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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Mesmo aos Mesmos


Sabe quando parece que tudo muda — tecnologia, moda, linguagem — mas, no fundo, as relações continuam girando no mesmo eixo? Como se estivéssemos sempre entregando “o mesmo aos mesmos”? No Brasil, essa sensação ganha contornos muito concretos. Basta olhar ao redor: quem ocupa os espaços de poder, quem acessa oportunidades, quem é ouvido. Mudam os rostos, às vezes os discursos, mas os padrões insistem em se repetir.

O ciclo da repetição social no Brasil

A expressão “o mesmo aos mesmos” encontra no Brasil um terreno fértil. A histórica concentração de renda e de acesso à educação de qualidade evidencia como vantagens são transmitidas entre gerações. Aqui, o pensamento de Pierre Bourdieu ajuda a iluminar o problema: o capital cultural e social não é distribuído de forma igual, e isso molda trajetórias.

Por exemplo, estudantes de escolas privadas de elite tendem a ter maior acesso a repertórios culturais valorizados nos vestibulares e nas universidades públicas. Mesmo com políticas de inclusão, como cotas, ainda há um abismo na preparação inicial. O resultado? Muitos dos que chegam ao topo já estavam, de alguma forma, próximos dele.

Educação: inclusão e limites

As políticas de cotas raciais e sociais transformaram significativamente o perfil das universidades federais. Elas tensionam o ciclo do “mesmo aos mesmos”, abrindo espaço para grupos historicamente excluídos. No entanto, o sistema educacional como um todo ainda reproduz desigualdades profundas.

Enquanto escolas públicas enfrentam falta de recursos, professores sobrecarregados e infraestrutura precária, escolas privadas de alto padrão oferecem intercâmbios, laboratórios e ensino multilíngue. Assim, o acesso ampliado não elimina completamente a lógica da repetição — apenas a desloca parcialmente.

Mercado de trabalho e redes de influência

No mundo profissional, o “mesmo aos mesmos” aparece de forma ainda mais sutil. Indicações, networking e capital social desempenham um papel decisivo. Quem já está inserido em redes privilegiadas tem mais chances de acessar boas oportunidades.

Esse fenômeno pode ser visto em setores como o jurídico, o empresarial e até o cultural. Escritórios renomados, grandes empresas e espaços de visibilidade frequentemente recrutam dentro de círculos já estabelecidos. A meritocracia, nesse contexto, muitas vezes funciona como narrativa que mascara desigualdades prévias.

Política: renovação aparente

Na política brasileira, há uma constante promessa de renovação. Novos partidos, novos discursos, novas figuras públicas. No entanto, muitas dessas mudanças ocorrem dentro de estruturas tradicionais.

Famílias políticas continuam exercendo forte influência em diversas regiões do país. Além disso, campanhas eleitorais dependem de recursos financeiros e visibilidade, o que favorece candidatos já conectados a redes de poder. Aqui, Michel Foucault ajuda a entender como o poder se reorganiza: ele não desaparece, apenas se redistribui dentro de certos limites.

Mídia e produção simbólica

A mídia também desempenha um papel crucial na manutenção do “mesmo aos mesmos”. Embora haja maior diversidade de vozes nas redes sociais, os grandes meios de comunicação ainda concentram poder de legitimação.

Quem aparece, quem é entrevistado, quem se torna referência? Muitas vezes, são os mesmos perfis — com pequenas variações. Isso molda o imaginário coletivo e reforça a ideia de que certos grupos são naturalmente mais autorizados a falar.

Estruturas profundas e herança histórica

Para compreender a persistência desse padrão, é útil recorrer a Claude Lévi-Strauss. O Brasil carrega estruturas históricas marcadas pela colonização, escravidão e desigualdade racial. Essas estruturas não desapareceram; elas foram ressignificadas ao longo do tempo.

O “mesmo aos mesmos” no Brasil não é apenas um fenômeno contemporâneo — é a continuidade de uma lógica histórica que organiza o acesso a recursos e reconhecimento.

