Uma
situação interessante e que é quase corriqueira é quando você entra no
elevador. Outra pessoa entra logo atrás. Silêncio.
Os
dois apertam o mesmo andar — um pequeno constrangimento compartilhado. Um deles
solta um leve “opa”, o outro responde com um sorriso mínimo, daqueles que
existem só pela metade. O elevador começa a subir.
Por
um segundo, parece que alguém vai puxar conversa. Talvez sobre o clima, talvez
sobre o prédio, talvez nada muito importante. Há um microinstante em que os
dois percebem essa possibilidade — ela quase acontece. Mas não acontece.
O
silêncio vence.
No
reflexo do espelho, os olhares se cruzam por acidente e se desviam com uma
rapidez ensaiada. Um deles ajeita algo inexistente na roupa. O outro olha
fixamente para o número dos andares, como se aquilo exigisse concentração
absoluta.
O
elevador para. Porta abre.
“Boa
noite”, diz um deles — ligeiramente atrasado, quase fora de tempo. O outro
responde, mas já saindo, e a resposta se dissolve no corredor.
E
pronto. Nada aconteceu. Ou melhor: quase aconteceu.
Não
houve conversa, nem conexão, nem conflito. Apenas uma possibilidade que existiu
por um instante e foi descartada sem esforço. Um encontro que ficou no limiar
entre o insignificante e o significativo — leve demais para ser lembrado, mas
real demais para nunca ter existido.
Talvez
seja exatamente aí que mora o “quase desprezível”: não na ausência de evento,
mas na presença de um evento que não chegou a ser. É quase cômico, mas a vida é
assim cheia de pequenos momentos.
Há
coisas que passam por nós como se não existissem. Um gesto interrompido, uma
palavra que não chegou a ser dita, um olhar que não se sustenta. Chamamos isso
de “quase desprezível” — não por ser inteiramente inútil ou vazio, mas por
habitar uma zona ambígua onde o valor ainda não se decidiu. É o território do
quase: aquilo que escapa tanto da importância quanto da irrelevância absoluta.
Vivemos
numa época que exige intensidade, produtividade e significado imediato. O que
não se impõe, o que não brilha, o que não se mede, tende a ser descartado.
Nesse contexto, o “quase desprezível” torna-se invisível não por sua ausência,
mas por excesso de critérios. A vida contemporânea parece incapaz de sustentar
o que não se afirma com clareza.
Byung-Chul
Han
observa que a sociedade atual é marcada pela hipertransparência e pelo excesso
de positividade. Tudo precisa ser exposto, otimizado, justificado. Nesse
cenário, o que não se encaixa — o que é ambíguo, hesitante, inacabado — perde
espaço. O “quase desprezível” não é apenas ignorado: ele é sistematicamente
eliminado como ruído.
Mas
talvez seja justamente nesse ruído que reside uma dimensão esquecida da
experiência. O quase não é falha; é abertura. É o instante antes da decisão, o
intervalo onde algo ainda pode se transformar. Ao desprezarmos o quase,
perdemos a sensibilidade para o processo — ficamos presos apenas ao resultado.
Há
uma violência silenciosa nesse desprezo. Não se trata de rejeitar o que é
claramente inútil, mas de apagar o que ainda não teve tempo de se tornar. O
“quase desprezível” é, muitas vezes, o embrião do significativo. Uma ideia mal
formulada, uma tentativa frustrada, um sentimento indefinido — tudo isso
carrega potência.
Reabilitar
o quase é, portanto, um gesto filosófico. Significa resistir à tirania do
definitivo e reconhecer valor no inacabado. É aceitar que nem tudo precisa ser
pleno para existir. Que há beleza na hesitação, sentido na imperfeição,
presença no que quase foi.
Talvez o mais radical não seja buscar o extraordinário, mas aprender a perceber o que
quase passa despercebido. Porque é ali, nesse limiar entre o ser e o não ser,
que a vida ainda respira sem forma — e, por isso mesmo, permanece aberta.