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sábado, 6 de junho de 2026

Olhar que Isola


Tem dias em que a gente cruza com dezenas de pessoas — no trabalho, na rua, em casa — e, ainda assim, fica com a sensação de que ninguém realmente se encontrou. Como se houvesse sempre uma camada invisível entre olhar e ver de verdade. Foi pensando nesse tipo de distância silenciosa que surgiu este ensaio: sobre o olhar que, em vez de aproximar, acaba isolando.

Existe um tipo de olhar que não aproxima — separa.

Não é o olhar distraído de quem passa na rua, nem o olhar cansado de fim de dia. É outro tipo de coisa. É aquele olhar que, no instante em que encontra o outro, já o reduz a alguma coisa: um rótulo, uma função, uma impressão rápida demais para ser justa.

Você já sentiu isso. Entra em um lugar e percebe que não está sendo visto como alguém inteiro, mas como “mais um”, ou pior, como algo já definido antes mesmo de você abrir a boca. É um olhar que não pergunta — conclui.

E o curioso é que esse mesmo olhar também mora na gente.

No cotidiano, ele aparece em pequenos gestos quase automáticos. No trabalho, quando alguém vira só “o problema” ou “o incompetente”. Na família, quando um parente fica preso para sempre em um papel antigo, como se nunca pudesse mudar. Até nas relações mais próximas, quando deixamos de ver o outro como alguém em transformação e passamos a vê-lo como uma versão fixa.

Esse olhar isola porque congela.

Jean-Paul Sartre tocou nesse ponto de um jeito direto: quando somos olhados pelo outro, corremos o risco de nos tornar objeto naquele olhar. Deixar de ser liberdade viva e virar “algo definido”. E isso cria uma tensão estranha — ao mesmo tempo em que precisamos do olhar do outro para existir socialmente, também podemos ser aprisionados por ele.

Mas o mais sutil não é quando somos vítimas desse olhar — é quando passamos a adotá-lo sem perceber.

A gente começa a se olhar com os mesmos filtros rígidos. “Eu sou assim”, “eu não consigo”, “isso não é para mim”. De tanto repetir essas frases, o olhar que antes vinha de fora se instala por dentro. E aí o isolamento se aprofunda: não é mais só entre pessoas, é dentro da própria experiência de viver.

Você continua vivendo, mas dentro de um personagem fixo.

E aqui entra um ponto delicado: esse olhar não surge do nada. Ele muitas vezes nasce da pressa. Ver alguém de verdade exige tempo, exige suspensão de julgamento, exige aceitar que o outro (e nós mesmos) é mais contraditório do que gostaríamos.

Então a gente simplifica.

Só que essa simplificação cobra um preço alto: ela empobrece o mundo. Porque um mundo onde as pessoas já estão definidas de antemão é um mundo sem descoberta — e, no limite, sem encontro real.

Talvez o movimento mais difícil — e mais necessário — seja reaprender a olhar.

Olhar alguém como se ainda não estivesse pronto. Como se houvesse algo ali que você ainda não captou. E fazer isso consigo mesmo também: suspender, por um momento, as definições antigas e permitir que algo novo apareça.

Não é um gesto grandioso. É quase invisível.

Mas é justamente esse pequeno deslocamento que quebra o isolamento.

Porque, no fundo, o olhar que isola não é o que vê demais — é o que vê de menos.


sábado, 2 de maio de 2026

Traços de Utopia


Tem dias em que a gente acorda com aquela sensação estranha de que “falta alguma coisa” — não no sentido prático, como esquecer o pão na padaria, mas algo mais difuso, quase como se a realidade estivesse… mal ajustada. Você olha ao redor: tudo funcionando, contas pagas, rotina em ordem — e ainda assim, um leve desconforto, como um ruído de fundo que não se cala.

É aí que começam a surgir os pequenos traços de utopia.

Não aquela utopia clássica, distante, perfeita demais para ser levada a sério — cidades ideais, sociedades sem conflito. Não. A utopia, como sugere Slavoj Žižek, aparece justamente nos intervalos, nas falhas do cotidiano, nos momentos em que a realidade parece revelar sua própria incompletude.

Žižek insiste em algo desconfortável: o problema não é que desejamos demais, mas que desejamos mal. Nossa imaginação está colonizada. Até quando pensamos em “um mundo melhor”, frequentemente só conseguimos reorganizar o que já existe — um trabalho menos cansativo, um pouco mais de dinheiro, um pouco mais de reconhecimento. É como se a utopia tivesse sido domesticada.

Pense numa cena banal: você está numa fila de banco ou esperando atendimento online. Tudo é lento, burocrático, impessoal. A reação imediata é desejar eficiência — “se isso fosse mais rápido…”. Mas Žižek diria: veja como você já está preso dentro do sistema que critica. Você não imagina outra lógica — apenas uma versão mais eficiente da mesma engrenagem.

Os verdadeiros traços de utopia aparecem quando algo quebra esse roteiro.

Às vezes é uma conversa inesperada com um desconhecido que flui como se vocês se conhecessem há anos. Às vezes é aquele momento raro em que o trabalho deixa de ser obrigação e vira criação. Ou até um silêncio compartilhado que não pesa. Nessas brechas, algo diferente se insinua — não como um plano, mas como uma experiência.

Žižek gosta de provocar: e se a utopia não for um futuro distante, mas uma distorção no presente? Um pequeno deslocamento que revela que o mundo poderia ser organizado de outra maneira — ainda que não saibamos exatamente como.

Isso também explica por que a utopia incomoda. Ela não vem como conforto, mas como ruptura. Não diz “tudo vai ficar bem”, mas sugere: “isso aqui não é tudo o que há”. E isso pode ser perturbador, porque nos tira da anestesia da rotina.

No fundo, talvez a gente não tenha medo de que a utopia seja impossível. Talvez o medo seja outro: o de que ela seja possível — mas exija de nós uma mudança que não estamos prontos para fazer.

E então seguimos: ajustando pequenas coisas, melhorando processos, organizando a vida… enquanto, de vez em quando, um desses traços aparece, quase como um sussurro:

“E se não fosse assim?”

Penso que talvez a utopia comece exatamente aí — não como um lugar, mas como uma pergunta que se recusa a desaparecer.