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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Idiotizar os Sentidos

Um ensaio sobre a anestesia cotidiana

Outro dia eu percebi que tinha passado por uma padaria inteira sem sentir o cheiro do pão. Não por falta de pão — ele estava lá, quente, generoso, quase gritando — mas por falta de mim. Eu estava presente só no corpo. O resto tinha ido responder mensagens, organizar preocupações, simular produtividade.

Foi ali que me ocorreu: talvez a gente esteja aprendendo, com uma eficiência assustadora, a idiotizar os sentidos.

Não no sentido clínico, claro. Mas no sentido filosófico: torná-los incapazes de produzir experiência.

 

Quando sentir deixa de ser experiência

Os sentidos não são apenas canais biológicos. Eles são formas de pensamento. Ver não é apenas captar luz; é interpretar. Ouvir não é apenas vibração; é atribuir sentido. Tocar não é apenas contato; é reconhecimento.

Merleau-Ponty dizia que o corpo é nossa forma de estar no mundo. Mas o corpo moderno foi treinado para atravessar o mundo, não para habitá-lo.

A idiotização dos sentidos acontece quando:

  • a visão vira escaneamento,
  • a audição vira ruído de fundo,
  • o tato vira acidente,
  • o paladar vira função,
  • o olfato vira quase irrelevante.

O mundo deixa de ser experiência e vira cenário.

Não é que os sentidos falhem. Eles são deseducados.

A cultura da velocidade, da repetição e da utilidade não destrói os sentidos — ela os simplifica. E tudo que é simplificado perde profundidade.

Nietzsche temia uma humanidade cansada demais para sentir tragédia e alegria com intensidade. Talvez estejamos exatamente aí: não sofremos demais, nem amamos demais, nem nos encantamos demais. Apenas administramos.

 

Onde os sentidos perdem a dignidade

No ônibus, alguém escuta música alta no fone. A música não atravessa. Ela apenas acompanha.

No almoço, mastigamos enquanto olhamos a tela. O gosto é secundário. Comer vira logística.

No trabalho, digitamos sem ouvir o som das teclas. As mãos não sabem mais o que fazem — apenas executam.

No encontro, ouvimos esperando a nossa vez de falar. A voz do outro vira intervalo.

Até o toque se tornou apressado. Abraços com prazo. Beijos com agenda.

Os sentidos, que deveriam ser pontes, viraram atalhos.

 

O efeito invisível: quando a vida perde espessura

Quando idiotizamos os sentidos, a vida não fica triste. Ela fica plana.

Nada dói muito. Nada encanta muito. Nada marca muito.

E então surge a sensação estranha:
“Está tudo bem, mas algo está faltando.”

O que falta não é evento. É presença.

A gente não vive menos acontecimentos. A gente vive menos experiência dentro deles.

 

Um possível resgate

Desidiotizar os sentidos não exige mudança radical. Exige microdesobediências:

  • Comer algo em silêncio.
  • Olhar um rosto até ele deixar de ser função.
  • Escutar uma música sem fazer mais nada.
  • Tocar um objeto como quem o descobre.
  • Andar sem objetivo por cinco minutos.

Não para virar místico. Mas para lembrar que existir não é só operar.

 

A ética de sentir

Talvez o maior gesto revolucionário hoje seja simples e silencioso: sentir de novo.

Não como quem busca prazer.
Mas como quem se recusa a virar superfície.

Porque idiotizar os sentidos é perder o mundo sem que o mundo vá embora.

E recuperar os sentidos é recuperar algo ainda mais raro:
a capacidade de estar dentro da própria vida.


domingo, 4 de janeiro de 2026

Princípio Contraintuitivo

Quando a vida funciona ao contrário

A gente aprende cedo a confiar no óbvio. Se algo dói, evita. Se algo falha, força mais um pouco. Se a resposta não vem, insiste. Parece razoável — quase automático. Mas, com o tempo, a vida começa a apresentar um certo deboche silencioso: quanto mais você aperta, mais escapa; quanto mais corre, mais se perde. É aí que, sem aviso, entra em cena o princípio contraintuitivo.

Pensei em escrever este ensaio como parte dessa sensação estranha de que o mundo, em muitos momentos, parece funcionar ao contrário do manual, 2026 começou assim, deste jeito.

A desconfiança do óbvio

O pensamento filosófico sempre teve uma relação complicada com a intuição imediata. Parmênides desconfiava dos sentidos. Platão suspeitava do que aparece à primeira vista. Nietzsche desconfiava até da desconfiança. O princípio contraintuitivo nasce justamente dessa tradição: a ideia de que o primeiro impulso raramente é o mais verdadeiro.

No cotidiano, a intuição costuma confundir rapidez com profundidade. Decidir rápido parece sinônimo de inteligência; ter respostas prontas parece maturidade. Mas a filosofia sussurra outra coisa: talvez pensar seja, antes de tudo, suspender o gesto. Não reagir de imediato. Não preencher o silêncio com qualquer coisa.

O contraintuitivo começa quando a pergunta não pede ação, mas espera.

Força não gera, necessariamente, resultado

Existe uma crença moderna quase religiosa de que esforço sempre produz efeito proporcional. Trabalhe mais, insista mais, queira mais — e tudo se alinhará. O princípio contraintuitivo desmonta isso com elegância cruel: há domínios da vida em que o excesso de vontade destrói o próprio objetivo.

Amar é um deles. Criar é outro. Pensar, talvez o principal.

Quanto mais alguém tenta controlar o amor, mais o sufoca. Quanto mais um artista tenta “acertar”, menos cria. Quanto mais alguém tenta parecer inteligente, menos pensa. A filosofia aqui se aproxima do taoísmo, mesmo sem citá-lo: agir sem forçar, deixar que o real responda antes de ser dominado.

O contraintuitivo ensina que há forças que só funcionam quando não são violentadas.

O fracasso como método

Outra inversão curiosa: errar costuma ser visto como desvio, mas filosoficamente ele pode ser um método. Sócrates construiu sua sabedoria a partir do reconhecimento do não-saber. Kierkegaard viu na angústia não uma falha, mas uma condição de possibilidade da liberdade. Até a dúvida, tão malvista, aparece como ferramenta legítima de lucidez.

O princípio contraintuitivo propõe algo desconfortável: não é apesar do erro que avançamos, mas por meio dele. O erro quebra a ilusão de linearidade. Ele nos obriga a refazer perguntas melhores, menos ingênuas.

Talvez a maturidade não seja saber o caminho, mas aprender a ler os desvios.

