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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Turbilhão Social

Crise de identidade e a busca de sentido em uma sociedade em permanente transformação.

Vivemos ou apenas tentamos acompanhar a vida?

Há dias em que parece que o mundo resolveu acontecer todo ao mesmo tempo. As notícias mudam antes que consigamos compreender as anteriores, as opiniões transformam-se em batalhas, as tecnologias alteram nossos hábitos e as pessoas parecem cada vez mais apressadas para chegar a algum lugar que nem sempre sabem identificar.

Nunca tivemos tantas possibilidades de comunicação, mas continuamos enfrentando dificuldades para nos compreender. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas frequentemente nos sentimos perdidos diante do excesso de explicações. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tantas pessoas experimentam a sensação de isolamento.

É como se a sociedade tivesse se transformado em um imenso redemoinho: todos somos arrastados por forças econômicas, políticas, tecnológicas e culturais que ultrapassam nossa capacidade individual de controle.

Chamaremos esse fenômeno de turbilhão social: a aceleração simultânea das mudanças coletivas, das expectativas individuais e dos conflitos que disputam nossa atenção, nossos valores e nossa maneira de interpretar o mundo.

Mas há uma questão mais profunda: será que estamos apenas atravessando uma época turbulenta ou estamos nos tornando seres humanos incapazes de encontrar estabilidade em meio ao movimento?

Talvez o grande drama contemporâneo não seja a velocidade das transformações, mas a dificuldade de construir sentido enquanto tudo se transforma.

1. Zygmunt Bauman e a sociedade que perdeu a solidez

Zygmunt Bauman — a modernidade líquida

O sociólogo Zygmunt Bauman desenvolveu o conceito de modernidade líquida para interpretar uma sociedade em que vínculos, identidades, instituições e projetos de vida se tornam mais instáveis e sujeitos a mudanças.

Bauman oferece uma das chaves mais férteis para compreender o turbilhão social. Em outros períodos históricos, apesar das diferenças e das crises, muitas pessoas organizavam suas vidas em torno de referências relativamente duradouras: uma profissão, uma comunidade, uma tradição, uma instituição ou um projeto familiar.

Hoje, essas referências não desapareceram, mas frequentemente precisam competir com exigências de adaptação contínua.

O trabalhador precisa atualizar suas competências; o profissional precisa construir sua imagem; o consumidor precisa acompanhar as novidades; o indivíduo precisa reinventar sua identidade. Até o descanso parece ter sido convertido em uma atividade que deve produzir resultados.

Imagine uma pessoa que conquista o emprego desejado, mas logo descobre que precisa adquirir novas habilidades para não ficar para trás. Quando finalmente se adapta, as exigências mudam novamente. Sua sensação de segurança depende de uma estabilidade que parece sempre adiada.

O problema não está necessariamente na mudança. Mudar pode significar liberdade, descoberta e emancipação. A dificuldade surge quando a mudança deixa de ser uma possibilidade e se transforma em obrigação permanente.

Quando tudo precisa ser atualizado, até a identidade corre o risco de se tornar um produto com prazo de validade.

O turbilhão social manifesta-se, assim, na tensão entre a necessidade humana de continuidade e as exigências de adaptação de uma sociedade que raramente permite sentir que chegamos ao destino.

2. Byung-Chul Han e o cansaço de existir

Byung-Chul Han — a sociedade do desempenho

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han examina como a pressão por produtividade, realização pessoal e autossuperação pode transformar o indivíduo em seu próprio fiscal, explorador e crítico.

Se Bauman nos ajuda a compreender a instabilidade das estruturas sociais, Han permite investigar o que acontece com o indivíduo submetido a essa instabilidade.

O sujeito contemporâneo não recebe apenas ordens externas. Ele aprende a exigir de si mesmo um desempenho cada vez maior. Precisa ser produtivo, interessante, informado, saudável, bem-sucedido e emocionalmente equilibrado.

O paradoxo é evidente: até a felicidade pode transformar-se em uma obrigação.

Nas redes sociais, por exemplo, a vida cotidiana é frequentemente apresentada como uma sequência de conquistas, viagens, corpos idealizados e realizações. Mesmo sabendo que essas imagens são seletivas, podemos começar a comparar nossa experiência integral com os melhores momentos editados da experiência alheia.

A comparação transforma a existência em uma competição silenciosa. Não basta viver: parece necessário demonstrar que estamos vivendo bem.

Nesse contexto, o turbilhão social não acontece apenas fora de nós. Ele é internalizado. A pressão coletiva converte-se em cobrança pessoal, e o indivíduo passa a carregar dentro de si a velocidade do mundo.

Surge uma pergunta incômoda: quando foi que descansar deixou de ser simplesmente descansar e passou a significar recuperar energia para produzir mais?

Talvez uma das formas contemporâneas de resistência seja recuperar o direito de fazer algo sem precisar convertê-lo em resultado, reconhecimento ou vantagem competitiva.

3. Hartmut Rosa e a aceleração do mundo

Hartmut Rosa — a aceleração social

O sociólogo e filósofo Hartmut Rosa investiga a aceleração tecnológica, a aceleração das mudanças sociais e o ritmo crescente da vida cotidiana.

A contribuição de Rosa permite aprofundar uma característica decisiva do turbilhão social: a sensação de que precisamos correr cada vez mais para permanecer no mesmo lugar.

As tecnologias tornam certas tarefas mais rápidas, mas o tempo economizado nem sempre se converte em tranquilidade. Muitas vezes, ele é preenchido por novas tarefas, novas mensagens e novas expectativas.

O correio eletrônico acelera a comunicação, mas também cria a expectativa de respostas imediatas. Os aplicativos facilitam o acesso aos serviços, mas multiplicam as possibilidades de consumo. As plataformas digitais aproximam pessoas distantes, mas podem transformar cada intervalo de silêncio em uma oportunidade de verificar notificações.

