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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Memória Essencial



Às vezes, enquanto tomamos um café ou esperamos o ônibus, uma lembrança vem do nada: uma tarde de infância, uma risada perdida, o cheiro de um bolo que alguém fazia. E, curiosamente, não lembramos de tudo — apenas de fragmentos. A memória, como uma artista seletiva, guarda o que importa e apaga o que apenas passou. Lembro porque a emoção gravou em algum lugar de minha mente o que naquele momento vivido foi marcante e diferente, sempre que sinto sua falta revisito o palácio da memória e encontro a lembrança em alguma sala me aguardando, isto é fantástico.

No fundo, ela é menos um arquivo e mais um filtro. Do que vivemos, ficam as emoções mais intensas, as experiências que nos tocaram de verdade. O resto se dissolve no esquecimento, talvez para abrir espaço para o novo. É como se o tempo só permitisse permanecer o que teve alma.

No cotidiano, isso se mostra de forma simples: esquecemos nomes, mas não esquecemos o tom de voz; deixamos de lembrar rostos, mas recordamos a sensação de estar perto de alguém. A memória essencial é afetiva — o que se grava não é o fato, mas o sentimento.

Há quem veja nisso uma falha da mente. Eu vejo um gesto de sabedoria. A memória seleciona o que nos constrói, como quem organiza uma casa. Deixa ir o que pesa e guarda o que nos mantém de pé. Por isso, lembrar é, de certo modo, também escolher.

Henri Bergson dizia que a lembrança é “a sobrevivência do passado no presente”. E talvez seja isso mesmo: o que realmente vivemos continua vivo, não como repetição, mas como presença sutil. O que o tempo não levou, o coração quis manter.

domingo, 7 de setembro de 2025

Ler e Repensar

Argumentos de Nossos Antepassados

Outro dia, lembrei que tempos atrás mexendo numa caixa antiga de meus pais, encontrei um caderno de capa dura, já meio gasto, onde havia registro de pensamentos e pequenas observações sobre o dia. Nada de frases grandiosas ou planos mirabolantes — eram comentários sobre o clima, preços do mercado, um provérbio que alguém lhe contou. Mas, enquanto lia, percebi que ali havia muito mais do que simples anotações: havia um jeito de pensar o mundo, de argumentar sobre a vida, ainda que com palavras simples de alguém que tinha cursado até a 4ª série do primário.

E me bateu uma pergunta: como é que a gente pode repensar as ideias de quem viveu antes de nós se não soubermos ler de verdade? Não falo só de juntar letras, mas de escutar o que o texto quer dizer, de absorver aquele pensamento e confrontá-lo com o nosso. É aí que percebi — o diálogo com nossos antepassados só acontece para quem é alfabetizado no sentido mais profundo: aquele que lê para transformar, e não só para passar o olho.

A leitura é uma ponte invisível entre tempos, um fio de continuidade que conecta vozes de séculos passados à inquietude de nossas mentes presentes. Repensar os argumentos de nossos antepassados não é apenas um ato de erudição, mas um exercício de resgate da experiência humana em sua forma mais concentrada: o pensamento registrado.

Mas há um ponto crucial: só é possível reabrir essa conversa com o passado quando existe alfabetização — não apenas a técnica de decodificar letras, mas a competência de extrair sentido, absorver e reconfigurar os registros herdados. Um texto antigo só “fala” de fato quando encontramos nele uma interrogação viva, e não um monumento morto.

O filósofo brasileiro Antônio Candido lembrava que a literatura, e por extensão qualquer texto, não é só ornamento, mas uma necessidade: “assim como todos sonham, todos necessitam da ficção para se compreender”. Se não dominamos a leitura, não sonhamos com os mortos — e o diálogo com nossos antepassados se perde.

Walter Benjamin advertiu que todo documento de cultura é também um documento de barbárie. Ou seja, repensar argumentos passados exige não apenas admiração, mas um olhar crítico. O leitor alfabetizado de hoje tem a tarefa de ouvir sem ingenuidade: o que foi sabedoria para um século pode ser veneno para outro.