Rupturas possíveis?

Apesar desse cenário, há fissuras importantes. Movimentos sociais, políticas públicas inclusivas, coletivos culturais periféricos e iniciativas educacionais alternativas vêm desafiando essa lógica.

A expansão do ensino superior, o fortalecimento de vozes negras, indígenas e periféricas, e o uso das redes sociais como ferramenta de visibilidade são exemplos de tentativas de romper o ciclo. No entanto, essas rupturas enfrentam resistência e frequentemente são absorvidas pelo próprio sistema.

Concluindo...

No Brasil contemporâneo, “o mesmo aos mesmos” não é apenas uma abstração teórica — é uma realidade vivida. Reconhecer essa dinâmica é o primeiro passo para transformá-la. Mas a transformação exige mais do que inclusão pontual; exige uma reconfiguração profunda das estruturas que definem quem tem acesso, voz e poder.

Penso que talvez a verdadeira mudança comece quando deixamos de perguntar apenas “quem está recebendo?” e passamos a questionar “por que sempre os mesmos?”.


segunda-feira, 28 de julho de 2025

Estereótipo de Escravidão

Ele é aquilo que não é: o modelo estereotipado da escravidão

 

Tem gente que, ao ouvir a palavra "escravidão", pensa logo em imagens já gastas: correntes, senzalas, navios negreiros. Parece que o sofrimento precisa ter uma estética para ser reconhecido. O estereótipo da escravidão se cristalizou como uma fantasia dolorosa, mas controlável — algo que se pode arquivar como passado e lamentar à distância. E é aí que mora o perigo. Porque o estereotipado da escravidão é, muitas vezes, aquilo que ela já não é. E, ao mesmo tempo, é aquilo que ela ainda é — mas disfarçada, dissimulada, invisibilizada pelo próprio clichê.

O estereótipo torna a escravidão um "personagem": o corpo negro suado, o chicote, o senhor cruel. Tudo isso existiu, sim, e é importante lembrar. Mas quando só isso é lembrado, o estereótipo cumpre a função traiçoeira de apagar as novas formas de cativeiro. Porque se não há grilhões visíveis, não parece haver prisão. Se a pessoa recebe salário, então não está escravizada. Se tem celular, então está livre. Mas o que acontece quando alguém trabalha 15 horas por dia numa oficina, come e dorme no mesmo espaço insalubre, sem contrato, sem futuro? O estereótipo diz: “isso não é escravidão”. E nós, muitas vezes, acreditamos.

O filósofo Jean Baudrillard dizia que a simulação pode substituir o real — uma imagem pode ser mais real que a própria realidade, e acabar matando o que ela representa. O estereótipo da escravidão é isso: uma imagem tão forte, tão teatral, que rouba o lugar da experiência real de quem vive em cativeiro hoje, em outras formas. Ele impede o olhar, adormece a sensibilidade, padroniza o sentir.

E há mais: o estereótipo transforma o escravizado em um “outro” tão distante, que se torna quase irreal. Como se fosse uma figura de museu. Como se não estivesse no motoboy exausto, na empregada que dorme na casa dos patrões e tem a vida inteira atravessada pelo “favor”, ou no garoto que vende bala no sinal desde os seis anos de idade. O estereótipo desumaniza — ainda que em tom piedoso.

Assim, o estereotipado da escravidão é aquilo que não é, porque simula um passado encerrado, fecha a porta da reflexão e nos impede de perceber a continuidade perversa de um sistema que se atualiza. É como se a escravidão tivesse sido “resolvida” porque agora ela aparece com outra roupa. Mas ela está ali — justamente onde o olhar viciado pelo clichê se recusa a ver.

A libertação, nesse cenário, não é só uma questão jurídica ou política. É também simbólica e filosófica. Passa por desconstruir a imagem fácil e confortável que fazemos da escravidão e abrir os olhos para suas presenças sutis. O trabalho da filosofia, aqui, é o de rasgar o véu da repetição, fazer perguntas incômodas, desconfiar das imagens prontas.