Menos controle, mais presença

A modernidade nos treinou para administrar tudo: tempo, emoções, produtividade, até o descanso. O princípio contraintuitivo reage com uma provocação simples: quanto mais você tenta controlar a vida, menos você está nela.

Presença não se impõe. Ela acontece quando o controle falha. É no momento em que o plano dá errado, que o discurso trava, que o silêncio se instala, que algo real aparece. A filosofia, quando viva, não oferece mapas fechados, mas sensibilidade para o inesperado.

Nesse sentido, o contraintuitivo não é uma técnica — é uma postura existencial.

Aprender a ouvir o avesso

O princípio contraintuitivo não promete conforto. Ele pede uma coisa rara: humildade diante do real. Humildade para aceitar que o mundo não obedece à nossa pressa, que o sentido não surge da insistência cega e que, muitas vezes, o caminho mais eficaz passa justamente por onde evitaríamos passar.

Pensar contra a própria intuição não é negar a si mesmo, mas refinar o olhar. É aceitar que a vida, como a filosofia, gosta de falar baixo — e quase sempre diz algo importante quando paramos de tentar ter razão.

Talvez, no fim, o verdadeiro aprendizado seja este: nem tudo que funciona faz sentido à primeira vista — e nem tudo que faz sentido funciona.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Vida Sem Testemunhas


Há dias em que a vida parece acontecer num quarto sem janelas. Acordo, faço o que precisa ser feito, falo com pessoas, respondo mensagens — e, ainda assim, algo fica sem registro. Não no sentido burocrático, mas naquele mais fundo: ninguém viu aquilo que realmente aconteceu em mim.

Uma vida sem testemunhas não é exatamente solidão. É outra coisa. É ir ao mercado e, no meio do corredor, perceber que uma lembrança antiga voltou com força. É decidir não responder a uma provocação no trabalho e sentir, por dentro, uma pequena vitória moral que não rende aplausos. É mudar de ideia sobre algo importante — política, fé, amor — sem postar nada a respeito. Nada disso vira narrativa. Nada disso vira prova.

Vivemos num tempo em que quase tudo pede plateia. Se não foi fotografado, parece que não existiu. Se ninguém comentou, soa irrelevante. Mas há transformações que morrem se forem expostas cedo demais. Elas precisam do silêncio como o pão precisa do forno fechado. Uma vida excessivamente testemunhada corre o risco de virar performance; uma vida sem testemunhas pode virar verdade.

Lembro de algo que o brasileiro Manoel de Barros sugeria, à sua maneira torta e bela: o essencial não chama atenção. O que é mais vivo costuma ser discreto. A grama cresce sem fazer barulho; o rio muda o leito sem pedir permissão. Talvez o mesmo valha para nós. O que mais nos transforma acontece fora do enquadramento.

No cotidiano isso aparece em gestos mínimos: escolher não humilhar alguém quando se poderia, aceitar um limite próprio, desistir de ter razão. São decisões que não rendem medalhas. Ninguém bate palma quando a gente amadurece em silêncio. Mas algo se organiza por dentro, como móveis sendo rearrumados numa casa vazia.

Claro, ninguém vive totalmente sem testemunhas. Precisamos de encontros, de reconhecimento, de espelhos humanos. O problema começa quando só existimos diante deles. Quando não há mais um “eu” que continue respirando fora do olhar alheio.

Talvez uma vida bem vivida precise de dois espaços: um público, onde compartilhamos o que pode ser compartilhado; e outro secreto, onde nos tornamos quem somos sem precisar explicar. Esse segundo espaço não deixa rastros, mas deixa forma.

No fim das contas, uma vida sem testemunhas não é uma vida invisível. É uma vida que não depende de ser vista para existir. E isso, estranhamente, devolve um tipo raro de liberdade: a de ser fiel mesmo quando ninguém está olhando.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Silêncios que Gritam


Vivemos cercados de ruídos — buzinas, notificações, conversas apressadas, opiniões por todos os lados. O silêncio, nesse cenário, parece quase um luxo. Mas é nele que as coisas realmente acontecem.

Há silêncios que gritam e palavras que nada dizem. O silêncio, quando escutado, revela o que o barulho tenta esconder: nossos medos, desejos, e a voz que esquecemos de ouvir — a nossa própria.

No cotidiano, é fácil notar: o silêncio de um olhar, de uma pausa entre frases, às vezes comunica mais do que mil palavras. É ali que o outro realmente aparece, sem ruído, sem defesa. Há perguntas onde a resposta é um silêncio que comunica sem palavras audíveis.

Pascal dizia que “toda a infelicidade do homem vem de não saber ficar quieto em um quarto”. O silêncio, então, não é ausência de som, mas presença de alma. Ele não pede explicações, apenas escuta.

Talvez por isso os encontros verdadeiros sejam silenciosos. Porque é no silêncio que a verdade respira.

domingo, 7 de setembro de 2025

Incoerências da Visão

O Olho que Engana e o Mundo que Foge

A visão costuma ser tratada como o mais confiável dos sentidos. É a primeira prova que apresentamos para atestar algo: “Eu vi com meus próprios olhos”. No entanto, o ato de ver é atravessado por incoerências sutis — e às vezes cruéis — que revelam que enxergar não é sinônimo de conhecer.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti, ao refletir sobre percepção e linguagem, nos lembra que não vemos as coisas “nuas”, mas sempre filtradas por categorias, expectativas e hábitos. O olho não é uma câmera objetiva, mas um intérprete apressado. É por isso que duas pessoas podem presenciar o mesmo acidente e descrever cenas diferentes: o que a visão captou foi imediatamente moldado por memórias, medos e interesses.

No cotidiano, essa incoerência aparece nos gestos mais simples. Ao procurar as chaves que estão “bem na frente”, passamos os olhos várias vezes pelo lugar, mas não as vemos — até que, de repente, elas “surgem” no campo visual. Não foi mágica: foi o cérebro ignorando informações que, no momento, julgou irrelevantes. O mesmo vale para encontros: um amigo passa na rua, a dois metros de distância, e só depois de alguns segundos nos damos conta de que era ele. A visão não falhou no sentido físico; falhou na coerência entre dado e interpretação.

Há também incoerências mais profundas, quando o que vemos contradiz o que acreditamos. O pôr do sol, por exemplo, parece indicar que o sol se move e a Terra está parada. Milênios de ciência não mudam a impressão imediata — e, nesse caso, vemos o falso com mais nitidez que o verdadeiro.

