A nostalgia como ideologia, o medo da liberdade e a tentativa de restaurar um mundo que já não existe, o tema parece simples, mas não é, muito se fala, muito se ouve agressões verbais chamando alguém de reacionário, portanto para escrever este ensaio foi necessário pesquisar e buscar os diferentes olhares. Vamos lá.
Afinal, o que o
reacionário quer recuperar?
Vamos
começar com uma pergunta aparentemente simples: por que algumas pessoas, diante
das transformações do mundo, preferem acreditar que a solução está em voltar ao
passado?
Quando
a sociedade muda, mudam também os costumes, as relações familiares, os valores
morais, as formas de trabalhar, as identidades e até a maneira como entendemos
a autoridade. Para alguns, essas mudanças representam conquistas. Para
outros, significam a perda de um mundo no qual sabiam exatamente quem eram,
qual era o seu lugar e quem tinha o direito de mandar.
É
nesse segundo movimento que encontramos o reacionário.
Mas
seria superficial definir o reacionário simplesmente como alguém conservador ou
contrário às novidades. O conservador pode desejar preservar instituições que
considera importantes; o reacionário vai além: frequentemente deseja
reconstruir uma ordem anterior, real ou imaginada, na qual acredita encontrar a
solução para as angústias do presente.
O
problema começa quando o passado deixa de ser uma experiência a compreender e
se transforma numa autoridade que não pode ser questionada.
O
reacionário não quer apenas que as coisas mudem menos. Em determinadas
circunstâncias, quer que a história desfaça o caminho percorrido. Pretende
recuperar hierarquias, certezas e formas de obediência que as transformações
sociais tornaram discutíveis. Sua promessa é restauradora: se o presente parece
caótico, basta retornar à ordem antiga.
Mas
há uma contradição nessa promessa: como restaurar um mundo cujo desaparecimento
foi justamente o resultado da própria história?
Este
ensaio parte de uma hipótese: o reacionarismo não é apenas uma posição
política, mas uma atitude diante do tempo, da liberdade e da incerteza.
É uma tentativa de resolver os conflitos do presente por meio da idealização do
passado. Para compreender essa atitude, precisamos recorrer à filosofia e à
sociologia contemporâneas, observando como o medo, o ressentimento, a
desigualdade e a disputa pela identidade podem transformar a nostalgia em
projeto político.
O reacionário e a
fabricação de um passado perfeito
Todo
ser humano tem alguma relação afetiva com o passado. Recordamos a infância,
valorizamos tradições e procuramos referências que deem continuidade à nossa
existência. Isso, por si só, não tem nada de reacionário.
A
questão aparece quando a memória deixa de reconhecer as contradições do passado
e começa a selecioná-las de maneira conveniente.
A
sociedade antiga passa a ser descrita como mais honesta, a família de ontem
como mais sólida, a juventude como mais respeitosa e a autoridade como mais
legítima. Desaparecem da narrativa a violência doméstica naturalizada, a
exclusão das mulheres, o racismo institucional, a falta de direitos
trabalhistas e o silenciamento de grupos inteiros.
O
passado é reconstruído como um paraíso perdido.
O
reacionário realiza, assim, uma operação curiosa: critica a sociedade
contemporânea por suas imperfeições, mas compara essa realidade concreta com
uma representação idealizada de outra época. O presente é julgado por seus
problemas reais; o passado, por suas lembranças seletivas.
Essa
assimetria produz a ilusão de que antigamente tudo funcionava melhor.
A
pergunta sociológica, portanto, não é somente por que as pessoas sentem
saudade, mas quem ganha autoridade quando determinada versão do passado é
apresentada como modelo obrigatório para o presente?
Quando
a antiga organização familiar é proclamada como a única legítima, por exemplo,
não se está apenas celebrando uma tradição. Pode-se estar reivindicando a
restauração de papéis de gênero específicos. Quando a disciplina do passado é
apresentada como solução universal, talvez se esteja defendendo o retorno de
relações de obediência que dispensavam a participação dos subordinados.
A
memória torna-se ideologia quando esconde aquilo que precisa ser esquecido para
que uma ordem pareça natural.
Zygmunt Bauman: o
reacionário diante de um mundo líquido
Modernidade
líquida, insegurança e busca por estabilidade.
Bauman
ajuda a compreender como a fragilidade dos vínculos sociais e a aceleração das
transformações podem alimentar a procura por certezas.
