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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Certeza Dúbia

O paradoxo que move

Vivemos tempos em que se espera que tenhamos certezas sobre tudo. O que queremos ser, o que pensamos sobre o mundo, de que lado estamos. E, no entanto, existe algo mais comum – e mais honesto – do que a dúvida escondida dentro das nossas convicções? A certeza dúbia é esse estado híbrido, quase poético, em que seguimos agindo como se soubéssemos, mesmo quando o chão sob nossos pés range como tábua velha.

Acordamos com o despertador e temos certeza de que precisamos ir trabalhar, mas lá no fundo a dúvida existe: “É isso mesmo que eu quero fazer da minha vida?”
Dizemos que amamos alguém, e amamos, sim, mas em certos silêncios ou ausências nos perguntamos: “Será que isso é amor ou apego?”

Vamos ao supermercado com a certeza de que não vamos comprar besteira, mas passamos pelo corredor dos chocolates e algo dentro de nós diz: “Só esse hoje...”

Essa é a matéria da qual somos feitos: um entrelaçado de segurança e hesitação. Não somos máquinas que seguem comandos; somos seres que vivem entre apostas e possibilidades. A certeza nunca é absoluta, e talvez isso seja bom. Porque é esse grau de incerteza que nos permite mudar de ideia, pedir desculpas, crescer, recomeçar.

Na vida profissional, muitos dizem ter “certeza” de sua vocação. Mas quantas vezes essa certeza é sustentada apenas pelo tempo investido, pelo medo da mudança ou pelas expectativas alheias? Um médico que sempre sonhou ser músico. Uma advogada que carrega cadernos cheios de poemas escondidos no fundo da gaveta. A dúvida pode até incomodar, mas a certeza rígida demais sufoca.

Na esfera pessoal, o mesmo se repete. Temos certeza de quem somos — até que uma experiência nova, um livro lido por acaso, uma conversa no fim de tarde, muda o jeito como vemos tudo. Somos seres em construção, mas fingimos já estar prontos.

O filósofo francês Edgar Morin defende a ideia da complexidade: a vida não é feita de opostos puros, mas de misturas. A certeza dúbia é isso — um retrato da complexidade humana. Não é contradição; é profundidade. E é justamente nessa profundidade que mora a verdade mais viva.

Podemos aprender a não ter medo da dúvida. Ter dúvidas não nos enfraquece; nos torna mais atentos. A certeza dúbia nos impede de cair no fanatismo, nos obriga a escutar o outro, e a escutar a nós mesmos de novo. Ela é incômoda, sim, mas é também um convite à honestidade.

Agir mesmo com dúvidas não é fraqueza, é coragem. É fazer o melhor possível com as ferramentas de agora, sabendo que talvez amanhã sejamos outras pessoas. A vida exige esse tipo de firmeza flexível, como o bambu que enverga sem quebrar.

No fim, talvez a certeza dúbia não seja uma falha, mas uma virtude. Um sinal de que estamos vivos, abertos, atentos. E que seguimos em frente — com o coração firme e os olhos abertos.


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Valor Social

Entre o que se mede e o que se reconhece

Na vida cotidiana, falamos de “valor social” como se fosse uma moeda invisível que cada pessoa carrega no bolso. Ela circula nos corredores das empresas, nas rodas de amigos, nas redes sociais e até nos silêncios familiares. Só que, diferente do dinheiro, o valor social não é emitido por um banco central: ele nasce de relações, percepções e narrativas que a comunidade constrói sobre cada um de nós. É, portanto, tanto uma medida de prestígio quanto uma forma de pertencimento.

Se pensarmos na lógica econômica, o valor se associa ao que pode ser trocado, quantificado, precificado. Mas no plano sociológico, especialmente no que Pierre Bourdieu chamaria de capital simbólico, o valor social se manifesta como reconhecimento — algo que não depende apenas do que fazemos, mas de como nossa ação é interpretada pelos outros. Assim, alguém pode ter alto valor social em um bairro, por ser “aquele vizinho que sempre ajuda”, mas nenhum valor num espaço corporativo que só reconhece títulos e cargos.

A questão se torna mais complexa quando percebemos que o valor social não é fixo. Ele é dinâmico, podendo se transformar de acordo com o contexto histórico, a mudança das normas coletivas e até a maneira como se narram nossas histórias. Um professor, por exemplo, podia ter alto valor social no início do século XX pelo seu papel moralizador; hoje, sua posição é frequentemente corroída por discursos que desvalorizam a educação, mesmo que sua importância social permaneça inquestionável.