A velocidade deixa de ser apenas uma característica técnica e passa a funcionar como uma norma cultural.

Quem demora a responder parece desinteressado. Quem não acompanha as tendências parece desatualizado. Quem precisa de tempo para pensar corre o risco de ser ultrapassado por quem reage imediatamente.

Entretanto, compreender não é o mesmo que reagir. Pensar exige duração, assim como construir confiança, aprender uma profissão e desenvolver relações afetivas.

Uma sociedade pode acelerar seus movimentos sem necessariamente aprofundar suas experiências.

O turbilhão social nasce, em parte, dessa contradição: aumentamos a velocidade das ações, mas não encontramos automaticamente mais tempo para compreender o significado daquilo que fazemos.

4. A informação em excesso e a crise da verdade

O turbilhão social também é um fenômeno informacional.

A circulação de notícias, opiniões, vídeos e interpretações tornou-se extraordinariamente rápida. Essa abundância amplia o acesso ao conhecimento, mas cria dificuldades para distinguir evidências, especulações, propaganda e desinformação.

Um acontecimento pode ser apresentado simultaneamente como tragédia, ameaça, conspiração, espetáculo ou oportunidade política. Cada interpretação disputa a atenção do público e procura estabelecer sua própria versão dos fatos.

Em períodos de polarização, a informação deixa de ser apenas um meio para compreender a realidade e passa a ser uma arma para defender identidades coletivas.

A pessoa já não pergunta somente se uma afirmação é verdadeira. Pode perguntar, primeiro, se ela favorece seu grupo, confirma suas crenças ou enfraquece seus adversários.

Essa inversão compromete a possibilidade de diálogo.

Pensemos em uma notícia falsa que circula em grupos de mensagens. Mesmo depois de sua correção, ela pode continuar sendo compartilhada porque corresponde a uma desconfiança preexistente. O conteúdo não permanece necessariamente por sua qualidade factual, mas por sua utilidade emocional e social.

O problema, portanto, não é simplesmente a quantidade de informação. É a dificuldade de construir critérios para interpretá-la.

Uma sociedade capaz de receber milhões de mensagens, mas incapaz de estabelecer espaços de reflexão, pode tornar-se informacionalmente rica e intelectualmente desorientada.

Nesse cenário, a atenção transforma-se em recurso político e econômico. Quem controla aquilo que vemos influencia, em alguma medida, aquilo que consideramos importante.

A resistência ao turbilhão exige, então, uma nova disciplina intelectual: desacelerar antes de compartilhar, investigar antes de condenar e admitir a possibilidade de estar errado.

5. O turbilhão político: quando o conflito se torna permanente

A instabilidade social também se manifesta na política, sobretudo quando a disputa por poder passa a depender da produção contínua de indignação.

Em ambientes polarizados, adversários políticos deixam de ser apenas pessoas com projetos diferentes e passam a ser representados como ameaças absolutas. O desacordo transforma-se em hostilidade moral, e a negociação passa a ser interpretada como fraqueza.

Nesse contexto, cada acontecimento pode alimentar um novo ciclo de acusações, mobilizações e reações. O debate público perde profundidade quando a necessidade de responder imediatamente substitui o esforço de compreender as causas de um problema.

É importante reconhecer que o conflito político não é, por si só, negativo. A democracia depende de divergências, disputas de interesses e contestação do poder. O problema aparece quando o conflito deixa de servir à discussão de soluções e passa a reproduzir a própria divisão como finalidade.

O turbilhão político é particularmente perigoso quando as pessoas sentem que precisam escolher entre pertencer a um grupo e pensar criticamente sobre ele.

A liberdade intelectual começa quando alguém consegue reconhecer os méritos de uma ideia defendida por um adversário e identificar os erros de uma ideia defendida por seus aliados.

Talvez uma sociedade democrática não precise eliminar suas diferenças, mas desenvolver instituições e hábitos capazes de impedir que toda diferença se converta em guerra moral.

6. A solidão no meio da multidão

Existe uma dimensão menos visível do turbilhão social: a experiência subjetiva de estar cercado por estímulos e, ainda assim, sentir-se desconectado.

A multiplicação das possibilidades de comunicação não garante a profundidade das relações. Podemos conversar com dezenas de pessoas diariamente sem encontrar espaço para expressar uma dúvida que realmente nos inquieta.

A lógica da velocidade também afeta os vínculos afetivos. Relações são iniciadas, avaliadas e abandonadas em ambientes nos quais a disponibilidade de alternativas parece infinita. Em certas circunstâncias, a possibilidade permanente de encontrar algo novo enfraquece a disposição para enfrentar as dificuldades necessárias à construção de uma relação duradoura.

Isso não significa que relações estáveis sejam sempre melhores, nem que a autonomia individual deva ser sacrificada em nome da permanência. Significa apenas que a abundância de opções não elimina a necessidade de compromisso, escuta e tempo compartilhado.

A intimidade exige algo que o turbilhão frequentemente dificulta: a disposição de permanecer presente mesmo quando não há novidade.

Uma conversa profunda não pode ser inteiramente otimizada. A confiança não se instala por meio de uma atualização. O afeto não amadurece na mesma velocidade com que uma plataforma apresenta novos conteúdos.

Por isso, recuperar a presença talvez seja uma das tarefas mais importantes da vida contemporânea.

Não se trata de fugir da sociedade, mas de evitar que a sociedade ocupe todos os espaços interiores nos quais precisamos elaborar nossas próprias experiências.

7. Uma hipótese filosófica: o turbilhão como perda do centro

Podemos agora formular uma interpretação mais abrangente.

O turbilhão social não é apenas o excesso de acontecimentos, a aceleração das tecnologias ou a instabilidade das instituições. É também a dificuldade de estabelecer uma relação consciente entre aquilo que acontece no mundo e aquilo que consideramos importante em nossa própria existência.