Na
interpretação de Bauman, a modernidade líquida é marcada pela instabilidade das
relações, pela transformação constante das instituições e pela dificuldade de
construir segurança duradoura.
O
trabalho muda, as profissões desaparecem, as relações afetivas se reorganizam e
as identidades deixam de parecer destinos fixos. Aquilo que antes era
apresentado como permanente passa a exigir negociação.
Para
algumas pessoas, essa liberdade abre possibilidades. Para outras, produz
desorientação.
É
nesse cenário que o discurso reacionário pode adquirir força. Ele oferece
respostas simples para uma realidade complexa: a sociedade está desorganizada
porque abandonou a tradição; as famílias estão em crise porque perderam os
antigos valores; os jovens estão perdidos porque deixaram de obedecer.
A
promessa reacionária é devolver solidez a um mundo percebido como instável.
Imagine
um trabalhador que perde o emprego em razão de mudanças tecnológicas, enfrenta
dificuldades econômicas e percebe que sua posição social já não lhe oferece o
reconhecimento de antes. Sua angústia é material, mas também simbólica. Ele
pode sentir que perdeu não apenas renda, mas dignidade, pertencimento e
influência.
Um
discurso político pode interpretar essa experiência como consequência de
decisões econômicas, concentração de riqueza e precarização do trabalho. Outro
pode atribuí-la à decadência moral, à presença de estrangeiros ou à perda dos
costumes tradicionais.
A
segunda explicação pode ser emocionalmente sedutora porque oferece culpados
identificáveis e uma narrativa de restauração.
Isso
não significa que todo indivíduo inseguro se torne reacionário, nem que todo
apelo à tradição seja manipulador. Significa que a insegurança pode criar
condições favoráveis para projetos políticos que prometem uma ordem simples em
troca da redução da pluralidade.
A
liberdade assusta quando a pessoa não dispõe dos recursos materiais e
simbólicos necessários para exercê-la. O reacionarismo pode transformar esse
medo em desejo de autoridade.
Wendy Brown: quando a
liberdade se transforma em ressentimento
Neoliberalismo,
democracia e reação política.
Brown
investiga como transformações econômicas e políticas podem enfraquecer a
democracia e alterar a maneira como as pessoas compreendem sua liberdade.
Uma
contribuição importante de Wendy Brown é mostrar que o neoliberalismo não deve
ser entendido somente como um conjunto de políticas econômicas. Ele também pode
funcionar como uma racionalidade que submete diferentes esferas da vida à
competição, à lógica do mercado e à avaliação individual de desempenho.
Nesse
contexto, problemas coletivos passam a ser interpretados como fracassos
pessoais. O indivíduo é responsabilizado por sua pobreza, sua insegurança e sua
incapacidade de competir, mesmo quando enfrenta estruturas sociais
profundamente desiguais.
Mas
existe uma consequência adicional: quando a promessa de autonomia individual
não se realiza, a frustração pode ser convertida em ressentimento político.
O
indivíduo que se imaginava merecedor de reconhecimento sente que perdeu algo
que lhe pertencia. A ampliação dos direitos de outros grupos pode ser
percebida, equivocadamente, como a causa dessa perda. Em vez de questionar as
estruturas que distribuem poder e riqueza, ele pode passar a combater aqueles
que considera responsáveis pela transformação da sociedade.
Pensemos
no debate sobre a igualdade de gênero. A conquista de maior autonomia pelas
mulheres não elimina automaticamente as dificuldades econômicas dos homens, nem
resolve as crises familiares. Entretanto, discursos reacionários podem
apresentar essa autonomia como uma ameaça à ordem social e à identidade
masculina.
A
questão deixa de ser como construir relações mais justas e passa a ser como
restaurar uma hierarquia anterior.
A
mesma lógica pode aparecer nos debates sobre direitos raciais, diversidade
cultural e reconhecimento de minorias. O avanço de direitos que antes eram
negados pode ser interpretado por setores privilegiados como uma perda de
status, mesmo quando não representa a supressão de seus direitos fundamentais.
Aqui
surge uma distinção decisiva: perder um privilégio não é necessariamente perder
um direito; deixar de ocupar uma posição superior não significa ser tratado
injustamente.
O
reacionarismo tende a confundir essas duas situações quando apresenta a
igualdade como inversão da ordem natural.
