Cuidado Discreto
É
aquela que quase não aparece — e justamente por isso sustenta muita coisa sem
receber aplauso algum. Eu penso nela como um cuidado que não faz barulho, não
posta foto, não pede reconhecimento. É o gesto pequeno: baixar o tom da voz
para não ferir, respeitar um silêncio que não é seu, ajudar sem expor, corrigir
sem humilhar. Um cuidado que acontece nos bastidores da vida cotidiana.
No
nosso imaginário moral, o bem costuma vir em versão épica: grandes causas,
discursos inflamados, gestos públicos. Mas a ética do cuidado discreto mora no
anti-heroísmo. Ela acontece quando alguém percebe o cansaço do outro e não
exige explicações. Quando escolhe não vencer uma discussão porque percebe que o
preço seria alto demais. Quando cuida sem transformar o cuidado em capital
moral.
Há
algo profundamente ético em não usar o outro como palco da própria virtude.
No
cotidiano, isso aparece o tempo todo. No trabalho, é aquele colega que protege
o erro alheio em vez de expô-lo. Na família, é quem sustenta a rotina para que
os demais possam desmoronar em paz. Na amizade, é quem escuta sem transformar a
dor do outro em conselho automático. O cuidado discreto não invade — ele
acompanha.
Leonardo
Boff, ao falar da ética do cuidado, lembra que cuidar é
uma atitude anterior a qualquer norma: é um modo de estar no mundo. Mas o
cuidado discreto acrescenta algo importante a isso: nem todo cuidado precisa
ser visível para ser verdadeiro. Às vezes, a visibilidade contamina o
gesto; transforma o outro em meio, e não em fim.
Existe
também um risco silencioso aqui: quem cuida discretamente pode se tornar
invisível. Por isso, essa ética não é uma apologia ao autoapagamento. Ela exige
maturidade: saber cuidar sem se anular, ajudar sem se sacrificar como
espetáculo, estar presente sem desaparecer.
Talvez
o critério seja simples, mas exigente:
O
cuidado discreto é aquele que, se ninguém nunca souber que você o fez, ainda
assim faria sentido tê-lo feito.
Num
tempo de excessos — de opinião, de exposição, de julgamento —, essa ética
parece quase subversiva. Ela não grita “olhem como sou bom”. Ela sussurra:
“você não está sozinho”.
E
isso, muitas vezes, basta.