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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Autoestima do Mal


Existe uma estranha distorção moral no mundo contemporâneo: nem sempre o mal se apresenta como culpa, remorso ou sombra. Às vezes ele entra pela porta da frente, olha nos olhos e ainda se cumprimenta com orgulho. A isso poderíamos chamar, provocativamente, de “autoestima do mal” — não como essência metafísica do mal, mas como fenômeno psicológico e social em que ações destrutivas são acompanhadas de uma narrativa interna de valor, grandeza e até heroísmo.

O que deveria produzir vergonha, produz identidade. O que deveria fragmentar o sujeito, o organiza.

Byung-Chul Han ajuda a iluminar esse cenário quando descreve a sociedade contemporânea como uma “sociedade do desempenho”. Nela, o sujeito não é mais apenas disciplinado por fora, como no modelo clássico de repressão, mas se autoexplora por dentro. O resultado paradoxal é que até a destrutividade pode ser convertida em performance. Até o crime, em certos contextos, vira linguagem de poder, reputação e visibilidade. O mal deixa de ser apenas transgressão e passa a ser narrativa de si.

Criminosos famosos, figuras violentas ou moralmente destrutivas muitas vezes não operam com uma consciência de “queda”, mas com uma consciência de “ascensão”. Não se veem como falhas éticas, mas como exceções superiores, inteligências incompreendidas ou agentes de um mundo que “não os merecia”. Aqui a autoestima não é um saldo de virtudes, mas uma engenharia simbólica: ela se sustenta mesmo quando o mundo externo colapsa moralmente ao redor do sujeito.

Hannah Arendt, ao falar da banalidade do mal, desloca esse problema para outro eixo: o mal nem sempre exige monstruosidade, às vezes exige apenas ausência de pensamento crítico. Mas há um complemento contemporâneo importante: hoje o mal não é só banal — ele pode ser também autocongratulatório. Ele não apenas acontece; ele se narra como necessário, inevitável ou até virtuoso.

A “autoestima do mal” nasce quando o sujeito consegue converter suas ações destrutivas em justificativas morais privadas. É o momento em que a consciência deixa de ser tribunal e passa a ser assessoria de imprensa. Cada ato encontra uma legenda: “foi por respeito”, “foi por sobrevivência”, “foi justiça”, “foi destino”. O mal não precisa mais negar a moral — ele apenas a reescreve.

Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade líquida, já sugeria que as referências estáveis de valor se dissolveram. Nesse terreno fluido, identidades podem ser construídas com grande liberdade narrativa. E onde tudo pode ser reconstruído, até a culpa perde densidade. O sujeito não precisa mais carregar seus atos como peso; ele pode editá-los, reinterpretá-los, reposicioná-los no mercado simbólico da própria história.

Mas há um ponto mais inquietante: essa autoestima não é apenas individual. Ela pode ser socialmente reforçada. Certos ambientes celebram a transgressão como inteligência, a crueldade como força, e a dominação como sucesso. Assim, o mal deixa de ser apenas um desvio e passa a ser um estilo reconhecido. Quando isso acontece, a autoestima do mal não é mais exceção — é cultura.

O problema filosófico central aqui não é que o mal exista, mas que ele consiga se sentir bem consigo mesmo sem confrontar-se. Uma ética saudável pressupõe fricção interna: dúvida, hesitação, vergonha possível. Quando essa fricção desaparece, o sujeito não se torna apenas perigoso — torna-se impermeável.

Penso que talvez o desafio contemporâneo não seja apenas punir o mal, mas devolver-lhe a capacidade de se estranhar. Porque um mal que se orgulha de si mesmo já não se percebe como mal. E um mal que não se percebe, não encontra limite interno — apenas expansão narrativa.


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Bicho Estranho

... e o trabalho na contemporaneidade: O que Viramos?

Você já notou que quase ninguém mais sabe direito o que é "trabalhar"? Não no sentido simples — de bater ponto, cumprir tarefa, entregar resultado. Isso ainda existe. Mas no sentido maior: de construir sentido, sustentar o mundo, definir quem se é por meio do que se faz.

