O desejo que não cabe no bolso (nem na alma)!
É
só abrir o celular: a cada deslizada de dedo, mais um objeto aparece prometendo
resolver a vida. Um fone que “entende” seu humor, uma garrafa que “conversa”
com você, um sofá que “abraça”. Tudo parece feito para preencher um buraco –
que, curiosamente, nunca se fecha. Por mais que a gente compre, deseje, guarde
ou sonhe com o próximo lançamento, há uma inquietação que escapa das sacolas.
Esse é o terreno onde nasce a compulsão material: um impulso que começa na
vitrine, mas termina muito além dela.
Ao
contrário do consumo cotidiano e necessário, a compulsão material não busca
apenas objetos, mas tenta capturar sentidos. É o desejo em estado bruto,
acelerado, faminto. Comprar vira uma forma de existir – ou, melhor dizendo, de
disfarçar a sensação de não saber como existir. É como se cada coisa nova que
adquirimos sussurrasse: “agora sim, você é alguém”. Mas o eco dessa voz se
apaga rápido. E o vazio volta.
O
filósofo francês Gilles Lipovetsky, ao falar da era do hipermodernismo,
descreve um tempo em que a identidade está em permanente construção e, por
isso, permanentemente em crise. A compulsão material seria, então, uma
tentativa desesperada de dar contorno ao “eu” usando o que está fora dele.
Compramos para não pensar. Ou para tentar parar de sentir. O problema é que
quanto mais se compra, mais se percebe que o objeto não tem o poder mágico
prometido. E seguimos, então, comprando de novo – como quem tenta tirar sede
bebendo água do mar.
Mas
por que o impulso não se interrompe? Porque o sistema é feito para que ele
continue. A publicidade não vende produtos: vende promessas de felicidade, de
aceitação, de pertencimento. O objeto vira um símbolo. E o símbolo vira uma
muleta emocional. A compulsão, assim, é sustentada por um mundo que explora o
frágil para manter girando a roda do desejo.
No
entanto, há também uma dimensão existencial profunda: quando nos afastamos da
interioridade, buscamos fora o que perdemos dentro. E a matéria se oferece como
solução concreta para angústias abstratas. Como disse o pensador brasileiro N.
Sri Ram, em O Destino e o Caminho, “não é pela multiplicação das posses
que se encontra a plenitude do ser, mas pela compreensão do que somos, sem
ornamentos”.
Inovar,
neste caso, talvez seja propor uma inversão: e se, em vez de tentar preencher a
alma com coisas, começássemos a esvaziar o mundo à nossa volta até reencontrar
o silêncio? Não por ascetismo moralista, mas por um desejo legítimo de
liberdade. Não da matéria em si, mas daquilo que ela passou a representar: uma
máscara para o que não sabemos dizer.
A
compulsão material é, enfim, o sintoma de um tempo em que o ser foi sequestrado
pelo ter. E enquanto não aprendermos a lidar com o que falta dentro de nós,
continuaremos buscando, nas vitrines, um reflexo que nos reconheça – mesmo que
ele nunca venha.
