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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guardando Emoções?


Essa pergunta parece simples, mas é quase um labirinto:

guardamos emoções ou guardamos sentimentos?

Primeiro, vamos separar as coisas.

Emoção não é a mesma coisa que sentimento

  • Emoção é rápida, corporal, quase instintiva.

Ela acontece.

Raiva. Medo. Alegria. Vergonha.

O coração acelera, o estômago aperta, a mão sua.

  • Sentimento é a emoção depois que ela passa pelo pensamento.

É quando você interpreta o que sentiu.

“Eu fui injustiçado.”

“Eu não sou suficiente.”

“Eu fui amado.”

Ou seja:

emoção é reação; sentimento é narrativa.

 

Então… o que a gente guarda?

Na maioria das vezes, não guardamos a emoção bruta.

Ela é intensa demais e curta demais. O corpo descarrega.

O que a gente guarda é:

  • o significado do que aconteceu
  • a memória da situação
  • a história que contamos sobre aquilo

Guardamos ressentimento, não a explosão original de raiva.

Guardamos mágoa, não o susto inicial.

Guardamos culpa, não apenas o erro.

E isso vira sentimento sedimentado.

 

Mas às vezes… guardamos a emoção também

Quando não podemos expressar — por medo, educação rígida, conveniência social — a emoção não se completa.

Ela fica “inacabada”.

E aí ela não vira só sentimento:

ela vira tensão no corpo,

vira silêncio prolongado,

vira reação exagerada no futuro.

Um comentário banal hoje pode acionar uma emoção antiga que nunca foi digerida.

 

Emoção guardada vira o quê?

  • Raiva guardada vira irritação crônica
  • Tristeza guardada vira apatia
  • Medo guardado vira controle excessivo
  • Amor não expresso vira arrependimento

Não é que a emoção fique intacta.

Ela se transforma.

 

O que realmente guardamos?

Talvez o que guardamos não seja emoção nem sentimento.

Guardamos experiência não resolvida.

E experiência não resolvida vira identidade.

“Eu sou assim.”

“Eu não confio em ninguém.”

“Eu não me exponho.”

Quando, na verdade, talvez fosse só uma emoção que precisava atravessar o corpo e terminar o ciclo.

Quando falamos em guardar emoções ou sentimentos, estamos entrando num território que já foi muito bem explorado por Baruch Spinoza.

Spinoza faz uma distinção importante entre afeto, emoção passiva e ação ativa.

Para ele:

  • A emoção é algo que nos acontece.
  • O sentimento é a consciência dessa emoção.
  • E a maneira como interpretamos isso determina se ficamos passivos ou nos tornamos ativos diante do que sentimos.

Ele diz algo poderoso:

“Um afeto que é paixão deixa de ser paixão assim que formamos dele uma ideia clara e distinta.”

O que isso significa na prática?

Que aquilo que guardamos não é exatamente a emoção —

é a emoção sem compreensão.

 

Emoção não compreendida vira prisão

Quando sentimos raiva e não entendemos de onde ela vem, ela nos domina.

Quando sentimos medo e não examinamos sua origem, ele nos conduz.

Mas, segundo Spinoza, no momento em que entendemos a causa —
a emoção deixa de nos possuir.

Ela não desaparece magicamente.

Ela se transforma.

 

Então o que guardamos?

Guardamos emoções enquanto elas são confusas.

Depois que se tornam claras, elas deixam de ser peso e passam a ser conhecimento.

A mágoa que eu entendo vira aprendizado.

A inveja que eu compreendo vira autoconhecimento.

O medo que eu investigo vira prudência.

O problema não é guardar.

É guardar sem elaborar.

 

E aí entra um detalhe sutil

Muitas vezes achamos que superamos algo porque “já passou”.

Mas se a emoção não foi compreendida, ela só foi empurrada.

E o que é empurrado retorna —

geralmente com outra roupa.

Spinoza não diria que devemos reprimir emoções.

Ele diria que devemos compreendê-las.

Porque emoção guardada na sombra vira destino.

Emoção iluminada vira liberdade.

E, fico por aqui com minhas reflexões, espero que seja útil.


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