O filósofo brasileiro José de Souza Martins observa que a modernidade cria zonas de visibilidade e invisibilidade social. O valor de alguém, nesse sentido, não é apenas o que ele é, mas também se a sociedade lhe oferece luz para existir publicamente. Há, portanto, um jogo político no reconhecimento: quem controla os holofotes, controla o valor.

Vamos pensar em três situações do cotidiano que ajudam a ilustrar essas mudanças:

  1. No trabalho — Um funcionário que sempre resolve problemas internos, mas não aparece em relatórios ou reuniões de destaque, pode ter alto valor social entre colegas diretos, mas quase nenhum para a diretoria, que só reconhece resultados documentados e visíveis.
  2. Na comunidade — Um líder comunitário que organiza mutirões e media conflitos pode ser visto como essencial para o bairro, mas invisível para políticas públicas que medem importância apenas por cargos e representações oficiais.
  3. Nas redes sociais — Uma artista com poucos seguidores, mas admirada e respeitada no circuito cultural local, pode ser ignorada pela lógica digital, que atribui valor quase exclusivamente a números de curtidas e engajamento, ignorando a profundidade do impacto real de sua obra.

No mundo hiperconectado, o valor social também se tornou um produto de curadoria pessoal. A exposição em redes sociais cria uma espécie de bolsa de valores da imagem, onde curtidas e seguidores funcionam como indicadores instáveis de prestígio. Só que, como toda bolsa, ela é sujeita a crises: um escândalo, uma mudança de algoritmo ou uma nova tendência podem transformar “alta” em “baixa” da noite para o dia.

A pergunta final talvez seja: até que ponto buscamos valor social para pertencer e até que ponto o fazemos para nos distinguir? A sociologia mostra que as duas forças são inseparáveis. Pertencer nos dá segurança; distinguir-se nos dá sentido. Entre esses polos, o valor social não é apenas um reflexo do que fazemos, mas do que a sociedade, no fundo, deseja que sejamos.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Salto de Fé

 

Nem sempre a gente decide. Às vezes, simplesmente não tem mais para onde ir — ou fica, ou pula. A dúvida é silenciosa, mas o momento da escolha faz barulho: um frio na barriga, uma sensação de abismo, como quem pisa no escuro esperando que o chão apareça. O salto de fé começa onde o cálculo falha. É uma aposta sem garantia, uma confiança que não nasce da lógica, mas da necessidade de seguir.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard foi quem cunhou essa expressão — salto de fé — para descrever um momento essencial na vida do indivíduo: quando a razão já não oferece respostas, e é preciso lançar-se ao desconhecido confiando apenas... em algo que não se vê. Para ele, isso era um salto para Deus. Mas, mesmo fora do campo religioso, essa imagem sobrevive. Em cada relação que começamos sem saber no que vai dar. Em cada mudança de carreira. Em cada recomeço. O salto de fé é humano, antes de tudo.

E também político. Quando votamos numa democracia, não temos garantias — apenas a esperança. Escolhemos representantes com base em promessas e gestos, confiando que irão agir em nome de um bem coletivo. A urna é um pequeno abismo onde depositamos não só o voto, mas uma expectativa: de que o sistema funcione, de que as instituições resistam, de que nossa decisão tenha algum efeito real. Votar é, nesse sentido, um salto de fé civil. Não pela fé religiosa, mas por uma confiança silenciosa no invisível funcionamento do pacto social.

Esse salto não é apenas coragem: é a capacidade de suportar a angústia. Um cálculo matemático oferece segurança. Um planejamento estratégico oferece projeções. Mas um salto de fé lida com outra dimensão — a da existência. O salto é individual, intransferível. Mesmo quando estamos rodeados de conselhos e mapas, somos nós que estamos à beira do penhasco. E não há ponte: ou saltamos, ou ficamos.

Mas o mais curioso é que nem sempre esse salto é dramático. Às vezes ele é quase imperceptível: dizer sim a algo simples, mudar o caminho de casa, escolher o silêncio. Outros exemplos são bem próximos da nossa rotina: prometer amor eterno mesmo sabendo da fragilidade humana, iniciar um curso novo sem saber se vai até o fim, ter um filho e se lançar num futuro imprevisível, dar um abraço sem saber se será retribuído. Esses pequenos gestos também são saltos de fé, porque desafiam o costume, rompem com a inércia e nos empurram para o novo — mesmo que o novo seja só uma versão de nós que ainda não conhecemos.