Milton Santos, em sua crítica à globalização, falava de uma "globalização perversa", onde a técnica e o capital organizam o mundo de modo que a liberdade se torne um privilégio, e não um direito. Em suas palavras, “a perversidade do sistema se realiza ao fazer parecer que todos participam, quando muitos estão, na verdade, aprisionados.” Ora, isso nos leva diretamente ao coração do nosso tema: o estereótipo da escravidão como ilusão de distância — e a nova escravidão como invisível justamente por parecer "inclusiva".

Pensemos num exemplo: a jovem que trabalha num aplicativo de entrega. Ela “tem liberdade” de escolher seu horário, não tem patrão visível, carrega um celular caro no bolso. Mas é forçada a trabalhar 12, 14 horas por dia para conseguir sobreviver, não tem direitos trabalhistas, se acidenta e ninguém responde. Ela é livre? Ou está presa a um sistema que a utiliza como peça descartável? Ela é o que o estereótipo não reconhece: a escravizada do algoritmo.

Outro caso: o trabalhador rural em áreas remotas, que “aceita” viver em alojamentos degradantes, com alimentação insuficiente, endividado com o próprio patrão — uma dívida que nunca termina. A Justiça do Trabalho já reconheceu milhares de casos de “trabalho análogo ao de escravo” no Brasil nos últimos anos. Mas como não há pelourinho, muitos se recusam a chamar pelo nome certo. O estereótipo venceu. Ele nos ensinou a ver só o passado.

E não para por aí. Há uma escravidão doméstica, muitas vezes travestida de “ajuda”. A empregada que cuida dos filhos, limpa a casa, cozinha, vive décadas com a mesma família — mas sem carteira assinada, sem independência, sem vida própria. Ela é tratada como “parte da família”, dizem. Mas família que não dá férias, salário justo ou aposentadoria? A linguagem do afeto esconde a lógica da servidão.

Milton Santos nos ajuda a ver que a liberdade é desigualmente distribuída — e que a aparência de escolha pode mascarar sistemas profundos de exclusão. A escravidão moderna não se impõe com correntes, mas com contratos precários, algoritmos, dívidas e dependência emocional. E, acima de tudo, com uma ideia formatada do que a escravidão “deveria parecer” — para que o resto possa continuar existindo sem nome.

É preciso, então, lutar contra o que parece, e ouvir o que é. A filosofia aqui precisa ser um ato de audição — de escutar os silêncios, os não-ditos, os murmúrios de uma realidade abafada por imagens repetidas. Libertar-se da escravidão passa também por libertar o olhar. Ver com outros olhos. Olhos que enxergam o que o estereótipo não quer mostrar.

Porque, no fim, o estereotipado da escravidão é o fantasma confortável que a sociedade inventou para não ver seus próprios monstros reais. E enquanto não olharmos de frente os novos grilhões, continuaremos fingindo que somos livres — enquanto seguimos presos, somos os neoescravos!

Como escreveu Clarice Lispector:

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

E talvez ainda nem forma. Mas exige olhos novos para ser vista.


domingo, 27 de julho de 2025

Consumo e Lazeres

Máscaras de escravidão: Quando a folga vira coleira

Sabe aquele momento em que finalmente chega o fim de semana, e a gente pensa: “agora sim, vou descansar”? Mas, em vez de repouso, vem uma lista invisível de coisas que precisamos fazer para “aproveitar o tempo livre”: maratonar séries, visitar o novo restaurante da moda, comprar algo em promoção, postar uma foto sorridente com filtro. Parece descanso, mas será mesmo? Ou será que colocamos máscaras de lazer que escondem novas formas de cansaço — e até de escravidão?