Giannotti nos convidaria a assumir essa instabilidade não como fraqueza, mas como abertura. Se a visão é incoerente, é porque o mundo é mais complexo do que um único ponto de vista pode captar. Assim, o olho que engana também é o olho que possibilita: o erro nos força a interrogar o que julgávamos óbvio.

Talvez o maior risco não seja a incoerência em si, mas a confiança cega na visão como juiz absoluto. Ao esquecer que ver é sempre interpretar, caímos na armadilha de tomar imagens — e narrativas visuais — como verdades sólidas. Na era das telas e das manipulações digitais, essa ingenuidade se torna ainda mais perigosa.

O olho, afinal, não nos entrega o mundo. Ele nos entrega um esboço, que completamos com memória, desejo e imaginação. É nessa mistura, incoerente e fascinante, que vivemos.


sábado, 19 de julho de 2025

Exploração Ambígua

Um olhar sobre as diferentes conotações desse verbo em nosso cotidiano

Tem palavras que são como portas abertas — você passa por elas sem nem perceber. “Explorar” é uma dessas. A gente diz que vai explorar uma cidade nova nas férias, explorar as funcionalidades de um aplicativo, explorar um tema na faculdade. Mas também fala de exploração de pessoas, de trabalho, de sentimentos. A mesma palavra serve para aventura e para abuso. E talvez seja esse o ponto de partida de um pensamento mais profundo: por que algo tão cheio de energia pode carregar também um veneno?

Explorar vem do latim explorare, que significava “examinar”, “investigar com atenção”. Era algo relacionado ao ouvir (ex- + plorare, clamar ou gritar), como se o ato de explorar fosse escutar atentamente os sinais do mundo. Com o tempo, essa escuta virou movimento — e o movimento, em muitos casos, virou dominação. O explorador europeu que partia para “descobrir” terras já habitadas, o patrão que explora a mão de obra barata, o curioso que explora o outro emocionalmente só para satisfazer a própria fome de controle. A fronteira entre conhecer e abusar nem sempre é clara.

Mas há uma conotação mais sutil e até libertadora nesse verbo. Explorar também pode ser a atitude de quem se permite viver com abertura. Quem explora uma ideia nova é alguém disposto a sair da própria bolha. Quem explora a si mesmo, com honestidade, não se contenta com as máscaras que aprendeu a vestir. Neste caso, explorar é quase sinônimo de liberdade: não se trata de conquistar o outro, mas de descobrir os próprios limites — e quem sabe, superá-los.

Nietzsche dizia que é preciso viver como um explorador de abismos. Não para dominá-los, mas para olhar para dentro deles com coragem. Explorar, nesse sentido, é um exercício de existência: mergulhar no desconhecido com os próprios olhos, mesmo quando o desconhecido somos nós mesmos.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti chama atenção para esse tipo de ambiguidade em palavras que parecem simples. Em seus estudos sobre linguagem e ética, ele lembra que certos termos, como “explorar”, carregam uma tensão entre o gesto técnico e o gesto moral. Para Giannotti, o perigo está em naturalizar a linguagem da dominação, tornando aceitável a violência escondida em gestos cotidianos. Assim, quando alguém diz que “explora um talento”, a frase parece neutra — mas se perguntarmos a favor de quem?, a conotação muda.

Num mundo que valoriza tanto a produtividade, muitas vezes explorar vira sinônimo de extrair — sugar tudo até a última gota. É o turista que não vive a cidade, apenas a consome. É o algoritmo que explora nossos dados. É o capital que explora o tempo das pessoas. Quando a exploração vira prática sistemática de consumo, algo se perde do sentido original: a escuta. Em vez de escutar, impõe-se. Em vez de descobrir, exaure-se.

Por isso, talvez seja hora de recuperar um uso mais ético e sensível desse verbo. Explorar como quem caminha numa floresta: com curiosidade, mas também com respeito. Como quem toca um instrumento novo: experimentando, mas ouvindo as notas que ele pode ou não dar. Explorar não precisa ser sinônimo de tomar. Pode ser um modo de estar no mundo, mais atento, mais presente, mais disposto a acolher o que se revela — sem violar.

No fim das contas, explorar é um verbo ambíguo porque a gente também é. Entre o impulso de dominar e o desejo de conhecer, vivemos nessa tensão constante. A chave, talvez, esteja em lembrar que toda exploração envolve um risco — mas também uma escolha: a de escutar antes de invadir.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Amanhã e Agora

Neste finalzinho de terça-feira, estava pensando nos compromissos de amanhã, pensei cá comigo: "Amanhã, quando chegar o meu agora" é uma frase curta, mas cheia de camadas. Parece paradoxal: como o "agora" pode chegar "amanhã"? Mas é justamente nessa contradição que mora a poesia.

A gente vive fazendo planos, promessas para o dia seguinte, para segunda-feira, para o ano que vem, para “quando tudo se ajeitar”. A vida vira um eterno ensaio. É como se estivéssemos sempre esperando que o nosso verdadeiro momento chegue. Só que, quando o amanhã se torna hoje, ele ainda parece não ser o agora certo. Ainda não é o momento ideal, ainda falta alguma coisa.

Talvez porque o “agora” de verdade não seja uma data no calendário, mas uma disposição interior. Um instante de presença plena, quando a gente decide que esse é o momento. Não porque tudo está perfeito, mas porque a gente para de adiar.

Amanhã, quando chegar o meu agora, pode ser o instante em que deixo de esperar por mim mesmo.

Como disse o filósofo Kierkegaard, “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente.” Talvez o nosso agora nunca chegue se a gente continuar o empurrando para amanhã.

sábado, 28 de junho de 2025

Ímpeto de olhar

...e ser olhado, vamos falar sobre o desejo de existir aos olhos do outro

Todo mundo já viveu aquela cena banal e desconcertante: você está andando na rua, distraído, e de repente percebe que alguém te observa. No instante seguinte, você também olha de volta. Não há palavra, não há gesto — só a força estranha do encontro entre dois olhares. E isso basta para dar um pequeno nó na alma: por que aquele olhar nos prende? Por que é tão difícil desviar? E por que sentimos, às vezes, a compulsão de também olhar, vigiar, buscar o rosto do outro?

Esse ímpeto antigo — olhar e ser olhado — talvez seja um dos impulsos humanos mais profundos. Ele é anterior à fala, ao gesto, à escrita. Crianças pequenas já procuram os olhos da mãe antes mesmo de dizer qualquer palavra. Namorados trocam olhares mais intensos do que frases. Trabalhadores no escritório observam-se de longe para medir forças ou cumplicidades. Até nas redes sociais, mesmo sem presença física, queremos “olhares digitais”: curtidas, views, reações.