Exemplos no cotidiano

  • Cartas de família — Um neto encontra as cartas de seu avô escritas durante a década de 1940. Um leitor apressado lê nomes, datas e frases sentimentais. Um leitor crítico percebe ali pistas sobre o contexto histórico, o modo como as relações familiares eram moldadas pelo trabalho, pela guerra e pelo preconceito velado da época.
  • Atas de associações comunitárias — Uma professora de história consulta as atas de uma associação de bairro fundada nos anos 60. Para além das decisões formais, vê o embate de ideias: a defesa da escola pública, a desconfiança com o governo, a insistência em festas comunitárias. Ao reler esses registros, percebe que alguns problemas e sonhos permanecem os mesmos.
  • Receitas de cozinha — Um chef encontra um caderno de receitas da bisavó. Não é só culinária: cada prato guarda histórias de migração, escassez, adaptação de ingredientes e até influências culturais que hoje passam despercebidas. Ler é também decifrar o que está por trás do gesto de escrever.

Outros pensadores brasileiros

Paulo Freire insistia que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Antes de entender um texto, é preciso entender o contexto em que ele foi escrito — e isso é o que separa o alfabetizado funcional do alfabetizado crítico. Sem essa leitura profunda, reler nossos antepassados se reduz a copiar fórmulas mortas.

Lúcia Miguel Pereira, crítica literária, dizia que a obra de um autor é também sua autobiografia disfarçada. Isso nos lembra que, ao reler um documento do passado, não lemos apenas ideias, mas vidas inteiras condensadas.

N. Sri Ram, pensador teosófico, escreveu que “o verdadeiro conhecimento não está em acumular, mas em compreender o que está por trás das palavras”. Assim, alfabetizar-se plenamente é aprender a escutar o não-dito, o silêncio entre as frases que o tempo deixou.

Repensar nossos antepassados não é um culto de veneração nem um julgamento sumário. É uma arqueologia do sentido: cavamos os registros não para viver como eles, mas para entender como chegamos a viver como vivemos. E nisso, a alfabetização é mais do que chave — é a única porta de entrada para que o diálogo entre passado e presente seja vivo, fecundo e transformador.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Escrita Viva

A escrita sempre encontra caminho quando há quem a queira viva.

Não se trata apenas de técnica ou estilo, mas de um desejo profundo de dizer algo que faça sentido para alguém — mesmo que esse alguém seja o próprio escritor. Quando há verdade pulsando por trás das palavras, elas não ficam presas no papel. Elas respiram, ecoam, seguem vivendo nas cabeças e nos corações de quem as lê.

Escrever não é só organizar letras, é organizar o mundo. Às vezes, é uma tentativa de consertá-lo. Outras vezes, é só o gesto de testemunhar — e já basta. A escrita viva não teme a imperfeição. Ela nasce com vírgulas tremendo, com ideias pela metade, com sentimentos que nem sempre sabem se explicar. Mas está viva porque vem de dentro. E tudo que vem de dentro tem força, mesmo que sussurre.

O filósofo francês Maurice Blanchot, em O Espaço Literário, dizia que “escrever é dar voz ao silêncio”. E talvez esse seja o segredo da escrita viva: ela traduz o que ainda não tinha nome, mas já existia em algum canto da alma. Ela não precisa ser genial. Precisa ser honesta. É por isso que, muitas vezes, um bilhete simples emociona mais que um tratado erudito.

A escrita viva é aquela que se permite duvidar. Que começa uma frase sem saber exatamente como vai terminar. Que escuta o que surge entre as palavras e respeita o que escapa ao controle. Não se escreve apenas com as mãos — escreve-se com a memória, com o corpo, com as experiências acumuladas. E também com o silêncio que veio antes do texto.

Essa escrita não busca impressionar, mas comunicar. E por isso ela encontra caminhos. Quem escreve com alma toca a alma de quem lê. Não importa o gênero, o tema, a gramática. O que importa é o gesto de entrega. Há textos corretos e mortos. E há textos imperfeitos e vivos — porque alguém, em algum lugar, escreveu como quem acende uma vela.

A escrita viva não se encerra no escritor. Ela é uma travessia. Começa num coração inquieto e termina em outro que se reconhece. Nesse intervalo, muita coisa pode acontecer. Pode curar. Pode lembrar. Pode acordar.

