Ler é ser lido
Há
livros que não mudam em nada — e, ainda assim, mudam tudo. Eles ficam ali,
parados na estante, com as mesmas palavras, as mesmas páginas, a mesma capa.
Quem muda somos nós. E, curiosamente, quando mudamos, o livro muda junto. Não
porque ele tenha se mexido, mas porque o sentido não mora só no texto. Mora no
encontro. Um livro assim é Dom Casmurro, li mais de uma vez.
A
Teoria da Recepção começa exatamente nesse ponto meio desconfortável: o momento
em que percebemos que ler não é um ato neutro. Ler é se colocar em jogo. É
permitir que o texto nos toque — mas também tocá-lo de volta.
O
sentido como acontecimento
Tradicionalmente,
fomos educados a pensar que o sentido de uma obra estava:
- ou na intenção do autor (“o que ele
quis dizer?”),
- ou no próprio texto, como se fosse um
objeto fechado.
A
Teoria da Recepção bagunça essa arrumação elegante. Para Hans Robert
Jauss, o sentido acontece no choque entre a obra e o horizonte de
expectativas do leitor. Esse horizonte é histórico, cultural, afetivo. Não é
apenas o que sabemos, mas o que esperamos.
Por
isso, uma obra nunca chega em terreno neutro. Ela chega em alguém. E alguém é
sempre um mundo em andamento.
Aqui,
o sentido deixa de ser uma coisa e passa a ser um evento.
As
lacunas: onde o leitor entra
Wolfgang
Iser aprofunda essa ideia ao mostrar que todo texto é, por
natureza, incompleto. Ele possui lacunas, silêncios, indeterminações. O texto
sugere, provoca, aponta — mas não entrega tudo.
Essas
lacunas não são defeitos. São convites.
Ler,
então, não é apenas receber uma mensagem, mas executar a obra, quase como um
músico executa uma partitura. A partitura está ali, mas a música só existe
quando alguém toca. E cada execução é diferente, mesmo sendo “a mesma” música.
Dom
Casmurro como laboratório da recepção
Poucos
livros ilustram tão bem a Teoria da Recepção quanto Dom Casmurro. Não
porque Machado de Assis tenha escondido uma resposta definitiva
sobre Capitu, mas porque construiu um texto que precisa do leitor para
funcionar.
Bentinho
não é apenas um narrador: é um dispositivo de recepção. Ele nos conta a
história enquanto nos testa. Seleciona lembranças, omite gestos, exagera
suspeitas. O texto não nos diz se Capitu traiu ou não — ele nos pergunta,
silenciosamente, o que fazemos com a dúvida.
Cada
leitor chega ao romance com um horizonte distinto:
- quem confia na memória tende a
confiar em Bentinho;
- quem desconfia do ressentimento vê
nele um narrador frágil;
- quem já amou, perdeu ou foi traído lê
o livro com o corpo inteiro.
O
romance não muda. O veredito, sim.
Machado
parece intuir algo que a Teoria da Recepção formularia depois: o sentido não
está na resposta, mas na experiência interpretativa. Dom Casmurro não é um
enigma a ser resolvido, mas um espelho que devolve ao leitor seus próprios
critérios de julgamento.
Quando
a filosofia entra na sala
A
Teoria da Recepção conversa diretamente com a hermenêutica filosófica de Hans-Georg
Gadamer, para quem compreender é sempre um processo de fusão de
horizontes. Não há interpretação sem pré-compreensão. Não há leitura sem
história pessoal.
No
Brasil, essa ideia encontra eco em Paulo Freire, quando afirma
que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O leitor não chega vazio
ao texto: ele chega carregado de vida. E é essa vida que faz o texto falar.
Ler,
nesse sentido, é também ser lido. O texto nos observa enquanto o observamos.
Ele nos revela a nós mesmos.
Recepção
não é relativismo
Um
equívoco comum é achar que a Teoria da Recepção transforma tudo em “vale
qualquer coisa”. Não é bem assim. O texto impõe limites. Ele orienta
possibilidades. Nem toda leitura é defensável.
Mas
entre o texto fechado e a interpretação arbitrária existe um campo fértil: o
campo da responsabilidade interpretativa. O leitor é livre, mas não soberano.
Ele dialoga, não domina.
Dom
Casmurro, novamente, é exemplar: nem toda leitura se sustenta, mas nenhuma
leitura honesta consegue encerrar o romance de forma definitiva.
A
obra como espaço de transformação
Talvez
o aspecto mais radical da Teoria da Recepção seja este:
uma
obra não é apenas algo que entendemos — é algo que nos modifica.
Quando
uma leitura nos incomoda, nos desloca ou nos acompanha por anos, não é porque
descobrimos “o verdadeiro sentido” do texto, mas porque o texto encontrou algo
em nós que ainda estava em formação.
A
recepção, então, não é um ato final. É um processo contínuo. Cada releitura é
uma reescrita silenciosa.
Conclusão
(sem fechar demais)
A
Teoria da Recepção nos ensina que a cultura não é um museu de sentidos fixos,
mas um campo vivo de encontros. Ler é um ato de presença. Exige atenção,
abertura e risco.
Dom
Casmurro permanece porque nunca termina de acontecer. Ele apenas espera
leitores diferentes para continuar dizendo outra coisa.
No
fundo, talvez seja isso:
não
somos apenas leitores das obras — somos lugares onde elas acontecem.