No fundo, não basta existir: queremos que alguém nos veja existir.

O olhar que define o ser: Sartre e Lacan

Jean-Paul Sartre foi quem melhor traduziu esse incômodo: no instante em que o outro me olha, eu deixo de ser puro sujeito e viro objeto na cena alheia. Estou ali, na vitrine do mundo, exposto ao julgamento. A vergonha, diz ele, nasce disso: não da nudez em si, mas de saber que há um outro me vendo nu — seja no corpo, seja nas fraquezas.

Lacan vai além: no “estádio do espelho”, o bebê se reconhece como eu só porque vê uma imagem fora de si. Somos essa distância: um sujeito que só se entende enquanto objeto de visão. O outro nos devolve uma imagem de nós mesmos — e ficamos para sempre presos a ela. A busca de aprovação, a vaidade, o medo de errar em público: tudo nasce desse laço invisível entre ver e ser visto.

O olhar como poder: Nietzsche e Foucault

Nietzsche nos lembraria que olhar é disputar força. Quem vê primeiro domina; quem é visto primeiro revela fraqueza. É uma luta ancestral de predadores e presas — só que agora nos escritórios, nas salas de aula, nos ônibus lotados. Até o flerte amoroso é um jogo de quem sustenta mais tempo o olhar sem ceder.

Michel Foucault estendeu isso à vigilância moderna: hoje o olhar se espalhou, tornou-se técnica. Câmeras, sistemas, redes sociais monitoram tudo. Estamos dentro do “panóptico”, prisão imaginada por Bentham, onde o prisioneiro nunca sabe se está sendo vigiado — e por isso vigia a si mesmo. O ímpeto de olhar e ser olhado virou método de controle social.

O olhar e o desejo de ser

Mas não é só domínio ou medo: é também desejo puro de ser. Roland Barthes escreveu que o amor começa no instante em que alguém nos olha “de maneira singular”. Não qualquer olhar, mas aquele que nos vê como únicos, como ninguém jamais viu. Daí nasce a paixão, o encantamento, o brilho especial de certos encontros.

Em tempos de Instagram, TikTok e selfies, esse desejo explodiu em espetáculo. Como alerta Byung-Chul Han, nunca se exibiu tanto o rosto, o corpo, o cotidiano — e nunca se foi tão cego para o verdadeiro encontro do olhar real. Mostrar virou substituir: em vez de ser visto no olhar do outro, queremos ser exibidos para o mercado das imagens.

O cotidiano do olhar

No trabalho, queremos o reconhecimento do chefe, o respeito dos colegas — ou pelo menos não ser invisíveis. Na amizade, buscamos cumplicidade: um olhar que nos compreenda sem palavras. No amor, queremos ser lidos por inteiro nos olhos do outro, como se ali estivesse a prova de que valemos algo.

Na política, nas ruas, o olhar também pesa: o morador de rua que desvia o olhar para não ser humilhado; o jovem negro parado pela polícia que sente o peso mortal do olhar estatal; a mulher que sente olhares invasivos no transporte público. O olhar é prazer, mas também ameaça.

O risco de perder o olhar verdadeiro

Byung-Chul Han teme que estejamos perdendo o olhar que demora, que escuta, que vê de verdade. No lugar dele, só resta a vitrine de imagens rápidas, o marketing de si mesmo, o consumo do outro como coisa. O ímpeto de ser olhado não é mais para existir — é para ser comprado, curtido, ranqueado.

Mas Emmanuel Lévinas oferece esperança: para ele, o rosto do outro me convoca à ética. No olhar do outro há uma súplica: “não me mates”. Ali nasce a responsabilidade, a humanidade. O olhar autêntico não é controle, mas abertura: permite o outro ser outro.

Concluindo: existir é aparecer?

Talvez a verdade mais incômoda seja esta: não sabemos quem somos sem o olhar alheio. Todo eu se forma no reflexo de algum espelho humano. Mas isso não nos condena: nos liberta. Somos relação, não essência isolada. Por isso o ímpeto de olhar e ser olhado é a nossa mais primitiva oração: "estou aqui, me vê". Não para dominar, não para vender — mas para ser alguém no mundo compartilhado.

Como disse Merleau-Ponty: “o mundo é o campo da visão de todos”. Olhar e ser olhado é só o modo humano de existir nesse campo aberto.

sábado, 7 de junho de 2025

Corrompido de Sentido

Agora vamos fazer uma jornada de reflexão, vamos falar o sobre o esvaziamento do comportamento humano...

Há dias em que as coisas não parecem erradas, mas… tortas. Não é um crime, mas algo parece fora do eixo. Um bom dia que soa automático, um abraço dado sem corpo, uma indignação que parece moda e não sentimento. A gente sente que algo mudou. E mudou mesmo. Não só os hábitos, mas o modo como sentimos e interpretamos esses hábitos. Como se os gestos humanos tivessem sido corrompidos não por maldade, mas por um certo esvaziamento interior. Estamos, aos poucos, sendo corrompidos de sentido.

A corrupção de sentido é mais sutil que a mentira. Ela não grita, não se impõe. Ela vai acontecendo pelas bordas, no excesso de repetição, na transformação do necessário em performance. O comportamento humano, nesse cenário, passa a simular o que antes nascia do íntimo: empatia, cuidado, respeito, verdade.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han observa, em obras como A sociedade do cansaço e A expulsão do outro, que vivemos numa era em que o excesso de positividade e a busca constante por desempenho destroem os vínculos mais humanos. Não há mais espaço para o outro real, com sua lentidão, suas contradições. No lugar disso, surgem comportamentos estéticos, calculados, que imitam a empatia sem senti-la. Sorrir virou protocolo. Escutar virou tempo perdido. Cuidar do outro virou conteúdo para postagem.

A tecnologia, por sua vez, surgiu como extensão da inteligência e da criatividade humana — um instrumento para aliviar tarefas, expandir possibilidades e conectar pessoas. No entanto, quando utilizada sem sabedoria, ela deixa de ser ferramenta e passa a ser modelo. Em vez de servir ao humano, o humano começa a imitá-la. Tornamo-nos eficientes como algoritmos, previsíveis como linhas de código, otimizados como máquinas — e, nesse processo, nossos comportamentos também se automatizam. O gesto perde intenção, o olhar perde pausa, a fala perde silêncio. Como alertou o filósofo Günther Anders, ao refletir sobre a obsolescência do homem, há um risco real de sermos substituídos não pelas máquinas em si, mas pela forma como passamos a viver como elas. A tecnologia não corrompe por si só — mas, quando usada como substituto da relação, da reflexão e da presença, ela acelera a corrosão do sentido humano.

