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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Incorruptível e Eterno

Há palavras que possuem força ao serem ditas, pronunciadas, carregadas de energia. Há coisas que envelhecem com o tempo. Outras apodrecem. Outras se transformam. Mas existem algumas — raras, silenciosas — que não se deixam corroer. Elas não brilham, não se anunciam, não disputam espaço. Apenas permanecem. Incorruptíveis. Eternas. Não no sentido do que dura para sempre no calendário, mas no sentido do que não perde o sentido.

O incorruptível no cotidiano

Você já percebeu como certos gestos não envelhecem?

Um pedido sincero de perdão.

Uma verdade dita sem cálculo.

Um amor que não exige retorno.

Um olhar que respeita.

Essas coisas atravessam o tempo sem se deformar. Podem ser esquecidas na memória, mas não se corrompem no valor. Elas continuam sendo o que sempre foram.

O incorruptível não é o que resiste à matéria, mas o que resiste à conveniência.

A eternidade que não depende do tempo

A eternidade não é uma linha infinita no futuro. É uma qualidade de presença. Algo é eterno quando não depende do instante para existir. Quando poderia ter acontecido ontem, hoje ou há mil anos — e ainda assim faria sentido.

Platão chamou isso de mundo das ideias. Santo Agostinho chamou de tempo interior. Bergson chamou de duração. Todos tentaram dizer a mesma coisa: há algo em nós que não passa, mesmo quando tudo passa.

O que se corrompe não é o ser, é o uso

Nada se perde por ser verdadeiro. Perde-se quando é usado como instrumento. A fé se corrompe quando vira poder. A justiça, quando vira discurso. O amor, quando vira posse. A verdade, quando vira estratégia.

O incorruptível é aquilo que se recusa a servir à mentira.

A eternidade do que é simples

Curiosamente, o que mais se aproxima do eterno é o simples. A criança que confia. O velho que perdoa. O silêncio que acolhe. O gesto que não pede registro.

Nietzsche dizia que o eterno retorno não é a repetição do mesmo, mas a capacidade de afirmar a vida mesmo quando ela se repete. O eterno, então, não é o que nunca muda — é o que nunca deixa de valer.

Incorruptível e eterno — dentro de nós

Talvez não exista nada absolutamente incorruptível fora do humano. Mas existe algo incorruptível no humano: a capacidade de reconhecer o que não pode ser comprado, manipulado ou destruído sem que algo essencial morra junto.

Quando você escolhe não trair a própria consciência, mesmo perdendo, algo eterno acontece em você.

E isso não precisa durar para sempre.

Basta não se corromper enquanto existe.

Porque, no fundo, o eterno não é aquilo que nunca termina.

É aquilo que, enquanto existe, não se vende.


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Zaratustra

Zaratustra desce da montanha

Dizem que toda boa filosofia começa com uma caminhada. No caso de Zaratustra, personagem criado por Friedrich Nietzsche, tudo começa com uma descida. Ele viveu dez anos no alto da montanha, em silêncio, refletindo, até que um dia resolveu descer. Por quê? Porque tinha algo a dizer. Mas o que ele diz não é fácil de ouvir — e por isso quase ninguém entende.

Zaratustra de Nietzsche não vem ensinar o caminho para o céu, mas para a terra. Ele não fala de pecado, redenção ou moral absoluta. Ele vem anunciar que Deus está morto — uma metáfora poderosa, que aponta para o fim das certezas religiosas que por séculos sustentaram a cultura ocidental. A morte de Deus significa que os velhos valores não nos servem mais. E agora?

Agora, diz Zaratustra, é preciso criar novos valores. É preciso tornar-se além-do-homem (Übermensch), alguém que não vive segundo mandamentos prontos, mas que se arrisca a ser autor da própria existência.

 

Na prática, o que isso significa?

Significa, por exemplo, sair de casa todo dia e enfrentar o mundo sem o consolo fácil de que “tudo vai dar certo porque Deus quis assim”. Significa encarar o absurdo do trânsito, da fila do banco, do chefe autoritário, sem esperar recompensa no céu, mas tentando fazer algo significativo agora, neste mundo.

