...porque a vida é agora
Tem
gente que vive esperando. Espera o amor da vida, o emprego dos sonhos, a
coragem pra mudar de cidade, o momento certo pra ser feliz. Outros esperam a
aposentadoria pra finalmente descansar, o fim de semana pra viver de verdade,
ou um sinal místico de que agora sim, pode começar. Mas a vida não é essa fila
de supermercado onde só depois da senha chamada a gente pode viver. A vida já
começou, e o agora é o único tempo que ela conhece.
Essa
ideia – nunca chega, porque a vida é agora – parece simples, quase uma
frase de agenda motivacional. Mas por trás dela há camadas profundas de
filosofia e sociologia. Porque não estamos apenas lidando com o tempo
cronológico. Estamos diante de um modo de viver construído culturalmente,
alimentado por ideologias de produtividade, promessas de futuro e um medo
imenso do presente.
O
tempo adiado: um vício moderno
O
sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos em uma modernidade líquida,
onde tudo escorre antes de tomar forma. Isso inclui nossas expectativas de
futuro. Sempre estamos planejando, organizando, projetando. Mas,
paradoxalmente, essa obsessão pelo amanhã rouba o sentido do agora. O presente
vira só um degrau, e nunca um lugar de morada.
O
filósofo francês Michel Foucault ajudaria a entender como essa lógica do
tempo está a serviço de uma estrutura de poder. Ao internalizarmos a ideia de
que só depois teremos valor (quando formos promovidos, quando tivermos um
diploma, quando emagrecermos, quando tivermos filhos), estamos nos sujeitando a
um controle que nos distancia de nós mesmos. A espera se torna ferramenta de
dominação.
Viver
esperando é viver ausente
No
campo mais existencial, Kierkegaard já alertava para o perigo de uma
vida em suspenso. Para ele, a angústia nasce exatamente quando nos afastamos do
presente em nome de algo idealizado que nunca se concretiza. É como se
estivéssemos sempre “ensaiando” para a vida, mas nunca subíssemos ao palco.
Quantas
vezes dissemos "quando eu terminar isso, vou ser feliz"? E depois,
adiamos de novo. Isso cria um ciclo de insatisfação, em que o tempo real – o
agora – é apenas um meio e nunca um fim.
Há
quem queira pular alguma etapa por sentir que é muito doloroso vivenciar o que
a vida apresentou, no entanto, não tem como pular etapas, caso contrário ficará
parado até que resolva enfrentar, adiando o desfecho que é inevitável, seja
qual for, é necessário o enfrentamento para seguir em frente. Já ouviu ou disse
que agora não, não quero fazer isto neste momento, no entanto fica olhando para
o lado e enxergando a procrastinação consumindo o pensamento?
A
sociologia do instante
A
sociedade contemporânea, com sua velocidade e excesso de estímulos, nos convida
à dispersão, mas raramente à presença. As redes sociais, os aplicativos de
produtividade, o culto à eficiência: tudo isso forma o cenário ideal para que o
agora seja descartável. O "momento presente" é muitas vezes vivido
como obstáculo – algo que precisa ser superado para que o futuro, glorioso e
cheio de promessas, finalmente chegue.
Mas
ele nunca chega. Porque ele não existe. Só existe o agora.
Uma
alternativa possível: o tempo experienciado
N.
Sri Ram, pensador da tradição teosófica, dizia que “a
realidade é aquilo que está sendo vivido com atenção”. Em outras palavras, só é
real o que é percebido, sentido, atravessado com consciência. Isso nos leva a
uma ideia de tempo mais experiencial do que linear. O agora não é um ponto
entre passado e futuro. É o palco onde tudo acontece.
Talvez
viver bem seja justamente isso: aceitar que não há depois. Não há linha de
chegada onde tudo fará sentido. Há sim, o café que esfria enquanto você pensa
em coisas demais, o pôr do sol que você não vê respondendo mensagens, o abraço
que adia porque acha que amanhã será melhor.
Nunca
chega, porque não tem onde chegar. A vida não é uma estrada com destino, mas um
campo onde se pisa, se sente, se colhe. Esperar o momento certo é a forma mais
sutil de fugir dele. Filosoficamente, é uma traição ao ser; sociologicamente, é
uma obediência cega à lógica do capital e do progresso. Romper com isso talvez
seja o ato mais revolucionário do nosso tempo: simplesmente estar aqui, agora.

