chinelo numa loja chique. É automático. Reproduzimos scripts sociais invisíveis que orientam o comportamento. Mas o mais curioso, como diria Giddens, é que ao seguir esses scripts, nós também os reforçamos. Toda vez que aceitamos uma piada preconceituosa em silêncio, damos continuidade a uma estrutura social. Toda vez que interrompemos esse padrão — mesmo que com um olhar torto ou uma pergunta incômoda — abrimos brechas.

Essas pequenas escolhas são fundamentais. O construcionismo social, somado à noção de agência de Giddens, nos lembra que a transformação começa na rotina: na fala interrompida, no hábito questionado, no rótulo recusado. A realidade social, afinal, é frágil — precisa ser sustentada o tempo todo pelas nossas ações para continuar existindo.

Construcionismo e Liberdade: Para Além do Determinismo

Se tudo é construído, tudo também pode ser reconstruído. Isso não significa que vivemos no caos ou que tudo é relativo, mas sim que temos possibilidades de reinvenção.

Se “família” pode significar laços de afeto e não apenas de sangue, se “trabalho” pode ser remoto, flexível ou cooperativo, se “identidade” pode ser fluida e múltipla, então o construcionismo não é só uma ferramenta para entender o mundo — é uma chave para transformá-lo. Giddens reforça essa visão ao mostrar que os indivíduos, mesmo limitados por contextos, não são marionetes. Eles sabem o que fazem — e, às vezes, sabem que poderiam fazer diferente.

Uma Conclusão Aberta (Como Toda Boa Construção Social)

Voltando à senhora da padaria: talvez ela tenha razão no que sente, mas talvez a forma de respeito que ela espera seja diferente da que os jovens reconhecem. O construcionismo social nos convida a parar de tratar o presente como uma queda em relação ao passado e começar a vê-lo como uma nova narrativa em construção.

E com Giddens à mesa, lembramos que não basta entender as estruturas — é preciso assumir responsabilidade pelas nossas ações dentro delas. Porque, no fim, se a sociedade é construída todos os dias, nós somos os pedreiros — ou, quem sabe, os poetas — dessa construção.

sexta-feira, 5 de março de 2021

As lentes de Anthony Giddens - Uma visão sociológica dos problemas ambientais

 


Em novembro de 2011 escrevi vários artigos tratando do tema meio ambiente e os problemas ambientais, e os publiquei neste blog, na ocasião trouxe dentre outras a notícia publicada no site: http://correiodobrasil.com.br/presidente-da-chevron-pede-desculpas-pelo-vazamento-de-petroleo/332347/ndo que o vazamento de petróleo não deve chegar ao litoral.

 

O presidente da Chevron pediu desculpas públicas: empresa já recebeu multa de R$ 50 milhões pelo vazamento – Beto Oliveira/Câmara

O presidente da Chevron Brasil Ltda, George Buck, empresa responsável pelo vazamento de petróleo no Campo de Frade, no Rio de Janeiro, pediu desculpas à “população e ao governo brasileiro” pelo acidente. Em audiência pública na Câmara que ocorre na tarde desta quarta-feira (23), o norte-americano disse ter “profundo respeito pelo Brasil”. O vazamento começou em 8 de novembro e já rendeu uma multa de R$ 50 milhões à empresa. O acidente na bacia de Campos ocorre pelo menos desde o dia 8 deste mês. O auge do vazamento se deu no dia 11 de novembro, quando até 600 barris de petróleo vazavam diariamente na região. Depois, esse percentual foi diminuindo, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP).

 

O desastre causado pelo vazamento de óleo causado pela empresa “chevron”, deverá trazer consequências por muito tempo, e ainda é muito cedo para dimensionar o tamanho do dano ao ambiente aquático.

 

Por maior que seja a multa, jamais conseguirão recuperar as vidas dos animais que foram e serão interrompidas, a contaminação do oceano, prejuízos a vida das comunidades litorâneas e o quanto afetarão a economia. Diga-se que a causa não é o derramamento de óleo, a causa está nas nos abusos, descumprimento da legislação ambiental, adulterações sobre as informações, falha na fiscalização, e principalmente descomprometimento com as próximas gerações.