Zaratustra diria a alguém que odeia seu trabalho: “Então crie outro. Ou pelo menos encontre uma forma de dizer sim à sua vida, mesmo quando ela parece sem sentido.” Dificilmente ele recomendaria paciência passiva. Ele incentivaria a coragem de criar sentido, mesmo no caos.

 

O eterno retorno das pequenas coisas

Outro conceito forte que aparece na obra é o eterno retorno. Imagine viver a sua vida exatamente como ela é — com todos os erros, medos e repetições — eternamente. Você suportaria isso? Mais ainda: você amaria isso?

Nietzsche usa essa ideia para testar o quanto afirmamos a vida. Não basta suportá-la — o desafio é abraçá-la. É como lavar louça, cuidar de filho, receber críticas ou enfrentar o fim de um relacionamento e, ainda assim, dizer: “Sim, eu escolho isso de novo.” É pesado — mas também é libertador.

 

Zaratustra como poema filosófico

Assim Falou Zaratustra não é um tratado, nem um ensaio tradicional. Nietzsche escolhe uma forma híbrida: mistura de fábula, evangelho, poesia e tragédia grega. O resultado é um texto simbólico, cheio de repetições rítmicas, imagens potentes e uma linguagem que às vezes soa profética, às vezes enigmática.

O próprio Nietzsche dizia que não havia “filosofia sem estilo” — e em Zaratustra ele colocou tudo o que sabia sobre ritmo, metáfora e provocação. O livro é cheio de capítulos curtos com títulos sugestivos como “Das três metamorfoses”, “Do novo ídolo”, “Do arrependimento” ou “Da visão e do enigma”. Cada um é quase um sermão — mas um sermão que desobedece todos os moldes religiosos.

 

A linguagem como desafio

O estilo elevado, poético, muitas vezes simbólico, tem um efeito curioso: ao invés de facilitar a compreensão, ele obriga o leitor a se envolver mais. É como se Nietzsche quisesse testar nossa disposição para o pensamento. Ele não explica — ele provoca. Ele não ensina — ele inquieta.

E por isso o livro é, muitas vezes, mal interpretado. Quem lê esperando regras claras ou frases prontas de autoajuda pode se frustrar. Zaratustra não quer que você acredite nele, quer que você se transforme ao lê-lo.

 

Entre o sagrado e o subversivo

O tom de escritura sagrada que permeia o texto — com repetições, ritmo oracular, e até certa solenidade — não é acidental. Nietzsche ironiza a forma dos evangelhos, mas não para ridicularizá-los. Ele usa esse tom para dar peso às suas ideias, como se dissesse: “Aqui está um novo evangelho — não de salvação, mas de superação”.

Zaratustra é, assim, um falso profeta — ou melhor, um anti-profeta, que fala como os antigos mestres espirituais, mas ao invés de oferecer redenção, oferece um espelho. Quem lê Zaratustra vê a si mesmo — e nem sempre gosta do que vê.

 

Leitura que se repete — e que muda com o tempo

Há algo curioso em Assim Falou Zaratustra: ele muda a cada leitura. Há dias em que parece um delírio, outros em que parece uma revelação. Às vezes incompreensível, às vezes luminoso. Isso porque a linguagem, como a própria vida, está cheia de camadas.

Zaratustra exige um leitor disposto a retornar, a reler, a tropeçar nas palavras como quem tropeça em verdades que ainda não pode compreender. Nietzsche escreve para o futuro — e para leitores que ainda não nasceram, como ele mesmo dizia.

 

Zaratustra como estilo de vida

Zaratustra desceu da montanha porque sabia que viver é risco. Que viver com autenticidade é mais difícil do que seguir regras. E que, no fundo, cada um de nós é responsável por construir o valor das próprias ações.

O estilo literário de Assim Falou Zaratustra não é apenas uma estética: ele é um convite a viver de outro modo. A ler com coragem, a pensar sem muletas, a enfrentar a ambiguidade das palavras como quem enfrenta o abismo de si mesmo.

