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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quase Desprezível


Uma situação interessante e que é quase corriqueira é quando você entra no elevador. Outra pessoa entra logo atrás. Silêncio.

Os dois apertam o mesmo andar — um pequeno constrangimento compartilhado. Um deles solta um leve “opa”, o outro responde com um sorriso mínimo, daqueles que existem só pela metade. O elevador começa a subir.

Por um segundo, parece que alguém vai puxar conversa. Talvez sobre o clima, talvez sobre o prédio, talvez nada muito importante. Há um microinstante em que os dois percebem essa possibilidade — ela quase acontece. Mas não acontece.

O silêncio vence.

No reflexo do espelho, os olhares se cruzam por acidente e se desviam com uma rapidez ensaiada. Um deles ajeita algo inexistente na roupa. O outro olha fixamente para o número dos andares, como se aquilo exigisse concentração absoluta.

O elevador para. Porta abre.

“Boa noite”, diz um deles — ligeiramente atrasado, quase fora de tempo. O outro responde, mas já saindo, e a resposta se dissolve no corredor.

E pronto. Nada aconteceu. Ou melhor: quase aconteceu.

Não houve conversa, nem conexão, nem conflito. Apenas uma possibilidade que existiu por um instante e foi descartada sem esforço. Um encontro que ficou no limiar entre o insignificante e o significativo — leve demais para ser lembrado, mas real demais para nunca ter existido.

Talvez seja exatamente aí que mora o “quase desprezível”: não na ausência de evento, mas na presença de um evento que não chegou a ser. É quase cômico, mas a vida é assim cheia de pequenos momentos.

Há coisas que passam por nós como se não existissem. Um gesto interrompido, uma palavra que não chegou a ser dita, um olhar que não se sustenta. Chamamos isso de “quase desprezível” — não por ser inteiramente inútil ou vazio, mas por habitar uma zona ambígua onde o valor ainda não se decidiu. É o território do quase: aquilo que escapa tanto da importância quanto da irrelevância absoluta.

Vivemos numa época que exige intensidade, produtividade e significado imediato. O que não se impõe, o que não brilha, o que não se mede, tende a ser descartado. Nesse contexto, o “quase desprezível” torna-se invisível não por sua ausência, mas por excesso de critérios. A vida contemporânea parece incapaz de sustentar o que não se afirma com clareza.

Byung-Chul Han observa que a sociedade atual é marcada pela hipertransparência e pelo excesso de positividade. Tudo precisa ser exposto, otimizado, justificado. Nesse cenário, o que não se encaixa — o que é ambíguo, hesitante, inacabado — perde espaço. O “quase desprezível” não é apenas ignorado: ele é sistematicamente eliminado como ruído.

Mas talvez seja justamente nesse ruído que reside uma dimensão esquecida da experiência. O quase não é falha; é abertura. É o instante antes da decisão, o intervalo onde algo ainda pode se transformar. Ao desprezarmos o quase, perdemos a sensibilidade para o processo — ficamos presos apenas ao resultado.

Há uma violência silenciosa nesse desprezo. Não se trata de rejeitar o que é claramente inútil, mas de apagar o que ainda não teve tempo de se tornar. O “quase desprezível” é, muitas vezes, o embrião do significativo. Uma ideia mal formulada, uma tentativa frustrada, um sentimento indefinido — tudo isso carrega potência.

Reabilitar o quase é, portanto, um gesto filosófico. Significa resistir à tirania do definitivo e reconhecer valor no inacabado. É aceitar que nem tudo precisa ser pleno para existir. Que há beleza na hesitação, sentido na imperfeição, presença no que quase foi.

Talvez o mais radical não seja buscar o extraordinário, mas aprender a perceber o que quase passa despercebido. Porque é ali, nesse limiar entre o ser e o não ser, que a vida ainda respira sem forma — e, por isso mesmo, permanece aberta.