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domingo, 11 de janeiro de 2026

Tempo Segue


Vamos ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão. A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história que ainda nos cabe escrever.

Sentimentos e emoções dos que ficam

Quem fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma coisa não continua.

Os que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa, raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos:

— no lugar vazio à mesa;

— na mensagem que quase enviamos;

— na música que não dá para ouvir até o fim;

— no aniversário que vira um parêntese no calendário.

Os que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.

Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.

Com o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.

Os que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias, risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o outro dentro de si.

Porque, no fundo, ficar não é só permanecer.

É aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de companhia.

Mais velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me aguarda, assim espero!

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nutrir Sentimentos

No corre-corre do dia a dia, a gente costuma pensar em “nutrição” apenas como aquilo que alimenta o corpo: café da manhã, almoço, janta. Mas e o que alimenta o coração? Sentimentos também precisam ser nutridos — e talvez seja isso que mais negligenciamos.

O problema é que, diferente da comida, sentimentos não chegam prontos. Eles não se compram no mercado nem se aquecem no micro-ondas. Para florescerem, exigem tempo, cuidado e uma espécie de cozinha interior. O amor, por exemplo, não se mantém vivo só pelo “eu te amo” dito uma vez. Precisa de pequenos gestos, atenção, paciência, memória compartilhada. A amizade também: se não for regada, seca. Até a gratidão, se não for lembrada, se perde em meio às cobranças do cotidiano.

O pensador brasileiro Rubem Alves dizia que “o corpo se alimenta de pão, mas a alma se alimenta de sonhos e de carinho”. Isso significa que sentimentos não são automáticos, não brotam sozinhos — são cultivados. A indiferença, por outro lado, é o “jejum” da alma, que nos deixa fracos sem percebermos.

No cotidiano, nutrir sentimentos pode ser coisa simples: mandar uma mensagem sem motivo aparente, escutar de verdade sem olhar para o celular, ou até parar cinco minutos para lembrar de algo que nos faz sorrir. É dar consistência àquilo que, sem cuidado, vira apenas sensação passageira.

O curioso é que nutrir sentimentos não é apenas dar; é também receber. Ao cuidar dos vínculos, fortalecemos a nós mesmos. Como uma planta que, ao ser regada, devolve sombra e oxigênio, o sentimento nutrido oferece abrigo.

Nutrir sentimentos é, portanto, um ato ético e estético. Ético porque reconhece no outro a importância de existir. Estético porque torna a vida mais bela, mais habitável. No fundo, é um modo de resistir à secura do mundo. Como lembrava Rubem Alves: “Aquilo que a memória amou, fica eterno.” E só fica eterno o que foi bem alimentado.