Nietzsche, já no século XIX, alertava sobre o perigo de viver entre máscaras. No Crepúsculo dos Ídolos, ele dizia que "todo hábito torna a mão mais espirituosa, e o espírito mais preguiçoso". Aplicando isso ao comportamento, podemos dizer que repetir gestos sem consciência nos afasta do sentido real das coisas. Tornamo-nos habilidosos em parecer humanos, sem saber mais o que isso significa.

Mas não é só crítica. Também é diagnóstico. Estamos, talvez, num momento de reinvenção do comportamento. Um cansaço profundo das simulações parece se anunciar em vozes novas. A filósofa brasileira Viviane Mosé aponta para a urgência de uma ética sensível, em que o corpo, o afeto e a escuta sejam reconectados à linguagem. Para ela, a palavra só tem força quando está ligada à experiência real. Senão, é ruído.

O desafio, então, não é só individual, mas coletivo. Não basta buscarmos o "ser verdadeiro" como um ideal pessoal — é preciso cultivar espaços onde a verdade possa sobreviver. Onde o abraço não precise ser filmado, onde o silêncio não seja constrangimento, onde o cuidado não precise de like. Onde o comportamento humano recupere, devagar, o seu conteúdo.

Ser corrompido de sentido não é um destino. É uma condição. E condições podem ser enfrentadas.

Talvez o caminho seja pequeno: reaprender o gesto. Reencantar a palavra. Refazer o contato. Não com pressa, mas com presença.

Porque o que está corrompido ainda pode ser restaurado — não com verniz, mas com alma.


terça-feira, 27 de maio de 2025

Essência Viva

Vamos pensar sobre o Que De Fato Importa na Vida Para Que a Vida Seja Bem Vivida

É curioso como passamos boa parte da vida organizando as gavetas erradas. Dobramos roupas que não vamos usar, colecionamos diplomas que não dizem quem somos, alimentamos relações que não nos reconhecem. Vivemos, muitas vezes, em modo automático, presos numa coreografia repetitiva de compromissos e obrigações. Mas a grande pergunta — talvez a única realmente importante — permanece em silêncio no fundo do peito: o que, afinal, importa para que a vida seja bem vivida?

I. A Importância de Perguntar

Comecemos do começo. Antes de qualquer resposta, há o valor da pergunta. Só perguntar já é um sinal de despertar. A maioria das pessoas não se pergunta, apenas reage. E o problema de não se perguntar é que se acaba vivendo uma vida de segunda mão — feita de expectativas herdadas, desejos encomendados, conquistas que valem só para os outros.

Sócrates, o velho teimoso da Ágora, já dizia: “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” Talvez porque viver sem examinar é como atravessar uma floresta de olhos vendados — até se pode caminhar, mas não se sabe se está indo para o alto de uma montanha ou para dentro de um pântano.

II. Importa Ter ou Ser?

Vivemos sob a tirania do ter: ter dinheiro, ter sucesso, ter seguidores, ter um corpo “ideal”, ter controle. Mas se a vida bem vivida se resumisse ao acúmulo, os milionários seriam os mais felizes — e não são. Basta conversar com um deles em um momento de insônia. No fundo, o “ter” é um suporte frágil demais para sustentar o peso da existência.

Já o “ser” — esse é silencioso, mas profundo. Ser gentil quando ninguém está olhando. Ser curioso diante do desconhecido. Ser fiel ao que se ama, mesmo que dê trabalho. Ser inteiro naquilo que se faz, mesmo que seja apenas lavar a louça. Ser é quando deixamos de representar um papel e começamos a dançar a própria música.

III. A Importância das Pequenas Coisas

Um erro comum é achar que uma vida bem vivida precisa ser grandiosa, espetacular, cinematográfica. Mas talvez a vida boa esteja no ritmo das coisas pequenas: o cheiro do café pela manhã, o riso de um filho, a escuta atenta de um amigo, a caminhada sem rumo num fim de tarde. O filósofo japonês Daisetsu Suzuki dizia que o zen está em “fazer uma coisa de cada vez, com plena atenção”.

A vida que vale a pena não se mede em feitos, mas em presença. E estar presente, hoje, é quase um ato de rebeldia. Quantos de nós estão realmente onde estão?

IV. A Importância de Pertencer

Ser humano é também ser parte. Ninguém vive bem isolado. Precisamos de uma rede — de afetos, de significados, de escuta. Não se trata apenas de ter amigos, mas de saber partilhar a existência: dores, alegrias, silêncio.

Maurice Merleau-Ponty dizia que a carne do mundo é comum — somos feitos da mesma matéria que tocamos. Por isso, a vida bem vivida precisa de vínculos, mas vínculos livres, e não prisões afetivas. Laços que fortalecem, não que sufocam.

V. A Importância de Morrer um Pouco

Estranho, talvez, dizer isso. Mas viver bem implica morrer um pouco ao longo do caminho. Morrer para antigos eus. Morrer para verdades que já não nos servem. Morrer para identidades que se tornaram cárceres. A impermanência, como diz o budismo, é o tecido da existência.

A vida boa, então, é aquela em que aprendemos a soltar, em vez de acumular. Soltar medos, padrões, ilusões. O que fica, depois que tudo cai, é o que importa.

VI. E Afinal, o Que Importa?

Importa viver com sentido, mais do que com sucesso. Importa sentir, mais do que vencer. Importa ser presença, mais do que performance.

Importa olhar para trás, um dia, e perceber que não fomos apenas passageiros, mas que fomos inteiros em nossos amores, escolhas, silêncios. Que tropeçamos com dignidade. Que nos reinventamos quando necessário. Que, acima de tudo, fomos fiéis àquilo que dava brilho ao nosso olhar.

Como escreveu Fernando Pessoa pela boca de seu heterônimo Ricardo Reis:
“Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes.”

E talvez seja isso. Uma vida bem vivida não é aquela que teve tudo, mas aqui e agora.


domingo, 25 de maio de 2025

Palavras do Irreal

Não acredite nas palavras, elas não são reais, alguém pode te dizer eu te amo, mas não ser real! As palavras são “realidades”!

Essa frase carrega uma verdade incômoda, mas muito real. As palavras são, por si só, só sons ou letras — símbolos que representam algo, mas não garantem a existência do que dizem. Alguém pode te olhar nos olhos e dizer "eu te amo", mas essa frase pode estar vazia de sentimento, movida por conveniência, hábito ou até manipulação. O problema não está exatamente nas palavras, mas no que falta por trás delas: intenção, coerência, ação.