A
contribuição de Brown permite perceber que o ressentimento não nasce apenas do
ódio. Pode nascer também da incapacidade de compreender uma transformação
social sem interpretá-la como humilhação pessoal.
Albert O. Hirschman: a
retórica da reação
A
retórica reacionária e os argumentos contra a mudança.
Em
The Rhetoric of Reaction (1991), Hirschman analisa padrões
argumentativos recorrentes usados para combater reformas sociais e políticas.
Hirschman
oferece uma ferramenta especialmente útil para identificar o reacionarismo sem
depender de rótulos ideológicos.
Ele
descreve três grandes argumentos que reaparecem em discursos contrários a
mudanças sociais: a perversidade, a futilidade e o risco.
- Perversidade:
a reforma produzirá o contrário do que pretende. Uma política de inclusão,
por exemplo, acabaria gerando mais exclusão.
- Futilidade:
a mudança não alterará verdadeiramente a estrutura social. A luta por
direitos seria inútil porque as coisas permaneceriam essencialmente
iguais.
- Risco:
a transformação ameaçaria conquistas anteriores. Ampliar direitos ou
reformar instituições colocaria em perigo a estabilidade da sociedade.
Esses
argumentos não são necessariamente falsos em todas as situações. Reformas podem
produzir consequências inesperadas, ser ineficazes ou ameaçar valores
legítimos. O problema está em empregá-los como respostas automáticas, sem
examinar evidências ou admitir a possibilidade de melhorias.
Imagine
uma discussão sobre a ampliação do acesso à universidade. O argumento da
perversidade afirma que a inclusão prejudicará a qualidade do ensino; o da
futilidade sustenta que ela não mudará a desigualdade; o do risco diz que o
sistema existente será destruído.
Cada
afirmação exige investigação. Quais indicadores definem qualidade? Que
resultados a política produziu? Quais riscos podem ser reduzidos por meio de
ajustes?
O
pensamento crítico transforma essas alegações em hipóteses verificáveis. A
retórica reacionária, quando dogmática, transforma-as em razões suficientes
para rejeitar a mudança antes mesmo de examiná-la.
Hirschman
nos ajuda, portanto, a reconhecer uma característica fundamental do
reacionarismo: não é apenas a preferência pelo passado, mas a tendência a
considerar que as tentativas de construir um futuro diferente estão condenadas
de antemão.
Byung-Chul Han: o cansaço
de ser livre
Desempenho,
exaustão e crise da subjetividade.
Han
examina como a pressão por desempenho e a autoexploração afetam a experiência
contemporânea da liberdade.
Em
Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve uma sociedade na qual o
indivíduo é pressionado a produzir, melhorar a si mesmo e transformar cada
capacidade em oportunidade de desempenho.
A
dominação já não precisa aparecer sempre como uma ordem externa. O sujeito pode
tornar-se o próprio fiscal, cobrando produtividade, sucesso e aperfeiçoamento
permanentes.
Embora
Han não formule uma teoria geral do reacionarismo, sua análise permite
compreender uma de suas condições subjetivas: o esgotamento diante da obrigação
de escolher continuamente.
A
liberdade contemporânea pode ser experimentada como uma tarefa interminável. É
preciso escolher uma carreira, construir uma identidade, administrar relações,
posicionar-se diante de debates públicos e demonstrar competência em um mundo
competitivo.
O
reacionarismo oferece uma saída aparentemente simples: devolver a decisão à
autoridade, substituir a negociação pela obediência e transformar a
complexidade em mandamentos.
Em
vez de perguntar como formar cidadãos capazes de lidar com a incerteza,
pergunta-se como restaurar uma sociedade na qual cada pessoa conhecia seu
lugar.
A
nostalgia pela disciplina pode, nesse sentido, esconder um desejo de descanso.
Quem se sente sobrecarregado pela multiplicidade de escolhas pode encontrar
alívio na promessa de uma ordem que decida por ele.
Mas
há uma ironia: ao entregar sua autonomia a uma autoridade que promete eliminar
a incerteza, o indivíduo pode perder justamente os recursos de que precisaria
para enfrentar as dificuldades do presente.
A
liberdade não elimina a angústia. Porém, eliminar a liberdade tampouco elimina
as causas sociais da angústia.