Nietzsche, por meio de Zaratustra, escreve como quem sopra brasas num mundo que já achava estar apagado. E talvez o papel do leitor seja este: não apagar esse fogo com explicações apressadas, mas deixá-lo arder — e, quem sabe, iluminar.

sábado, 12 de abril de 2025

Amanhã Como Ontem

Um ensaio sobre a fidelidade ao tempo antigo em tempos de ditadura do novo, sabem como é, coisas da nostalgia...

Tem gente que acorda todos os dias querendo o mesmo café, no mesmo copo, na mesma cadeira da cozinha, com o mesmo silêncio das sete e meia da manhã. E não é por preguiça, tampouco por falta de criatividade. É por devoção. Por fidelidade. Por acreditar que aquilo que foi bom não precisa ser enterrado só porque alguém inventou um aplicativo novo.

Vivemos na era da “ditadura do progresso” — um regime disfarçado de inovação, que impõe a constante necessidade de mudar, atualizar, melhorar, superar. As palavras “antigo”, “velho” e “repetido” tornaram-se quase palavrões no vocabulário moderno. E, no entanto, há quem resista. Há quem sustente que o amanhã pode — e deve — ser como o ontem. Que a repetição não é atraso, mas ritual. Que manter algo como está não é preguiça de pensar, mas uma forma sofisticada de pensar com o coração.

Contra o culto do novo

A modernidade vende uma ideia perigosa: a de que tudo o que é novo é melhor. Como se o simples fato de algo ter vindo depois já o tornasse superior. Mas o que é esse novo que todos perseguem com tanto fervor? Muitas vezes, nada mais que uma variação cosmética do que já existe. Um amanhã ansioso, que não tem tempo de amadurecer porque já quer ser substituído por um próximo amanhã ainda mais “eficiente”.

Quem resiste a isso, quem deseja um amanhã com o cheiro do pão de ontem, é visto como anacrônico. Mas talvez seja apenas alguém que não se ilude. Alguém que, ao invés de correr atrás do tempo como quem persegue um trem desgovernado, escolhe caminhar lado a lado com ele, com passo firme e memória viva.

O valor do eterno retorno

Nietzsche falava do “eterno retorno”, não como uma maldição, mas como um teste de força interior. Seria você capaz de viver a mesma vida, com as mesmas dores e as mesmas alegrias, repetidamente? Muitos recuam diante da ideia. Mas há um tipo de alma — talvez mais sábia, talvez mais amorosa — que responde: sim, eu viveria. Porque o que me aconteceu não foi pouco, não foi banal. Foi verdadeiro.

Para essas pessoas, repetir não é estar preso: é estar em aliança com o que importa. É confiar que certos gestos, mesmo que repetidos mil vezes, não perdem valor. O beijo na testa do filho. A oração da avó. O mesmo caminho até o trabalho com o sol nas costas. Esses momentos não envelhecem — eles se consolidam.

No bairro os domingos são quase imóveis. Cheiro de churrasco, rádio FM no fundo. Ali, ninguém corre. Ninguém quer mudar nada. E quando alguém novo chega, querendo agitar, alguém sempre diz: “Calma. Aqui o tempo é outro.” Não é atraso — é escolha. O amanhã ali já tem dono: é o mesmo de ontem, e ninguém quer despejá-lo.

A fidelidade ao que já foi

Há uma beleza teimosa em manter certas coisas como estão. Cuidar da casa da infância. Usar o mesmo perfume do primeiro encontro. Contar histórias antigas com as mesmas palavras. Trata-se de uma fidelidade rara: não à novidade, mas ao que já mostrou ser digno de permanecer. É quase um ato político — dizer não ao descarte fácil, ao modismo, à velocidade que esmaga o significado.

Como bem dizia o filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva, a verdadeira tradição não é repetir por repetir, mas manter viva uma centelha que merece atravessar os tempos. O amanhã como ontem não é nostalgia, é compromisso. Não é regressão, é continuidade.

