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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Expectativas e Decepções


Você já parou pra pensar o quanto decepção tem a ver com expectativa? Não com o que aconteceu. Não com o que foi dito. Mas com o que você esperava que fosse.

A gente idealiza tudo. A resposta que o outro vai dar. A forma como o chefe vai reconhecer. A mensagem que deveria ter chegado. A gentileza que esperávamos só porque fomos gentis.

E aí vem a porrada. Porque a realidade tem um jeitinho especial de lembrar: ei, ninguém prometeu nada disso, não.

É como diz aquela frase que ninguém quer ouvir, mas todo mundo sabe que é verdade:
“Crie porcos, não expectativas.”

Pelo menos o porco vira bacon. Expectativa? Só vira mágoa.

E não tô dizendo pra você viver apático. Sem planos. Sem se importar. Tô dizendo pra parar de cobrar do mundo um roteiro que só existe na sua cabeça.
Porque, no fundo, a gente não se decepciona com os outros. A gente se decepciona com a nossa própria ilusão.

Então da próxima vez que for criar expectativa, respira fundo e pergunta:
“Eu tô esperando isso por quê? Porque o outro prometeu? Ou porque eu fantasiei?”

Se for fantasia, então relaxa. Aproveita o momento real. Ele pode não ser do jeitinho que você queria…

Estou falando do que especificamente? Ora, tem muita coisa que nos choca, mas por enquanto fico com os políticos, eita, não nada está fácil conviver com tanta corrupção, incompetência, despreparo, quantos mistérios, acordos suspeitos, olha tá difícil ligar o rádio, tv, ouvir noticiário me faz pensar do tanto que o ser humano se rebaixou.

Mas às vezes, penso que seja exatamente do jeito que precisávamos enxergar o quanto o poder corrompe, ou sei lá, já são corruptos fazendo o que sabem fazer melhor, olha dá para contar numa mão os que escapam a dança da corrupção, e também não coloco a mão no fogo por ninguém.

É isso aí. Fica bem. E da próxima vez que a expectativa bater na sua porta… manda ela se foder com carinho.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Essencialmente Otimistas

A arte de esperar o melhor sem negar o pior.

 

Quando a vida nos dá uma piscadinha

Às vezes, o dia começa torto: dia destes derrubei o café, perdi o ônibus, o celular decidiu atualizar bem na hora da reunião. Mas, curiosamente, há quem olhe para tudo isso e pense: “ok, mas o que de bom pode nascer daqui?”

Essas pessoas (inclusive eu) não são ingênuas, nem vivem num universo paralelo. São o que eu chamaria de essencialmente otimistas — indivíduos que parecem carregar uma espécie de bússola interna apontada não para um final feliz garantido, mas para uma possibilidade. Um pequeno brilho que a realidade oferece em algum canto, mesmo quando ela está mal-humorada.

O interessante é que esse tipo de otimismo não é aquele sorriso amarelo que tenta esconder a dor, mas sim uma atitude filosófica com raízes profundas.

 

O otimismo como disposição ontológica

Ser essencialmente otimista não é acreditar que “tudo vai dar certo”. Isso seria quase uma superstição. O essencialmente otimista acredita em outra coisa: que existe sempre uma resposta possível — e que ele pode participar da construção dela.

O filósofo Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, dizia que o ser humano é o único animal que vive projetado no “ainda-não”. Somos seres que antecipam, imaginam, constroem imagens do que pode vir. O essencialmente otimista habita esse “ainda-não” com naturalidade. Ele não nega que o presente é difícil, mas tampouco permite que ele seja definitivo.

William James, ao falar sobre as atitudes morais diante da vida, distinguia entre o “temperamento saudável” e a “alma doente”. O primeiro não é o que ignora o sofrimento, mas o que o atravessa sem permitir que ele apague a chama do significado. O essencialmente otimista está nesse campo — ele toma a realidade inteira, mas encontra dentro dela uma brecha para agir, para reinterpretar, para caminhar.

Em termos mais simples: trata-se menos de previsão e mais de postura.

 

Vamos pensar sobre momentos do cotidiano

Onde o otimismo essencial se esconde

 

A fila do banco que vira aula de paciência

A pessoa essencialmente otimista não se irrita com a demora por ingenuidade. Ela pensa: “estou aqui mesmo; posso responder mensagens, observar as pessoas, talvez até aprender algo sobre como lidam com o tempo.”

Ela transforma uma perda de tempo em um uso diferente do tempo.

 

O fracasso profissional como trampolim e não miragem

Alguém é demitido. A primeira reação é emocional, forte. Mas o essencialmente otimista, depois do impacto, se pergunta:

“O que essa mudança me força a ver que eu não enxergava?”

Não há mágica. Há um redesenhar do mapa da própria vida.

 

O relacionamento que não deu certo

A pessoa essencialmente otimista não diz: “foi tudo inútil”. Ela pensa:
“Isso me ensinou algo sobre mim. Sobre cuidado, limites, ritmos. Agora sei melhor o que ofereço e o que busco.”

Ela não apaga a história — aprende com ela.

 

Pequenas frustrações que não se tornam catástrofes

O ônibus atrasou?

O essencialmente otimista aproveita para ouvir música, observar o céu, ou simplesmente respirar. Ele não transforma a contrariedade em identidade.

 

Um ponto-chave: otimismo essencial não é fuga

Pelo contrário: quem é essencialmente otimista olha a realidade no olho. Ele não diz “não dói”; ele diz “dói, mas não me define”. E aqui entra uma sutileza filosófica: essa forma de otimismo nasce da percepção de que somos processo, não produto final.

O essencialmente otimista é aquele que lembra, sempre, que está se tornando.

Ele vê o mundo como matéria-prima, não como sentença.

