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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Anarquismo Moderno


Há algo curioso em imaginar uma conversa com Mikhail Bakunin hoje. Não numa barricada do século XIX, mas sentado numa cafeteria qualquer — talvez dessas em que as pessoas trabalham mais do que conversam — olhando em volta e perguntando: “Vocês ainda chamam isso de liberdade?”

O incômodo invisível

A gente acorda, pega o celular, responde mensagens, trabalha, consome, opina — tudo com a sensação de autonomia. Ninguém está nos obrigando diretamente. Não há correntes visíveis. E, no entanto, há uma estranha uniformidade no modo como vivemos. É aí que Bakunin provavelmente inclinaria o corpo para frente e diria: “o problema nunca foi só o poder que manda — mas o poder que você já aprendeu a obedecer sem perceber.”

O anarquismo moderno, sob o olhar dele, não seria apenas uma luta contra governos ou instituições clássicas. Seria, antes de tudo, uma crítica mais profunda: a internalização da autoridade.

O anarquismo que saiu das ruas e entrou na mente

Bakunin acreditava que o Estado era uma forma de dominação evidente. Hoje, ele talvez enxergasse algo mais sofisticado: estruturas que não precisam mais se impor pela força, porque já operam por hábito, desejo e até prazer.

O anarquismo moderno, então, não se limita a abolir o Estado — ele precisa questionar:

  • a dependência psicológica por aprovação
  • a necessidade constante de validação social
  • a submissão voluntária a sistemas que prometem conforto em troca de autonomia

Nesse sentido, o inimigo deixou de ser apenas externo. Ele se tornou difuso, quase íntimo.

Liberdade não é conforto

Uma das críticas centrais de Bakunin à ideia de autoridade era que ela sempre se justificava em nome de um bem maior: ordem, segurança, progresso. Hoje, isso continua — mas com uma linguagem mais sedutora.

Não é mais “obedeça ou será punido”.

É: “siga isso e sua vida será mais fácil”.

O problema é que, para Bakunin, liberdade nunca foi sobre facilidade. Liberdade é risco, é conflito, é responsabilidade radical sobre a própria vida. E isso assusta.

Talvez por isso o anarquismo moderno pareça, muitas vezes, diluído — transformado em estética, discurso ou estilo de vida alternativo, mas raramente vivido em sua radicalidade.

A tensão com o coletivo

Bakunin nunca foi um individualista puro. Ele acreditava que a liberdade só existe de fato quando compartilhada — quando ninguém está acima de ninguém.

Mas aqui surge um dilema contemporâneo: como construir comunidades livres em uma sociedade que incentiva o isolamento competitivo?

Ele provavelmente diria que o maior desafio atual não é derrubar estruturas, mas reconstruir vínculos sem hierarquia. Criar relações onde:

  • ninguém manda
  • ninguém se submete
  • e, ainda assim, algo em comum é construído

Isso exige um tipo de maturidade que não pode ser imposta — apenas desenvolvida.

Um eco brasileiro na conversa

Se trouxermos essa reflexão para mais perto, alguém como Paulo Freire talvez dialogasse bem com Bakunin. Freire falava da libertação como um processo de consciência — não algo dado, mas construído.

Ambos, cada um à sua maneira, desconfiariam de qualquer sistema que promete emancipação pronta. Porque toda libertação que vem de cima carrega, escondido, um novo tipo de controle.

Um final que não resolve (como deve ser)

Se Bakunin estivesse aqui, talvez ele não oferecesse respostas fáceis. Ele provavelmente terminaria o café com uma provocação simples:

“Você quer mesmo ser livre — ou só quer escolher melhor quem te controla?”

O anarquismo moderno, visto por esse olhar, não é um projeto fechado. É um incômodo permanente. Uma recusa em aceitar que a ordem existente — por mais confortável que pareça — seja o limite do possível.

E talvez a parte mais desconcertante seja essa:

a revolução que Bakunin imaginava não começa nas ruas.

Ela começa no momento em que você percebe que obedecer ficou automático demais.


quarta-feira, 7 de maio de 2025

Freio do Espanto

Já se perguntou por que paramos para ver um acidente?