Chamarei essa dificuldade de desorientação do centro humano.

O centro, aqui, não significa uma identidade rígida, uma verdade absoluta ou um conjunto imutável de crenças. Significa a capacidade de estabelecer prioridades, reconhecer limites, refletir sobre valores e escolher como responder às circunstâncias.

Uma pessoa pode mudar de profissão, rever suas ideias políticas, abandonar tradições e construir novas formas de vida sem perder seu centro. O que ameaça essa capacidade não é a transformação, mas a submissão automática a todas as forças que exigem sua atenção.

Imagine alguém que organiza os próprios dias exclusivamente em função das urgências alheias. Responde a mensagens, cumpre prazos, acompanha notícias, compara resultados e atende expectativas. Ao final, realizou inúmeras atividades, mas não consegue explicar quais delas estavam relacionadas aos seus próprios valores.

Sua vida não está vazia de acontecimentos. Está ameaçada pela ausência de escolha consciente sobre o significado desses acontecimentos.

Eis o paradoxo: podemos ter mais liberdade de escolha e menos capacidade prática de escolher com serenidade.

A autonomia, nesse sentido, não consiste em controlar o mundo, algo evidentemente impossível. Consiste em desenvolver a capacidade de selecionar, interpretar e responder às pressões do mundo sem entregar a elas toda a direção da nossa existência.

O verdadeiro centro não é aquilo que permanece imóvel, mas aquilo que nos permite atravessar a mudança sem perder a capacidade de decidir quem queremos ser.

8. Como atravessar o turbilhão sem abandonar o mundo?

Não existe uma fórmula individual capaz de resolver as contradições estruturais da sociedade. Seria injusto atribuir exclusivamente às pessoas a responsabilidade por problemas relacionados ao trabalho, à desigualdade, à organização política ou ao funcionamento das plataformas digitais.

Ainda assim, existem atitudes pessoais e coletivas que podem diminuir os efeitos da desorientação.

  • Recuperar o tempo de reflexão: reservar momentos em que a experiência não seja interrompida constantemente por notificações e urgências.
  • Desenvolver autonomia intelectual: confrontar fontes, examinar argumentos e distinguir convicções pessoais de evidências verificáveis.
  • Reconstruir vínculos significativos: investir em relações que permitam escuta, divergência e presença, em vez de depender exclusivamente de interações rápidas.
  • Questionar a obrigação de desempenho: reconhecer que o valor de uma pessoa não pode ser reduzido à produtividade, à renda ou à aprovação pública.
  • Participar da vida coletiva: construir espaços de diálogo, solidariedade e ação política capazes de enfrentar problemas que não podem ser resolvidos individualmente.

Essas práticas não eliminam o turbilhão. Elas ajudam a distinguir aquilo que exige nossa intervenção daquilo que apenas disputa nossa atenção.

A questão não é viver mais devagar em todas as circunstâncias. Existem emergências que exigem rapidez, decisões que não podem ser adiadas e transformações que precisam ser acompanhadas.

O desafio é não confundir velocidade com sabedoria, movimento com progresso ou disponibilidade permanente com liberdade.

Concluindo — A arte de permanecer consciente em um mundo que não para

O turbilhão social é uma das imagens mais expressivas da experiência contemporânea porque reúne fenômenos que, embora diferentes, se reforçam mutuamente: a instabilidade das referências, a aceleração da vida, a pressão por desempenho, a disputa pela atenção e a fragilização de certos vínculos coletivos.

Bauman nos ajuda a compreender a fluidez das estruturas; Byung-Chul Han examina a pressão que o indivíduo exerce sobre si mesmo; Hartmut Rosa investiga a aceleração que reorganiza nossa experiência do tempo.

Essas perspectivas convergem para uma questão fundamental: o que acontece com a liberdade humana quando a necessidade de adaptação se torna permanente?

Talvez a resposta não esteja em tentar reconstruir um mundo sem mudanças. A estabilidade absoluta seria impossível e, em muitos casos, indesejável. A história humana também é feita de rupturas libertadoras, descobertas e transformações necessárias.

O que precisamos recuperar é a possibilidade de participar conscientemente das mudanças, em vez de apenas reagir a elas.

Uma sociedade mais humana não será necessariamente aquela que produz menos acontecimentos, mas aquela que oferece melhores condições para compreendê-los, discuti-los e decidir coletivamente quais merecem orientar nossas vidas.

No plano individual, a tarefa é semelhante: distinguir o essencial do urgente, o pensamento da reação e a escolha da simples obediência às expectativas externas.

Talvez a maior conquista contemporânea não seja conseguir acompanhar todas as mudanças, mas preservar a liberdade de decidir quais delas merecem nossa adesão.

Afinal, não podemos impedir que o mundo se movimente, mas podemos questionar a direção em que estamos sendo conduzidos.

O turbilhão social começa a perder seu poder sobre nós quando deixamos de medir nossa existência pela velocidade com que acompanhamos o mundo e passamos a avaliá-la pela consciência com que escolhemos habitá-lo.

Porque viver não é apenas atravessar o movimento dos acontecimentos.

É encontrar, dentro desse movimento, razões para agir, coragem para mudar e lucidez suficiente para não confundir o barulho do mundo com a voz da própria consciência.

sábado, 10 de outubro de 2026

O Reacionário


 

A nostalgia como ideologia, o medo da liberdade e a tentativa de restaurar um mundo que já não existe, o tema parece simples, mas não é, muito se fala, muito se ouve agressões verbais chamando alguém de reacionário, portanto para escrever este ensaio foi necessário pesquisar e buscar os diferentes olhares. Vamos lá.

Afinal, o que o reacionário quer recuperar?

Vamos começar com uma pergunta aparentemente simples: por que algumas pessoas, diante das transformações do mundo, preferem acreditar que a solução está em voltar ao passado?