 

O brilho que insiste

Ser essencialmente otimista é uma forma de resistência silenciosa. É afirmar que, apesar das provas contrárias, ainda existe um fio de sentido no real. Esse otimismo não ignora o sofrimento, apenas se recusa a conceder a ele a última palavra.

Talvez, no fundo, seja isso:

o essencialmente otimista acredita que a vida está sempre, de algum modo, por vir.

E que dentro de cada tropeço cotidiano existe um convite sutil para começar de novo — um convite que só os essencialmente otimistas conseguem ouvir com nitidez.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

As Quimeras

Entre o Desejo e a Realidade

Desde a antiguidade, a quimera figura como uma criatura fantástica, composta por partes distintas — leão, cabra, serpente — símbolo da mistura impossível, da fantasia que ultrapassa a realidade concreta. Mas o que acontece quando refletimos sobre as quimeras não como monstros mitológicos, mas como metáforas para os anseios humanos? E se nossas próprias quimeras forem as imagens híbridas formadas por desejos conflitantes e aspirações inatingíveis, projetadas no horizonte da existência?

O filósofo francês Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, nos convida a entender a imaginação como uma potência criadora, um modo pelo qual o ser humano transcende sua condição finita. A quimera, assim, não é mera ilusão ou engano — é uma expressão do desejo humano pelo possível, um símbolo da criatividade que impulsiona o movimento da vida para além do dado.

No entanto, essa potência imaginativa carrega uma tensão profunda: ao mesmo tempo que nos impulsiona, ela pode gerar frustração, pois o real dificilmente acolhe inteiramente a complexidade dos nossos sonhos híbridos. A quimera se torna, portanto, uma ponte e uma lacuna — um convite para ousar, e um alerta para a ilusão.

Pensando na vida cotidiana, cada indivíduo vive suas quimeras internas: projetamos versões idealizadas de nós mesmos, aspiramos a relações, profissões, mundos que misturam partes reais e inventadas. Ao abraçar essa complexidade, reconhecemos que a existência não é linear nem puramente racional, mas um emaranhado de fantasias e esforços que constroem nossa singularidade.

Assim, a lição das quimeras talvez resida no equilíbrio entre nutrir o sonho e confrontar a realidade, entre deixar-se levar pela imaginação e saber voltar os pés para o chão. Como Bachelard sugere, a imaginação não é fuga, mas criação — um espaço onde a alma se reinventa.


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Descrições da Realidade

O Mundo que Cabe nas Palavras

Toda vez que tentamos descrever a realidade, inevitavelmente a moldamos. O que dizemos sobre o mundo nunca é o próprio mundo, mas uma versão filtrada, recortada e traduzida para caber nas estruturas da linguagem. A filósofa e semióloga brasileira Lúcia Santaella lembra que toda descrição é, antes de tudo, um processo de interpretação — e que não há acesso “puro” ao real, apenas múltiplas mediações.

Essa constatação não é apenas teórica; ela se revela nos gestos mais simples do cotidiano. Quando alguém pergunta como foi o seu dia, você seleciona episódios, omite detalhes, realça outros. Ao narrar um acidente, um jogo ou um encontro, sua escolha de palavras já organiza os fatos numa narrativa coerente — mesmo que a realidade vivida tenha sido confusa e fragmentada.

A ciência, que busca rigor, também depende dessas descrições. Um relatório meteorológico não diz “o tempo está feio”, mas apresenta dados numéricos sobre pressão, umidade e temperatura. Ainda assim, são categorias humanas, mediadas por instrumentos, que transformam fenômenos em linguagem técnica. O mesmo vale para a arte: um pintor não copia a paisagem, mas cria uma descrição visual de como a percebeu — e às vezes essa versão “irreal” é a que mais nos comove.

Santaella argumentaria que a consciência dessa mediação é libertadora. Em vez de buscarmos a “descrição definitiva” do mundo, podemos aceitar que toda descrição é apenas uma entre muitas possíveis. Isso não diminui seu valor; ao contrário, abre espaço para que várias perspectivas convivam, compondo um mosaico mais rico.

O risco surge quando confundimos descrição com realidade. A frase “o bairro é perigoso” pode se tornar mais poderosa que a experiência real de andar por suas ruas. Uma estatística sobre desemprego pode parecer mais “verdadeira” que a vida concreta das pessoas que ela representa. É nesse ponto que as descrições deixam de ser guias e passam a ser prisões.

Talvez a filosofia das descrições da realidade nos convide a algo simples e difícil ao mesmo tempo: falar sobre o mundo sabendo que estamos apenas esculpindo uma de suas faces — e ouvir o outro como quem olha para um ângulo novo da mesma montanha. Porque, no fim, a realidade inteira não cabe numa frase; mas cada frase pode iluminar um pedaço dela que, sem ela, permaneceria invisível.


domingo, 17 de agosto de 2025

O Condicionamento

...e a Realidade Não Escolhida

Acordar pela manhã, escovar os dentes, tomar café, sair para o trabalho. Esses gestos cotidianos — rotineiros, automáticos, sem reflexão — são pequenas amostras do que se pode chamar de condicionamento existencial. Mais do que hábitos, são engrenagens de um modo de ser que se impõe com tal força que nos faz perguntar: essa vida que vivo, fui eu quem escolhi?

A questão não é nova. Mas permanece urgente. Porque por trás do automatismo da vida, há o fantasma do falso eu, termo que D. W. Winnicott, psicanalista britânico, usou para descrever uma espécie de máscara que desenvolvemos para sobreviver à expectativa dos outros. Um eu adaptado, funcional, mas não autêntico. Através dele, tomamos decisões, formamos vínculos, escolhemos caminhos. E, no entanto, somos nós?

