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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Realidade Comum

O Acordo Invisível que Sustenta o Mundo

Existe algo estranho — e ao mesmo tempo profundamente cotidiano — no fato de que milhões de pessoas acordam todos os dias e concordam, sem nunca terem assinado nada, sobre o que é “real”. O dinheiro vale, o tempo passa, as instituições existem, as regras funcionam. Mas, se olharmos de perto, perceberemos que grande parte disso não é natural: é compartilhado.

A realidade comum não é simplesmente o mundo tal como ele é. É o mundo tal como conseguimos sustentá-lo juntos.

A ideia de uma realidade compartilhada atravessa tanto a filosofia quanto a sociologia. Não vivemos isolados em percepções individuais; vivemos dentro de uma trama de significados coletivos que tornam a experiência inteligível. Aquilo que reconhecemos como “real” depende menos da materialidade em si e mais da estabilidade dos acordos sociais que a interpretam.

Claude Lévi-Strauss oferece um ponto de partida relevante ao sugerir que as sociedades humanas operam através de estruturas simbólicas profundas. Essas estruturas organizam não apenas mitos ou rituais, mas a própria forma como o mundo é percebido. A realidade, nesse sentido, não é apenas dada — ela é estruturada. O que chamamos de “mundo” já vem filtrado por sistemas de classificação, oposição e sentido.

Essa perspectiva se articula com a sociologia de Peter Berger e Thomas Luckmann, que propuseram a noção de construção social da realidade. Para eles, a realidade cotidiana é produzida através de processos de institucionalização e legitimação. Práticas repetidas se tornam hábitos; hábitos se tornam instituições; instituições passam a parecer naturais. Assim, o que é construído historicamente adquire aparência de inevitável.

Mas essa construção não é estática. Ela exige manutenção constante. A realidade comum só se sustenta porque é continuamente reafirmada nas interações diárias. Cada conversa, cada gesto, cada reconhecimento mútuo funciona como uma espécie de “revalidação” do mundo compartilhado. Sem isso, a realidade começa a fissurar.

É aqui que a contribuição de Émile Durkheim se torna central. Ao falar de “fatos sociais”, Durkheim argumentava que certas formas de agir, pensar e sentir existem independentemente do indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo. A realidade comum, nesse sentido, não é apenas compartilhada — ela é imposta. Não acreditar em certas regras não as faz desaparecer; apenas desloca o indivíduo para a margem.

Mas há uma tensão importante: se a realidade comum é construída, ela também pode ser disputada.

Michel Foucault ajuda a iluminar essa dimensão ao mostrar que o que conta como “verdade” em uma sociedade está ligado a regimes de poder. Não existe uma realidade neutra e universalmente acessível; existem formas historicamente situadas de produzir verdade. Instituições, discursos científicos, mídias — todos participam na definição do que é considerado real, legítimo ou verdadeiro.

É nesse ponto que a noção contemporânea de pós-verdade se insere como um deslocamento crítico. Na pós-verdade, a estabilidade da realidade comum deixa de depender prioritariamente de critérios compartilhados de verificação e passa a ser influenciada por emoções, crenças e pertencimentos identitários. O verdadeiro não é mais aquilo que corresponde aos fatos, mas aquilo que ressoa com uma comunidade. A realidade comum, então, fragmenta-se não apenas por divergência de interpretação, mas por divergência nos próprios critérios de verdade.

No mundo contemporâneo, essa disputa se intensifica com o avanço das tecnologias digitais. Redes sociais, plataformas e algoritmos fragmentam a experiência coletiva. Em vez de uma realidade comum relativamente estável, emergem múltiplas realidades paralelas, organizadas por bolhas de informação. O que é evidente para um grupo pode ser invisível — ou inaceitável — para outro.

Aqui, a teoria da informação oferece uma lente complementar para compreender essa fragmentação. Em termos clássicos, informação está associada à redução de incerteza. No entanto, em ambientes digitais saturados, ocorre um paradoxo: quanto mais informação circula, menos consenso é produzido. O excesso de sinais gera ruído. E o ruído, por sua vez, compromete a capacidade coletiva de distinguir entre relevância e irrelevância, verdade e distorção.

Algoritmos de recomendação operam selecionando conteúdos com base em probabilidade de engajamento, não em critérios de veracidade. Isso significa que a informação mais difundida não é necessariamente a mais confiável, mas a mais capaz de capturar atenção. Do ponto de vista informacional, isso altera o próprio ecossistema da realidade: sinais altamente emocionais ou polarizadores tendem a se propagar mais, criando padrões de amplificação que distorcem a percepção do que é comum.

Além disso, a teoria da informação nos lembra que toda comunicação envolve codificação, transmissão e decodificação. Em contextos sociais complexos, essas etapas estão sujeitas a interferências — culturais, ideológicas, tecnológicas. A mesma mensagem pode gerar interpretações radicalmente distintas dependendo do repertório do receptor. Assim, a fragmentação da realidade comum não é apenas um problema de conteúdo, mas de decodificação coletiva.

Do ponto de vista psicológico, isso também tem implicações profundas. A sensação de realidade depende, em grande parte, do reconhecimento social. Quando aquilo que percebemos não encontra confirmação nos outros, surge uma espécie de instabilidade cognitiva. O indivíduo passa a oscilar entre mundos possíveis, sem um ponto fixo de referência.

Podemos então recorrer a Alfred Schutz, que analisou a vida cotidiana como um “mundo da vida” compartilhado, baseado em pressupostos tácitos. Esse mundo funciona porque não o questionamos o tempo todo. A dúvida constante inviabilizaria a ação. Precisamos acreditar, ao menos provisoriamente, que o chão é firme — mesmo sabendo, em algum nível, que ele é construído.

E talvez seja exatamente aí que reside o paradoxo da realidade comum: ela é ao mesmo tempo frágil e resistente. Frágil porque depende de acordos simbólicos; resistente porque esses acordos são profundamente internalizados.

Quando esses acordos se rompem — em crises políticas, transformações tecnológicas ou na erosão dos critérios compartilhados de verdade — não perdemos apenas consenso. Perdemos orientação. A pergunta “o que é real?” deixa de ser filosófica e se torna existencial.

Diante disso, a questão não é simplesmente restaurar uma realidade comum perdida, como se ela fosse um estado natural anterior. Toda realidade comum é, em alguma medida, construída, disputada e historicamente situada.

O verdadeiro desafio talvez seja outro: como construir formas de realidade compartilhada em um ambiente informacional saturado, onde a verdade compete com o ruído e onde o pertencimento pode pesar mais que a evidência?

Porque, no fim, a realidade comum não é aquilo que existe independentemente de nós.

É aquilo que conseguimos sustentar juntos — mesmo quando a informação se multiplica, a verdade se fragmenta, e o mundo parece oscilar entre versões incompatíveis de si mesmo.