Antigamente (digamos: na época de nossos avós e no meu é claro, pois sou sexagenário), o trabalho parecia ter um lugar fixo: era o emprego, a carteira assinada, o ofício herdado ou aprendido, o ganha-pão previsível. Hoje, ele é móvel, líquido, múltiplo — às vezes demais. Tem gente com cinco empregos e nenhuma profissão. Influencers que vivem de si mesmos. Motoristas que são também designers freelancers nas horas vagas. Professores que vendem bolo no Instagram.

Zygmunt Bauman chamaria isso de “trabalho líquido” — como tudo no mundo líquido-moderno, ele escapa da forma, da fixidez. O sujeito não é mais "o padeiro do bairro", "o professor da escola", "o advogado da cidade". Ele é um amontoado de tarefas em rede, um prestador de serviço perpétuo, uma promessa de produtividade nunca cumprida.

E o cansaço? Ah... Byung-Chul Han falou bonito disso: vivemos na "sociedade do desempenho", onde o chefe virou interno. O sujeito se explora sozinho — acorda cedo, faz curso online, melhora a performance, lê sobre inteligência emocional... e desaba à noite com crise de ansiedade. Porque no fundo, o trabalho se colou à identidade: "sou o que produzo".

E o ócio criativo, que Domenico De Masi prometia? Virou privilégio raro — como férias em lugar sem wi-fi.

Mesmo assim, há beleza nesse caos: nunca foi tão possível inventar ofícios novos, misturar saberes, reinventar-se aos 40, aos 60. A contemporaneidade tem dessas contradições: cansa, mas dá chance de fuga. Precariza, mas liberta de velhas jaulas.

Talvez seja como aquele personagem de Ítalo Calvino em O Barão nas Árvores: viver entre galhos instáveis, nunca tocando o chão firme — mas vendo o mundo de um ângulo novo.

Porque trabalhar hoje não é mais só sustento. É sobrevivência simbólica. É procurar sentido. Ou, no mínimo, manter o vazio longe por mais uma tarde.

Mas talvez o exemplo mais gritante da mutação do trabalho na contemporaneidade seja a figura do "empreendedor de si mesmo" — um sujeito que, no fundo, não empreende nada além da própria força de trabalho precarizada. Empresas como Uber, iFood, Rappi, Amazon transformaram o antigo trabalhador assalariado em "parceiro", "colaborador", "motorista autônomo", como se o sujeito tivesse aberto uma microempresa quando, na prática, só perdeu direitos: sem férias, sem décimo terceiro, sem seguro contra acidente, sem previdência garantida.

É o velho truque do capital disfarçado de modernidade: transferir os riscos para o indivíduo e manter os lucros com a plataforma. Como bem analisou Ricardo Antunes, no capitalismo digital de plataformas o trabalho se esconde atrás de palavras bonitas — flexibilidade, autonomia, liberdade — enquanto esmaga o tempo de descanso e a segurança mínima. O trabalhador, que antes era explorado sob contrato formal, agora é explorado sem contrato algum.

Postagem no Instagram da análise do sociólogo Ricardo Antunes:

https://www.instagram.com/reel/DH67w1FPGBi/?utm_source=ig_web_copy_link

Parece liberdade, mas é servidão voluntária. Parece escolha, mas é necessidade. Afinal, quem pode realmente escolher quando não há alternativas?

Pierre Dardot e Christian Laval chamam essa lógica de "nova razão do mundo": um neoliberalismo que não precisa mais mandar — basta ensinar cada um a explorar a si mesmo. O sujeito virou empresa de si mesmo, gerente da própria miséria, responsável por seu sucesso ou fracasso num mercado onde quase ninguém vence. Até o desempregado, nessa lógica cruel, é culpado por não ter se reinventado o suficiente.

O paradoxo da era é este: nunca se falou tanto em "ser dono do próprio nariz" e nunca tantos trabalharam sem qualquer poder real sobre o próprio destino laboral. O trabalhador virou um "empreendedor compulsório", jogado no mercado sem rede de proteção — uma engrenagem descartável na grande máquina do capital global.

E ainda assim, no meio desse cenário duro, pulsa a velha pergunta: é possível um outro trabalho? Um outro modo de viver e produzir sentido, fora dessa engrenagem? A resposta talvez esteja nos pequenos gestos de fuga — na recusa, na solidariedade, na invenção coletiva. Porque trabalho, no fundo, é também aquilo que escolhemos fazer do tempo e da vida.


quinta-feira, 23 de maio de 2024

Sempre Surpreende

Quem nunca foi surpreendido por uma gentileza inesperada no meio de um dia comum? A vida tem uma forma curiosa de nos presentear com momentos que, embora pequenos, podem transformar nossa rotina. Essas pequenas surpresas são os temperos que dão sabor aos nossos dias, trazendo um sorriso inesperado e, às vezes, até mudando o rumo dos acontecimentos.