É como um "sinto muito" dito automaticamente depois de magoar alguém — pode soar educado, mas não necessariamente vem com arrependimento. Ou aquele "vamos marcar algo" que já carrega o vazio do "nunca vai acontecer". Palavras são “realidades”.

Na filosofia, Nietzsche desconfiava profundamente da linguagem. Para ele, as palavras são como máscaras — podem revelar algo, mas também esconder. Em Além do Bem e do Mal, ele escreve que “todo conceito vem ao mundo com uma ilusão”, pois tentamos fixar com palavras algo que é sempre fluido.

No cotidiano, isso acontece muito. Quando alguém diz "está tudo bem" mas o olhar está perdido, ou "não me importo" quando claramente se importa. Por isso, talvez seja mais sábio observar os gestos, os silêncios, os pequenos rituais de cuidado que não se anunciam com frases prontas.

Palavras são importantes, sim. Mas, sozinhas, não bastam. Como dizia Guimarães Rosa: "as pessoas não morrem, ficam encantadas". Assim também são as palavras verdadeiras — encantam, porque estão cheias de presença, mesmo quando são poucas.

O amor, por exemplo, se diz muito melhor num gesto simples — como lembrar o tipo de chá favorito da pessoa — do que num "eu te amo" dito por inércia.

Então, sim: não acredite cegamente nas palavras. Observe se há vida nelas.

Mas vamos ampliar a reflexão com essa pergunta poderosa: se as palavras não são confiáveis, como então enxergar o real? Como tocar a verdade num mundo que fala demais?

A resposta pode estar num lugar mais silencioso: a escuta. Mas não a escuta do que o outro diz — e sim do que o outro é. Ver o real exige observar o que não precisa ser dito. O corpo fala, os olhos falam, os gestos têm uma linguagem mais fiel do que qualquer frase ensaiada.

Pensa nas vezes em que alguém te abraçou sem dizer nada, mas você sentiu que ali havia verdade. Ou quando alguém te escutou de verdade — não interrompendo, não opinando, só estando presente. Isso é mais raro que um "eu te amo", mas talvez muito mais verdadeiro.

A filósofa Simone Weil dizia que "a atenção pura, sem mistura, é oração". E talvez seja isso: a alternativa às palavras é a atenção. Quem vê com atenção, vê o real. Quem escuta com o corpo inteiro, capta o que está por trás do discurso. A presença verdadeira, silenciosa e sem artifícios, tem uma força quase mística.

No dia a dia, isso significa tirar o foco do que se ouve e colocar no que se percebe. Como a pessoa age quando ninguém está olhando? Como ela trata quem não pode lhe oferecer nada? Como se move quando não está tentando impressionar?

A verdade é muitas vezes tímida, discreta, quase muda. E quem se apressa com palavras demais, quase sempre passa por cima dela sem perceber.

Então, se as palavras são duvidosas, a alternativa é sentir mais do que ouvir. Observar mais do que perguntar. Silenciar um pouco dentro de si para que o real tenha espaço de aparecer, e acima de tudo olhar para pessoa na sua totalidade.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Os Muitos


Há momentos em que somos invadidos pela sensação de estarmos cercados por "os muitos". No trânsito, num mercado lotado, na multidão silenciosa do transporte público. Um conjunto de pessoas reunidas por acaso, mas que, paradoxalmente, compartilham um fragmento de tempo e espaço. O que significa estar entre muitos? Quem são, afinal, "os muitos"?

Mas há também outra multidão: a que habita dentro de nós. Aqueles pequenos “eus” que surgem conforme a situação. O que acorda otimista. O que critica tudo. O que ama. O que teme. O que apenas observa. Em certas manhãs, somos como um condomínio interno, com vários moradores discutindo silenciosamente qual caminho tomar. Não raro, agimos sem saber qual “eu” tomou a decisão. E mesmo quando achamos que sabemos, há dúvida: foi mesmo escolha ou reflexo? Intuição ou impulso? Foi, em termos filosóficos, justificado, verdadeiro e acreditado?

Essa última tríade, a definição clássica de conhecimento herdada de Platão, parecia sólida até Edmund Gettier, em 1963, publicar um curto artigo que desmontaria sua simplicidade. Gettier mostrou que é possível termos uma crença verdadeira, justificada — e mesmo assim não termos conhecimento. Seus contraexemplos são simples, quase banais, mas desestruturam a base do saber: alguém pode ter todas as razões do mundo para acreditar em algo, aquilo pode inclusive ser verdade — mas se a verdade surgir por acaso, sem uma causa suficiente, então o que há ali não é conhecimento, é sorte.

E aqui surge o ponto: a causa suficiente. A verdadeira raiz da certeza. Aquilo que une os elementos da experiência de forma sólida, legítima. Sem ela, somos apenas muitos fatos desconexos, coincidências andando de mãos dadas com suposições bem embasadas.

Será que não somos, também nós, como os exemplos de Gettier? Fragmentos bem articulados, mas cuja ligação é acidental? Um eu que acredita em si, justifica seus atos, parece coerente — mas que, sem a causa suficiente, é apenas uma construção de sorte?

Vivemos em tempos em que o "saber de si" é moeda valorizada. Autoconhecimento, propósito, identidade. Mas o que acontece quando essa identidade é formada por dados verdadeiros e bem justificados... só que por razões erradas? O "eu" que você acredita ser pode ser resultado de uma cadeia causal que não garante sua legitimidade. Você pode se definir por um trauma mal interpretado. Por uma memória adulterada. Por um elogio que fixou um papel social que nunca lhe pertenceu.

A causa suficiente — o elo profundo entre nossas crenças e a realidade — é o que nos falta quando seguimos vivendo no automático, quando a vida se transforma numa colagem de eventos sem costura. E aqui os muitos voltam, mas em outro sentido: somos muitos eus justificados, porém, como em Gettier, sem garantia de estarmos certos.

E na sociedade? Aquela outra multidão externa, da rua, do trabalho, da cidade — não é também ela uma coleção de crenças verdadeiras e justificadas sobre si mesma, mas talvez sem a causa suficiente que garanta sentido? Seguimos protocolos, repetimos gestos, consumimos ideias. Mas por quê? Porque há verdade nisso — ou porque todos ao redor parecem agir do mesmo modo?

A filósofa brasileira Marilena Chauí certa vez disse que “a ideologia é aquilo que transforma o que é histórico em natural”. Pode-se dizer o mesmo das muitas versões de nós mesmos. Naturalizamos identidades formadas por contingências. Em outras palavras: vivemos dentro de problemas de Gettier.