O falso eu que decide

Segundo Winnicott, o falso self surge quando a espontaneidade da criança é abafada por exigências externas — pais, escola, sociedade. Ele não é inteiramente negativo: protege, organiza, torna possível a convivência. Mas, quando predomina, suprime o verdadeiro self, aquele que seria a fonte de experiências autênticas. Vivemos, assim, sob um regime de escolhas que não são verdadeiras escolhas, mas repetições.

Pierre Bourdieu, sociólogo francês, aprofunda esse raciocínio ao falar do habitus: um conjunto de disposições incorporadas socialmente que orienta nossas práticas. Ele argumenta que muito do que fazemos não é resultado de deliberação consciente, mas de esquemas internalizados ao longo da vida. O corpo já sabe como se portar num jantar de negócios ou como se vestir para um funeral, mesmo que nunca nos perguntemos por quê.

Entre o automático e o despertar

A pergunta que se impõe é: como despertar? Como furar o véu do condicionamento?

O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Sabedoria da Vida, afirma que a liberdade não é fazer o que se quer, mas tornar-se consciente das forças que nos movem. Para ele, o primeiro passo é observar-se no ato, assistir à própria mente. Quando tomamos consciência de um impulso antes de ceder a ele, abrimos um espaço de escolha verdadeira. Esse espaço é onde o verdadeiro eu começa a respirar.

Essa ideia encontra eco em Viktor Frankl, psiquiatra austríaco sobrevivente de Auschwitz, que afirmou: “Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher nossa resposta. E, na nossa resposta, reside o nosso crescimento e liberdade.”

Mas como acessar esse espaço se tudo em nós foi treinado para responder sem pensar?

A sociedade como máquina de condicionamento

A resposta passa pela crítica da sociedade contemporânea. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, argumenta que vivemos sob uma forma sutil de opressão: não mais a repressão externa, mas o excesso de positividade, desempenho e escolha. Somos livres para escolher, mas a estrutura nos leva a escolher sempre dentro de um repertório estreito, que nos esgota.

As redes sociais, o consumo, o culto à produtividade — tudo isso contribui para manter-nos ocupados demais para despertar. A ilusão da escolha constante é um modo eficaz de evitar a verdadeira liberdade: aquela que exige silêncio, vazio, pausa e autoconfronto.

A realidade não escolhida e a escolha por vir

Você diz que talvez não tenha escolhido conscientemente essa realidade. E talvez tenha razão. A maioria de nós chega à vida adulta com uma bagagem de decisões tomadas no escuro: profissão, relacionamentos, ideologias, valores herdados. Somos produto de histórias não contadas e escolhas herdadas. Mas isso não nos condena à repetição.

Como escreveu Søren Kierkegaard, “a angústia é a vertigem da liberdade”. Quando percebemos que poderíamos ter escolhido diferente — e que ainda podemos — algo se move. Angustiante, sim. Mas também libertador. Porque não importa onde estamos, há sempre um pequeno espaço de decisão. Um gesto novo. Um olhar mais lúcido. Um ato contra a corrente.

O começo do gesto

Não somos inteiramente livres, mas também não somos inteiramente prisioneiros. A ideia de que estamos condicionados por um falso eu, por estruturas sociais invisíveis e por automatismos psíquicos é, em parte, verdadeira. Mas a consciência dessa prisão é o começo da fuga.

Talvez a realidade que vivemos não tenha sido escolhida. Mas a realidade que virá — essa pode ser. Desde que não busquemos escolhas grandiosas de uma vez só, mas pequenos desvios. Um pensamento não repetido. Um hábito desfeito. Um "não" dito com coragem. A cada gesto assim, a realidade muda. E o eu desperta.


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Sociedade do Espetáculo

A Vida como Imagem

Vivemos numa época em que a imagem se tornou mais importante que a realidade. Ao andar pelas redes sociais, ver propagandas ou até observar conversas em cafés, percebemos que não basta mais viver: é preciso aparecer. Esse fenômeno, que parece tão atual, já foi diagnosticado por Guy Debord em 1967, em sua obra A Sociedade do Espetáculo, onde ele afirma que "tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação". Então, vamos dar uma visada nesta obra tão atual deste visionário.

Para Debord, o espetáculo não é apenas o conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A vida passa a ser organizada em função daquilo que pode ser mostrado. A experiência direta, subjetiva, rica em nuances, cede espaço ao que é visível, vendável, compartilhável. Com isso, perdemos a densidade da vida real e mergulhamos numa espécie de vitrine infinita, onde todos são espectadores e atores de si mesmos.

Essa lógica invade todos os aspectos da vida: o trabalho vira portfólio, o lazer vira conteúdo, as amizades viram interações públicas. Até a dor e o luto, que antes pediam silêncio e interioridade, agora podem ser postados, curtidos, comentados. Isso não quer dizer que toda exposição é falsa, mas que a forma como a vida se organiza cada vez mais responde à lógica do espetáculo, do olhar do outro, do valor de troca da imagem.

Debord antecipou um mundo em que o capital já não depende apenas da produção de mercadorias, mas também da produção de experiências formatadas para o consumo simbólico. A alienação, nesse novo modelo, não é apenas em relação ao produto, mas também à própria vida: a pessoa se vê vivendo para o espetáculo, se distancia daquilo que sente e daquilo que é, trocando autenticidade por visibilidade.

Essa crítica permanece urgente. Não se trata de nostalgia por um tempo "antes das telas", mas de um convite à consciência: estamos vivendo ou apenas representando? Estamos construindo relações reais ou apenas trocando aparências?

A filosofia de Debord é um alerta contra a passividade diante das imagens e uma convocação à retomada da experiência vivida — aquela que não precisa de plateia para fazer sentido.

Vale a pena ler o livro, fica aí a sugestão de leitura.


domingo, 3 de agosto de 2025

Acomismo

O mundo que se desfez de seu centro

Na correria do dia a dia, às vezes parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e em nenhum lugar. A mesa do café virou escritório, o celular virou praça pública, e o que antes era sagrado, como o silêncio, virou luxo raro. A vida moderna parece viver um esvaziamento sutil, como se algo central tivesse sido removido. É aí que entra o conceito de acomismo — um estado em que o mundo já não é mais compreendido como cosmos, ou seja, como um todo ordenado, com centro, direção ou sentido.

