A escrita sempre encontra caminho quando há quem a queira viva.
Não se trata apenas de técnica ou estilo, mas de um desejo profundo de dizer
algo que faça sentido para alguém — mesmo que esse alguém seja o próprio
escritor. Quando há verdade pulsando por trás das palavras, elas não ficam
presas no papel. Elas respiram, ecoam, seguem vivendo nas cabeças e nos
corações de quem as lê.
Escrever
não é só organizar letras, é organizar o mundo. Às vezes, é uma tentativa de
consertá-lo. Outras vezes, é só o gesto de testemunhar — e já basta. A escrita
viva não teme a imperfeição. Ela nasce com vírgulas tremendo, com ideias pela
metade, com sentimentos que nem sempre sabem se explicar. Mas está viva porque
vem de dentro. E tudo que vem de dentro tem força, mesmo que sussurre.
O
filósofo francês Maurice Blanchot, em O Espaço Literário, dizia
que “escrever é dar voz ao silêncio”. E talvez esse seja o segredo da escrita
viva: ela traduz o que ainda não tinha nome, mas já existia em algum canto da
alma. Ela não precisa ser genial. Precisa ser honesta. É por isso que, muitas
vezes, um bilhete simples emociona mais que um tratado erudito.
A
escrita viva é aquela que se permite duvidar. Que começa uma frase sem saber
exatamente como vai terminar. Que escuta o que surge entre as palavras e
respeita o que escapa ao controle. Não se escreve apenas com as mãos —
escreve-se com a memória, com o corpo, com as experiências acumuladas. E também
com o silêncio que veio antes do texto.
Essa
escrita não busca impressionar, mas comunicar. E por isso ela encontra
caminhos. Quem escreve com alma toca a alma de quem lê. Não importa o gênero, o
tema, a gramática. O que importa é o gesto de entrega. Há textos corretos e
mortos. E há textos imperfeitos e vivos — porque alguém, em algum lugar,
escreveu como quem acende uma vela.
A
escrita viva não se encerra no escritor. Ela é uma travessia. Começa num
coração inquieto e termina em outro que se reconhece.
Nesse intervalo, muita coisa pode acontecer. Pode curar. Pode lembrar. Pode
acordar.
E
isso já é mais que suficiente para continuar escrevendo.
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