Quando a sociedade muda, mudam também os costumes, as relações familiares, os valores morais, as formas de trabalhar, as identidades e até a maneira como entendemos a autoridade. Para alguns, essas mudanças representam conquistas. Para outros, significam a perda de um mundo no qual sabiam exatamente quem eram, qual era o seu lugar e quem tinha o direito de mandar.

É nesse segundo movimento que encontramos o reacionário.

Mas seria superficial definir o reacionário simplesmente como alguém conservador ou contrário às novidades. O conservador pode desejar preservar instituições que considera importantes; o reacionário vai além: frequentemente deseja reconstruir uma ordem anterior, real ou imaginada, na qual acredita encontrar a solução para as angústias do presente.

O problema começa quando o passado deixa de ser uma experiência a compreender e se transforma numa autoridade que não pode ser questionada.

O reacionário não quer apenas que as coisas mudem menos. Em determinadas circunstâncias, quer que a história desfaça o caminho percorrido. Pretende recuperar hierarquias, certezas e formas de obediência que as transformações sociais tornaram discutíveis. Sua promessa é restauradora: se o presente parece caótico, basta retornar à ordem antiga.

Mas há uma contradição nessa promessa: como restaurar um mundo cujo desaparecimento foi justamente o resultado da própria história?

Este ensaio parte de uma hipótese: o reacionarismo não é apenas uma posição política, mas uma atitude diante do tempo, da liberdade e da incerteza. É uma tentativa de resolver os conflitos do presente por meio da idealização do passado. Para compreender essa atitude, precisamos recorrer à filosofia e à sociologia contemporâneas, observando como o medo, o ressentimento, a desigualdade e a disputa pela identidade podem transformar a nostalgia em projeto político.

O reacionário e a fabricação de um passado perfeito

Todo ser humano tem alguma relação afetiva com o passado. Recordamos a infância, valorizamos tradições e procuramos referências que deem continuidade à nossa existência. Isso, por si só, não tem nada de reacionário.

A questão aparece quando a memória deixa de reconhecer as contradições do passado e começa a selecioná-las de maneira conveniente.

A sociedade antiga passa a ser descrita como mais honesta, a família de ontem como mais sólida, a juventude como mais respeitosa e a autoridade como mais legítima. Desaparecem da narrativa a violência doméstica naturalizada, a exclusão das mulheres, o racismo institucional, a falta de direitos trabalhistas e o silenciamento de grupos inteiros.

O passado é reconstruído como um paraíso perdido.

O reacionário realiza, assim, uma operação curiosa: critica a sociedade contemporânea por suas imperfeições, mas compara essa realidade concreta com uma representação idealizada de outra época. O presente é julgado por seus problemas reais; o passado, por suas lembranças seletivas.

Essa assimetria produz a ilusão de que antigamente tudo funcionava melhor.

A pergunta sociológica, portanto, não é somente por que as pessoas sentem saudade, mas quem ganha autoridade quando determinada versão do passado é apresentada como modelo obrigatório para o presente?

Quando a antiga organização familiar é proclamada como a única legítima, por exemplo, não se está apenas celebrando uma tradição. Pode-se estar reivindicando a restauração de papéis de gênero específicos. Quando a disciplina do passado é apresentada como solução universal, talvez se esteja defendendo o retorno de relações de obediência que dispensavam a participação dos subordinados.

A memória torna-se ideologia quando esconde aquilo que precisa ser esquecido para que uma ordem pareça natural.

Zygmunt Bauman: o reacionário diante de um mundo líquido

Modernidade líquida, insegurança e busca por estabilidade.

Bauman ajuda a compreender como a fragilidade dos vínculos sociais e a aceleração das transformações podem alimentar a procura por certezas.

Na interpretação de Bauman, a modernidade líquida é marcada pela instabilidade das relações, pela transformação constante das instituições e pela dificuldade de construir segurança duradoura.

O trabalho muda, as profissões desaparecem, as relações afetivas se reorganizam e as identidades deixam de parecer destinos fixos. Aquilo que antes era apresentado como permanente passa a exigir negociação.

Para algumas pessoas, essa liberdade abre possibilidades. Para outras, produz desorientação.

É nesse cenário que o discurso reacionário pode adquirir força. Ele oferece respostas simples para uma realidade complexa: a sociedade está desorganizada porque abandonou a tradição; as famílias estão em crise porque perderam os antigos valores; os jovens estão perdidos porque deixaram de obedecer.

A promessa reacionária é devolver solidez a um mundo percebido como instável.

Imagine um trabalhador que perde o emprego em razão de mudanças tecnológicas, enfrenta dificuldades econômicas e percebe que sua posição social já não lhe oferece o reconhecimento de antes. Sua angústia é material, mas também simbólica. Ele pode sentir que perdeu não apenas renda, mas dignidade, pertencimento e influência.

Um discurso político pode interpretar essa experiência como consequência de decisões econômicas, concentração de riqueza e precarização do trabalho. Outro pode atribuí-la à decadência moral, à presença de estrangeiros ou à perda dos costumes tradicionais.

A segunda explicação pode ser emocionalmente sedutora porque oferece culpados identificáveis e uma narrativa de restauração.

Isso não significa que todo indivíduo inseguro se torne reacionário, nem que todo apelo à tradição seja manipulador. Significa que a insegurança pode criar condições favoráveis para projetos políticos que prometem uma ordem simples em troca da redução da pluralidade.

A liberdade assusta quando a pessoa não dispõe dos recursos materiais e simbólicos necessários para exercê-la. O reacionarismo pode transformar esse medo em desejo de autoridade.

Wendy Brown: quando a liberdade se transforma em ressentimento

Neoliberalismo, democracia e reação política.

