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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Síndrome de Estocolmo


A chamada Síndrome de Estocolmo — fenômeno no qual vítimas passam a desenvolver vínculos afetivos ou de lealdade com seus opressores — costuma ser tratada como curiosidade psicológica. No entanto, ao deslocarmos o conceito para o campo político, ele revela uma chave interpretativa inquietante para compreender certas dinâmicas da sociedade brasileira contemporânea. Em um contexto marcado por recorrentes escândalos de corrupção, descrédito institucional e crises de representação, emerge a pergunta: por que parcelas significativas da população continuam a defender, justificar ou até idolatrar figuras e estruturas que reiteradamente operam contra seus próprios interesses?

A resposta exige uma abordagem que ultrapasse o senso comum moralizante. Thomas Hobbes, ao descrever o medo como fundamento da ordem política, já indicava que indivíduos podem aceitar — e até desejar — a submissão a um poder que os oprime, desde que este prometa alguma forma de segurança. No Brasil atual, o medo assume múltiplas formas: medo da violência urbana, do colapso econômico, da instabilidade social. Esse medo não apenas legitima autoridades questionáveis, como também cria uma dependência emocional em relação a elas. O opressor torna-se, paradoxalmente, o protetor.

Michel Foucault contribui para aprofundar essa análise ao demonstrar que o poder não se exerce apenas de forma repressiva, mas também produtiva: ele molda subjetividades, fabrica discursos e define os limites do pensável. Nesse sentido, a adesão popular a figuras envolvidas em corrupção não pode ser entendida apenas como ignorância ou alienação, mas como resultado de um campo discursivo cuidadosamente construído. Narrativas de salvacionismo, polarização extrema e inimigos imaginários produzem um ambiente no qual a crítica se torna suspeita e a fidelidade, uma virtude.

A teoria da ideologia de Slavoj Žižek oferece outra camada interpretativa: não se trata apenas de acreditar em uma ilusão, mas de saber que há algo de errado e, ainda assim, continuar agindo como se não houvesse. É o cinismo estruturado. Muitos cidadãos reconhecem a corrupção, mas a relativizam — “todos fazem”, “pelo menos este faz algo” —, convertendo a exceção em regra. Nesse movimento, a indignação é neutralizada e transformada em resignação pragmática.

No contexto brasileiro, essa dinâmica ganha contornos particulares devido à herança histórica de patrimonialismo, como analisado por Raymundo Faoro. A confusão entre o público e o privado, entre o Estado e os interesses pessoais, cria um terreno fértil para relações de dependência e lealdade que lembram vínculos pessoais mais do que compromissos institucionais. O cidadão não se percebe como titular de direitos universais, mas como beneficiário de favores. Assim, a corrupção não aparece apenas como desvio, mas como parte do funcionamento esperado do sistema.

Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, alerta para o perigo da normalização. Quando práticas corruptas deixam de causar escândalo e passam a ser incorporadas ao cotidiano político, ocorre uma erosão silenciosa da capacidade de julgamento moral. A Síndrome de Estocolmo política não é, portanto, um fenômeno súbito, mas o resultado de um processo gradual de dessensibilização.

Entretanto, reduzir o problema a uma suposta passividade popular seria um erro. A adesão ao opressor pode também conter elementos de cálculo racional e resistência distorcida. Em um sistema percebido como estruturalmente falho, apoiar um agente “imperfeito, porém eficaz” pode parecer a única alternativa viável. Aqui, a síndrome deixa de ser apenas patológica e revela-se como sintoma de uma crise mais profunda: a falência da confiança nas instituições e na própria ideia de representação democrática.

A superação desse quadro exige mais do que a denúncia da corrupção. Requer a reconstrução das condições que tornam possível uma relação não patológica entre cidadãos e poder: transparência efetiva, responsabilização real e, sobretudo, uma cultura política que valorize o dissenso crítico em vez da lealdade cega. Como sugeriria Jürgen Habermas, apenas por meio de uma esfera pública robusta, baseada no diálogo racional e na participação informada, é possível romper o ciclo de dependência simbólica que sustenta essa forma de submissão.

Assim, a Síndrome de Estocolmo, quando aplicada à política brasileira, deixa de ser uma metáfora provocativa e se torna um diagnóstico incômodo. Ela aponta para um vínculo afetivo distorcido entre sociedade e poder — um vínculo que, enquanto não for compreendido e transformado, continuará a reproduzir as mesmas estruturas que o originaram.