Outro dia, indo para o trabalho, o trânsito na avenida principal parou de repente. Não era semáforo, nem blitz, nem buraco na pista. Era um corpo. Estendido no asfalto, cercado de cones, olhares e celulares. Os carros à frente diminuíram a marcha. Alguns motoristas encostaram. Outros apenas reduziram o suficiente para inclinar o pescoço, esticar os olhos, captar o detalhe: o estado da moto, a posição do corpo, se ainda respirava. A cena era silenciosa, embora tudo ao redor continuasse ruidoso. Como se, por alguns metros, entrássemos numa cápsula onde o tempo hesita.

Decidi escrever sobre isso não para julgar o comportamento, mas para pensar com ele. O impulso de olhar um acidente é tão comum quanto incômodo. Ele carrega algo de profundamente humano — e também algo de perigoso. Ao refletir sobre essa cena, me parece que ela revela mais sobre nós do que gostaríamos de admitir: nossos medos, nossos desejos, nossa maneira de lidar com a dor alheia. E escrever é uma forma de transformar esse incômodo em pensamento.

A curiosidade que dói

O primeiro impulso que sentimos diante do inusitado é olhar. Ver para crer. Ver para entender. O acidente interrompe o cotidiano. Ele rasga a rotina com um grito mudo. E nesse corte da normalidade, a curiosidade humana encontra espaço.

Aristóteles dizia, já na Metafísica, que “todos os homens têm, por natureza, o desejo de saber”. Mas esse saber não se limita ao que é nobre ou racional. Também queremos saber o que dói, o que choca, o que assusta. O acidente é uma pergunta aberta: o que houve aqui? — e também: poderia ser comigo?

A dor do outro como espetáculo

Walter Benjamin, filósofo alemão, nos alertava sobre como a modernidade transforma acontecimentos em “experiências empobrecidas”, facilmente consumidas e rapidamente descartadas. A cena do acidente, muitas vezes, é consumida assim: com olhos famintos e coração distraído.

A filósofa Susan Sontag, em Diante da dor dos outros, vai além: ela mostra como as imagens de sofrimento tendem a anestesiar, em vez de mobilizar. Ver demais pode nos fazer sentir menos. Quando o sofrimento se transforma em conteúdo — uma imagem, uma manchete, um story — corremos o risco de esquecer que há alguém real, com nome, vida, vínculos, deitado no asfalto.

E mesmo quem não filma, mas apenas olha, participa de certa maneira desse ritual. É um “olhar suspenso”: ao mesmo tempo solidário e mórbido, aflito e fascinado. Porque olhar é também uma forma de buscar segurança — “ainda não foi comigo” — e, às vezes, uma tentativa estranha de se conectar com o trágico.

Um espelho breve

Há quem diga que, ao ver o acidente, sentimos empatia. Talvez. Mas também é possível que vejamos ali o próprio abismo. A fragilidade do corpo. A imprevisibilidade da vida. O corte na semana, na agenda, na rotina. Olhar para o acidente é, às vezes, como encarar um espelho rachado: vemos o que pode se quebrar em nós.

O pensador francês Georges Didi-Huberman lembra que “ver é, antes de tudo, ser atingido”. E, de fato, não se sai ileso de uma cena dessas — mesmo como espectador. O incômodo permanece. A imagem volta durante o almoço, nos atravessa no banho, ressurge antes de dormir. Há algo no acidente que continua reverberando em silêncio.

Por que refletir sobre isso?

Porque o hábito de olhar o acidente, se não for examinado, pode nos transformar. Pode nos tornar espectadores passivos do sofrimento do outro. Pode fazer com que a dor vire só mais uma parada no caminho, um “conteúdo forte” para contar no trabalho ou comentar no grupo de WhatsApp.

Pensar sobre isso é um jeito de resgatar a humanidade por trás do hábito. De perguntar: o que faço com o que vejo? Olhar pode ser gesto de cuidado, de testemunho, de indignação. Mas também pode ser o contrário. E só refletindo é que aprendemos a distinguir.

No fundo, talvez seja isso: quando o trânsito para por causa de um acidente, não é só o carro que freia. É a alma que hesita. E esse instante — esse breve espanto — merece ser olhado com mais atenção do que a cena na pista.