A
chamada Síndrome de Estocolmo — fenômeno no qual vítimas passam a desenvolver
vínculos afetivos ou de lealdade com seus opressores — costuma ser tratada como
curiosidade psicológica. No entanto, ao deslocarmos o conceito para o campo
político, ele revela uma chave interpretativa inquietante para compreender
certas dinâmicas da sociedade brasileira contemporânea. Em um contexto marcado
por recorrentes escândalos de corrupção, descrédito institucional e crises de
representação, emerge a pergunta: por que parcelas significativas da população
continuam a defender, justificar ou até idolatrar figuras e estruturas que
reiteradamente operam contra seus próprios interesses?
A
resposta exige uma abordagem que ultrapasse o senso comum moralizante. Thomas
Hobbes, ao descrever o medo como fundamento da ordem política, já indicava
que indivíduos podem aceitar — e até desejar — a submissão a um poder que os
oprime, desde que este prometa alguma forma de segurança. No Brasil atual, o
medo assume múltiplas formas: medo da violência urbana, do colapso econômico,
da instabilidade social. Esse medo não apenas legitima autoridades
questionáveis, como também cria uma dependência emocional em relação a elas. O
opressor torna-se, paradoxalmente, o protetor.
Michel
Foucault contribui para aprofundar essa análise ao demonstrar
que o poder não se exerce apenas de forma repressiva, mas também produtiva: ele
molda subjetividades, fabrica discursos e define os limites do pensável. Nesse
sentido, a adesão popular a figuras envolvidas em corrupção não pode ser
entendida apenas como ignorância ou alienação, mas como resultado de um campo
discursivo cuidadosamente construído. Narrativas de salvacionismo, polarização
extrema e inimigos imaginários produzem um ambiente no qual a crítica se torna
suspeita e a fidelidade, uma virtude.
A
teoria da ideologia de Slavoj Žižek oferece outra camada interpretativa:
não se trata apenas de acreditar em uma ilusão, mas de saber que há algo de
errado e, ainda assim, continuar agindo como se não houvesse. É o cinismo
estruturado. Muitos cidadãos reconhecem a corrupção, mas a relativizam — “todos
fazem”, “pelo menos este faz algo” —, convertendo a exceção em regra. Nesse
movimento, a indignação é neutralizada e transformada em resignação pragmática.
No
contexto brasileiro, essa dinâmica ganha contornos particulares devido à
herança histórica de patrimonialismo, como analisado por Raymundo Faoro.
A confusão entre o público e o privado, entre o Estado e os interesses
pessoais, cria um terreno fértil para relações de dependência e lealdade que
lembram vínculos pessoais mais do que compromissos institucionais. O cidadão
não se percebe como titular de direitos universais, mas como beneficiário de
favores. Assim, a corrupção não aparece apenas como desvio, mas como parte do
funcionamento esperado do sistema.
Hannah
Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, alerta para o
perigo da normalização. Quando práticas corruptas deixam de causar escândalo e
passam a ser incorporadas ao cotidiano político, ocorre uma erosão silenciosa
da capacidade de julgamento moral. A Síndrome de Estocolmo política não é,
portanto, um fenômeno súbito, mas o resultado de um processo gradual de
dessensibilização.
Entretanto,
reduzir o problema a uma suposta passividade popular seria um erro. A adesão ao
opressor pode também conter elementos de cálculo racional e resistência
distorcida. Em um sistema percebido como estruturalmente falho, apoiar um
agente “imperfeito, porém eficaz” pode parecer a única alternativa viável.
Aqui, a síndrome deixa de ser apenas patológica e revela-se como sintoma de uma
crise mais profunda: a falência da confiança nas instituições e na própria
ideia de representação democrática.
A
superação desse quadro exige mais do que a denúncia da corrupção. Requer a
reconstrução das condições que tornam possível uma relação não patológica entre
cidadãos e poder: transparência efetiva, responsabilização real e, sobretudo,
uma cultura política que valorize o dissenso crítico em vez da lealdade cega.
Como sugeriria Jürgen Habermas, apenas por meio de uma esfera pública
robusta, baseada no diálogo racional e na participação informada, é possível
romper o ciclo de dependência simbólica que sustenta essa forma de submissão.
Assim,
a Síndrome de Estocolmo, quando aplicada à política brasileira, deixa de ser
uma metáfora provocativa e se torna um diagnóstico incômodo. Ela aponta para um
vínculo afetivo distorcido entre sociedade e poder — um vínculo que, enquanto
não for compreendido e transformado, continuará a reproduzir as mesmas
estruturas que o originaram.