Às
vezes a gente fala “cada pessoa é única” como quem diz “bom dia”. A frase sai
fácil, quase automática. Mas basta passar cinco minutos observando um grupo
qualquer — numa fila de banco, numa mesa de bar, num grupo de família no WhatsApp
— para perceber que essa unicidade não é um detalhe simpático: é um problema
filosófico sério. Cada ser humano carrega um modo próprio de sentir o tempo, de
reagir ao silêncio, de lembrar do passado e de suportar o presente. Somos
feitos de peculiaridades, e é isso que torna a convivência tão fascinante
quanto exaustiva.
A
filosofia sempre desconfiou das explicações fáceis sobre o humano. Quando
tentamos definir o “homem” em termos gerais, algo sempre escapa. Kierkegaard
já alertava que o indivíduo concreto não cabe nos sistemas; Nietzsche
desconfiava das verdades universais que ignoram as singularidades da
vida; e a fenomenologia insistiu que cada consciência habita o mundo a partir
de um ponto de vista irrepetível.
As
peculiaridades não são apenas traços psicológicos ou gostos pessoais. Elas são
a maneira como cada um organiza o caos da existência. Dois indivíduos podem
viver o mesmo acontecimento — uma perda, um sucesso, uma humilhação — e sair
dele como se tivessem atravessado mundos distintos. Isso acontece porque a
experiência nunca é neutra: ela passa por filtros invisíveis feitos de
memórias, afetos, medos e expectativas.
A
modernidade, no entanto, tenta o oposto. Classifica, mede, padroniza. Cria
perfis, diagnósticos, rótulos. Tudo isso ajuda a organizar a vida social, mas
cobra um preço: a ilusão de que compreender alguém é encaixá-lo numa categoria.
O problema é que a peculiaridade verdadeira começa exatamente onde as
categorias falham.
Pense
numa situação simples: duas pessoas recebem uma crítica no trabalho. Uma vai
para casa remoendo a frase por dias, como se ela definisse toda a sua
identidade. A outra escuta, ajusta o que precisa e dorme em paz. A crítica foi
a mesma; o impacto, não. A peculiaridade de cada um não está no fato, mas no
modo como o fato encontra a sua história interior.
Ou
ainda: há quem precise de silêncio para pensar, e quem só consiga se entender
falando. Quem organize a vida em listas obsessivas e quem viva bem no
improviso. Quem sinta culpa por descansar e quem se sinta culpado por trabalhar
demais. Nenhuma dessas posturas é “a correta” em termos absolutos; cada uma
responde a um equilíbrio interno diferente.
Até
no amor isso aparece de forma quase cruel. Algumas pessoas precisam de presença
constante para se sentirem seguras; outras precisam de espaço para não se
sentirem sufocadas. O conflito não nasce da falta de afeto, mas do choque entre
peculiaridades incompatíveis.
Reconhecer
as peculiaridades humanas não é um exercício de tolerância genérica, mas de
humildade ontológica. Significa aceitar que nunca entenderemos totalmente o
outro — e que, muitas vezes, também não entendemos a nós mesmos. Talvez a
maturidade não esteja em eliminar as diferenças, mas em aprender a conviver com
esse excesso de singularidade que cada pessoa traz consigo.
No
fim das contas, o humano é complexo não porque seja confuso, mas porque é
plural. E toda vez que tentamos simplificar demais alguém, perdemos justamente
aquilo que o torna humano.