O termo "acomismo" pode ser entendido como a ausência de cosmos, ou a perda da ideia de um mundo organizado por princípios compartilhados. O cosmos, para os gregos, era beleza, ordem e harmonia. Era o mundo visto como uma jóia que reluz com sentido. Acomismo, por contraste, é o mundo sem narrativa comum, fragmentado, onde cada um vive em sua bolha algorítmica, onde até os afetos são customizados.

O filósofo francês Michel Foucault nos ajuda a pensar essa condição quando afirma que o homem moderno é um ser "descentrado". Em suas palavras, no prefácio de As Palavras e as Coisas, ele diz que talvez o homem moderno esteja próximo de seu fim — “como uma figura desenhada na areia à beira-mar”. Para Foucault, as estruturas que sustentavam o saber e o sujeito foram implodidas. O acomismo seria, então, a vida no pós-terremoto, quando o chão já não dá mais garantias.

Na prática, vivemos o acomismo quando percebemos que não há mais autoridade comum que organize a convivência — a verdade virou questão de gosto, a política virou torcida, a ética virou marca pessoal. Em vez de compartilharmos um mundo, nos conectamos por afinidades imediatas, mas nos desencontramos no essencial. Acomismo é essa sensação de viver numa realidade que perdeu o contorno do real.

Mas há uma possibilidade nesse esvaziamento: ao percebermos o acomismo, podemos desejar reconstituir algum tipo de centro — não o antigo, hierárquico e imposto, mas um centro construído a partir do encontro, da escuta e da responsabilidade comum. Pode ser um reencantamento silencioso, uma busca modesta, talvez, por uma nova forma de cosmos — menos cósmica, mais cotidiana.

No fundo, talvez o acomismo não seja apenas a ruína, mas o intervalo em que decidimos se vamos continuar como poeira flutuando… ou se vamos, juntos, desenhar novamente a figura do mundo.


sexta-feira, 11 de julho de 2025

Dilemas Modernos

O impasse de estar vivo hoje

Vivemos tempos que nos oferecem mais possibilidades do que nunca — e, paradoxalmente, mais angústias. Os dilemas modernos não são apenas problemas a serem resolvidos, mas conflitos entre valores igualmente válidos que se chocam no dia a dia. É como escolher entre duas verdades, sabendo que qualquer escolha trará perda.

Um exemplo simples: vida profissional ou qualidade de vida? Queremos crescer, ser reconhecidos, conquistar uma estabilidade. Mas isso quase sempre exige horas a mais no trabalho, menos tempo com os filhos, menos horas de sono, menos vida. Trabalhar menos parece irresponsável. Trabalhar demais parece insano. E o dilema se mantém.

Ou ainda: liberdade de expressão ou respeito ao outro? As redes sociais viraram uma arena em que dizer o que se pensa é confundido com dizer o que se quer, de qualquer forma. Mas até onde vai a liberdade? E quando ela começa a ferir? Defender o direito de falar não significa esquecer a responsabilidade do que se diz. Um dilema que escapa das regras formais e entra no campo ético.

Há também o dilema entre conexão e solidão. Temos mil formas de nos comunicar, mas muitos não sabem mais ficar a sós. Estamos conectados o tempo todo, mas nos sentimos sozinhos. Queremos estar juntos, mas a presença física virou quase um luxo. É difícil dizer o que é melhor: estar com todos ao mesmo tempo ou estar plenamente com um só?

Outro dilema silencioso: autenticidade ou aceitação social? Ser quem se é pode significar ser deixado de lado, não se encaixar, ser estranho. Fingir, adaptar, performar — tudo isso traz recompensas sociais. Mas a que custo? A originalidade virou marketing, a vulnerabilidade, conteúdo. Há quem nunca saiba se está vivendo ou sendo visto vivendo.

O filósofo Zygmunt Bauman dizia que os dilemas modernos são líquidos: mudam de forma, escorrem por entre os dedos, não se fixam. Por isso, não são resolvidos, mas administrados. Cabe a cada um de nós descobrir quais perdas estamos dispostos a aceitar para sustentar o que consideramos importante.

Porque, no fundo, todo dilema é uma escolha que exige coragem. Coragem de viver com a dúvida, com o risco e com a consciência de que não há resposta perfeita — só caminhos possíveis.

E quando perguntam “tá tudo bem?” e a gente engole o mundo

Tem dias em que a pergunta “tá tudo bem?” soa quase como um deboche do universo. Porque não tá. Porque nada parece fazer sentido. Porque você acorda, respira fundo, vai, mas tudo pesa. E ainda assim, você responde: “tudo bem”.

Por educação, por cansaço, por não querer explicar. Ou porque a verdade, nua e crua, não cabe num bom dia apressado. Dizer “tá tudo bem” virou um código social: ninguém espera uma confissão. Mas, por dentro, há uma avalanche. Às vezes, a gente só quer que alguém segure o nosso olhar por um segundo a mais, pra perceber o que não foi dito.

É aí que, de forma estranha, Nietzsche começa a fazer sentido. Ele que parecia tão extremo, tão sombrio, tão desconfortável. Mas que escreveu: “aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”. Em dias de silêncio interno, de sentido escorregando pelos dedos, a gente entende a importância de um “porquê”. E o que machuca é justamente a falta dele.

Responder com sinceridade é coragem. Mas também é risco. Porque nem todo mundo sabe escutar uma verdade crua no meio da rotina. Às vezes a gente tenta e recebe um “ih, fase ruim, né?”, como se fosse algo leve. A verdade, para ser dita, precisa encontrar quem esteja disposto a carregá-la com a gente, mesmo que por um momento.