O reacionário e a
política do medo: uma análise do presente brasileiro
No
Brasil, o reacionarismo deve ser compreendido dentro de uma história marcada
por desigualdades persistentes, autoritarismo, escravidão, concentração de
renda e disputas sobre a memória nacional.
A
idealização de uma época anterior pode apagar as experiências daqueles que
nunca tiveram acesso aos benefícios da ordem celebrada.
Quando
alguém afirma que antigamente havia mais respeito, por exemplo, é necessário
perguntar: respeito entre quem? Garantido por quais instituições? E quem podia
contestar uma autoridade sem sofrer punições?
Em
sociedades profundamente desiguais, a aparente harmonia pode ter dependido do
silêncio daqueles que não possuíam poder suficiente para contestá-la.
Isso
não significa que todo apelo à segurança, à religião, à família ou à disciplina
seja reacionário. Essas dimensões podem representar fontes legítimas de
solidariedade e sentido. A questão é saber se são defendidas como valores que
convivem com a liberdade alheia ou como instrumentos para impor uma única forma
legítima de existência.
Considere
três exemplos contemporâneos.
Primeiro: as
redes sociais. Algoritmos e dinâmicas de engajamento podem favorecer
conteúdos que despertam indignação, medo e sensação de ameaça. Quando uma
mudança cultural é apresentada como prova de que a sociedade inteira está
desmoronando, o debate público pode ser substituído por uma narrativa de
emergência permanente. Não se deve concluir que toda plataforma favorece
necessariamente o reacionarismo; trata-se de reconhecer que a indignação pode
ser convertida em atenção, audiência e influência.
Segundo: a
educação. Debates sobre currículo, gênero, história e autoridade docente
podem se transformar em conflitos sobre quem tem o direito de definir o
conhecimento legítimo. Defender a qualidade do ensino é uma preocupação
legítima. Já presumir que qualquer revisão crítica da história representa uma
conspiração contra a sociedade é uma forma de bloquear a investigação antes de
conhecer seus resultados.
Terceiro: a
segurança pública. Diante do medo real da violência, discursos que prometem
restaurar a ordem podem ganhar força. O problema aparece quando a segurança é
reduzida à exibição de força, sem atenção equivalente à prevenção, à
investigação, à justiça e às condições sociais que alimentam a criminalidade. A
promessa de autoridade absoluta pode ser politicamente atraente, mas não
substitui a avaliação dos resultados.
Nos
três casos, a mesma operação pode ocorrer: um problema complexo
é convertido em sinal de decadência moral; a decadência é atribuída a um
inimigo; e a solução é apresentada como retorno a uma ordem anterior.
O
reacionarismo ganha força quando oferece identidade e culpados para sofrimentos
que exigiriam investigação, políticas públicas e reflexão coletiva.
O
reacionário não é apenas um indivíduo: é uma posição dentro da sociedade
Uma
análise sociológica inovadora precisa ir além da psicologia individual. Não
basta dizer que o reacionário tem medo, é ressentido ou sente saudade. É
necessário perguntar quais estruturas sociais tornam essa posição atraente,
quais grupos a legitimam e quais instituições podem transformá-la em poder.
A
sociologia de Pierre Bourdieu, por exemplo, permite investigar como
posições sociais, capitais culturais e disputas por reconhecimento influenciam
a maneira pela qual os indivíduos interpretam as mudanças.
Pierre Bourdieu
A
noção de habitus ajuda a compreender como disposições incorporadas ao
longo da vida orientam nossas percepções e práticas. Mudanças sociais podem
tornar antigas competências e certezas menos valorizadas, provocando conflitos
de reconhecimento.
Uma
pessoa educada para acreditar que autoridade, gênero, classe ou tradição
definem lugares relativamente estáveis pode experimentar a transformação dessas
relações como desorientação. Não se trata de uma reação mecânica: pessoas em
condições sociais semelhantes podem responder de maneiras muito diferentes. Mas
a experiência acumulada influencia o que cada uma percebe como ameaça ou
oportunidade.
O
reacionarismo também pode funcionar como uma aliança entre interesses
distintos. Alguns atores desejam preservar vantagens econômicas; outros buscam
reafirmar uma autoridade cultural; outros encontram pertencimento numa
comunidade que compartilha os mesmos símbolos e adversários.