Brown investiga como transformações econômicas e políticas podem enfraquecer a democracia e alterar a maneira como as pessoas compreendem sua liberdade.

Uma contribuição importante de Wendy Brown é mostrar que o neoliberalismo não deve ser entendido somente como um conjunto de políticas econômicas. Ele também pode funcionar como uma racionalidade que submete diferentes esferas da vida à competição, à lógica do mercado e à avaliação individual de desempenho.

Nesse contexto, problemas coletivos passam a ser interpretados como fracassos pessoais. O indivíduo é responsabilizado por sua pobreza, sua insegurança e sua incapacidade de competir, mesmo quando enfrenta estruturas sociais profundamente desiguais.

Mas existe uma consequência adicional: quando a promessa de autonomia individual não se realiza, a frustração pode ser convertida em ressentimento político.

O indivíduo que se imaginava merecedor de reconhecimento sente que perdeu algo que lhe pertencia. A ampliação dos direitos de outros grupos pode ser percebida, equivocadamente, como a causa dessa perda. Em vez de questionar as estruturas que distribuem poder e riqueza, ele pode passar a combater aqueles que considera responsáveis pela transformação da sociedade.

Pensemos no debate sobre a igualdade de gênero. A conquista de maior autonomia pelas mulheres não elimina automaticamente as dificuldades econômicas dos homens, nem resolve as crises familiares. Entretanto, discursos reacionários podem apresentar essa autonomia como uma ameaça à ordem social e à identidade masculina.

A questão deixa de ser como construir relações mais justas e passa a ser como restaurar uma hierarquia anterior.

A mesma lógica pode aparecer nos debates sobre direitos raciais, diversidade cultural e reconhecimento de minorias. O avanço de direitos que antes eram negados pode ser interpretado por setores privilegiados como uma perda de status, mesmo quando não representa a supressão de seus direitos fundamentais.

Aqui surge uma distinção decisiva: perder um privilégio não é necessariamente perder um direito; deixar de ocupar uma posição superior não significa ser tratado injustamente.

O reacionarismo tende a confundir essas duas situações quando apresenta a igualdade como inversão da ordem natural.

A contribuição de Brown permite perceber que o ressentimento não nasce apenas do ódio. Pode nascer também da incapacidade de compreender uma transformação social sem interpretá-la como humilhação pessoal.

Albert O. Hirschman: a retórica da reação

A retórica reacionária e os argumentos contra a mudança.

Em The Rhetoric of Reaction (1991), Hirschman analisa padrões argumentativos recorrentes usados para combater reformas sociais e políticas.

Hirschman oferece uma ferramenta especialmente útil para identificar o reacionarismo sem depender de rótulos ideológicos.

Ele descreve três grandes argumentos que reaparecem em discursos contrários a mudanças sociais: a perversidade, a futilidade e o risco.

  • Perversidade: a reforma produzirá o contrário do que pretende. Uma política de inclusão, por exemplo, acabaria gerando mais exclusão.
  • Futilidade: a mudança não alterará verdadeiramente a estrutura social. A luta por direitos seria inútil porque as coisas permaneceriam essencialmente iguais.
  • Risco: a transformação ameaçaria conquistas anteriores. Ampliar direitos ou reformar instituições colocaria em perigo a estabilidade da sociedade.

Esses argumentos não são necessariamente falsos em todas as situações. Reformas podem produzir consequências inesperadas, ser ineficazes ou ameaçar valores legítimos. O problema está em empregá-los como respostas automáticas, sem examinar evidências ou admitir a possibilidade de melhorias.

Imagine uma discussão sobre a ampliação do acesso à universidade. O argumento da perversidade afirma que a inclusão prejudicará a qualidade do ensino; o da futilidade sustenta que ela não mudará a desigualdade; o do risco diz que o sistema existente será destruído.

Cada afirmação exige investigação. Quais indicadores definem qualidade? Que resultados a política produziu? Quais riscos podem ser reduzidos por meio de ajustes?

O pensamento crítico transforma essas alegações em hipóteses verificáveis. A retórica reacionária, quando dogmática, transforma-as em razões suficientes para rejeitar a mudança antes mesmo de examiná-la.

Hirschman nos ajuda, portanto, a reconhecer uma característica fundamental do reacionarismo: não é apenas a preferência pelo passado, mas a tendência a considerar que as tentativas de construir um futuro diferente estão condenadas de antemão.

Byung-Chul Han: o cansaço de ser livre

Desempenho, exaustão e crise da subjetividade.

Han examina como a pressão por desempenho e a autoexploração afetam a experiência contemporânea da liberdade.

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve uma sociedade na qual o indivíduo é pressionado a produzir, melhorar a si mesmo e transformar cada capacidade em oportunidade de desempenho.

A dominação já não precisa aparecer sempre como uma ordem externa. O sujeito pode tornar-se o próprio fiscal, cobrando produtividade, sucesso e aperfeiçoamento permanentes.

Embora Han não formule uma teoria geral do reacionarismo, sua análise permite compreender uma de suas condições subjetivas: o esgotamento diante da obrigação de escolher continuamente.

A liberdade contemporânea pode ser experimentada como uma tarefa interminável. É preciso escolher uma carreira, construir uma identidade, administrar relações, posicionar-se diante de debates públicos e demonstrar competência em um mundo competitivo.

O reacionarismo oferece uma saída aparentemente simples: devolver a decisão à autoridade, substituir a negociação pela obediência e transformar a complexidade em mandamentos.

Em vez de perguntar como formar cidadãos capazes de lidar com a incerteza, pergunta-se como restaurar uma sociedade na qual cada pessoa conhecia seu lugar.

A nostalgia pela disciplina pode, nesse sentido, esconder um desejo de descanso. Quem se sente sobrecarregado pela multiplicidade de escolhas pode encontrar alívio na promessa de uma ordem que decida por ele.