Mas guardar tudo também cobra seu preço. Fica no corpo. Vira dor nas costas, falta de ar, insônia. A alma vai se entortando na tentativa de parecer reta.

Talvez o meio do caminho seja aprender a dizer: “não tá tudo bem, mas tô tentando”. É simples, honesto, e ainda assim respeita o próprio tempo de elaboração. Porque nem sempre temos as palavras certas, mas às vezes só precisamos da permissão para não estar bem.

E se Nietzsche faz sentido quando tudo parece sem sentido, é porque ele também passou por esses abismos. E de lá tirou uma coisa importante: o fundo do poço às vezes revela estrelas que a superfície esconde.

domingo, 6 de julho de 2025

Heráclito e a Dialética


Heráclito de Éfeso, pensador do século VI a.C., é frequentemente lembrado pela máxima “tudo flui” (pánta rheî), indicando que tudo está em constante transformação. A partir desse princípio, podemos entender que Heráclito ofereceu uma das sementes mais antigas daquilo que viria a ser, séculos depois, desenvolvido como dialética.

O conflito como motor da realidade

Heráclito dizia que a guerra (pólemos) é o pai de todas as coisas. Ele enxergava o mundo como um campo de tensões entre opostos — quente e frio, seco e úmido, dia e noite. Mas, diferente da mera oposição binária, esses contrários coexistem e se transformam um no outro. O que é quente esfria, o que é seco umedece. Há uma unidade no conflito, uma harmonia oculta nas tensões — o que ele chamou de harmonia dissonante (harmonia aphanes).

Essa visão antecipa a estrutura fundamental da dialética: o confronto entre opostos que não se anulam, mas se implicam. A tensão entre tese e antítese, por exemplo, é justamente o que move a síntese — uma ideia que será plenamente sistematizada apenas com Hegel, dois milênios depois.

Heráclito e o vir-a-ser

Enquanto Parmênides defendia que o ser é uno e imutável, Heráclito sustentava que a essência do real é o devir. Você não entra duas vezes no mesmo rio, pois tanto o rio quanto você estão mudando. Essa visão coloca o movimento e a transformação no centro da realidade — e, por extensão, também do pensamento.

A dialética heraclitiana, mesmo sem esse nome, é uma lógica do vir-a-ser. Não há repouso, não há identidade fixa. Tudo é processo, e a verdade não é um ponto imóvel, mas um caminho em constante atualização.

A influência posterior

Platão, embora mais alinhado com Parmênides em sua teoria das ideias, herdou de Heráclito a sensibilidade para o mundo sensível como domínio da mutação e da aparência — algo a ser superado para alcançar o mundo inteligível. Já os estóicos, séculos depois, vão reinterpretar Heráclito como o filósofo do Logos cósmico, a razão que organiza a mudança.

Mas é com Hegel que a relação entre Heráclito e a dialética se torna explícita. Hegel declarou:

“Não há nenhuma proposição de Heráclito que eu não tenha adotado em minha lógica.”

Heráclito, portanto, é um antecessor da dialética não só por dizer que tudo muda, mas por afirmar que essa mudança é estruturada, racional e paradoxal. Ele viu na contradição não um erro, mas uma verdade profunda do real.

domingo, 29 de junho de 2025

Novas Subjetividades

Acorda, toma café, põe o óculos de realidade virtual, entra numa sala com outras pessoas que também estão em casa, sozinhas — mas todas juntas, com corpos escolhidos, vozes filtradas, rostos recriados. É uma reunião de trabalho? Uma conversa entre amigos? Um jogo? Ou tudo isso ao mesmo tempo?

Vivemos um tempo curioso: o corpo está aqui, mas o "eu" parece expandido — ou, talvez, fragmentado. A realidade virtual (RV) não é apenas uma tecnologia: é um novo campo de experiência do eu, um laboratório de subjetividades.

Dia destes estava ouvindo nossa filósofa Marilena Chauí falando sobre o tema, realmente temos de pensar a respeito, ela alerta para este mundo novo que já faz parte de nossas vidas.

Mas afinal o que é subjetividade?

Subjetividade é o conjunto de experiências internas e singulares que compõem o modo como alguém percebe o mundo, a si mesmo e os outros. É uma construção histórica, social e afetiva — não nasce pronta, mas se forma a partir de vivências, relações, discursos e tecnologias.

Como explica Michel Foucault, o sujeito não é um ponto fixo de origem, mas o efeito de práticas discursivas e sociais. Já para Maurice Merleau-Ponty, a subjetividade está encarnada: não somos pura mente ou consciência, mas um corpo-sujeito que percebe e age no mundo.

Portanto, falar de subjetividade é falar da maneira como nos tornamos alguém, como experienciamos o que somos — e como isso pode mudar.

Quando o sujeito se descentra

A subjetividade moderna, desde Descartes, se ancorava em um "eu penso, logo existo" — racional, centrado, individual. Com Freud, esse "eu" começou a tremer: há desejos inconscientes, pulsões, zonas obscuras. Com a pós-modernidade, o sujeito se liquefaz, como apontou Zygmunt Bauman, e agora, com a realidade virtual, ele talvez se disperse em identidades múltiplas, performáticas e temporárias.

O sujeito não é mais uno: ele é "loginável", programável, personalizável.

Num ambiente virtual, alguém pode viver como um guerreiro viking, um gato falante ou um avatar neutro, sem gênero definido. E, às vezes, se sente mais verdadeiro assim. O "real" deixa de ser o critério da autenticidade. Como já dizia Jean Baudrillard, o simulacro ultrapassa o original — o virtual se torna mais significativo do que o real.

