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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Promiscuidade Flagrante


Tem algo de curioso quando a gente ouve “promiscuidade flagrante”. A expressão já chega com um dedo em riste, como se estivesse apontando uma falha moral no outro — ou, às vezes, em nós mesmos, naquele espelho meio incômodo das escolhas que a gente prefere não explicar demais.

No cotidiano, essa “flagrância” aparece em cenas bem comuns: o colega de trabalho que se envolve com várias pessoas do mesmo círculo, o amigo que vive pulando de relação em relação sem sequer dar nome ao que sente, ou até aquele ambiente onde tudo se mistura — afetos, interesses, conveniências — como se não houvesse mais fronteiras claras. Não é só sobre sexo. É sobre mistura sem critério, sobre relações que perdem forma.

E aí começa a ficar mais interessante (e mais honesto também). Porque o que chamamos de promiscuidade, muitas vezes, diz mais sobre quem observa do que sobre quem vive. O olhar que julga precisa de alguma ordem para se sustentar. Quando vê alguém vivendo fora desse roteiro — sem hierarquia, sem sequência, sem o “deveria ser assim” — reage chamando de excesso, de descontrole, de queda.

Lembro de uma provocação de Zygmunt Bauman, quando ele fala da modernidade líquida: relações que não querem endurecer, vínculos que evitam virar compromisso sólido. Nesse cenário, o que antes seria visto como exceção vira quase regra — e o rótulo de “promiscuidade” começa a parecer meio deslocado, como um conceito antigo tentando explicar um mundo que já mudou de forma.

Mas também não dá pra romantizar tudo. Existe, sim, uma espécie de vazio quando tudo é possível o tempo todo. Quando não há escolha que se sustente, quando tudo pode ser trocado com facilidade, o excesso vira ruído. E o ruído cansa. A tal “promiscuidade flagrante” pode ser, nesse caso, menos liberdade e mais dificuldade de permanecer — em alguém, em algo, em si mesmo.

No fundo, talvez a questão não seja quantas relações alguém tem, mas o que acontece dentro delas. Há encontros que, mesmo breves, são inteiros. E há relações longas que são vazias. A diferença não está na quantidade, mas na presença.

E aí fica aquela pergunta meio desconfortável, que a gente leva pra um café sozinho, desses que você costuma tratar como refúgio:
a gente chama de promiscuidade porque há excesso… ou porque falta sentido?


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Crise de Pertencimento


A crise de pertencimento não costuma anunciar sua chegada. Ela não quebra portas nem levanta a voz; entra devagar, como quem já conhece a casa. Um dia, quase sem perceber, estamos nos lugares certos — no trabalho, entre amigos, na família, nas redes — e, ainda assim, com a sensação incômoda de não estar realmente em lugar nenhum.

Esse mal-estar é difícil de nomear. Não é solidão, porque há pessoas por perto. Não é rejeição, porque ninguém nos expulsou. É algo mais sutil: a impressão de viver como um convidado permanente da própria vida, alguém que participa, mas não habita.

No cotidiano, a crise se revela em gestos pequenos. Rimos na hora certa, mas o riso vem um pouco oco. Concordamos para evitar desgaste. Ajustamos opiniões, afetos e até silêncios para caber nos ambientes. Socialmente, tudo funciona. Interiormente, algo fica em suspenso, como se estivéssemos sempre “de passagem”.

Há um paradoxo cruel nisso tudo: quanto mais tentamos pertencer a todos os lugares, menos pertencemos a algum. O pertencimento verdadeiro exige risco — o risco de destoar, de sustentar diferenças, de não ser imediatamente aceito. E esse risco cansa. Por isso, tantas vezes preferimos a adaptação silenciosa à fricção de sermos quem somos.

Essa crise também tem uma dimensão temporal. Não pertencemos apenas a grupos, mas a histórias. Quando a narrativa que contamos sobre nós mesmos deixa de combinar com a vida que levamos, surge uma fratura interna. É como morar numa casa que um dia foi familiar, mas cujos cômodos já não reconhecemos. Continuamos ali por hábito, não por sentido.

Um exemplo muito atual dessa crise aparece no mundo do trabalho híbrido ou remoto. Muita gente tem emprego, salário, reuniões semanais, metas claras — e, ainda assim, sente que não faz parte de nada. Não pertence mais ao escritório, que virou um espaço ocasional, quase simbólico. Tampouco pertence totalmente à casa, transformada em extensão do expediente. Vive-se entre telas, agendas e notificações, sem chão.

Essa sensação aparece em detalhes banais: ligar a câmera e sentir que está encenando um papel profissional; participar de decisões sem perceber que sua voz realmente pesa; não saber se o colega é parceiro, concorrente ou apenas um avatar cordial. Externamente, tudo parece em ordem. Internamente, surge a pergunta silenciosa e corrosiva: “se eu sair daqui, o que exatamente eu era aqui?”

Esse tipo de crise é típico do nosso tempo porque não nasce da exclusão explícita, mas da diluição dos vínculos. Não há conflito aberto, apenas uma ausência de raízes. A pessoa não é rejeitada — ela é substituível, e sabe disso. O pertencimento não é negado; ele é esvaziado.

Mas há algo importante a reconhecer: a crise de pertencimento não é necessariamente um fracasso. Muitas vezes, ela surge quando amadurecemos o suficiente para perceber que pertencer não é apenas estar presente, mas ser reconhecido — e se reconhecer — naquele lugar. Não basta ocupar um espaço; é preciso que ele faça sentido.

No fundo, talvez essa crise não seja sobre encontrar onde nos encaixar, mas sobre escutar o que em nós não quer mais se encaixar. O desconforto, então, deixa de ser um problema a ser eliminado e passa a ser um sinal. Um convite difícil, mas honesto, a reorganizar vínculos, escolhas e narrativas.

A crise de pertencimento dói porque desmonta certezas. Mas, às vezes, é justamente ela que nos devolve algo raro: a possibilidade de pertencer, não a todos os lugares, mas ao próprio caminho.