Essa
pergunta parece simples, mas é quase um labirinto:
guardamos
emoções ou guardamos sentimentos?
Primeiro,
vamos separar as coisas.
Emoção
não é a mesma coisa que sentimento
- Emoção
é rápida, corporal, quase instintiva.
Ela
acontece.
Raiva.
Medo. Alegria. Vergonha.
O
coração acelera, o estômago aperta, a mão sua.
- Sentimento
é a emoção depois que ela passa pelo pensamento.
É
quando você interpreta o que sentiu.
“Eu
fui injustiçado.”
“Eu
não sou suficiente.”
“Eu
fui amado.”
Ou
seja:
emoção
é reação; sentimento é narrativa.
Então…
o que a gente guarda?
Na
maioria das vezes, não guardamos a emoção bruta.
Ela
é intensa demais e curta demais. O corpo descarrega.
O
que a gente guarda é:
- o significado do que aconteceu
- a memória da situação
- a história que contamos sobre aquilo
Guardamos
ressentimento, não a explosão original de raiva.
Guardamos
mágoa, não o susto inicial.
Guardamos
culpa, não apenas o erro.
E
isso vira sentimento sedimentado.
Mas
às vezes… guardamos a emoção também
Quando
não podemos expressar — por medo, educação rígida, conveniência social — a
emoção não se completa.
Ela
fica “inacabada”.
E
aí ela não vira só sentimento:
ela
vira tensão no corpo,
vira
silêncio prolongado,
vira
reação exagerada no futuro.
Um
comentário banal hoje pode acionar uma emoção antiga que nunca foi digerida.
Emoção
guardada vira o quê?
- Raiva guardada vira irritação crônica
- Tristeza guardada vira apatia
- Medo guardado vira controle excessivo
- Amor não expresso vira arrependimento
Não
é que a emoção fique intacta.
Ela
se transforma.
O
que realmente guardamos?
Talvez
o que guardamos não seja emoção nem sentimento.
Guardamos
experiência não resolvida.
E
experiência não resolvida vira identidade.
“Eu
sou assim.”
“Eu
não confio em ninguém.”
“Eu
não me exponho.”
Quando,
na verdade, talvez fosse só uma emoção que precisava atravessar o corpo e
terminar o ciclo.
Quando
falamos em guardar emoções ou sentimentos, estamos entrando num território que
já foi muito bem explorado por Baruch Spinoza.
Spinoza
faz uma distinção importante entre afeto, emoção passiva e ação
ativa.
Para
ele:
- A emoção é algo que nos acontece.
- O sentimento é a consciência dessa
emoção.
- E a maneira como interpretamos isso
determina se ficamos passivos ou nos tornamos ativos diante do que
sentimos.
Ele
diz algo poderoso:
“Um
afeto que é paixão deixa de ser paixão assim que formamos dele uma ideia clara
e distinta.”
O
que isso significa na prática?
Que
aquilo que guardamos não é exatamente a emoção —
é
a emoção sem compreensão.
Emoção
não compreendida vira prisão
Quando
sentimos raiva e não entendemos de onde ela vem, ela nos domina.
Quando
sentimos medo e não examinamos sua origem, ele nos conduz.
Mas,
segundo Spinoza, no momento em que entendemos a causa —
a emoção deixa de nos possuir.
Ela
não desaparece magicamente.
Ela
se transforma.
Então
o que guardamos?
Guardamos
emoções enquanto elas são confusas.
Depois
que se tornam claras, elas deixam de ser peso e passam a ser conhecimento.
A
mágoa que eu entendo vira aprendizado.
A
inveja que eu compreendo vira autoconhecimento.
O
medo que eu investigo vira prudência.
O
problema não é guardar.
É
guardar sem elaborar.
E
aí entra um detalhe sutil
Muitas
vezes achamos que superamos algo porque “já passou”.
Mas
se a emoção não foi compreendida, ela só foi empurrada.
E
o que é empurrado retorna —
geralmente
com outra roupa.
Spinoza
não diria que devemos reprimir emoções.
Ele
diria que devemos compreendê-las.
Porque
emoção guardada na sombra vira destino.
Emoção
iluminada vira liberdade.
E,
fico por aqui com minhas reflexões, espero que seja útil.