Cotidianos que nos escapam pelas telas

Quantas vezes você entrou numa sala virtual para uma reunião e sentiu que o ambiente — os olhares, os gestos, o tempo — não seguia mais as mesmas regras da vida física? Ali, a subjetividade é outra: somos falas, expressões faciais artificiais, reações digitadas. E mesmo assim, sentimos. Rimos. Ficamos tensos. Temos vergonha. A subjetividade se adapta.

Exemplo: uma criança de nove anos, tímida na escola, descobre-se desinibida num jogo em RV. Ela cria um personagem falante, criativo e ousado. Seus pais a observam e se perguntam: "é ela mesma ou uma outra pessoa?"

O corpo como memória virtual

Mesmo quando a realidade é virtual, o corpo reage. O coração acelera. A mão sua. Os músculos se contraem. A filosofia do corpo, como nos lembra Maurice Merleau-Ponty, insiste: não temos um corpo — somos um corpo. E esse corpo, mesmo imerso em bits e avatares, continua sendo nosso ponto de contato com o mundo.

Mas agora é um corpo intermediado, reconfigurado — que sente, mas não se mostra por inteiro. A nova subjetividade é um jogo entre o que se quer mostrar e o que se deseja esconder.

A subjetividade como performance

A filósofa Judith Butler trouxe a ideia de que a identidade é performativa — ou seja, ela se constrói na repetição de atos. Na RV, isso é ainda mais literal. A cada login, a cada escolha de avatar, a cada gesto encenado num mundo virtual, o sujeito se constitui. Não por essência, mas por performance em rede.

Somos aquilo que repetimos: o modo como clicamos, falamos, gesticulamos — mesmo no ambiente simulado.

E afinal, quem somos?

O que muda com tudo isso? Talvez não sejamos mais sujeitos estáveis, como se acreditava. Somos experiências conectadas, em constante mutação, criando realidades internas e externas ao mesmo tempo. A realidade virtual não cria só um outro mundo — ela recria o eu.

O filósofo brasileiro José Gil, ao falar sobre o corpo e a imagem, nos lembra que a subjetividade não está presa ao corpo, mas se expande em zonas de visibilidade e presença. Com a RV, ganhamos novas zonas. Novos rostos. Novas máscaras. E, talvez, novos espelhos.

Em tempo: talvez estejamos todos nos tornando um pouco mais plurais, um pouco menos fixos. O mundo virtual não é um escape da realidade — é uma realidade a mais, onde a subjetividade se torna múltipla, instável, e, quem sabe, mais verdadeira em sua própria inconstância.


sábado, 21 de junho de 2025

Estrutura da Realidade

Há dias em que tudo parece sólido: o café na xícara, o som do ônibus na esquina, a mão que segura o celular. Há outros em que a realidade se desfaz um pouco — uma notícia inesperada, uma lembrança que não se encaixa mais, uma emoção sem nome. É como se o mundo tivesse camadas, mas nem todas estivessem sempre acessíveis. E então surge a pergunta: do que é feita, afinal, a realidade? Há uma estrutura que a sustenta, ou vivemos apenas dentro de um acordo coletivo, renovado a cada manhã?

Este ensaio filosófico quer pensar de forma inovadora sobre a estrutura da realidade, partindo do cotidiano, mas cruzando com visões de filósofos antigos e contemporâneos — de Platão a Quine, de Kant a Viveiros de Castro — para explorar se existe um esqueleto da realidade ou se ela muda de roupa conforme o olhar.

I. A realidade como construção e sustentação

Muitos pensadores já se perguntaram se a realidade é algo objetivo, como uma parede de concreto, ou subjetiva, como a impressão que temos dela. Platão foi um dos primeiros a propor uma estrutura invisível: o mundo das Ideias. Para ele, o que vemos são apenas sombras — a realidade verdadeira está em outro plano, eterno e imutável. A mesa sobre a qual escrevo seria, no fundo, uma cópia imperfeita da "Ideia de mesa". A estrutura da realidade, então, seria metafísica, mais sólida que a matéria.

Já Kant inverteu esse jogo. Para ele, o que vemos do mundo está condicionado pelas estruturas da mente humana. Espaço e tempo, por exemplo, não são coisas que existem "lá fora", mas formas com que organizamos as experiências. A realidade se estrutura por dentro, e não por fora.

No dia a dia, isso aparece quando duas pessoas lembram de um mesmo fato de formas diferentes — não porque estão mentindo, mas porque suas estruturas internas (memória, emoção, linguagem) moldam o real.

II. A realidade como tecido coletivo

Se para Platão a realidade está num plano superior e para Kant ela depende da mente, para autores contemporâneos como Nelson Goodman e Willard Quine a realidade é, na verdade, uma construção linguística e científica. Goodman chega a dizer que "fazer mundos" é o que fazemos o tempo todo: cada ciência, cada arte, cada linguagem cria um tipo diferente de realidade.

Isso tem consequências práticas. Pense na diferença entre como um agricultor indígena e um agrônomo europeu enxergam a mesma floresta. Não é apenas uma diferença de opinião: eles vivem em realidades estruturadas de forma distinta. É nesse ponto que Eduardo Viveiros de Castro traz uma proposta radical: não se trata de diferentes culturas interpretando uma mesma natureza, mas de diferentes naturezas produzidas por cosmologias próprias. A estrutura da realidade, nesse sentido, é plural.

Esse pensamento ressoa com o que os físicos contemporâneos começam a admitir: a realidade talvez não tenha uma estrutura única e definitiva, mas seja múltipla, interdependente, fluida. O próprio tempo, segundo a física quântica, pode ser apenas uma convenção útil, e não um "andaime" do universo.

III. A realidade como algo a ser vivido (e não apenas compreendido)

Há também uma abordagem ética ou existencial da realidade. Simone de Beauvoir, por exemplo, propõe que não basta pensar o real — é preciso habitá-lo, assumi-lo, transformá-lo. A estrutura da realidade não está apenas nos conceitos, mas na forma como vivemos nossas liberdades e limites.