E isso já é mais que suficiente para continuar escrevendo.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Contrato Social

Visão Contemporânea do Contrato Social

Todo mundo já assinou contrato sem ler. Seja na hora de comprar um celular, alugar um apartamento ou baixar um aplicativo. A gente rola a tela, clica em “aceito” e segue a vida. O curioso é que, em certo sentido, a vida em sociedade funciona do mesmo jeito: há um contrato social tácito que todos nós “aceitamos”, mesmo sem ter lido as letras miúdas.

Esse contrato não está impresso em papel timbrado nem reconhecido em cartório. Ele se manifesta quando paramos no sinal vermelho, quando respeitamos a fila do mercado, quando sabemos que não podemos atravessar a cidade tocando música em volume máximo de madrugada. São regras silenciosas que permitem a convivência entre diferentes.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau tornou célebre essa ideia ao afirmar que, para escapar da selva de interesses individuais, os homens decidiram se unir em um pacto que não anula a liberdade, mas a transforma em liberdade civil. Em vez de viver submetido apenas à força bruta, o indivíduo passa a viver segundo leis criadas por todos. O paradoxo é bonito: ao abrir mão de uma parte da liberdade natural, ganhamos uma liberdade maior, sustentada pela coletividade.

Na prática, isso aparece o tempo todo. No trânsito, quando paramos diante de uma faixa de pedestres, cumprimos o pacto de que a vida do outro tem valor. Já quando alguém fura o sinal ou dirige bêbado, rompe o acordo e põe todos em risco. No trabalho, respeitar horários, dividir responsabilidades e reconhecer o esforço alheio é parte do contrato invisível que sustenta a confiança no ambiente coletivo. Quando alguém burla essas regras, mina o espírito de cooperação. E nas redes sociais, embora não pareça, também vigora um contrato: falar, discordar, compartilhar — tudo isso faz parte da liberdade, mas sem transformar a tela em campo de agressão, pois o pacto social não desaparece só porque estamos atrás de um avatar.

Mas esse contrato contemporâneo enfrenta rachaduras. Cresce o individualismo, e muitos preferem usufruir das vantagens do pacto sem reconhecer os deveres. A pergunta que Rousseau fez no século XVIII continua atual: como manter a liberdade individual sem destruir a base comum que a sustenta?

O pensador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda ajuda a iluminar essa questão ao lembrar, em Raízes do Brasil, que o “homem cordial” nem sempre respeita o contrato social, pois tende a privilegiar laços pessoais em detrimento das regras impessoais. O desafio brasileiro, portanto, é tornar efetivo o pacto num país onde a amizade, a simpatia ou o “jeitinho” muitas vezes se sobrepõem ao cumprimento da lei.

O contrato social, longe de ser um acordo assinado no passado, é uma negociação viva. Ele depende de cada gesto cotidiano, de cada escolha ética, de cada reconhecimento do outro como parte do mesmo pacto. Afinal, viver junto nunca é automático: é sempre uma tarefa em andamento.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Essencialismo

 

Estava aqui pensando: ainda somos o que nascemos para ser?

A gente costuma ouvir desde pequeno que certas pessoas "nasceram para aquilo". Tem gente que "já nasceu líder", "tem o dom do cuidado", ou "é artista desde o berço". E o curioso é que, às vezes, a própria pessoa acredita nisso também. Mas será mesmo que existe algo em nós que já vem pronto, desde sempre? Algo essencial que define quem somos, o que queremos, e como devemos viver? Foi pensando em uma conversa sobre profissões que não combinam com a pessoa, sobre jeitos de ser que "não têm nada a ver com ela", que o tema do essencialismo me voltou à cabeça.

Na filosofia, o essencialismo é essa ideia de que as coisas — inclusive as pessoas — têm uma essência fixa e imutável. Que há algo dentro de nós, anterior a qualquer escolha, que determina o que somos de verdade. É uma noção antiga, com raízes em Platão e Aristóteles. Para Platão, existiria um mundo das ideias perfeitas, e tudo que vemos é uma cópia imperfeita daquilo. Para Aristóteles, cada ser tem uma essência que define seu propósito: a semente tem a essência da árvore, o cavalo tem a essência de correr, o ser humano, a de pensar.

Mas o essencialismo não ficou lá na Grécia Antiga. Ele atravessa os séculos e se esconde nas frases que repetimos no dia a dia: "mulher que é mulher cuida da casa", "homem que é homem não chora", "você não nasceu pra isso". Ou seja, usamos a ideia de essência pra justificar o que as pessoas podem ou não podem ser. E isso pode ser bem limitador.