 

De lá para cá, decorreram-se dez anos desde minhas publicações no blog mencionando o desastre causado pela “Chevron” e o que vemos atualmente é o resultado de mais problemas ambientais causados pela exploração e degradação da natureza, como por exemplo o derramamento de óleo no ano de 2019 contaminando nove estados brasileiros, neste último incidente ainda não ficou esclarecido. Um ano depois do maior desastre de vazamento de óleo do país, a Marinha do Brasil finalizou a primeira parte das investigações sem apontar culpados e sem revelar a origem exata do derramamento que atingiu o litoral de nove estados do Nordeste e dois do Sudeste, totalizando 130 municípios.  (fonte: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/08/27/oleo-no-litoral-um-ano-depois-marinha-conclui-investigacao-sem-apontar-culpados-ou-origem-do-desastre.ghtml)

Atualmente a raça humana está lutando contra uma pandemia que provavelmente tenha suas origens na exploração sem limites da natureza, não é à toa que estamos enfrentando uma epidemia global que paralisou o mundo dando um potente golpe atingindo o planeta como um todo, independentemente do grau de desenvolvimento dos países, riquezas e distância geográfica, todos foram afetados, muitas pessoas morreram, estão morrendo e ainda morrerão. Pensamos que com a vacina possamos retomar nossas vidas de onde paramos, no entanto, esta premissa está se mostrando falsa, embora a eficácia das vacinas se mostrem promissoras contra a doença que assola o mundo, ela não sozinha não será suficiente para a retomada de uma vida quase “normal” sem uma mudança no paradigma de exploração.

O avanço tecnológico fruto do progresso e da industrialização produzem a química que salvará vidas, porem este mesmo progresso que é o resultado do capitalismo selvagem não poderá prosseguir com o mesmo ímpeto sob pena de destruir a natureza e a nós que estamos nela inseridos, pois somos parte do problema e da solução. Com a busca incessante pelo progresso e industrialização derrubamos fronteiras e fomos “globalizados”, com a globalização passamos a estar intensamente conectados e relacionados espacial e socialmente. Diante da intensificação das relações sociais em nível mundial com as conexões para diferentes lugares do globo, conforme as lentes de de Giddens, os acontecimentos locais passaram a sofrer forte influência do que acontece em outros locais, levando ao encadeamento das consequências das atitudes individuais, ou seja, o que acontece num vilarejo pode influenciar o mundo, através do contato físico e virtual.

Falar de progresso é também falar de natureza e meio ambiente, o progresso na maioria das vezes está focado na exploração da natureza, o meio ambiente que também fazemos parte é obviamente atingido, e nós inevitavelmente sofremos, pelo observar dos acontecimentos a situação irá só piorar, vamos ouvir um pouco do que alguns sociólogos trataram do tema progresso.

Até recentemente, as Ciências Sociais, apregoavam a forte crença no progresso e na racionalidade humana como potências simultâneas e até concomitantes oferecendo possibilidades, problemas e soluções, ora trata-se do paradigma do progresso e da razão, como se ambos andassem lado a lado, o primeiro avançando de maneira racional gerando e resolvendo os problemas causados, na prática poderemos observar que não é bem assim, são mais ações corretivas do que ações preventivas. Em linhas gerais, os teóricos clássicos dessas ciências, afirmaram o seguinte: Marx, ele acreditava que o progresso do capitalismo iria criar a sua própria superação, transformando as relações e os meios de produção. Durkheim afirmava que a sociedade moderna propiciaria o avanço da solidariedade orgânica entre os indivíduos, criando laços de interdependência benéficos para a coesão social. E, Weber, mais descrente, apontava que a era moderna seria o desencantamento do mundo, com a expansão da burocracia e o esmagamento da criatividade e autonomia. (GIDDENS, 1991)

De longa data as Ciências Sociais já tratam e escrevem sobre o relacionamento entre as sociedades humanas e o meio ambiente, esta é uma área antiga, Marx e Engels (1961), Weber e Durkheim (1954,1982), todos escreveram sobre o tema. A partir dos anos 70 surgiu o termo "Sociologia do Meio Ambiente", de uma forma próxima ao compreendido atualmente. Em 1976, A Sociedade Americana de Sociologia designou uma seção para a área. Em 1978, Catton e Dunlop foram os precursores quando publicaram a primeira tentativa de proporcionar uma definição explícita da área de sociologia do meio ambiente, eles entendiam que o estudo das interações entre a sociedade e o meio ambiente constitui do núcleo central da sociologia do meio ambiente.

