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sábado, 3 de janeiro de 2026

Ética do Cuidado


Cuidado Discreto

É aquela que quase não aparece — e justamente por isso sustenta muita coisa sem receber aplauso algum. Eu penso nela como um cuidado que não faz barulho, não posta foto, não pede reconhecimento. É o gesto pequeno: baixar o tom da voz para não ferir, respeitar um silêncio que não é seu, ajudar sem expor, corrigir sem humilhar. Um cuidado que acontece nos bastidores da vida cotidiana.

No nosso imaginário moral, o bem costuma vir em versão épica: grandes causas, discursos inflamados, gestos públicos. Mas a ética do cuidado discreto mora no anti-heroísmo. Ela acontece quando alguém percebe o cansaço do outro e não exige explicações. Quando escolhe não vencer uma discussão porque percebe que o preço seria alto demais. Quando cuida sem transformar o cuidado em capital moral.

Há algo profundamente ético em não usar o outro como palco da própria virtude.

No cotidiano, isso aparece o tempo todo. No trabalho, é aquele colega que protege o erro alheio em vez de expô-lo. Na família, é quem sustenta a rotina para que os demais possam desmoronar em paz. Na amizade, é quem escuta sem transformar a dor do outro em conselho automático. O cuidado discreto não invade — ele acompanha.

Leonardo Boff, ao falar da ética do cuidado, lembra que cuidar é uma atitude anterior a qualquer norma: é um modo de estar no mundo. Mas o cuidado discreto acrescenta algo importante a isso: nem todo cuidado precisa ser visível para ser verdadeiro. Às vezes, a visibilidade contamina o gesto; transforma o outro em meio, e não em fim.

Existe também um risco silencioso aqui: quem cuida discretamente pode se tornar invisível. Por isso, essa ética não é uma apologia ao autoapagamento. Ela exige maturidade: saber cuidar sem se anular, ajudar sem se sacrificar como espetáculo, estar presente sem desaparecer.

Talvez o critério seja simples, mas exigente:

O cuidado discreto é aquele que, se ninguém nunca souber que você o fez, ainda assim faria sentido tê-lo feito.

Num tempo de excessos — de opinião, de exposição, de julgamento —, essa ética parece quase subversiva. Ela não grita “olhem como sou bom”. Ela sussurra: “você não está sozinho”.

E isso, muitas vezes, basta.