A inovação filosófica talvez esteja em pensar que o salto de fé não é um movimento único e heroico, mas um ritmo da vida. Não se trata apenas de um momento radical, mas de um modo de estar no mundo: viver, afinal, é saltar. Em cada manhã que acordamos sem saber o que virá. Em cada palavra que oferecemos sem ter certeza da resposta. A fé, aqui, não é uma crença cega, mas uma confiança ativa no vir-a-ser.

E o chão, esse que não vemos antes de pular, às vezes aparece. Outras vezes, a gente aprende a voar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Topologia do Eu

Identidade como Espaço Dinâmico

Em um mundo que se reinventa a cada instante, a identidade humana é muitas vezes tratada como um porto seguro, um centro fixo que confere continuidade à nossa experiência. Mas e se abandonássemos essa noção de estabilidade para imaginar o “Eu” como um espaço dinâmico, uma superfície em constante transformação? Inspirada na topologia matemática, que estuda as propriedades dos espaços que permanecem invariantes sob transformações contínuas, esta perspectiva filosófica propõe compreender a identidade como um campo fluido e relacional, moldado por experiências, memórias e relações.

Identidade como Fluxo

Heráclito, ao declarar que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, plantou as sementes para uma compreensão do ser como fluxo. O Eu, nessa visão, é menos um objeto e mais um movimento, algo que não pode ser capturado em uma definição fixa. A filosofia contemporânea de Henri Bergson acrescenta a esse debate a ideia do tempo como duração: não um conjunto de instantes isolados, mas um continuum onde passado e presente coexistem. Assim, a identidade é tanto uma memória acumulada quanto uma transformação constante.

O Espaço Relacional do Eu

Nenhuma identidade existe no vácuo. Emmanuel Levinas e Judith Butler nos ensinam que o Eu é profundamente relacional: ele emerge na interação com o Outro. A topologia do Eu, nesse sentido, é uma superfície moldada pelo contato com as diferenças. Cada relação é uma nova dobra, uma extensão ou contração no espaço identitário. Por exemplo, ao nos conectarmos com um amigo que vive em uma cultura diferente, nossa identidade se expande para incluir novas perspectivas. O Eu, assim, não é um território, mas uma cartografia em construção.

Temporalidade e Memória

Maurice Halbwachs propõe que a memória coletiva é um componente central da nossa identidade. Em uma perspectiva topológica, poderíamos imaginar o Eu como uma superfície onde as memórias se acumulam, formando relevos que influenciam nossas escolhas e a percepção do presente. Contudo, essas memórias não são estáticas: elas se reconfiguram à medida que reinterpretamos o passado. O “Eu” de hoje não é idêntico ao de ontem, mas também não é completamente outro; ele é o resultado de um movimento de continuação e reinterpretação.

A Era Digital e a Virtualidade do Eu

No contexto contemporâneo, a tecnologia digital reconfigura a topologia do Eu, adicionando camadas virtuais à nossa identidade. Redes sociais, avatares e interações online criam espaços paralelos que coexistem com o mundo físico. Por exemplo, a forma como nos apresentamos no Instagram pode ser uma expansão estética ou mesmo idealizada do Eu, enquanto nosso histórico de buscas no Google reflete preocupações mais pragmáticas. Essas camadas podem entrar em conflito, mas também enriquecem a compreensão do Eu como um ser multifacetado.

Ética da Dinamicidade

Aceitar a identidade como um espaço dinâmico não é apenas uma questão teórica, mas também um desafio ético. Em vez de buscar um ideal de coerência ou autenticidade fixa, devemos aprender a celebrar a flexibilidade e a adaptação. Isso implica acolher nossas contradições e compreender que o crescimento muitas vezes vem das mudanças mais radicais na nossa topologia identitária. Como diria Zygmunt Bauman, na modernidade líquida em que vivemos, a capacidade de nos transformarmos pode ser a nossa maior virtude.

Pensar a identidade como um espaço dinâmico é um convite a abandonar a segurança ilusória da permanência e a abraçar a riqueza da transformação. A topologia do Eu revela que somos mais do que narrativas lineares ou essencialismos reducionistas; somos mapas em constante redesenho, superfícies que dançam com o tempo, com o outro e com o inesperado. Esse olhar não apenas expande nossa compreensão filosófica, mas também nos desafia a viver com mais abertura para as infinitas possibilidades do ser.