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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Olhar para Imensidão

Tem dias em que a gente para no meio do caminho — literalmente — só para olhar o céu. Nem precisa ser à noite, com estrelas piscando tímidas; basta o azul claro da tarde ou o cinza carregado de chuva para lembrar que existe algo muito maior do que o nosso calendário cheio de tarefas. Nessas horas, o pensamento escorrega para longe, como se o olhar, ao tocar a imensidão, abrisse uma janela para o desconhecido de dentro da gente.

Olhar para a imensidão é um ato antigo, humano, quase instintivo. Desde o pastor no deserto até o executivo na varanda do apartamento, todos já pararam um momento para encarar esse vazio que não responde, mas que também não ignora. A imensidão é um espelho silencioso: ela reflete o tamanho da alma de quem a vê.

Mas o que é imensidão? É só o espaço físico — o céu, o mar, o horizonte? Ou será que a verdadeira imensidão mora na consciência — esse abismo íntimo onde vivem os sonhos, as memórias, os medos, as perguntas sem resposta?

O pensador teosófico N. Sri Ram, em O Homem: Sua Origem e Evolução, nos lembra que “a natureza essencial do homem é inseparável do Todo; ele é, em essência, o próprio universo em miniatura.” Para ele, não há separação entre a vastidão do cosmos e a vastidão da alma. A imensidão do céu é também a imensidão interior — e só quem ousa olhar para dentro descobre o infinito de fora.

É curioso como esse pensamento conversa com o estoicismo de Marco Aurélio, que escrevia sobre o "todo cósmico" em seu diário pessoal. Para ele, o homem sábio é aquele que aceita seu papel no grande organismo do universo, como uma célula que pertence a algo infinitamente maior. O olhar para a imensidão não é, então, fuga do mundo — mas um retorno humilde ao nosso lugar nele.

No cotidiano, esse olhar é raro. Andamos cabisbaixos, fitando telas de celulares ou preocupações rotineiras. Quando alguém se dá o luxo de parar e encarar o céu ou o mar sem motivo prático, quase parece um desperdício — mas não é. Como lembra o filósofo brasileiro Huberto Rohden, “quem aprende a contemplar o infinito jamais se perde no finito”. Para ele, a experiência do transcendente começa exatamente nesse ato simples: deixar o espírito se expandir ao contemplar o que não pode ser contado ou possuído.

A imensidão tem também um lado perturbador. Ela lembra que somos passageiros, frágeis, impermanentes. Mas é desse desconcerto que nasce o verdadeiro senso de sacralidade. Quem olha demais para baixo esquece o mistério; quem olha para a imensidão descobre que o mundo tem mais perguntas que respostas — e que isso não é um defeito, mas uma benção.

Por isso, talvez olhar para a imensidão seja também um gesto de cura. Não cura das dores práticas, das contas a pagar ou das feridas do corpo — mas da doença mais sutil da alma moderna: a sensação de sufoco, de que tudo é pequeno demais, apertado demais, sem espaço para o ser respirar.

Na tradição zen, há um koan famoso: "Mostre-me seu rosto original antes que seus pais tenham nascido." O rosto original é a própria imensidão da consciência, anterior a todo nome, toda forma, todo limite. Olhar para o céu, no fundo, é tentar vislumbrar esse rosto invisível que carregamos desde sempre.

A imensidão não responde, mas escuta. E quem escuta de volta, pode, às vezes, ouvir um eco: uma lembrança esquecida, uma intuição nova, um chamado mudo para viver de outro modo — mais leve, mais livre, mais inteiro.

Talvez por isso o poeta Fernando Pessoa tenha escrito:

"Tudo vale a pena se a alma não é pequena."

Porque uma alma pequena não aguenta a imensidão. Mas uma alma que se deixa crescer pelo espanto pode, quem sabe, aprender a morar nela.