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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Zaratustra

Zaratustra desce da montanha

Dizem que toda boa filosofia começa com uma caminhada. No caso de Zaratustra, personagem criado por Friedrich Nietzsche, tudo começa com uma descida. Ele viveu dez anos no alto da montanha, em silêncio, refletindo, até que um dia resolveu descer. Por quê? Porque tinha algo a dizer. Mas o que ele diz não é fácil de ouvir — e por isso quase ninguém entende.

Zaratustra de Nietzsche não vem ensinar o caminho para o céu, mas para a terra. Ele não fala de pecado, redenção ou moral absoluta. Ele vem anunciar que Deus está morto — uma metáfora poderosa, que aponta para o fim das certezas religiosas que por séculos sustentaram a cultura ocidental. A morte de Deus significa que os velhos valores não nos servem mais. E agora?

Agora, diz Zaratustra, é preciso criar novos valores. É preciso tornar-se além-do-homem (Übermensch), alguém que não vive segundo mandamentos prontos, mas que se arrisca a ser autor da própria existência.

 

Na prática, o que isso significa?

Significa, por exemplo, sair de casa todo dia e enfrentar o mundo sem o consolo fácil de que “tudo vai dar certo porque Deus quis assim”. Significa encarar o absurdo do trânsito, da fila do banco, do chefe autoritário, sem esperar recompensa no céu, mas tentando fazer algo significativo agora, neste mundo.

Zaratustra diria a alguém que odeia seu trabalho: “Então crie outro. Ou pelo menos encontre uma forma de dizer sim à sua vida, mesmo quando ela parece sem sentido.” Dificilmente ele recomendaria paciência passiva. Ele incentivaria a coragem de criar sentido, mesmo no caos.

 

O eterno retorno das pequenas coisas

Outro conceito forte que aparece na obra é o eterno retorno. Imagine viver a sua vida exatamente como ela é — com todos os erros, medos e repetições — eternamente. Você suportaria isso? Mais ainda: você amaria isso?

Nietzsche usa essa ideia para testar o quanto afirmamos a vida. Não basta suportá-la — o desafio é abraçá-la. É como lavar louça, cuidar de filho, receber críticas ou enfrentar o fim de um relacionamento e, ainda assim, dizer: “Sim, eu escolho isso de novo.” É pesado — mas também é libertador.

 

Zaratustra como poema filosófico

Assim Falou Zaratustra não é um tratado, nem um ensaio tradicional. Nietzsche escolhe uma forma híbrida: mistura de fábula, evangelho, poesia e tragédia grega. O resultado é um texto simbólico, cheio de repetições rítmicas, imagens potentes e uma linguagem que às vezes soa profética, às vezes enigmática.

O próprio Nietzsche dizia que não havia “filosofia sem estilo” — e em Zaratustra ele colocou tudo o que sabia sobre ritmo, metáfora e provocação. O livro é cheio de capítulos curtos com títulos sugestivos como “Das três metamorfoses”, “Do novo ídolo”, “Do arrependimento” ou “Da visão e do enigma”. Cada um é quase um sermão — mas um sermão que desobedece todos os moldes religiosos.

 

A linguagem como desafio

O estilo elevado, poético, muitas vezes simbólico, tem um efeito curioso: ao invés de facilitar a compreensão, ele obriga o leitor a se envolver mais. É como se Nietzsche quisesse testar nossa disposição para o pensamento. Ele não explica — ele provoca. Ele não ensina — ele inquieta.

E por isso o livro é, muitas vezes, mal interpretado. Quem lê esperando regras claras ou frases prontas de autoajuda pode se frustrar. Zaratustra não quer que você acredite nele, quer que você se transforme ao lê-lo.

 

Entre o sagrado e o subversivo

O tom de escritura sagrada que permeia o texto — com repetições, ritmo oracular, e até certa solenidade — não é acidental. Nietzsche ironiza a forma dos evangelhos, mas não para ridicularizá-los. Ele usa esse tom para dar peso às suas ideias, como se dissesse: “Aqui está um novo evangelho — não de salvação, mas de superação”.

Zaratustra é, assim, um falso profeta — ou melhor, um anti-profeta, que fala como os antigos mestres espirituais, mas ao invés de oferecer redenção, oferece um espelho. Quem lê Zaratustra vê a si mesmo — e nem sempre gosta do que vê.

 

Leitura que se repete — e que muda com o tempo

Há algo curioso em Assim Falou Zaratustra: ele muda a cada leitura. Há dias em que parece um delírio, outros em que parece uma revelação. Às vezes incompreensível, às vezes luminoso. Isso porque a linguagem, como a própria vida, está cheia de camadas.

Zaratustra exige um leitor disposto a retornar, a reler, a tropeçar nas palavras como quem tropeça em verdades que ainda não pode compreender. Nietzsche escreve para o futuro — e para leitores que ainda não nasceram, como ele mesmo dizia.

 

Zaratustra como estilo de vida

Zaratustra desceu da montanha porque sabia que viver é risco. Que viver com autenticidade é mais difícil do que seguir regras. E que, no fundo, cada um de nós é responsável por construir o valor das próprias ações.

O estilo literário de Assim Falou Zaratustra não é apenas uma estética: ele é um convite a viver de outro modo. A ler com coragem, a pensar sem muletas, a enfrentar a ambiguidade das palavras como quem enfrenta o abismo de si mesmo.

Nietzsche, por meio de Zaratustra, escreve como quem sopra brasas num mundo que já achava estar apagado. E talvez o papel do leitor seja este: não apagar esse fogo com explicações apressadas, mas deixá-lo arder — e, quem sabe, iluminar.