Mas há uma ironia: ao entregar sua autonomia a uma autoridade que promete eliminar a incerteza, o indivíduo pode perder justamente os recursos de que precisaria para enfrentar as dificuldades do presente.

A liberdade não elimina a angústia. Porém, eliminar a liberdade tampouco elimina as causas sociais da angústia.

O reacionário e a política do medo: uma análise do presente brasileiro

No Brasil, o reacionarismo deve ser compreendido dentro de uma história marcada por desigualdades persistentes, autoritarismo, escravidão, concentração de renda e disputas sobre a memória nacional.

A idealização de uma época anterior pode apagar as experiências daqueles que nunca tiveram acesso aos benefícios da ordem celebrada.

Quando alguém afirma que antigamente havia mais respeito, por exemplo, é necessário perguntar: respeito entre quem? Garantido por quais instituições? E quem podia contestar uma autoridade sem sofrer punições?

Em sociedades profundamente desiguais, a aparente harmonia pode ter dependido do silêncio daqueles que não possuíam poder suficiente para contestá-la.

Isso não significa que todo apelo à segurança, à religião, à família ou à disciplina seja reacionário. Essas dimensões podem representar fontes legítimas de solidariedade e sentido. A questão é saber se são defendidas como valores que convivem com a liberdade alheia ou como instrumentos para impor uma única forma legítima de existência.

Considere três exemplos contemporâneos.

Primeiro: as redes sociais. Algoritmos e dinâmicas de engajamento podem favorecer conteúdos que despertam indignação, medo e sensação de ameaça. Quando uma mudança cultural é apresentada como prova de que a sociedade inteira está desmoronando, o debate público pode ser substituído por uma narrativa de emergência permanente. Não se deve concluir que toda plataforma favorece necessariamente o reacionarismo; trata-se de reconhecer que a indignação pode ser convertida em atenção, audiência e influência.

Segundo: a educação. Debates sobre currículo, gênero, história e autoridade docente podem se transformar em conflitos sobre quem tem o direito de definir o conhecimento legítimo. Defender a qualidade do ensino é uma preocupação legítima. Já presumir que qualquer revisão crítica da história representa uma conspiração contra a sociedade é uma forma de bloquear a investigação antes de conhecer seus resultados.

Terceiro: a segurança pública. Diante do medo real da violência, discursos que prometem restaurar a ordem podem ganhar força. O problema aparece quando a segurança é reduzida à exibição de força, sem atenção equivalente à prevenção, à investigação, à justiça e às condições sociais que alimentam a criminalidade. A promessa de autoridade absoluta pode ser politicamente atraente, mas não substitui a avaliação dos resultados.

Nos três casos, a mesma operação pode ocorrer: um problema complexo é convertido em sinal de decadência moral; a decadência é atribuída a um inimigo; e a solução é apresentada como retorno a uma ordem anterior.

O reacionarismo ganha força quando oferece identidade e culpados para sofrimentos que exigiriam investigação, políticas públicas e reflexão coletiva.

O reacionário não é apenas um indivíduo: é uma posição dentro da sociedade

Uma análise sociológica inovadora precisa ir além da psicologia individual. Não basta dizer que o reacionário tem medo, é ressentido ou sente saudade. É necessário perguntar quais estruturas sociais tornam essa posição atraente, quais grupos a legitimam e quais instituições podem transformá-la em poder.

A sociologia de Pierre Bourdieu, por exemplo, permite investigar como posições sociais, capitais culturais e disputas por reconhecimento influenciam a maneira pela qual os indivíduos interpretam as mudanças.

Pierre Bourdieu

A noção de habitus ajuda a compreender como disposições incorporadas ao longo da vida orientam nossas percepções e práticas. Mudanças sociais podem tornar antigas competências e certezas menos valorizadas, provocando conflitos de reconhecimento.

Uma pessoa educada para acreditar que autoridade, gênero, classe ou tradição definem lugares relativamente estáveis pode experimentar a transformação dessas relações como desorientação. Não se trata de uma reação mecânica: pessoas em condições sociais semelhantes podem responder de maneiras muito diferentes. Mas a experiência acumulada influencia o que cada uma percebe como ameaça ou oportunidade.

O reacionarismo também pode funcionar como uma aliança entre interesses distintos. Alguns atores desejam preservar vantagens econômicas; outros buscam reafirmar uma autoridade cultural; outros encontram pertencimento numa comunidade que compartilha os mesmos símbolos e adversários.

Esses grupos não precisam ter exatamente os mesmos interesses. Basta que reconheçam uma narrativa comum: o presente está em decadência e a restauração de uma ordem tradicional resolverá o problema.

É assim que a nostalgia individual pode converter-se em projeto coletivo.

O ponto sociológico decisivo é este: o reacionarismo não se explica somente pelo que as pessoas perderam, mas também pela posição que acreditam merecer e pelo mundo social que desejam ver reconhecido novamente.

A contradição central: o reacionário também quer mudar o mundo

Eis um paradoxo que merece atenção.

O reacionário frequentemente se apresenta como defensor da ordem contra a transformação. No entanto, restaurar uma ordem antiga exige uma ação política intensa: reformar instituições, alterar leis, disputar a educação, mobilizar organizações e redefinir comportamentos.

Em outras palavras, para fazer o mundo voltar a ser como antes, o reacionário precisa transformá-lo profundamente.

Além disso, o passado que pretende restaurar pode nunca ter existido da maneira como o imagina. A família ideal, a sociedade homogênea e a autoridade incontestável são frequentemente construções narrativas que misturam experiências reais, lembranças seletivas e expectativas atuais.

A restauração, portanto, não recupera simplesmente o passado. Ela inventa uma versão do passado adequada às disputas do presente.

Esse ponto permite distinguir a tradição viva da tradição convertida em instrumento político.

