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sábado, 15 de novembro de 2025

Compulsão Material

O desejo que não cabe no bolso (nem na alma)!

É só abrir o celular: a cada deslizada de dedo, mais um objeto aparece prometendo resolver a vida. Um fone que “entende” seu humor, uma garrafa que “conversa” com você, um sofá que “abraça”. Tudo parece feito para preencher um buraco – que, curiosamente, nunca se fecha. Por mais que a gente compre, deseje, guarde ou sonhe com o próximo lançamento, há uma inquietação que escapa das sacolas. Esse é o terreno onde nasce a compulsão material: um impulso que começa na vitrine, mas termina muito além dela.

Ao contrário do consumo cotidiano e necessário, a compulsão material não busca apenas objetos, mas tenta capturar sentidos. É o desejo em estado bruto, acelerado, faminto. Comprar vira uma forma de existir – ou, melhor dizendo, de disfarçar a sensação de não saber como existir. É como se cada coisa nova que adquirimos sussurrasse: “agora sim, você é alguém”. Mas o eco dessa voz se apaga rápido. E o vazio volta.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky, ao falar da era do hipermodernismo, descreve um tempo em que a identidade está em permanente construção e, por isso, permanentemente em crise. A compulsão material seria, então, uma tentativa desesperada de dar contorno ao “eu” usando o que está fora dele. Compramos para não pensar. Ou para tentar parar de sentir. O problema é que quanto mais se compra, mais se percebe que o objeto não tem o poder mágico prometido. E seguimos, então, comprando de novo – como quem tenta tirar sede bebendo água do mar.

Mas por que o impulso não se interrompe? Porque o sistema é feito para que ele continue. A publicidade não vende produtos: vende promessas de felicidade, de aceitação, de pertencimento. O objeto vira um símbolo. E o símbolo vira uma muleta emocional. A compulsão, assim, é sustentada por um mundo que explora o frágil para manter girando a roda do desejo.

No entanto, há também uma dimensão existencial profunda: quando nos afastamos da interioridade, buscamos fora o que perdemos dentro. E a matéria se oferece como solução concreta para angústias abstratas. Como disse o pensador brasileiro N. Sri Ram, em O Destino e o Caminho, “não é pela multiplicação das posses que se encontra a plenitude do ser, mas pela compreensão do que somos, sem ornamentos”.

Inovar, neste caso, talvez seja propor uma inversão: e se, em vez de tentar preencher a alma com coisas, começássemos a esvaziar o mundo à nossa volta até reencontrar o silêncio? Não por ascetismo moralista, mas por um desejo legítimo de liberdade. Não da matéria em si, mas daquilo que ela passou a representar: uma máscara para o que não sabemos dizer.

A compulsão material é, enfim, o sintoma de um tempo em que o ser foi sequestrado pelo ter. E enquanto não aprendermos a lidar com o que falta dentro de nós, continuaremos buscando, nas vitrines, um reflexo que nos reconheça – mesmo que ele nunca venha.