Sabe quando parece que tudo muda — tecnologia, moda, linguagem — mas, no fundo, as relações continuam girando no mesmo eixo? Como se estivéssemos sempre entregando “o mesmo aos mesmos”? No Brasil, essa sensação ganha contornos muito concretos. Basta olhar ao redor: quem ocupa os espaços de poder, quem acessa oportunidades, quem é ouvido. Mudam os rostos, às vezes os discursos, mas os padrões insistem em se repetir.
O
ciclo da repetição social no Brasil
A expressão “o mesmo aos mesmos” encontra no Brasil um terreno fértil. A histórica concentração de renda e de acesso à educação de qualidade evidencia como vantagens são transmitidas entre gerações. Aqui, o pensamento de Pierre Bourdieu ajuda a iluminar o problema: o capital cultural e social não é distribuído de forma igual, e isso molda trajetórias.
Por exemplo, estudantes de escolas privadas de elite tendem a ter maior acesso a repertórios culturais valorizados nos vestibulares e nas universidades públicas. Mesmo com políticas de inclusão, como cotas, ainda há um abismo na preparação inicial. O resultado? Muitos dos que chegam ao topo já estavam, de alguma forma, próximos dele.
Educação:
inclusão e limites
As
políticas de cotas raciais e sociais transformaram significativamente o perfil
das universidades federais. Elas tensionam o ciclo do “mesmo aos mesmos”,
abrindo espaço para grupos historicamente excluídos. No entanto, o sistema
educacional como um todo ainda reproduz desigualdades profundas.
Enquanto
escolas públicas enfrentam falta de recursos, professores sobrecarregados e
infraestrutura precária, escolas privadas de alto padrão oferecem intercâmbios,
laboratórios e ensino multilíngue. Assim, o acesso ampliado não elimina
completamente a lógica da repetição — apenas a desloca parcialmente.
Mercado
de trabalho e redes de influência
No
mundo profissional, o “mesmo aos mesmos” aparece de forma ainda mais sutil.
Indicações, networking e capital social desempenham um papel decisivo. Quem já
está inserido em redes privilegiadas tem mais chances de acessar boas
oportunidades.
Esse
fenômeno pode ser visto em setores como o jurídico, o empresarial e até o
cultural. Escritórios renomados, grandes empresas e espaços de visibilidade
frequentemente recrutam dentro de círculos já estabelecidos. A meritocracia,
nesse contexto, muitas vezes funciona como narrativa que mascara desigualdades
prévias.
Política:
renovação aparente
Na
política brasileira, há uma constante promessa de renovação. Novos partidos,
novos discursos, novas figuras públicas. No entanto, muitas dessas mudanças
ocorrem dentro de estruturas tradicionais.
Famílias
políticas continuam exercendo forte influência em diversas regiões do país.
Além disso, campanhas eleitorais dependem de recursos financeiros e
visibilidade, o que favorece candidatos já conectados a redes de poder. Aqui, Michel
Foucault ajuda a entender como o poder se reorganiza: ele não desaparece,
apenas se redistribui dentro de certos limites.
Mídia
e produção simbólica
A
mídia também desempenha um papel crucial na manutenção do “mesmo aos mesmos”.
Embora haja maior diversidade de vozes nas redes sociais, os grandes meios de
comunicação ainda concentram poder de legitimação.
Quem
aparece, quem é entrevistado, quem se torna referência? Muitas vezes, são os
mesmos perfis — com pequenas variações. Isso molda o imaginário coletivo e
reforça a ideia de que certos grupos são naturalmente mais autorizados a falar.
Estruturas
profundas e herança histórica
Para
compreender a persistência desse padrão, é útil recorrer a Claude
Lévi-Strauss. O Brasil carrega estruturas históricas marcadas pela
colonização, escravidão e desigualdade racial. Essas estruturas não
desapareceram; elas foram ressignificadas ao longo do tempo.
O
“mesmo aos mesmos” no Brasil não é apenas um fenômeno contemporâneo — é a
continuidade de uma lógica histórica que organiza o acesso a recursos e
reconhecimento.
Rupturas
possíveis?
Apesar
desse cenário, há fissuras importantes. Movimentos sociais, políticas públicas
inclusivas, coletivos culturais periféricos e iniciativas educacionais
alternativas vêm desafiando essa lógica.
A
expansão do ensino superior, o fortalecimento de vozes negras, indígenas e
periféricas, e o uso das redes sociais como ferramenta de visibilidade são
exemplos de tentativas de romper o ciclo. No entanto, essas rupturas enfrentam
resistência e frequentemente são absorvidas pelo próprio sistema.
Concluindo...
No
Brasil contemporâneo, “o mesmo aos mesmos” não é apenas uma abstração teórica —
é uma realidade vivida. Reconhecer essa dinâmica é o primeiro passo para
transformá-la. Mas a transformação exige mais do que inclusão pontual; exige
uma reconfiguração profunda das estruturas que definem quem tem acesso, voz e
poder.
Penso
que talvez a verdadeira mudança comece quando deixamos de perguntar apenas
“quem está recebendo?” e passamos a questionar “por que sempre os mesmos?”.