A tradição viva admite interpretação, transmissão, crítica e adaptação. Ela continua existindo porque as pessoas a reelaboram. A tradição reacionária, ao contrário, pode ser apresentada como um conjunto imutável de verdades cuja legitimidade não depende do debate.

A primeira reconhece que a continuidade exige transformação. A segunda trata a transformação como ameaça à continuidade.

É importante não confundir essa crítica com a ideia de que todo projeto de restauração é necessariamente ilegítimo. Algumas instituições antigas podem merecer recuperação, e determinadas transformações podem ser prejudiciais. A questão não é proibir o retorno, mas exigir que a defesa de qualquer ordem seja submetida à investigação de seus custos, benefícios e consequências para os diferentes grupos sociais.

O reacionarismo como recusa do futuro

Até aqui, vimos que o reacionarismo pode nascer da insegurança, do ressentimento, da idealização histórica e das disputas por reconhecimento. Mas existe uma dimensão ainda mais profunda: sua relação com o futuro.

O futuro é, por definição, aquilo que não controlamos inteiramente. Ele abre possibilidades, mas também ameaça expectativas. Obriga-nos a aceitar que instituições consideradas naturais podem ser transformadas e que pessoas antes excluídas podem reivindicar participação.

O reacionário radical tende a interpretar essa abertura como perda de orientação. Em vez de perguntar que sociedade poderia ser construída a partir das contradições presentes, procura um modelo anterior capaz de encerrar a incerteza.

Nesse aspecto, podemos aproximar a análise de Bauman da reflexão de Hartmut Rosa sobre a aceleração social e a relação do indivíduo com o mundo.

Hartmut Rosa

Rosa investiga a aceleração da vida moderna e propõe o conceito de ressonância para pensar uma relação com o mundo que não se reduza ao controle e à disponibilidade permanente.

A aceleração social pode produzir a sensação de que o mundo se transforma mais depressa do que nossa capacidade de compreendê-lo. O reacionarismo pode responder a essa experiência tentando recuperar referências consideradas estáveis.

Entretanto, recuperar referências não exige interromper a história. Uma sociedade pode preservar vínculos comunitários, valorizar sua memória e manter práticas culturais sem transformar o passado em uma lei absoluta para o futuro.

A alternativa à aceleração desorientadora não precisa ser a restauração autoritária. Pode ser a construção de instituições mais democráticas, de ritmos de vida menos exaustivos e de relações sociais que ofereçam segurança sem exigir submissão.

O desafio consiste em produzir estabilidade suficiente para que as pessoas possam enfrentar a mudança, em vez de prometer uma estabilidade impossível baseada na eliminação das diferenças.

Uma distinção fundamental: conservar, reformar ou reagir?

Para compreender melhor o fenômeno, convém estabelecer três posições que frequentemente se confundem.

Posição

Relação com o passado

Relação com a mudança

Conservadora

Considera que tradições e instituições podem conter conhecimentos importantes.

Prefere mudanças cautelosas e procura preservar continuidades valiosas.

Reformadora

Reconhece problemas nas instituições existentes e busca corrigi-los.

Aceita transformações graduais ou profundas conforme as necessidades e as evidências.

Reacionária

Tende a idealizar uma ordem anterior e a apresentá-la como referência superior.

Procura reverter mudanças e restaurar hierarquias ou instituições consideradas perdidas.

Essas categorias são tipos analíticos, não caixas rígidas. Uma mesma pessoa pode defender a preservação de uma tradição num contexto, apoiar uma reforma noutro e assumir uma postura reacionária em determinada disputa.

Tampouco a defesa da tradição implica automaticamente autoritarismo. O sinal mais preocupante aparece quando a restauração exige reduzir direitos, impedir a contestação ou estabelecer que determinados grupos não merecem a mesma liberdade que os demais.

O critério democrático não é a idade de uma ideia. É a possibilidade de justificá-la publicamente, avaliar suas consequências e permitir que aqueles afetados por ela participem da discussão.

Concluindo — O passado deve ser uma raiz, não uma prisão

O reacionário é uma figura complexa porque sua força não depende exclusivamente de mentiras ou de preconceitos conscientes. Pode mobilizar sofrimentos reais: insegurança econômica, perda de pertencimento, desconfiança nas instituições, sensação de abandono e medo de um futuro imprevisível.

O erro começa quando esses sofrimentos são explicados por uma narrativa que transforma o passado em perfeição e a mudança em culpada universal.

Bauman ajuda a compreender a busca por segurança num mundo instável. Wendy Brown permite investigar a conversão de frustrações e ressentimentos em reações políticas. Hirschman revela os argumentos recorrentes que deslegitimam reformas. Han ilumina o esgotamento de uma liberdade vivida sob pressão permanente. Bourdieu mostra como disposições sociais e lutas por reconhecimento influenciam nossas respostas às transformações. Rosa, por sua vez, permite imaginar uma relação com o mundo que não dependa nem do controle absoluto nem da fuga para um passado idealizado.

Juntos, esses pensadores oferecem instrumentos para compreender o reacionarismo como um fenômeno que articula subjetividade, estrutura social, linguagem política e disputa histórica.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja por que o reacionário deseja voltar. É por que tantas sociedades oferecem às pessoas tão poucas maneiras de enfrentar o presente sem desejar escapar dele.

Quando o trabalho se torna precário, as relações se fragilizam, as instituições perdem credibilidade e o futuro parece ameaçador, a promessa de restaurar uma ordem conhecida pode adquirir enorme força. Combater essa tendência exige mais do que ridicularizar quem sente nostalgia. Exige enfrentar as condições que tornam a nostalgia politicamente sedutora.

Isso significa construir segurança sem autoritarismo, pertencimento sem exclusão, autoridade sem arbitrariedade e continuidade sem imobilidade.