Giddens me parece atual, moderno e coerente, em sua Sociologia ele trata do tema Meio Ambiente, em meu entendimento ele consegue interpretar e compreender os problemas de nosso tempo construindo com habilidade o que seja Sociologia do Meio Ambiente, ele busca integrar a explicação das origens e efeitos da degradação do ambiente numa interpretação mais ampla do desenvolvimento e da dinâmica das sociedades modernas, centralizando sua explicação da degradação do ambiente, na interação entre o capitalismo e o industrialismo, prestando a devida atenção à dimensão espacial dos processos sociais e dos métodos da geografia, o que lhe facultou investigar a natureza sociológica do urbanismo e da globalização e o modo como esta contribui para os problemas ambientais, a explicação esta nas origens e efeitos da degradação do ambiente nas sociedades modernas, em uma questão socioambiental, uma vez que a relação sociedade-natureza é de interação em tempo real.

Quando entendermos realmente que tudo o que está ao nosso redor advém da natureza, sendo ela a condição fundamental para a sobrevivência humana, quem sabe possamos perceber que sem ela não poderemos existir, e se dela somos parte obviamente esta afirmação é real e não uma apenas uma possibilidade. Transformamos a natureza numa segunda natureza, transformamos em nosso supermercado e de lá extraímos tudo aquilo que bem entendemos, a exploração se dá estimulada pelo consumo e progresso, quem não ouviu a frase: "é preciso incentivar o consumo, se quisermos superar a crise?", é claro que o consumo é necessário e inevitável, porem a que preço e sob quais condições? A relação sociedade-natureza é uma balança onde as necessidades da segunda natureza pesam mais que a natureza primordial, tais necessidades são hábitos milenares transmitidos sem muita preocupação, estão enraizados em suas culturas e é muito difícil de serem mudados, pois vejamos onde a população atualmente é de milhões repetindo hábitos de consumo o peso desta balança penderá para qual lado?

O consumo de animais silvestres é habito em muitos lugares do mundo, a caça é corriqueira, logo o consumo de carne de animais selvagens é influenciado por questões culturais, havendo uma ligação entre o consumo de certas espécies e a região específica do país. Assim como ocorre na China, país em que presumivelmente surgiu a nova doença que assola o mundo atualmente, o hábito do consumo de animais silvestres está enraizado na cultura, servindo tanto para a alimentação como também para a medicina tradicional e para vestimentas, esta é a realidade de muitos lugares e está acontecendo neste mesmo momento.

Um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicou que ao menos 70% das enfermidades que apareceram após a década de 1940 têm origem animal. Segundo a pasta da ONU, a expansão agrícola e a interatividade entre homens e animais fizeram com que novas doenças surgissem e se disseminassem rapidamente. Entre as doenças divulgadas no estudo estão: HIV-1, encefalopatia espongiforme bovina, síndrome respiratória aguda grave (Sars) e diversos vírus da gripe. Em comunicado para a imprensa, o diretor-geral adjunto de Agricultura e Defesa do Consumidor, Ren Wang, ressaltou que essas enfermidades são resultados das crescentes relações de animais silvestres com o gado e deste com os seres humanos. O estudo da FAO aponta que um terço do território mundial é utilizado para o pasto de ruminantes, e um terço da terra arável do planeta é designado à plantação de sementes para a prática da pecuária. De acordo com o documento, devido ao comércio globalizado, às mudanças climáticas causadas pelo impacto do homem na natureza e ao aumento mundial no consumo de carne, essas doenças acabam atingindo diferentes regiões do planeta em um curto espaço de tempo. https://summitsaude.estadao.com.br/desafios-no-brasil/70-das-doencas-modernas-sao-de-origem-animal-alerta-fao/

A Sociologia Ambiental, está muito bem analisada pelas lentes de Giddens, em seu estudo da vida social humana e sua interação com o meio ambiente, ele utiliza teorias e conceitos provenientes da própria Sociologia moderna para examinar essa relação que nem sempre é amistosa, pois dado a sua intensidade nem sempre é equilibrada, as consequências são o resultado de poluição e a destruição de muitas formas de vida, cujos efeitos a curto e longos prazos estão causando profundas modificações na biosfera, logo percebe-se aqui no que consiste a relação entre sociedade e natureza.

 

Nestas relações entre sociedade e a natureza, as ações humanas transformam o meio natural, produzindo transformações no contexto do espaço geográfico, na luta incessante  para o seu desenvolvimento e principalmente sua subsistência, lançam mão sobre os recursos naturais próximos e distantes, a busca é constante pelo atendimento de suas necessidades, a exploração ambiental é a forma encontrada para alavancar a sobrevivência local e seu desenvolvimento que estão diretamente relacionados a fatores políticos e econômicos obviamente implicando diretamente na apropriação e ocupação do espaço, agindo em nome da sobrevivência, do progresso e da fomentação industrial, por vontade própria modificamos a natureza conforme o objetivo e interesse.