Esses
grupos não precisam ter exatamente os mesmos interesses. Basta que reconheçam
uma narrativa comum: o presente está em decadência e a restauração de uma ordem
tradicional resolverá o problema.
É
assim que a nostalgia individual pode converter-se em projeto coletivo.
O
ponto sociológico decisivo é este: o reacionarismo não se explica somente pelo
que as pessoas perderam, mas também pela posição que acreditam merecer e pelo
mundo social que desejam ver reconhecido novamente.
A contradição central: o
reacionário também quer mudar o mundo
Eis
um paradoxo que merece atenção.
O
reacionário frequentemente se apresenta como defensor da ordem contra a
transformação. No entanto, restaurar uma ordem antiga exige uma ação política
intensa: reformar instituições, alterar leis, disputar a educação, mobilizar
organizações e redefinir comportamentos.
Em
outras palavras, para fazer o mundo voltar a ser como antes, o reacionário
precisa transformá-lo profundamente.
Além
disso, o passado que pretende restaurar pode nunca ter existido da maneira como
o imagina. A família ideal, a sociedade homogênea e a autoridade incontestável
são frequentemente construções narrativas que misturam experiências reais,
lembranças seletivas e expectativas atuais.
A
restauração, portanto, não recupera simplesmente o passado. Ela inventa uma
versão do passado adequada às disputas do presente.
Esse
ponto permite distinguir a tradição viva da tradição convertida em instrumento
político.
A
tradição viva admite interpretação, transmissão, crítica e adaptação. Ela
continua existindo porque as pessoas a reelaboram. A tradição reacionária, ao
contrário, pode ser apresentada como um conjunto imutável de verdades cuja
legitimidade não depende do debate.
A
primeira reconhece que a continuidade exige transformação. A segunda trata a
transformação como ameaça à continuidade.
É
importante não confundir essa crítica com a ideia de que todo projeto de
restauração é necessariamente ilegítimo. Algumas instituições antigas podem
merecer recuperação, e determinadas transformações podem ser prejudiciais. A
questão não é proibir o retorno, mas exigir que a defesa de qualquer ordem seja
submetida à investigação de seus custos, benefícios e consequências para os
diferentes grupos sociais.
O reacionarismo como
recusa do futuro
Até
aqui, vimos que o reacionarismo pode nascer da insegurança, do ressentimento,
da idealização histórica e das disputas por reconhecimento. Mas existe uma
dimensão ainda mais profunda: sua relação com o futuro.
O
futuro é, por definição, aquilo que não controlamos inteiramente. Ele abre
possibilidades, mas também ameaça expectativas. Obriga-nos a aceitar que
instituições consideradas naturais podem ser transformadas e que pessoas antes
excluídas podem reivindicar participação.
O
reacionário radical tende a interpretar essa abertura como perda de orientação.
Em vez de perguntar que sociedade poderia ser construída a partir das
contradições presentes, procura um modelo anterior capaz de encerrar a
incerteza.
Nesse
aspecto, podemos aproximar a análise de Bauman da reflexão de Hartmut
Rosa sobre a aceleração social e a relação do indivíduo com o mundo.
Hartmut Rosa
Rosa
investiga a aceleração da vida moderna e propõe o conceito de ressonância para
pensar uma relação com o mundo que não se reduza ao controle e à
disponibilidade permanente.
A
aceleração social pode produzir a sensação de que o mundo se transforma mais
depressa do que nossa capacidade de compreendê-lo. O reacionarismo pode
responder a essa experiência tentando recuperar referências consideradas
estáveis.
Entretanto,
recuperar referências não exige interromper a história. Uma sociedade pode
preservar vínculos comunitários, valorizar sua memória e manter práticas
culturais sem transformar o passado em uma lei absoluta para o futuro.
A
alternativa à aceleração desorientadora não precisa ser a restauração
autoritária. Pode ser a construção de instituições mais democráticas, de ritmos
de vida menos exaustivos e de relações sociais que ofereçam segurança sem
exigir submissão.
O
desafio consiste em produzir estabilidade suficiente para que as pessoas possam
enfrentar a mudança, em vez de prometer uma estabilidade impossível baseada na
eliminação das diferenças.
Uma distinção
fundamental: conservar, reformar ou reagir?