Finalizando com um toque de silêncio

O progresso grita, mas há quem escute o sussurro do tempo com reverência. Que o amanhã seja como o ontem — não por medo de mudar, mas por amor ao que já foi verdadeiro. E talvez essa escolha, tão silenciosa quanto radical, seja a única forma de resistir a um mundo que confunde velocidade com sentido.

 


sábado, 11 de janeiro de 2025

Confinada Infinitude

Há um paradoxo fascinante na ideia de "confinada infinitude": algo vasto, ilimitado e eterno sendo contido dentro de fronteiras, sejam elas físicas, mentais ou emocionais. Esse tema nos conduz a reflexões profundas sobre a condição humana, pois vivemos como seres infinitos em potencial, mas confinados pelas limitações do corpo, do tempo e da cultura.

Pensemos no céu noturno, um vasto campo de estrelas que parece se estender para sempre. No entanto, ao olhá-lo através da janela, vemos apenas uma moldura limitada por paredes, prédios e horizontes. Essa é a metáfora perfeita para a existência humana: carregamos dentro de nós o desejo de transcendência, de tocar o eterno, mas estamos restritos ao espaço e ao momento em que nos encontramos.

O Paradoxo da Consciência

Jean-Paul Sartre dizia que a consciência é liberdade, mas também um fardo. Somos capazes de imaginar infinitas possibilidades, mas constantemente nos deparamos com os limites impostos pela nossa situação concreta. Quero viajar pelo mundo inteiro, mas estou preso ao emprego, às contas e às minhas próprias inseguranças. Quero escrever um livro que transcenda eras, mas sou escravo do tempo e da mortalidade.

Essa dualidade é refletida no mito de Sísifo, tão bem explorado por Albert Camus. Sísifo, condenado a empurrar uma pedra eternamente, é a imagem da infinitude confinada. O esforço repetitivo, porém, não nega a liberdade de Sísifo; pelo contrário, é na aceitação dessa condição que ele encontra significado.

No Cotidiano, a Infinitude Esconde-se no Ordinário

No dia a dia, nossa infinitude aparece em gestos pequenos. É no sorriso que damos a um estranho ou na profundidade de um pensamento aparentemente fugaz. É o instante em que a música nos transporta para outro lugar, mesmo que estejamos sentados em um ônibus lotado.

Mas, ao mesmo tempo, somos confinados por rotinas que parecem sufocar essa grandeza. Acordamos, trabalhamos, voltamos para casa. Repetimos. Há dias em que tudo parece uma gaiola, mas, talvez, as asas da infinitude não estejam na fuga, e sim na forma como percebemos o que já está ao nosso alcance.

Filosofia e Confinamento

Martin Heidegger explorou como o ser humano é "lançado" no mundo, forçado a viver dentro de um contexto que não escolheu. Estamos confinados por circunstâncias, mas somos capazes de encontrar significado no ser, no agora. Essa infinitude confinada é um convite para a autenticidade: não é o tamanho do espaço que importa, mas a profundidade com que o habitamos.

Link de Musicas Clássicas:

https://www.youtube.com/watch?v=nPffL3cNGrs

Outro exemplo pode ser encontrado no poeta Fernando Pessoa, que em seu heterônimo Alberto Caeiro disse:

"O que vejo cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Repara que nasceu deveras..."

Aqui, a infinitude está contida no ato de ver, de sentir, de reconhecer o momento presente como único e absoluto.

O Que Fazemos com a Confinada Infinitude?

Talvez a resposta não esteja em escapar do confinamento, mas em aceitá-lo como parte do que somos. O poeta Rainer Maria Rilke escreveu que é dentro dos limites que a vida encontra sua intensidade:

"Eis que viver é ser intenso."

Nossa infinitude se revela nos limites: no amor que sentimos por alguém que não pode durar para sempre, na arte que criamos para desafiar o tempo, nos sonhos que alimentamos mesmo sabendo que alguns nunca serão realizados.

Assim, a confinada infinitude não é um fardo, mas uma dança. O finito e o infinito, o temporal e o eterno, movem-se juntos, criando a beleza singular da existência humana. Abraçá-los é viver plenamente.