Nesse espírito, o filósofo indiano J. Krishnamurti disse: “Você vê o que é verdadeiro não com o pensamento, mas com o olhar direto.” Para ele, a realidade se mostra quando o observador se desfaz de suas projeções. A estrutura da realidade estaria, paradoxalmente, em seu esvaziamento — quando deixamos de impor estruturas, e vemos o que é.

IV. E se a realidade for um palco desmontável?

Uma ideia inovadora seria pensar a realidade como um palco desmontável, onde os cenários são montados conforme a peça do momento. As leis físicas, os vínculos sociais, as emoções — tudo isso seriam cenários que funcionam enquanto funcionam. Quando algo falha — um colapso emocional, uma catástrofe natural, uma mudança cultural — o palco se desmonta e precisa ser remontado de outro jeito. Não há estrutura última: há uma constante remontagem da realidade, feita de andaimes móveis, por mãos visíveis e invisíveis.

Entre o que sustenta e o que desmancha

A estrutura da realidade talvez não seja um edifício com alicerces eternos, mas uma rede viva, em constante teia. Parte dela é biológica, parte social, parte simbólica, parte afetiva. Há momentos em que parece firme, e outros em que tudo balança. Como disse Merleau-Ponty, “o mundo não é o que penso, mas o que vivo”. E viver, nesse sentido, é um exercício contínuo de atravessar estruturas — algumas sólidas, outras mais como véus.

Talvez, então, o mais filosófico não seja descobrir a estrutura última da realidade, mas aprender a dançar entre suas formas, entendendo que o real se revela menos como um mapa, e mais como um ritmo.


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Espelho Lógico

“E se a máquina estivesse pensando em mim?” — sobre cafés, lógica e o nascimento da IA

Outro dia, sentei em um café, como quem só quer um intervalo entre dois e-mails urgentes. Na mesa ao lado, uma moça digitava freneticamente, provavelmente lutando com um chatbot do banco. O atendente se confundiu no pedido: café descafeinado com expresso extra. Vai entender. E foi nesse momento banal que a pergunta me cutucou:

Será que essa máquina está pensando em mim?

Não o robô do banco, claro. Mas o algoritmo do aplicativo, o sistema que ajusta a playlist, a IA que "adivinha" meu humor. E, mais do que isso: quando foi que demos à máquina esse tipo de poder? A resposta, por incrível que pareça, começa com filosofia.

A IA nasceu num berço de ideias, não de chips

Antes de qualquer computador acender uma luzinha, havia um punhado de filósofos quebrando a cabeça com perguntas estranhas. Aristóteles, por exemplo, já brincava com a ideia de raciocínio automático: “Se todos os homens são mortais e Sócrates é homem... então Sócrates é mortal.” Isso parece uma linha de código, não?

Lá no século XIX, George Boole criou um sistema de lógica binária (sim, o mesmo 0 e 1 dos computadores) para expressar pensamentos humanos. Ele achava que o raciocínio podia ser uma equação. Veja só: ele não estava programando, mas filosofando com números.

E quando Alan Turing, em 1950, propôs que se uma máquina conseguisse conversar com um humano sem que ele percebesse a diferença... talvez ela estivesse pensando — ele estava mais próximo de Platão do que da IBM.

O barista da realidade

A vida cotidiana agora se mistura com isso tudo. O atendente do café anota meu pedido numa tela que já sabe, por estatística, o que um cara de camiseta preta vai querer numa segunda-feira. O GPS prevê que vou passar pela padaria só porque é sexta. A IA parece me conhecer mais do que eu.

Mas... quem programou essas previsões? Quem decidiu que eu sou previsível?

A resposta, de novo, é filosófica: somos nós que criamos modelos do pensamento humano para tentar duplicá-lo. Em outras palavras: filosofamos sobre como pensamos, transformamos isso em lógica, e a lógica virou software.

Um espelho de silício

O mais curioso é que, ao tentarmos fazer a máquina pensar, fomos forçados a refletir sobre o que significa “pensar” de verdade.

Se ela finge sentir, ela sente?

Se ela erra, ela decide?

Se ela me emociona... ela me entende?

John Searle, um filósofo, disse que uma IA pode simular entender chinês, sem saber chinês. Ou seja, pode parecer inteligente sem ser. Mas será que isso também não vale para alguns humanos em reuniões de Zoom?

E o pensamento continua

Enquanto a IA aprende a escrever poemas, responder mensagens e corrigir sua pontuação — ela carrega no peito um coração filosófico disfarçado de código. Todo algoritmo nasceu de um pensamento sobre o pensamento. Toda previsão foi antes uma pergunta.

No fim, talvez a pergunta mais filosófica seja esta:

“Será que, ao ensinar a máquina a pensar, não estamos apenas tentando nos entender melhor?”

“A máquina me respondeu, mas... e se fosse eu?” — sobre ética, algoritmos e culpas invisíveis

Outro dia, um amigo me contou que foi recusado para uma vaga de emprego por um “sistema automático de triagem”. Ele nem chegou a conversar com um ser humano. A IA olhou o currículo, julgou com olhos invisíveis e disse: “não.”

Ele não ficou bravo com a empresa. Nem com o computador. Só ficou quieto. E eu pensei: quem é o culpado quando ninguém está presente?

O novo dilema de Pilatos: lavar as mãos com um clique

Vivemos rodeados por decisões automatizadas: o banco nega crédito, o aplicativo te bloqueia, o vídeo que você postou some. Ninguém te explicou, ninguém assinou. A IA apenas “decidiu”. E isso muda tudo.

No passado, quando um porteiro barrava alguém, ele tinha um rosto. Agora, quem nega é um número. E você nem sabe se ele entendeu por que você veio.