Sair disso talvez seja um esforço por profundidade. Um desejo de alinhar as justificativas com a realidade, não apenas para parecer coerente, mas para de fato saber quem se é. Isso exige um gesto quase subversivo: olhar para dentro e admitir que talvez a verdade que achamos ter não seja suficiente. E, ao olhar para fora, reconhecer que a multidão não é um ruído indistinto, mas um conjunto de indivíduos também atravessados pela dúvida sobre suas próprias causas suficientes.

No final das contas, somos muitos — por dentro e por fora. E o desafio talvez seja este: não viver apenas entre os muitos, mas encontrar, nesse emaranhado, as causas suficientes que sustentem não só nossas crenças, mas nossa existência com sentido.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Psicopatologia do Cotidiano

Já parou para pensar naqueles momentos em que você esquece uma palavra importante, troca o nome de alguém ou perde um objeto que parecia estar bem à sua frente? Para muitos, isso é apenas parte do cotidiano, fruto do cansaço ou distração. Mas Freud, em A Psicopatologia da Vida Cotidiana, nos convida a ir além dessa explicação superficial. Ele sugere que esses pequenos "acidentes" do dia a dia podem ser pistas valiosas sobre o que realmente se passa no nosso inconsciente.

Ler essa obra é como abrir uma janela para si mesmo. Ao entender melhor esses lapsos e atos falhos, começamos a interpretar a nossa própria vida com mais profundidade. Mais do que um simples manual de psicanálise, o livro nos ajuda a enxergar o autoconhecimento de uma forma prática: através dos erros e esquecimentos que, por mais banais que pareçam, podem revelar muito sobre quem somos e o que estamos reprimindo.

A psicopatologia da vida cotidiana é um termo que ganhou força principalmente com Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Freud investigou os pequenos erros e lapsos que cometemos no dia a dia, como lapsos de memória, trocas de palavras (conhecidos como atos falhos) e esquecimentos, argumentando que esses fenômenos não são meros acidentes, mas revelam muito sobre o inconsciente. Ele acreditava que esses pequenos deslizes são manifestações de desejos reprimidos, conflitos internos ou tensões emocionais não resolvidas.

Você já esqueceu o nome de alguém importante ou disse uma palavra que soou totalmente errada durante uma conversa formal? Segundo Freud, esses erros não são por acaso. Imagine-se num ambiente de trabalho, onde, de repente, você troca o nome de um colega com o de outro, especialmente se houver algum tipo de tensão ou atração não reconhecida. Esse simples ato pode ser uma forma do inconsciente falar mais alto, mesmo que o lado consciente tente controlar a situação.

Outro exemplo comum é perder um objeto importante justamente no dia em que você tem uma reunião estressante ou algo que não quer enfrentar. Na teoria freudiana, isso pode ser visto como uma resistência inconsciente, uma forma de evitar enfrentar situações de desconforto emocional. O cérebro “sabota” a ação consciente, revelando um desejo oculto de escapar daquela responsabilidade ou confronto.

Esses pequenos sinais, segundo Freud, são como janelas que permitem vislumbrar os processos psicológicos mais profundos. A vida cotidiana, repleta de erros aparentemente insignificantes, pode ser um reflexo das nossas complexidades internas.

Freud escreveu sobre isso em sua obra A Psicopatologia da Vida Cotidiana, onde analisou casos detalhados de lapsos e atos falhos, mostrando como cada um deles pode revelar camadas mais profundas do psiquismo. Assim, a psicopatologia cotidiana traz à tona um novo olhar sobre o cotidiano: a ideia de que nada é completamente “inocente” e que nossos pequenos erros podem ter muito a dizer sobre quem somos. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

O Amor é uma Falácia?


O Amor é uma Falácia?
A blogada de hoje vai para quem gosta de lógica, e é dedicado para os amantes e enamorados, principalmente para aqueles que gostariam que o outro fosse diferente.
Alguns anos atrás levei para sala de aula o texto “O Amor é uma Falácia”, e percebi que as turmas gostaram bastante, a partir daí despertou interesse e nasceram algumas brincadeiras interessantes.
Imaginar o que poderia ter se passado após a leitura, precisa primeiro que tenham conhecimento do texto, para isto compartilho o texto de M. Sulman:

O Amor é uma Falácia
M. Sulman
Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto - era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - dezoito anos.
Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Petey, no entanto, não pensava assim.
Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.
- Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.
- Couro preto - balbuciou ele.
- Couro preto? - disse eu, interrompendo a minha corrida.
- Quero uma jaqueta de couro preto - disse.
Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.
- Por que você quer uma jaqueta de couro preto?
- Eu devia ter adivinhado - gritou ele, socando a cabeça - Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar uma jaqueta de couro preto.
- Quer dizer - perguntei incrédulo - que estão mesmo usando jaquetas de couro preto outra vez?
- Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?
- Na biblioteca - respondi, citando um lugar não freqüentado pela pessoas importantes da Universidade.
Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.
- Preciso conseguir uma jaqueta de couro preto - disse, exaltado - Preciso mesmo.
- Por que, Pety? Veja a coisa racionalmente. Jaquetas de couro preto são desconfortáveis. Impedem o movimento dos braços. São pesadas, são feias, são ...
- Você não compreende - interrompeu ele com impaciência - é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?
- Não - respondi, sinceramente.
- Pois eu sim - declarou ele - daria tudo para ter uma jaqueta de couro preto. Tudo.
Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.
- Tudo? - perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.
- Tudo - confirmou ele, em tom dramático.
Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar uma jaqueta de couro preto. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um malão, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.
Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.
Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.
Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.
Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho - sem nem sequer umedecer os dedos.
Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.
- Petey - perguntei - você ama Polly Spy?
- Eu acho que ela é interessante - respondeu - mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?
- Você - continuei - tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?
- Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por quê?
- Existe alguém - perguntei - algum outro homem que ela goste de maneira especial?
- Que eu saiba não. Por quê?
Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.
- Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?
- Acho que sim. Aonde você quer chegar?
- Nada, anda - respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.
- Onde é que você vai? - quis saber Petey.
- Passar o fim de semana em casa.
Atirei algumas roupas dentro da mala.
- Escute - disse Petey, apegando-se com força ao meu braço - em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar uma jaqueta de couro preto?
- Posso até fazer mais do que isso - respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.
- Olhe - disse a Petey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.
- Santo Pai - exclamou Petey com reverência. Passou as mãos na jaqueta e depois no rosto.
- Santo Pai - repetiu, umas quinze ou vinte vezes.
- Você gostaria de ficar com ele? - perguntei.
- Sim - gritou ele, apertando a jaqueta contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. - O que quer em troca?
- A sua namorada - disse eu, não desperdiçando palavras.
- Polly? - sussurrou Petey, horrorizado. - Você quer a Polly?
- Isso mesmo.
Ele jogou a jaqueta pra longe.
- Nunca - declarou resoluto.
Dei de ombros.
- Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.
Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Petey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido em dois. Primeiro olhava para a jaqueta com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para a jaqueta. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para a jaqueta com pura lascívia.
- Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly - balbuciou. - Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.
- Isso mesmo - murmurei.
- Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?
- Nada - respondi.
- Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.
- Experimente a jaqueta - disse eu.
Ele obedeceu. A jaqueta ficou bem larga, passando da cintura. Ele parecia um motoqueiro mal vestido da década de cinqüenta.
- Serve perfeitamente - disse, contente.
Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.
- Negócio feito?
Ele engoliu a seco.
- Feito - disse, e apertou a minha mão.
Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.
O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.
- Puxa, que jantar interessante! - disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.
- Puxa, que filme interessante! - disse ela, quando saímos do cinema.
Levei-a para casa.
- Puxa, que noite interessante - disse ela, ao nos despedirmos.
Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Petey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.
Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.
- Polly - disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. - Esta noite vamos até o parque conversar.
- Ah, que interessante! - respondeu ela.
Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.
Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.
- Sobre o que vamos conversar? - perguntou.
- Sobre Lógica.
Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:
- Interessante!
- A Lógica - comecei, limpando a garganta - é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.
- Interessante! - exclamou ela, batendo palmas de alegria.
Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.
- Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.
- Vamos - animou-se ela, piscando os olhos com animação.
- Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.
- Eu estou de acordo - disse Polly, fervorosamente. - Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.
- Polly - disse eu, com ternura - o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?
- Não - confessou ela. - Mas isso é interessante. Quero mais. Quero mais!
- Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa - disse eu e, quando ela parou, continuei:
- Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.
- É mesmo? - espantou-se Polly. - Ninguém?
Contive a minha impaciência.
- É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.
- Você conhece outras falácias? - perguntou ela, animada. - Isto é até melhor do que dançar.
- Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.
- A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.
- Eu conheço uma pessoa exatamente assim - exclamou Polly. - Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique...
- Polly - interrompi, com energia - é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.
- Nunca mais farei isso - prometeu ela, constrangida. - Você está bravo comigo?
- Não Polly - suspirei. - Não estou bravo.
- Então conte outra falácia.
- Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.
- Vamos - exclamou ela alegremente.
Franzi a testa, mas continuei.
- Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?
- É claro - respondeu ela imediatamente.
- Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.
- É mesmo - disse ela, pensativa. - Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.
- Mas ele pode fazer tudo - lembrei-lhe.
Ela coçou a cabeça linda e vazia.
- Estou confusa - admitiu.
- É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?
- Conte outra dessas histórias interessantes - disse Polly, entusiasmada.
Consultei o relógio.
- Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.
Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente interessante, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.
Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.
Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:
- Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.
Ela estremeceu de emoção.
- Ouça com atenção - comecei - Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher e aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.
Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.
- Isso é horrível, horrível! - soluçou.
- É horrível - concordei - mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?
Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.
- A seguir - disse, controlando o tom da voz - discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por quê, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?
- Pois olhe - disse ela entusiasmada - está e a idéia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.
- Polly - disse eu com impaciência - o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.
- Continuo achando a idéia interessante - disse Polly.
- Santo Cristo! - murmurei, com impaciência.
- A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.
- Essa parece ser boa - foi a reação de Polly.
- Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.
- É mesmo, é mesmo - concordou Polly, sacudindo a cabeça. - Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.
- Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos - disse eu, friamente - gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.
- Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes - disse Polly - Eu quase não vejo ele no cinema.
Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.
- A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.
- Que engraçadinho! - deliciou-se Polly.
- Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: ‘o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser’. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?
Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência - o primeiro que vira - surgiu nos seus olhos.
- Não é justo! - disse ela com indignação - Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar... Polly, estou orgulhoso de você.
- Ora - murmurou ela, ruborizando de prazer.
- Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.
- Vamos lá - disse ela, com um abano distraído da mão.
Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha idéia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.
Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.
Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.
- Polly, disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore - hoje não falaremos de falácias.
- Puxa! - disse ela, desapontada.
- Minha querida - prossegui, favorecendo-a com um sorriso - hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.
- Generalização apressada - exclamou ela, alegremente.
- Perdão - disse eu.
- Generalização apressada - repetiu ela. - Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?
Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.
- Minha querida - disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão - cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.
- Falsa Analogia - disse Polly prontamente - eu não sou um bolo, sou uma pessoa.
Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.
- Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. For favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.
Pronto, pensei; está liquidado o assunto.
- Ad misericordiam - disse Polly.
Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.
- Bem, Polly - disse, forçando um sorriso - não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.
- Aprendi mesmo - respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.
- E quem foi que ensinou a você, Polly?
- Foi você.
- Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.
- Hipótese Contrária ao Fato - disse ela sem pestanejar.
Enxuguei o suor do rosto.
- Polly - insisti, com voz rouca - você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.
- Dicto Simpliciter - brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.
Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.
- Você vai ou não vai me namorar?
- Não vou - respondeu ela.
- Por que não? - exigi.
- Porque hoje à tarde eu prometi a Petey Bellows que eu seria a namorada dele.
Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!
- Aquele rato! - gritei, chutando a grama. - Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.
- Envenenar o poço - disse Polly - E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.
Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.
- Muito bem - disse - você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Petey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Petey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Petey Bellows?
- Posso sim - declarou Polly - Ele tem uma jaqueta de couro preto.
( in Sulman, M. (1973): As calcinhas cor-de-rosas do Capitão, Porto Alegre: Ed. Globo)

Espero que tenham gostado, e principalmente despertado interesse nas falacias, com elas aprendemos o jogo do cotidiano.
Em nossa convivencia diaria quantas vezes encontramos situações onde as falacias são utilizadas, as vezes damos-nos conta e seguimos com o jogo, dando em troca o troco com outra falacia sem interromper o ciclo.
Para quem não sabe uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, inválido, ou falho na capacidade de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso.
Reconhecer as falácias é por vezes difícil. Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica ou emotiva, mas não validade lógica.
É importante conhecer os tipos de falácia para evitar armadilhas lógicas na própria argumentação e para analisar a argumentação alheia.
Espero que tenham aproveitado, um ótimo fim de semana a todos e todas.