Há
escolhas que fazemos sentados, com tempo, café esfriando ao lado e uma falsa
sensação de controle. E há outras que simplesmente nos atravessam. A vida não
pede licença, não apresenta alternativas em lista numerada. De repente, algo
acontece — um convite, uma perda, um silêncio inesperado — e quando percebemos,
já escolhemos. Não por cálculo, mas por reação. É disso que quero tratar aqui:
da escolha imprevista, essa decisão que não nasce do planejamento, mas
do choque entre o mundo e quem somos naquele instante.
A
tradição filosófica costuma valorizar a escolha racional, consciente,
deliberada. Desde Aristóteles, escolher bem seria escolher após ponderar meios
e fins. Mas a experiência concreta da vida insiste em desmentir essa narrativa.
As escolhas mais decisivas raramente seguem esse roteiro.
Heidegger
nos
ajuda a deslocar o foco: não escolhemos a partir de um ponto neutro, mas a
partir de um ser-lançado. Estamos sempre já dentro de uma situação,
afetados por humores, histórias, expectativas alheias. A escolha imprevista
nasce exatamente aí — não do livre-arbítrio abstrato, mas da fricção entre o
que acontece e o modo como estamos no mundo.
Sartre
radicaliza: mesmo quando não escolhemos, escolhemos. A escolha imprevista
revela algo desconfortável — não somos autores soberanos de nossas decisões,
mas responsáveis por elas. O imprevisto não nos absolve; ele nos expõe. Mostra
quem somos antes que possamos ensaiar uma versão melhor de nós mesmos.
Há
ainda um ponto pouco explorado: a escolha imprevista não cria apenas um
caminho, ela revela uma identidade. Não escolhemos porque somos algo;
tornamo-nos algo porque escolhemos — ainda que sem querer.
Para
entender melhor vamos pensar em situações do cotidiano
Pense
em alguém que aceita um emprego não porque era o plano, mas porque o antigo se
tornou insuportável de um dia para o outro. Não houve vocação, apenas exaustão.
Anos depois, ao olhar para trás, essa pessoa dirá: “foi a melhor decisão da
minha vida”. Mas a verdade é menos heroica: foi uma escolha feita no limite,
quando já não havia energia para planejar.
Ou
no silêncio de uma conversa interrompida. Uma palavra que não é dita muda
completamente uma relação. Não foi uma decisão consciente de calar; foi um
atraso, um medo súbito, um cansaço acumulado. Mesmo assim, o silêncio escolheu
por nós — e o mundo se reorganizou em torno dele.
Há
também escolhas imprevistas morais. Defender alguém numa situação pública,
intervir numa injustiça, ou virar o rosto. Não há tempo para pensar em
princípios éticos. O corpo age antes da teoria. Só depois tentamos explicar a
nós mesmos por que fizemos o que fizemos.
Até
nas pequenas coisas o imprevisto decide: entrar numa livraria para se proteger
da chuva e sair com um livro que muda a forma como vemos a vida; aceitar um
convite por educação e conhecer alguém decisivo; errar o caminho e descobrir
outro ritmo de cidade.
Uma
torção final
Talvez
a escolha imprevista seja mais honesta do que a escolha planejada. Ela não se
disfarça de virtude, não se apoia em discursos prontos. Ela acontece quando
nossas máscaras estão cansadas demais para funcionar.
Isso
não significa glorificar o impulso ou desprezar a reflexão. Significa
reconhecer que somos feitos de camadas — e que, em certos momentos, quem
escolhe não é o “eu ideal”, mas o “eu possível”.
A
escolha imprevista nos lembra de algo desconfortável e libertador: não
controlamos a vida, mas participamos dela. E, às vezes, é exatamente quando não
sabemos o que estamos fazendo que nos aproximamos mais de quem realmente somos.