Há também o fenômeno curioso da multidão que se move em bloco, mesmo quando acredita estar agindo por vontade própria. Como gado em pastagem, todos vão onde todos vão, como se o simples fato de muitos estarem fazendo algo já fosse um selo de autenticidade. O novo lugar “instagramável”, o festival do momento, o destino turístico da vez — nada disso é escolhido por real desejo, mas por contágio. A mesmice se disfarça de tendência, e o medo de ficar de fora empurra cada um para dentro da trilha marcada. Romper com isso exige não só coragem, mas uma vontade rara de andar em sentido contrário, de suportar o incômodo de pensar o próprio caminho.

 

Liberdade embalada a vácuo

Ao longo da história, os momentos de lazer foram associados à liberdade. Os gregos antigos, por exemplo, valorizavam o ócio criativo — o tempo livre para contemplar, refletir, filosofar. Hoje, porém, o lazer se mistura com a lógica do mercado. O que chamamos de “tempo livre” muitas vezes é apenas o tempo em que não estamos produzindo diretamente, mas continuamos girando a engrenagem econômica: consumimos conteúdos, compramos experiências, alugamos sensações.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama isso de “sociedade do desempenho”, em que até o prazer precisa ser eficiente. A academia vira palco de sofrimento voluntário; o turismo, um check-list apressado; os hobbies, vitrines de produtividade. Somos livres para escolher — contanto que sigamos os caminhos traçados pelo algoritmo, pelo marketing, pela necessidade de sermos vistos.

 

Lazer como distração, consumo como alívio

Essa dinâmica cria uma espécie de dopamina social: cada compra, cada passeio, cada like nos dá uma breve euforia que logo se esgota. Como numa dependência, buscamos de novo. O lazer, em vez de nos renovar, nos anestesia. Não sentimos o tempo passar, mas ele escorre — e a vida vai ficando para depois.

Pior: quando estamos exaustos, recorremos ao consumo como se fosse cura. Um sapato novo para compensar o estresse. Um filme bobo para esquecer o vazio. Um aplicativo de entrega para evitar pensar. Tudo rápido, prático e... superficial. A escravidão aqui é sutil: não há correntes visíveis, apenas uma constante fuga de si.

 

As máscaras da liberdade

O mais perverso é que tudo parece escolha. Afinal, ninguém nos obriga a gastar o sábado no shopping ou as férias em um resort com wi-fi. Mas será que estamos realmente escolhendo? Ou apenas reproduzindo desejos que nem sabemos de onde vieram?

O filósofo francês Gilles Deleuze dizia que o capitalismo não reprime os desejos — ele os fabrica. Assim, mesmo quando acreditamos estar nos libertando da rotina, podemos estar apenas obedecendo a outras rotinas, mais sofisticadas e camufladas.

O lazer vira máscara: atrás do riso está o tédio, atrás da selfie está a solidão, atrás da compra está a angústia.

 

Desmascarar-se para viver

Talvez o verdadeiro lazer — aquele que liberta — seja o que não se pode vender nem programar. Uma conversa sem pressa. Um silêncio sem culpa. Uma caminhada sem destino. Atos que não rendem conteúdo nem curtidas, mas nos reconectam com a própria existência.

Repensar o consumo e os lazeres não significa negá-los, mas desmascará-los. Olhar para eles sem a maquiagem da publicidade, sem a ansiedade da performance. E, quem sabe, redescobrir que o tempo livre pode ser mesmo nosso — quando deixamos de obedecer à lógica de que tudo precisa valer a pena.

A escravidão mais difícil de romper

A escravidão mais profunda é aquela que se apresenta como liberdade. E o lazer, quando capturado pelo consumo, vira disfarce de um sistema que exige produtividade até no descanso. Libertar-se disso é tarefa difícil — mas necessária, se quisermos não apenas sobreviver, mas viver.

Como dizia Nietzsche, “há mais ídolos do que realidades no mundo”. Talvez o lazer moderno seja um desses ídolos. E só ao quebrá-lo, podemos, enfim, descansar. De verdade.