O essencialismo também aparece com força nos debates sobre cultura, imigração e emigração. Quando se diz, por exemplo, que “o brasileiro é naturalmente caloroso” ou que “o europeu é frio por essência”, estamos usando uma lente essencialista para descrever comportamentos que, na verdade, são históricos, sociais e aprendidos. Esse tipo de visão pode ser perigoso, pois congela culturas em estereótipos e dificulta o acolhimento de quem migra. Um imigrante é, muitas vezes, visto como alguém que “não pertence”, como se fosse impossível ele se adaptar sem “trair sua essência”. Já quem emigra pode sofrer cobranças para “não esquecer suas raízes”, como se fosse errado mudar. O essencialismo cultural alimenta fronteiras invisíveis, mesmo quando os passaportes dizem que a viagem foi feita. Entender que identidades culturais são flexíveis e híbridas permite que pessoas vivam o que são hoje, sem serem prisioneiras do que se espera que sejam.

As questões de gênero também são fortemente atravessadas pelo pensamento essencialista. Quando se diz que homens são naturalmente racionais e mulheres, naturalmente emocionais, está se ignorando o papel das construções sociais e das expectativas culturais. Crianças são criadas com brinquedos, roupas e ideias diferentes desde o berço, e depois essas diferenças são lidas como “naturais”. Pior: pessoas trans ou não-binárias muitas vezes são vistas como “contra a natureza” simplesmente porque não se encaixam nos padrões fixos do que se supõe ser um homem ou uma mulher. Mas o gênero, como tantas outras dimensões da vida humana, pode ser visto como uma experiência vivida, múltipla e fluida, e não como algo pré-definido por um manual biológico. Questionar o essencialismo de gênero é abrir espaço para mais liberdade, mais respeito e mais possibilidades de ser.

O existencialismo, especialmente com Jean-Paul Sartre, vai criticar essa visão. Para ele, a existência vem antes da essência. Ou seja, nós não temos uma essência pronta — nós a construímos com nossas escolhas. Não há um “ser mulher” ou “ser homem” dado por natureza, mas um tornar-se. Simone de Beauvoir diria: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Aqui, a liberdade entra em cena. Somos responsáveis pelo que fazemos com o que fizeram de nós.

No cotidiano, pensar fora do essencialismo significa permitir que uma menina queira ser mecânica e que um menino possa gostar de balé sem que ninguém diga que “isso não combina com ele”. É aceitar que alguém pode mudar de carreira aos 50 anos, ou que uma pessoa tímida pode se tornar uma excelente oradora. O perigo do essencialismo é que ele parece inocente, mas acaba sustentando preconceitos, desigualdades e até violências.

O filósofo contemporâneo brasileiro Vladimir Safatle chama atenção para como o essencialismo serve muitas vezes para conservar estruturas de poder:

“Toda vez que alguém disser que algo é da ‘natureza humana’, é bom desconfiar — essa frase costuma ser o fim da conversa e o início da dominação.”

Nas redes sociais, o essencialismo ganha uma vitrine global e um microfone potente — ali, traços individuais ou culturais são frequentemente reduzidos a rótulos rápidos e julgamentos prontos: “isso é típico de mulher”, “isso é coisa de latino”, “fulano tem alma de artista”, como se um vídeo curto ou uma frase de efeito revelasse a essência profunda de alguém. Nesse palco planetário, onde bilhões se observam em tempo real, o essencialismo é reforçado pelos algoritmos que preferem identidades fixas e previsíveis, fáceis de segmentar e vender. O perigo é que, sob o pretexto da autenticidade, muitos acabam encenando versões de si mesmos que se encaixem nas expectativas do público — virando personagens de uma essência construída para ser consumida.

Desconfiar do essencialismo não significa negar que temos traços, preferências, temperamentos. Mas significa entender que isso tudo é matéria viva, que muda com o tempo, com os encontros, com as experiências. Talvez não sejamos aquilo que nascemos para ser — talvez sejamos aquilo que ousamos construir em nós mesmos.