Uma sociedade democrática não precisa desprezar seu passado. Precisa aprender a interrogá-lo. Não precisa abandonar suas tradições. Precisa distinguir aquelas que produzem solidariedade daquelas que dependem da subordinação de outros. Não precisa celebrar toda novidade. Precisa preservar a capacidade coletiva de avaliar o que merece ser transformado.

A maturidade histórica começa quando reconhecemos que o passado pode ensinar, mas não pode decidir sozinho.

A tese central deste ensaio é que o reacionarismo representa uma tentativa de resolver as incertezas do presente pela restauração de uma ordem idealizada. Sua força nasce quando a necessidade legítima de segurança se transforma em recusa da pluralidade e quando a memória deixa de iluminar a história para se tornar instrumento de poder.

O verdadeiro desafio não é escolher entre viver no passado ou destruir tudo o que veio antes. É construir um futuro no qual as pessoas não precisem abrir mão da liberdade para recuperar a sensação de pertencimento.

Porque uma sociedade que só consegue imaginar a própria salvação olhando para trás ainda não encontrou uma maneira suficientemente justa de caminhar para a frente.

sábado, 7 de março de 2026

Depois Eu Vejo


Outro dia percebi algo curioso no meu próprio cotidiano.

Eu estava organizando alguns papéis sobre a mesa quando encontrei um pequeno bilhete que eu mesmo havia escrito semanas antes: “resolver isso amanhã”.

Sorri. Porque imediatamente lembrei do que tinha acontecido depois.

Nada.

O bilhete tinha sido empurrado para um canto, coberto por outros papéis, e lentamente transformado em parte da paisagem da mesa. Não era um problema grave, não era urgente, não era difícil — apenas tinha sido empurrado para o território confortável do “depois eu vejo”.

E então percebi que essa pequena frase talvez seja uma das expressões mais discretas e universais da vida moderna.

O território do “depois”

O “depois eu vejo” não é exatamente uma recusa.

Também não é uma decisão.

Ele é uma espécie de zona intermediária, onde as coisas permanecem suspensas.

  • aquele e-mail que ainda não foi respondido
  • aquele livro que ficou pela metade
  • aquela conversa que deveria acontecer “um dia desses”.

A vida contemporânea parece cheia dessas pequenas pendências que não chegam a ser esquecidas, mas também nunca chegam a ser resolvidas.

Elas simplesmente ficam esperando.

A arte social de adiar

À primeira vista, adiar parece apenas uma falha individual: distração, preguiça ou falta de disciplina.

Mas talvez exista algo mais profundo aí.

O filósofo e sociólogo francês Michel de Certeau observava que grande parte da vida social é feita de pequenas estratégias cotidianas. Gestos discretos que usamos para lidar com as pressões do mundo ao nosso redor.

Nesse sentido, o “depois eu vejo” pode ser entendido como uma espécie de tática silenciosa de sobrevivência.

Quando o volume de demandas se torna excessivo, o ser humano cria pequenas válvulas de escape. Uma delas é simplesmente empurrar certas coisas para um futuro indefinido.

Não é exatamente negligência.

Às vezes é apenas autoproteção contra o excesso.

A prateleira invisível da vida

Cada pessoa parece possuir uma espécie de prateleira invisível onde coloca assuntos que ainda não quer enfrentar.

Ali ficam:

  • decisões profissionais
  • conversas difíceis
  • projetos pessoais
  • promessas feitas a si mesmo.

Curiosamente, essas coisas não desaparecem completamente. Elas continuam existindo na periferia da consciência, como um ruído baixo que nunca se apaga.

É como se a mente dissesse:

“Eu sei que isso está aí… mas não agora.”

O cotidiano cheio de “quase”

No cotidiano, o “depois eu vejo” cria uma série de situações curiosas.

A pessoa abre um aplicativo de mensagens, lê a mensagem e pensa:

“respondo depois”.

Algumas horas passam.

Depois, alguns dias.

E então surge um pequeno constrangimento: agora responder parece tarde demais.

O “depois” virou um silêncio involuntário.

Algo semelhante acontece com livros começados, cursos iniciados ou ideias anotadas em cadernos que nunca mais voltam a ser abertos.

A vida moderna está cheia de começos que nunca encontram um meio ou um fim.

O tempo sempre ocupado

Talvez o fenômeno tenha também relação com outra característica da modernidade: a sensação permanente de falta de tempo.

O sociólogo alemão Hartmut Rosa fala da aceleração social, um processo em que o ritmo da vida se torna cada vez mais rápido, enquanto as expectativas e tarefas aumentam continuamente.

Nesse contexto, adiar certas coisas torna-se quase inevitável.

O curioso é que o “depois” nunca chega completamente.

Ele apenas se desloca.

Sempre um pouco mais à frente.

A esperança escondida no adiamento

Mas o “depois eu vejo” também carrega algo positivo.

Ele contém uma pequena esperança implícita.

Quando alguém diz “depois eu vejo”, na verdade está dizendo:

“isso ainda importa… só não agora.”

Há uma promessa silenciosa de retorno.

Talvez por isso tantas pessoas guardem ideias antigas, cadernos esquecidos ou projetos interrompidos. No fundo, existe a sensação de que um dia aquilo ainda pode voltar à vida.

Entre o agora e o nunca

No fim das contas, o “depois eu vejo” é uma espécie de espaço curioso entre duas forças.

De um lado, o presente cheio de urgências.

Do outro, o futuro cheio de possibilidades.

Entre os dois surge essa pequena frase que atravessa tantas rotinas humanas.

Talvez ela seja apenas um detalhe da linguagem cotidiana.

Ou talvez seja um dos sinais mais discretos da nossa condição moderna:
queremos fazer muitas coisas, imaginamos muitas possibilidades… mas o tempo continua sendo o mesmo.

E então, quase sem perceber, vamos empurrando algumas delas para aquele lugar misterioso chamado depois.