 

A atual leitura da realidade social implica em considerar indissociáveis os problemas sociais e os problemas ambientais, uma vez que as relações entre sociedade e o meio ambiente é o resultado de decisões e ações sociais, permeado, portanto, por processos socioculturais, físicos e biológicos passíveis de mudanças, neste ponto em especial, a “comunidade” cientifica mundial entendeu que a pandemia é mortal e a realidade social de cada pais dependerá de mudanças, mudanças tais como o compartilhamento do conhecimento cientifico por parte dos mais desenvolvidos, aliado a ações sociais em prol da sobrevivência da raça humana, incluindo mudanças dos estilos e hábitos de cada um, a interação social é um fenômeno humano mundial.

 

A relação entre o mundo social moderno e a natureza tem imbricações fortes no capitalismo e no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, Giddens tem uma leitura clara nestes agentes, são agentes que proporcionam mudanças, desde o nível mais íntimo ao mais público, retratam quebras e rupturas com modos e estilos de vida que pareciam imutáveis e locais. O resultado de práticas sociais é a criação de um novo ambiente, onde a natureza passa a ser socializada. A pratica do consumo de animais silvestres e sua aproximação dos ambientes são os fios condutores de tudo o que um tem a oferecer ao outro, o desrespeito e a falta de limites causam seguidos curtos-circuitos em ambos os lados, com a degradação todos acabam perdendo, e a extensão dos estragos se alastra do micro ao macro, colocando em risco a sobrevivência da sociedade “moderna” em qualquer lugar do planeta.

 

A sobrevivência da raça humana depende de como haverão as interações sociais daqui para frente (me refiro aos hábitos adquiridos durante a pandemia), dependeremos mais do que nunca das tomadas de decisões individuais as quais poderão ter múltiplas implicações globais, seja social ou ambiental. As ações cotidianas não somente afetam a sobrevivência de alguém que vive do outro lado do mundo, mas podem contribuir para o processo de deterioração ecológica que em si tem consequências potenciais para toda a humanidade. (GIDDENS,1997). Ainda de acordo com Giddens:

 

Poucas pessoas, em qualquer lugar do mundo, podem continuar sem consciência do fato de que suas atividades locais são influenciadas, e às vezes até determinadas, por acontecimentos ou organismos distantes [...] Hoje, as ações cotidianas de um indivíduo produzem consequências globais [...] (GIDDENS, 1997, p. 23).

 

Os desastres naturais ainda ocorrem, mas a socialização da natureza, nos dias atuais, significa que muitos sistemas naturais primitivos são agora produtos da tomada de decisão humana2. Giddens expõe como exemplo a preocupação com o aquecimento global, afirmando que ele decorre do fato do clima da terra não seguir mais uma ordem natural. (GIDDENS, 2001). Ele ressalta que as questões ecológicas marcam outros problemas que a humanidade enfrenta na atualidade. Enquanto a tradição controla o espaço mediante seu controle do tempo, com a globalização o que acontece é, essencialmente, a “ação à distância”; a ausência predomina sobre a presença, graças à reestruturação do espaço. (GIDDENS, 2001, p. 79).

 

Acima de tudo, percebe-se que demonstra como as pessoas se adaptam às novas realidades construídas pelo capitalismo e industrialismo face a dinâmica da vida, a qual é imposta pela sociedade pós-tradicional, com o desenvolvimento progressivo da ciência e da tecnologia, materializado na produção e no consumo como fontes de prazer individual e coletivas na modernidade reflexiva, transformando, também, a relação entre conhecimento e experiência, com a sobreposição dos sistemas peritos sobre a experiência, criando, dessa forma, um afastamento crescente entre a sociedade-natureza e uma crescente adaptação das pessoas à natureza socializada.

 

Alguns dos hábitos aparentemente imutáveis poderiam ser um precursor do CORONAVIRUS, acredita-se que o novo coronavírus tenha surgido a partir do comércio ilegal de animais selvagens em um mercado de frutos do mar em Wuhan na China. Apesar de os morcegos terem sido citados em pesquisa chinesa recente como possível origem do vírus, a sopa de morcego não é particularmente comum no país e a mídia e fake news se encarregaram de propagandear mundo afora sem a certeza cientifica sua suposta origem, no entanto foi pregada a dúvida. Existem muitas teorias de conspiração e fake news, a falta de transparência deixa as pessoas a mercê de palpites e com isto por mais absurda que a teoria ou a notícia seja, a maioria das pessoas acredita haver a possibilidade de que seja verdade, afinal ninguém sabe a verdade, só se sabe que as investigações sobre a origem real da doença continuam, e algumas hipóteses cientificas são formuladas sem conclusão e algumas até discordantes.