É aqui que a filosofia grita:

“Não basta pensar como uma máquina. É preciso pensar sobre a máquina.”

Kant, cookies e responsabilidade

Se Immanuel Kant estivesse hoje no seu notebook, talvez surgisse um alerta:

“Você aceita que os algoritmos decidam sua vida com base em padrões de consumo?”

Kant defendia que a moral está em agir de acordo com um princípio que você aceitaria como universal. Em outras palavras: se eu crio uma IA que escolhe sem empatia, eu aceitaria ser tratado por ela?

Muita gente responde: “Não.”

Mas... assina os termos de uso mesmo assim.

Quando a IA erra, quem corrige?

Imagine: uma IA médica erra o diagnóstico. Um carro autônomo atropela. Um sistema de segurança identifica um rosto errado. Quem se levanta da cadeira para pedir desculpas?

A filosofia chama isso de lacuna moral: uma zona onde a responsabilidade desaparece, porque ninguém foi o autor direto da ação.

Mas os efeitos são reais. A dor é real. E mais assustador: as decisões invisíveis moldam nossas vidas reais.

A ética virou código

Hoje, engenheiros escrevem linhas de código que contêm, na prática, valores morais disfarçados:
– “Quem deve ser priorizado?”

– “O que deve ser censurado?”

– “O que é aceitável mostrar para uma criança?”

– “Como identificar um risco?”

Essas não são perguntas técnicas. São decisões éticas.

Como diria o filósofo brasileiro Marcos Nobre, vivemos um tempo em que os sistemas automatizados são tão potentes que se tornam estruturas invisíveis de poder. E onde há poder... precisa haver filosofia.

E o café segue quente

Volto ao café, dessa vez com o celular na mão. O algoritmo me recomenda uma nova música, um vídeo curto, um texto motivacional.

Mas recuso tudo.

Peço um expresso forte, abro um caderno e escrevo, como se fosse um desabafo silencioso:

“A máquina me respondeu... mas será que eu perguntei certo?”

Talvez o futuro dependa disso: ensinar a IA a pensar bem — mas ensinar a nós mesmos a perguntar melhor.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Silogismos

Quando a Lógica Quer Brincar de Filosofia...então, nas filas do cotidiano há uma fartura de situações interessantes, eis mais uma.

Outro dia, na fila do mercado, ouvi um rapaz dizer com convicção: “Todo mundo que come chocolate fica feliz. Eu comi chocolate. Logo, estou feliz.” E deu algumas risadas! Na hora, achei engraçado. Mas depois, pensando melhor, percebi que ali havia um silogismo meio torto, uma tentativa involuntária de organizar o mundo com lógica. E não é exatamente isso que fazemos o tempo todo? Tentamos entender a vida encaixando coisas em pequenas fórmulas, como se fossem peças de LEGO. Só que nem sempre o castelo que montamos se sustenta.

O silogismo, do modo clássico, é uma forma de raciocínio dedutivo. Aristóteles o formalizou: uma premissa maior, uma premissa menor e uma conclusão. Por exemplo:

  • Todo homem é mortal.
  • Sócrates é homem.
  • Logo, Sócrates é mortal.

Simples, elegante, racional. Mas a questão é: a vida cabe nesse tipo de raciocínio? Ou melhor, quantos erros profundos de julgamento nascem justamente de silogismos bem montados, porém com premissas equivocadas?

Todo sucesso é fruto de esforço. João se esforçou. Logo, João terá sucesso.
Essa conclusão, apesar de parecer justa, muitas vezes falha. E é aí que começa a nossa provocação.

Quando a razão tropeça no próprio salto

O filósofo Theodor Adorno dizia que a razão instrumental — aquela que organiza, mede e calcula — pode se transformar em uma armadilha. O silogismo, ferramenta pura da razão, às vezes ignora a textura da realidade. Ele presume uma verdade universal na primeira premissa, e esse é o ponto cego.

Todo político mente. Fulano é político. Logo, Fulano mente.

Essa forma de pensar fecha a porta para a singularidade, para a exceção, para o imprevisto. Vira um jogo lógico com ares de sentença moral.

O perigo da lógica em série

Vivemos tempos em que os silogismos correm soltos nas redes sociais. Há sempre alguém dizendo:
Se você discorda de mim, é porque está mal informado. Você discorda de mim. Logo, está mal informado.

É um tipo de lógica travestida de arrogância. Ela não convida à conversa; ela elimina o outro com uma estrutura que parece racional, mas é emocionalmente autoritária. O silogismo virou meme, virou julgamento sumário, virou algoritmo mental.

A beleza de quebrar o formato

Mas e se usássemos o silogismo para algo mais criativo? Algo mais filosófico? O pensador francês Gaston Bachelard dizia que o conhecimento não avança por continuidade, mas por rupturas. Então, por que não imaginar silogismos paradoxais?

  • Toda certeza cansa.
  • Os sábios são cheios de dúvidas.
  • Logo, os sábios descansam.

Ou este:

  • Quem ama, escuta o silêncio.
  • O silêncio não se explica.
  • Logo, o amor não se explica.

Esses silogismos não são “corretos” no sentido lógico, mas abrem caminhos de reflexão, como se a lógica tivesse aprendido a dançar. Eles nos fazem pensar para além da rigidez da forma, tocando um saber que não cabe em fórmulas: a sabedoria.

O silogismo é um convite à ordem, à clareza. Mas o mundo não é claro nem ordenado. Se por um lado ele nos ajuda a organizar ideias, por outro, pode nos cegar para aquilo que escapa às regras — o poético, o ambíguo, o contraditório.

No fim das contas, talvez o melhor silogismo seja este:

  • Toda lógica tem limites.
  • A vida está além dos limites.
  • Logo, a vida está além da lógica.

E se isso não for lógico, talvez seja exatamente por isso que vale a pena pensar sobre.