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sábado, 24 de janeiro de 2026

Teoria da Recepção

Ler é ser lido

Há livros que não mudam em nada — e, ainda assim, mudam tudo. Eles ficam ali, parados na estante, com as mesmas palavras, as mesmas páginas, a mesma capa. Quem muda somos nós. E, curiosamente, quando mudamos, o livro muda junto. Não porque ele tenha se mexido, mas porque o sentido não mora só no texto. Mora no encontro. Um livro assim é Dom Casmurro, li mais de uma vez.

A Teoria da Recepção começa exatamente nesse ponto meio desconfortável: o momento em que percebemos que ler não é um ato neutro. Ler é se colocar em jogo. É permitir que o texto nos toque — mas também tocá-lo de volta.

O sentido como acontecimento

Tradicionalmente, fomos educados a pensar que o sentido de uma obra estava:

  1. ou na intenção do autor (“o que ele quis dizer?”),
  2. ou no próprio texto, como se fosse um objeto fechado.

A Teoria da Recepção bagunça essa arrumação elegante. Para Hans Robert Jauss, o sentido acontece no choque entre a obra e o horizonte de expectativas do leitor. Esse horizonte é histórico, cultural, afetivo. Não é apenas o que sabemos, mas o que esperamos.

Por isso, uma obra nunca chega em terreno neutro. Ela chega em alguém. E alguém é sempre um mundo em andamento.

Aqui, o sentido deixa de ser uma coisa e passa a ser um evento.

As lacunas: onde o leitor entra

Wolfgang Iser aprofunda essa ideia ao mostrar que todo texto é, por natureza, incompleto. Ele possui lacunas, silêncios, indeterminações. O texto sugere, provoca, aponta — mas não entrega tudo.

Essas lacunas não são defeitos. São convites.

Ler, então, não é apenas receber uma mensagem, mas executar a obra, quase como um músico executa uma partitura. A partitura está ali, mas a música só existe quando alguém toca. E cada execução é diferente, mesmo sendo “a mesma” música.

Dom Casmurro como laboratório da recepção

Poucos livros ilustram tão bem a Teoria da Recepção quanto Dom Casmurro. Não porque Machado de Assis tenha escondido uma resposta definitiva sobre Capitu, mas porque construiu um texto que precisa do leitor para funcionar.

Bentinho não é apenas um narrador: é um dispositivo de recepção. Ele nos conta a história enquanto nos testa. Seleciona lembranças, omite gestos, exagera suspeitas. O texto não nos diz se Capitu traiu ou não — ele nos pergunta, silenciosamente, o que fazemos com a dúvida.

Cada leitor chega ao romance com um horizonte distinto:

  • quem confia na memória tende a confiar em Bentinho;
  • quem desconfia do ressentimento vê nele um narrador frágil;
  • quem já amou, perdeu ou foi traído lê o livro com o corpo inteiro.

O romance não muda. O veredito, sim.

Machado parece intuir algo que a Teoria da Recepção formularia depois: o sentido não está na resposta, mas na experiência interpretativa. Dom Casmurro não é um enigma a ser resolvido, mas um espelho que devolve ao leitor seus próprios critérios de julgamento.

Quando a filosofia entra na sala

A Teoria da Recepção conversa diretamente com a hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, para quem compreender é sempre um processo de fusão de horizontes. Não há interpretação sem pré-compreensão. Não há leitura sem história pessoal.

No Brasil, essa ideia encontra eco em Paulo Freire, quando afirma que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O leitor não chega vazio ao texto: ele chega carregado de vida. E é essa vida que faz o texto falar.

Ler, nesse sentido, é também ser lido. O texto nos observa enquanto o observamos. Ele nos revela a nós mesmos.

Recepção não é relativismo

Um equívoco comum é achar que a Teoria da Recepção transforma tudo em “vale qualquer coisa”. Não é bem assim. O texto impõe limites. Ele orienta possibilidades. Nem toda leitura é defensável.

Mas entre o texto fechado e a interpretação arbitrária existe um campo fértil: o campo da responsabilidade interpretativa. O leitor é livre, mas não soberano. Ele dialoga, não domina.

Dom Casmurro, novamente, é exemplar: nem toda leitura se sustenta, mas nenhuma leitura honesta consegue encerrar o romance de forma definitiva.

A obra como espaço de transformação

Talvez o aspecto mais radical da Teoria da Recepção seja este:

uma obra não é apenas algo que entendemos — é algo que nos modifica.

Quando uma leitura nos incomoda, nos desloca ou nos acompanha por anos, não é porque descobrimos “o verdadeiro sentido” do texto, mas porque o texto encontrou algo em nós que ainda estava em formação.

A recepção, então, não é um ato final. É um processo contínuo. Cada releitura é uma reescrita silenciosa.

Conclusão (sem fechar demais)

A Teoria da Recepção nos ensina que a cultura não é um museu de sentidos fixos, mas um campo vivo de encontros. Ler é um ato de presença. Exige atenção, abertura e risco.

Dom Casmurro permanece porque nunca termina de acontecer. Ele apenas espera leitores diferentes para continuar dizendo outra coisa.

No fundo, talvez seja isso:

não somos apenas leitores das obras — somos lugares onde elas acontecem.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Sentir nos Ossos

Quando a Percepção se Torna Matéria

Há experiências que não passam pela lógica, pela evidência ou pela palavra. Elas se infiltram no corpo, como um frio que não está no ar, mas no osso — um saber que não vem dos livros, mas de uma espécie de memória mineral. “Sentir nos ossos” é mais do que uma metáfora; é a sensação de que algo é tão verdadeiro que atravessa carne, pele e pensamento.

O jurista, brasileiro Fábio Konder Comparato, ao tratar da experiência humana para além da racionalidade estrita, lembra que certos saberes são “pré-discursivos”, ou seja, percebidos antes que possamos formulá-los. É como se o corpo tivesse sensores ancestrais capazes de pressentir o que a mente ainda não elaborou.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas antecipações: uma mãe que, sem saber por quê, acorda no meio da noite e descobre que o filho está doente; um pescador que sente que “hoje o mar não está para peixe”, mesmo com o céu limpo; alguém que entra numa sala e, antes de qualquer palavra, sabe que houve uma discussão ali.

Esse sentir profundo também carrega o peso das lembranças que se inscrevem fisicamente. Cicatrizes que doem quando muda o tempo, dores antigas que reaparecem em dias de tristeza, a postura que se fecha quando a vida pede defesa. O corpo é arquivo e oráculo.

Comparato talvez diria que “sentir nos ossos” é um modo de nos lembrar de que somos, antes de tudo, matéria viva — e que a inteligência não está apenas na mente, mas distribuída por toda a nossa estrutura. Nesse sentido, confiar nesse sentir não é superstição, mas reconhecer a sabedoria incorporada que milênios de experiência gravaram em nós.

O risco, porém, é esquecer que nem todo pressentimento é verdade. O frio nos ossos pode vir de dentro, de medos antigos, e não do mundo lá fora. A sabedoria está em saber discernir entre o eco do passado e o aviso do presente.

Talvez, no fim, “sentir nos ossos” seja como carregar um sismógrafo interno — que às vezes registra tremores distantes e outras vezes inventa terremotos. Cabe a nós aprender a ler esse mapa invisível.