Para
compreender melhor o fenômeno, convém estabelecer três posições que
frequentemente se confundem.
|
Posição |
Relação com o passado |
Relação com a mudança |
|
Conservadora |
Considera que tradições
e instituições podem conter conhecimentos importantes. |
Prefere mudanças
cautelosas e procura preservar continuidades valiosas. |
|
Reformadora |
Reconhece problemas nas
instituições existentes e busca corrigi-los. |
Aceita transformações
graduais ou profundas conforme as necessidades e as evidências. |
|
Reacionária |
Tende a idealizar uma
ordem anterior e a apresentá-la como referência superior. |
Procura reverter
mudanças e restaurar hierarquias ou instituições consideradas perdidas. |
Essas
categorias são tipos analíticos, não caixas rígidas. Uma mesma pessoa pode
defender a preservação de uma tradição num contexto, apoiar uma reforma noutro
e assumir uma postura reacionária em determinada disputa.
Tampouco
a defesa da tradição implica automaticamente autoritarismo. O sinal mais
preocupante aparece quando a restauração exige reduzir direitos, impedir a
contestação ou estabelecer que determinados grupos não merecem a mesma
liberdade que os demais.
O
critério democrático não é a idade de uma ideia. É a possibilidade de
justificá-la publicamente, avaliar suas consequências e permitir que aqueles
afetados por ela participem da discussão.
Concluindo — O passado
deve ser uma raiz, não uma prisão
O
reacionário é uma figura complexa porque sua força não depende exclusivamente
de mentiras ou de preconceitos conscientes. Pode mobilizar sofrimentos reais:
insegurança econômica, perda de pertencimento, desconfiança nas instituições,
sensação de abandono e medo de um futuro imprevisível.
O
erro começa quando esses sofrimentos são explicados por uma narrativa que
transforma o passado em perfeição e a mudança em culpada universal.
Bauman
ajuda
a compreender a busca por segurança num mundo instável. Wendy Brown
permite investigar a conversão de frustrações e ressentimentos em reações
políticas. Hirschman revela os argumentos recorrentes que deslegitimam
reformas. Han ilumina o esgotamento de uma liberdade vivida sob pressão
permanente. Bourdieu mostra como disposições sociais e lutas por
reconhecimento influenciam nossas respostas às transformações. Rosa, por
sua vez, permite imaginar uma relação com o mundo que não dependa nem do
controle absoluto nem da fuga para um passado idealizado.
Juntos,
esses pensadores oferecem instrumentos para compreender o reacionarismo como um
fenômeno que articula subjetividade, estrutura social, linguagem política e
disputa histórica.
Mas
talvez a pergunta mais importante não seja por que o reacionário deseja voltar.
É por que tantas sociedades oferecem às pessoas tão poucas maneiras de
enfrentar o presente sem desejar escapar dele.
Quando
o trabalho se torna precário, as relações se fragilizam, as instituições perdem
credibilidade e o futuro parece ameaçador, a promessa de restaurar uma ordem
conhecida pode adquirir enorme força. Combater essa tendência exige mais do que
ridicularizar quem sente nostalgia. Exige enfrentar as condições que tornam a
nostalgia politicamente sedutora.
Isso
significa construir segurança sem autoritarismo, pertencimento sem exclusão,
autoridade sem arbitrariedade e continuidade sem imobilidade.
Uma
sociedade democrática não precisa desprezar seu passado. Precisa aprender a
interrogá-lo. Não precisa abandonar suas tradições. Precisa distinguir aquelas
que produzem solidariedade daquelas que dependem da subordinação de outros. Não
precisa celebrar toda novidade. Precisa preservar a capacidade coletiva de
avaliar o que merece ser transformado.
A
maturidade histórica começa quando reconhecemos que o passado pode ensinar, mas
não pode decidir sozinho.
A
tese central deste ensaio é que o reacionarismo representa uma tentativa de
resolver as incertezas do presente pela restauração de uma ordem idealizada.
Sua força nasce quando a necessidade legítima de segurança se transforma em
recusa da pluralidade e quando a memória deixa de iluminar a história para se
tornar instrumento de poder.
O
verdadeiro desafio não é escolher entre viver no passado ou destruir tudo o que
veio antes. É construir um futuro no qual as pessoas não precisem abrir mão da
liberdade para recuperar a sensação de pertencimento.
Porque
uma sociedade que só consegue imaginar a própria salvação olhando para trás
ainda não encontrou uma maneira suficientemente justa de caminhar para a
frente.