 

A obra de Giddens é tão atual que também pode ser aplicada ao conceito das fake news, pois o autor insere na discussão o que ele chama de “sistema sem autoridades definitivas”, se referindo ao cenário contemporâneo, onde especialistas das mais diversas áreas do conhecimento estão em constante desacordo sobre suas pesquisas e trabalhos. Esse contexto instável e complexo de argumentos, segundo Giddens, é responsável pela ausência dessas “autoridades definitivas”, como a própria mídia tradicional, por exemplo, e permite ao indivíduo escolher e decidir em que acreditar. Como os peritos discordam com tanta frequência, mesmo profissionais no centro de um determinado campo de conhecimento podem se encontrar em posição muito semelhante à do leigo diante de decisão análoga.

 

Num sistema sem autoridades definitivas, mesmo as crenças mais acalentadas subjacentes aos sistemas especializados estão abertas à revisão, e muito comumente são alteradas de maneira regular. O empoderamento está disponível rotineiramente para o leigo como parte da reflexividade da modernidade, mas muitas vezes há problemas sobre como esse empoderamento se traduz em convicções e em ação. Um certo elemento de fortuna, ou de fatalismo, permite assim que a pessoa chegue a uma decisão que só pode ser parcialmente garantida à luz da informação local e especializada disponível.

 

A partir do momento em que o indivíduo leigo passar a escolher e decidir em que acreditar é um fator que reforça o surgimento e crescimento das fake news, uma vez que o critério de verificação das fontes da notícia já não tem a mesma importância. Temos, nesse contexto, o sujeito reflexivo que, se por um lado está cada vez mais ávido por informação, por outro parece estar cada vez menos exigente - não quanto ao conteúdo - mas quanto à fonte, que por sua vez reflete diretamente na consistência e credibilidade desse conteúdo, a sociedade ainda está aprendendo a fazer leituras neste sentido, no entanto há muito em jogo, ainda há o receio do quanto as notícias estão impregnadas por intenções subliminares de qual seja o interesse e intenções da fonte.

 

Há muita informação em torno da pandemia que assola o mundo, o novo Coronavirus se transformou numa pandemia, é um novo fenômeno ecológico global, e conforme o esperado há muita informação e desinformação circulando mundo afora, este momento é oportuno para o exercício dos fundamentos da sociologia clássica e da sua velha e nova área da sociologia do meio ambiente, é um momento revelador da sociologia e seus conceitos são relevantes para a compreensão da pandemia e orientação das condutas sociais que ainda percebem através de seu senso comum, a natureza como substrato ilimitado a disposição das necessidades da raça humana.

 

A rápida disseminação entre populações humanas deu a volta ao mundo em dias, abrangendo o ambiente urbano e cosmopolita, de uma virose provavelmente originária, como tantas, de animais, leva-nos a retomar algumas noções fundantes da sociologia, tais como as de fato social, totalidade social, consciência coletiva, representações coletivas e sensíveis, simbólico e imaginário, dualidade humana, fato social total, indistinção entre natureza e cultura, preconizantes das relações humana e meio ambiente, a um esforço constante da sociologia por demonstrar que não é a natureza a origem da sociedade, mas sim, o sistema social construído e constituído pelo é que hierarquiza e classifica como natureza a aparência da cultura.

 

Os estudos das relações entre seres humanos e meio ambiente no momento atual abriram um diálogo interdisciplinar com outras ciências e formas de conhecimento, estão sendo apontados os efeitos nocivos à saúde física e mental da espécie humana, das técnicas de exploração animal que acompanham a exploração do trabalho, e das tradições supostamente imutáveis não problematizadas. Os olhares discriminatórios vasculharam o mundo na busca pela origem do vírus mortal, encontraram as origens na exploração alienada do meio ambiente, seja pelo fomento do suposto progresso, pela sobrevivência das comunidades locais, por hábitos exóticos aparentemente imutáveis, desigualdade econômica, sofrimento de outras espécies e a destruição ambiental, enquanto não entendermos que o nosso social interfere no meio ambiente, a desigualdade permanecerá criando outros males, e outras pandemias.

 

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Fonte: http://www.ppgs.ufscar.br/boletim-coletividades-sociologia-na-pandemia/