E isso é tão mais libertador, não?

terça-feira, 27 de maio de 2025

Essência Viva

Vamos pensar sobre o Que De Fato Importa na Vida Para Que a Vida Seja Bem Vivida

É curioso como passamos boa parte da vida organizando as gavetas erradas. Dobramos roupas que não vamos usar, colecionamos diplomas que não dizem quem somos, alimentamos relações que não nos reconhecem. Vivemos, muitas vezes, em modo automático, presos numa coreografia repetitiva de compromissos e obrigações. Mas a grande pergunta — talvez a única realmente importante — permanece em silêncio no fundo do peito: o que, afinal, importa para que a vida seja bem vivida?

I. A Importância de Perguntar

Comecemos do começo. Antes de qualquer resposta, há o valor da pergunta. Só perguntar já é um sinal de despertar. A maioria das pessoas não se pergunta, apenas reage. E o problema de não se perguntar é que se acaba vivendo uma vida de segunda mão — feita de expectativas herdadas, desejos encomendados, conquistas que valem só para os outros.

Sócrates, o velho teimoso da Ágora, já dizia: “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” Talvez porque viver sem examinar é como atravessar uma floresta de olhos vendados — até se pode caminhar, mas não se sabe se está indo para o alto de uma montanha ou para dentro de um pântano.

II. Importa Ter ou Ser?

Vivemos sob a tirania do ter: ter dinheiro, ter sucesso, ter seguidores, ter um corpo “ideal”, ter controle. Mas se a vida bem vivida se resumisse ao acúmulo, os milionários seriam os mais felizes — e não são. Basta conversar com um deles em um momento de insônia. No fundo, o “ter” é um suporte frágil demais para sustentar o peso da existência.

Já o “ser” — esse é silencioso, mas profundo. Ser gentil quando ninguém está olhando. Ser curioso diante do desconhecido. Ser fiel ao que se ama, mesmo que dê trabalho. Ser inteiro naquilo que se faz, mesmo que seja apenas lavar a louça. Ser é quando deixamos de representar um papel e começamos a dançar a própria música.

III. A Importância das Pequenas Coisas

Um erro comum é achar que uma vida bem vivida precisa ser grandiosa, espetacular, cinematográfica. Mas talvez a vida boa esteja no ritmo das coisas pequenas: o cheiro do café pela manhã, o riso de um filho, a escuta atenta de um amigo, a caminhada sem rumo num fim de tarde. O filósofo japonês Daisetsu Suzuki dizia que o zen está em “fazer uma coisa de cada vez, com plena atenção”.

A vida que vale a pena não se mede em feitos, mas em presença. E estar presente, hoje, é quase um ato de rebeldia. Quantos de nós estão realmente onde estão?

IV. A Importância de Pertencer

Ser humano é também ser parte. Ninguém vive bem isolado. Precisamos de uma rede — de afetos, de significados, de escuta. Não se trata apenas de ter amigos, mas de saber partilhar a existência: dores, alegrias, silêncio.

Maurice Merleau-Ponty dizia que a carne do mundo é comum — somos feitos da mesma matéria que tocamos. Por isso, a vida bem vivida precisa de vínculos, mas vínculos livres, e não prisões afetivas. Laços que fortalecem, não que sufocam.

V. A Importância de Morrer um Pouco

Estranho, talvez, dizer isso. Mas viver bem implica morrer um pouco ao longo do caminho. Morrer para antigos eus. Morrer para verdades que já não nos servem. Morrer para identidades que se tornaram cárceres. A impermanência, como diz o budismo, é o tecido da existência.

A vida boa, então, é aquela em que aprendemos a soltar, em vez de acumular. Soltar medos, padrões, ilusões. O que fica, depois que tudo cai, é o que importa.

VI. E Afinal, o Que Importa?

Importa viver com sentido, mais do que com sucesso. Importa sentir, mais do que vencer. Importa ser presença, mais do que performance.

Importa olhar para trás, um dia, e perceber que não fomos apenas passageiros, mas que fomos inteiros em nossos amores, escolhas, silêncios. Que tropeçamos com dignidade. Que nos reinventamos quando necessário. Que, acima de tudo, fomos fiéis àquilo que dava brilho ao nosso olhar.

Como escreveu Fernando Pessoa pela boca de seu heterônimo Ricardo Reis:
“Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes.”

E talvez seja isso. Uma vida bem vivida não é aquela que teve tudo, mas aqui e agora.