O Café de Manhã que Mudou Tudo

Imagine uma segunda-feira típica. Você acorda, ainda sonolento, e começa a se preparar para mais um dia de trabalho. Enquanto espera o café passar, você se pega pensando em como a semana será longa. De repente, seu parceiro aparece na cozinha com um café da manhã caprichado: torradas, frutas frescas e até uma florzinha no vaso. A surpresa e o carinho transformam aquele início de semana tedioso em algo especial. Um gesto simples, mas que muda completamente o seu humor.

O Bom Dia do Estranho

Outro exemplo clássico são os encontros casuais na rua. Quantas vezes você já caminhou pela calçada, absorto em seus pensamentos, e recebeu um sorriso caloroso de um estranho? Às vezes, é só um "bom dia" dito de forma sincera. Esses pequenos gestos nos lembram que, mesmo em uma cidade grande onde todos estão sempre com pressa, ainda existe humanidade e bondade espalhadas por aí.

A Solidariedade e o Voluntariado do Estranho

As enchentes que recentemente desalojaram tantas pessoas trouxeram consigo uma onda de solidariedade que é, ao mesmo tempo, comovente e inspiradora. Em meio ao caos e à devastação, temos visto vizinhos ajudando vizinhos, estranhos se unindo para oferecer abrigo, roupas, alimentos e conforto àqueles que perderam quase tudo. Voluntários de todas as idades e origens se mobilizam em centros comunitários, igrejas e escolas, trabalhando incansavelmente para organizar doações, preparar refeições e fornecer assistência médica e psicológica. A empatia e a generosidade emergem como um poderoso antídoto contra o desespero, mostrando que, mesmo nas situações mais adversas, a humanidade tem uma capacidade incrível de se unir e superar desafios. Cada gesto de ajuda, por menor que seja, torna-se uma luz de esperança, reafirmando nossa fé na bondade e na capacidade de resiliência das pessoas. Essa solidariedade espontânea e o trabalho voluntário não só oferecem suporte imediato aos afetados, mas também fortalecem os laços comunitários e nos lembram do poder transformador do espírito coletivo em tempos de crise.

A Mensagem que Ilumina o Dia

E o que dizer daquela mensagem inesperada de um amigo que você não vê há tempos? Em meio a uma tarde de trabalho, seu telefone vibra e lá está uma mensagem carinhosa, cheia de lembranças e risadas. Vocês acabam marcando um café para colocar o papo em dia. É uma pequena surpresa que reaviva laços e traz uma alegria genuína.

A Gentileza no Trânsito

Surpresas agradáveis podem acontecer até mesmo no trânsito, onde geralmente impera o estresse e a pressa. Quem já teve alguém dando passagem gentilmente ou viu um motorista esperando pacientemente enquanto você estaciona sabe o quanto isso pode aliviar a tensão de dirigir. Essas atitudes mostram que, mesmo nos ambientes mais adversos, a consideração pelo outro pode prevalecer.

O Reconhecimento no Trabalho

No ambiente profissional, surpresas também têm seu valor. Receber um elogio sincero do chefe ou um reconhecimento por um trabalho bem feito, quando menos se espera, pode ser um grande motivador. Isso não só melhora o clima no escritório, mas também reforça a sensação de pertencimento e valorização.

Valorize as Pequenas Coisas

A vida é feita dessas pequenas surpresas que, muitas vezes, passam despercebidas. Pode ser a brisa fresca em um dia quente, um pôr do sol deslumbrante, ou até mesmo encontrar uma moeda no bolso da calça. O importante é estar atento e aberto para reconhecer e valorizar esses momentos.

Portanto, quando você se deparar com uma dessas pequenas surpresas, pare um instante para apreciar. Afinal, são esses detalhes que, somados, tornam a vida mais leve e encantadora. E, quem sabe, você também possa ser a fonte de uma surpresa agradável para alguém. Que tal experimentar?